Depois da cerimónia de homenagem no campus, Bella seguiu junto com Alice e Jasper. Os dois caminhavam um pouco na frente de Bella, mas Alice sempre acabava olhando para trás. Sempre que Alice o fazia, Bella lhe oferecia um sorriso. Sorria na tentativa de dizer a Alice que ela estava bem. Que estava ali. Que iria sobreviver embora se sentisse destruída por dentro. O sorriso podia ser triste mas talvez Alice tirasse dele algum conforto. Bella olhava o casal na sua frente. Estava feliz por Alice ter encontrado alguém como Jasper. Alguém que ficava por perto até nos momentos menos bons. Sabia que a amiga estava feliz com Jasper e se tinha alguém que merecia ser feliz, esse alguém era Alice. Bella pensou em Edward. Lembrou dos olhos verdes e dos reflexos dourados. Se perguntou se algum dia a sua mente humana e cheia de falhas a faria esquecer do tom exato dos olhos dele. Se a faria esquecer da voz dele dizendo seu nome ou do toque dele na pele dela. Engoliu o nó que se formou na garganta. As memórias continuavam claras na sua memória e talvez fosse por isso que doía tanto. Edward lhe diria para esquecer. Talvez ele achasse que o esquecimento era uma bênção. Talvez ele até estivesse certo. Mas suas memórias eram tudo o que ela tinha e ela já tinha perdido muito.
Ao chegar em casa, Bella subiu até ao seu quarto. Precisava de livrar do peso das roupas escuras e quando finalmente se livrou delas, o peso continuava sob seus ombros. Continuava com o corpo dolorido, mas percebeu que essa era a dor que menos a atormentava. O coração despedaçado doía muito mais. Não sabia quanto tempo levaria para ela recuperar. Não sabia nem se algum dia realmente recuperaria. Sabia que o tempo seria uma pequena ajuda e que acabaria por aprender a viver com a dor. Tinha aprendido a viver com a dor da morte de seus pais. Aprenderia também a viver com a morte de seus amigos. A morte de Edward. É certo que a morte realmente acaba com vidas mas não com acaba de todo com relacionamentos. O amor e a amizade continuariam dentro dela. Bella encontrou Alice na sala. Estava sozinha e a casa em um silêncio ensurdecedor. Alice olhava o vazio, parecia perdida dentro dela. Bella nunca tinha visto Alice tão abalada e quieta. "Hey Ali, está tudo bem?" -Bella perguntou, se sentando do lado da amiga. Alice ofereceu um sorriso a Bella. "Jasper quer me apresentar para a família dele. Seus pais. Seu irmão."-Alice disse. Bella pegou a mão de Alice na sua. Sorriu um sorriso com uma felicidade momentânea genuína. "Isso é ótimo, não é?" - Bella perguntou, "É incrivel mas... "-Alice balançou a cabeça frustrada. "Não sei se consigo fazer isso agora. Não estou me sentindo eu mesma. Não é esta Alice que eu quero apresentar para os pais de Jaz." - Alice disse. Falava baixinho mesmo que estivessem sozinhas, como se não quisesse admitir isso a mais ninguém além de Bella. "Eles vão amar você Ali, eu tenho certeza. Você não vai se sentir assim para sempre, sabe? Está sendo um momento difícil, mas nós vamos seguir em frente. Logo que nos permitirmos sentir tudo o que precisamos sentir. Isso é uma parte importante do luto." -Bella disse querendo passar mais confiança do que estava realmente sentindo. "Você pode chorar, mas, se concentra nas coisas boas que você ainda tem na sua vida. Jasper é uma delas e você o ama, certo?" - Alice olhou Bella com os olhos marejados. "Eu amo."-Alice disse sem hesitar. "O amor tem que vencer, eu suponho." - Bella disse e sentiu as lágrimas nas suas bochechas. Embora o amor não tivesse vencido no caso de Bella, ela não poderia se permitir perder a fé. Fé no amor. Fé em Alice. Talvez até conseguisse achar um pouco de fé em si mesma. Alice abraçou Bella. "Eu amo você."-Ela disse. Bella abraçou forte a amiga. "E eu amo você." -Bella respondeu porque amizade também é amor.

Por alguns momentos, Alice e Bella quase voltaram à normalidade. Quase sentiram que voltaram a ser elas mesmas. Esqueceram a dor e a angústia por alguns momentos. Era bom, mas logo que as lembranças voltavam e a dor invadia Bella, ela quase perdia o ar. Alice se levantou e foi na cozinha, dizendo que iria preparar um chá. Desde que Alice tinha passado alguns dias em Londres, tinha adotado esse costume o que fazia Bella revirar os olhos fazendo piadas sobre o poder da lavagem cerebral dos ingleses sob ela. O vento soprava forte lá fora. Cada vez que soprava, Bella sentia a brisa chegar até ela carregando o perfume do mar. O mar que sempre tinha sido como um calmante para Bella, estava agora embrulhando seu estômago. Cada brisa que chegava ao seu rosto era como se carregasse junto uma memória dolorosa. Edward machucado. Edward caindo do lado dela. Sangrando. Bella se levantou e foi até a janela para a fechar. Não aguentava mais. Escutou um grito. Percebeu que o grito tinha vindo dela. Continuou olhando para fora da janela, em choque. Não sabia se respirava. Não sabia se conseguia se mover. Alice correu desesperada ao encontro de Bella. Lhe perguntou aflita o que estava acontecendo. Lá fora estava Edward. Tinha um ar preocupado. Parecia não saber o que fazer. Tentou sorrir, embora a dúvida estivesse em toda a sua expressão. "Você consegue vê-lo Alice?" -Bella perguntou. Sua voz arranhando sua garganta. Sabia que era uma pergunta estranha a fazer. Alice a olhou sem entender realmente o que Bella estava perguntando. "Eu… Sim eu o vejo."-Alice respondeu ainda assim. Bella precisava ter certeza de que não estava delirando. De que sua mente não a estava enganando. Não poderia se permitir ter esperança caso tudo fosse um truque da sua mente humana. Ela sabia o quanto poderia ser perigoso ter esperança. "Meu Deus." -Bella sussurrou, levando a mão trêmula até sua boca. Sua voz lhe parecia estranha aos seus ouvidos. Sentiu Alice se afastar dela. Viu Edward se aproximar. Viu ele caminhar, gracioso como sempre tinha sido, ainda assim Bella lembrou dele na praia, todo machucado, cambaleando na sua direção. Bella o perdeu de vista quando Alice abriu a porta de casa. Alice disse algo a Edward que Bella não escutou. Ele entrou na sala, trazendo consigo aquela luz natural que Bella sempre tinha visto nele. Diferente de todas as outras vezes, ele usava roupa clara. Se antes ele parecia um Anjo misterioso e vingador, agora ele parecia ser seu salvador repleto de luz e esperança. Bella queria dizer seu nome. Queria dizer algo. Queria ir até ele. Senti-lo para que pudesse ter certeza de que tudo era real. Mas sua voz tinha desaparecido, seu corpo parecia ter esquecido como se mover. "Nossa senhora Bella, você está pálida. Está se sentindo bem?"-Alice perguntou se colocando na frente de Bella. Pegou suas mãos geladas. Bella olhou a amiga, piscando várias vezes como que voltando a realidade. Alice perguntou mais uma vez se ela estava se sentindo bem. Bella balançou a cabeça em sinal positivo. Era tudo que conseguia fazer. Bella voltou a olhar Edward. Não conseguia acreditar. Começou a sentir o coração voltar a bater dentro dela. Acelerado como nunca parecendo abrir caminho para fora do peito. Alice disse que deixaria eles sozinhos para conversar. Informou Bella que estaria no quarto e caso ela precisasse era só chamar. Por momentos, quando ficaram sozinhos, eles apenas se encararam. Os dois procurando os ferimentos do outro. As consequências daquela noite traumática. Analisando o estado de cada um. "Bella." -Ele disse. Bella sentiu um arrepio subir até sua nuca. Tinha acreditado que não voltaria a vê-lo. Que não voltaria a escutar a voz dele. Não se tinha permitido ser esperançosa. Não tinha acreditado nem por um segundo que poderia ter sorte e voltar a um dia ter ele ali na sua frente. Vivo. Lindo e glorioso como sempre foi. Sem nem um vestígio dos maus tratos que tinha sido vítima. "Me desculpa pelo susto eu… Não sabia como aparecer. Não sabia o melhor jeito de fazer isso. Você está bem?" -Ele perguntou. Os poros dela continuavam absorvendo a voz dele como antes. Cada palavra parecia dançar dentro dela. "Como?" -Ela perguntou. "Como isso é possível?" -Ela continuou. Deveria ficar orgulhosa por conseguir formar uma frase completa e com sentido. Edward sorriu. "Do mesmo jeito que foi possível para você, eu suponho."-Ele disse. Deu um passo na direção dela. Queria acabar com a distância, mas então ele parou. "Eu pensei que-." -Ela disse, engolindo em seco. "Eu sei. Acredita pequena, eu pensei também."-Ele disse balançando a cabeça. Por momentos ele fechou os olhos, com uma careta de dor como que sentindo uma dor física. "Eu te encontrei no Campus. Fiquei com você. Voltei com você para casa."-Ele disse. Bella levou a mão até seu ombro. Deveria ter sentido. Ela sempre sentia. Foi até ele com passos pouco graciosos. Pegou o braço dele com urgência. Olhou a pele lisa. Procurou qualquer traço da marca que um dia eles tinham dividido. Olhou Edward que olhava os dedos dela no seu antebraço. Embora a dor prazerosa tivesse desaparecido, a pele dela continuava tendo efeitos nele. Por momentos ele apenas se maravilhou com isso. Tal como ela, que permitiu os dedos traçar as linhas de uma marca invisível. "Está quebrada, não é? A ligação ou o que quer que seja, está quebrada."-Ela disse. Ele a olhou. Assentiu calmamente. Assim de perto, Bella conseguia ver os reflexos dourados nos olhos dele. Olhos que tinham sido negros a última vez que o vira no dia que pensava que tinha sido seu fim. Os olhos de Bella marejaram. Não era uma surpresa, mas ainda assim não gostou de ter a confirmação de que nada mais os unia. "Bella." -Edward sussurrou. Sussurrou tão baixinho que apenas Bella e só porque era Bella o conseguiu escutar. "Eu não sei se você quer que eu toque em você."-Ele disse. Um soluço escapou de Bella. Passou os braços ao redor dele. Afundou o rosto no peito dele que abafou o seu choro. Sentiu os braços dele ao redor dela. Apertando o corpo dolorido dela contra o dele. Embora ainda sentisse dor, estava sendo mais que bem-vinda. Estava tornando tudo aquilo real. Se permitiu chorar. Chorou de dor deixando a dor virar felicidade, amor e esperança. Se afastou um pouco dele. Olhou o rosto tranquilo e sereno, de olhos levemente fechados. "Vem comigo."-Ela disse. Limpou as lágrimas e pegou a mão dele. O fez segui-la até ao quarto. Fechou a porta atrás de si e a trancou. O olhou com o peito subindo e descendo como se tivesse corrido a maratona até chegar ali aquele momento. "Eu não sei o que posso perguntar. Não sei o que posso saber. Tenho um milhão de perguntas e ainda assim elas ficam fugindo da minha cabeça."-Ela disse. Estava se sentindo um turbilhão de emoções. Uma confusão de sentimentos. Queria respostas, mas cada vez que o olhava, tudo o que via era ele. Tudo que conseguia pensar era nele. Ali. Vivo. Com ela. Viva. "Você pode perguntar o que quiser. Eu posso responder. Melhor, eu posso te mostrar as respostas que você procura."-Ele disse. Ele havia um dia lhe mostrado fragmentos das suas memórias. Um dia quando Bella ainda não sabia o que realmente estava vendo. Mas agora, sem a ligação que um dia os tinha unido… o quanto as coisas mudariam? "Você sente o mesmo?" -Bella perguntou. "Em relação a mim, quero dizer. Sem a ligação que nos unia." - Mordeu o polegar, nervosa. Não estava nem de longe preparada para uma resposta. Edward franziu o cenho, confuso. "Você está perguntando se eu ainda te amo?" -Ele perguntou indo até ela. Os corpos não se tocavam, mas Bella sentia o calor familiar. Sentia a temperatura do próprio corpo subir. "Se eu te amo menos do que antes? Como se isso fosse uma possibilidade? Como seu eu pudesse simplesmente deixar de sentir? Bella, você não entende, de todo, o que eu sinto."-Ele disse. Parecia verdadeiramente magoado, mas levou a mão dele ao rosto dela. "Não entendo, na verdade. Eu me sinto exatamente do mesmo jeito. Eu sei o que sinto. Mas não sei quão dominante a união era, quão preso você se sentia a mim."-Ela disse engolindo em seco. Não estava perguntando para parecer cruel. Estava perguntando porque precisava saber. Precisava ter certeza que tudo continuava como antes. Apesar das dúvidas, ele continuava ali, na sua frente. Tocando o rosto dela com a mesma delicadeza de sempre. A olhando como se ela fosse de outro mundo. "Preso? Bella… A ligação era forte, sim. Muito forte. Sentia o que você sentia, sabia quando você me queria por perto, ou quando falava na minha mente. Não sinto mais, não escuto mais, mas isso nada mudou o que eu sentia. Os meus sentimentos continuam intactos."-Ele disse, sério. Queria que ela entendesse, embora agora visse no olhar dela um brilho sedutor. Ela juntou a boca na dele. Ele retribuiu o beijo de imediato. Estava ansioso pelo beijo dela. Por sentir-lhe o gosto mais uma vez. Por escutar os gemidos baixos se formando na garganta dela. Com urgência Bella quis se livrar da camisa dele e com habilidade ele se livrou da blusa dela. A pele de ambos fervendo. O desejo tomando conta deles. O querer gritante. Os dois caíram na cama de Bella, sem saber como haviam lá chegado sem se separar. Edward olhou as manchas azuladas espalhadas pelo corpo dela. Com pesar ele beijou cada uma delas. Beijou a nova cicatriz na barriga. Bella se remexeu inquieta ao sentir a boca dele em lugares diferentes do seu corpo ardente. Sentiu falta da dor prazerosa que começava no ombro e crescia até alcançar todo corpo. Ele parou por momentos, olhando o ombro dela. Perdido dentro dele enquanto Bella sabia que ele estava perdido em memórias. Tocou a pele delicada. "Você pode colocá-la de volta?" -Ela perguntou. Ele balançou a cabeça, assentindo. Bella tocou os cabelos ruivos que caíram nos seus olhos. "Eu a quero de volta."-Ela disse e podia jurar que viu uma explosão dourada nos olhos dele. "Eu a quero de volta, Edward."-Ela repetiu. Ele não perguntou se ela tinha certeza porque ela parecia suplicar. Continuava não sendo da sua essência negar coisas a Bella. Coisas que estavam facilmente ao seu alcance para a satisfazer. "Onde você a quer?"-Ele perguntou ao invés. "No mesmo lugar. Exatamente no mesmo lugar."-Ela disse. Sentiu a boca dele tocar-lhe o ombro, lhe deixando um beijo. Não sabia o que ia acontecer, nem como ele lhe devolveria a sua marca, mas não queria fechar os olhos. Viu as asas de Edward surgir sobre ela. O brilho e a beleza que sempre pareciam demais para os seus olhos humanos. Viu o rosto dele iluminado. Ele sorriu. Um sorriso que poderia fazer ela desejar ficar ali para sempre. Ele tocou o ombro dela. O toque suave e leve. Bella fechou os olhos quando as memórias a inundaram. Memórias que ela sabia serem dele, mas que lhe eram familiares. Eles juntos. Eles passeando no jardim. Eles deitados na cama assistindo filmes. Eles gargalhando juntos e se beijando em seguida. Percebeu o desespero e a preocupação que ele carregava constantemente. Viu eles na praia. O sangue. Viu o seu próprio rosto perder a vida. Viu o céu, os portões imponentes e viu o Anjo - Metatron. Viu a conversa sobre a maldição. Viu a conversa sobre a nova missão. Viu tudo. Bella sentiu as asas de Edward na pele. Abriu os olhos. Viu os olhos dele, completamente dourados como se ardesse em fogo celestial. "O que vamos fazer agora, Edward."-Ela perguntou. Não sabia se entendia o que o Anjo queria deles. "Agora?" -Edward perguntou. Deslizando os dedos pelo pescoço dela. "Agora vou ficar aqui. Com você. É só isso que eu quero. Só quero ficar com você e não pensar em missão alguma."-Ele disse. Bella sentia os dedos dele chegarem no seu peito. Estava ficando difícil manter uma conversa que fizesse algum sentido. "Isto."-Ele disse descendo beijos pelo corpo dela. "É o que eu quero fazer, para sempre."-Ele disse. Bella mordeu o lábio. Viu rapidamente sua marca de novo no seu ombro, negra como uma tatuagem. Fechou os olhos sentindo a dor. A dor prazerosa. A dor que a fez implorar por ele. "Para sempre é muito tempo."-Ela disse. Ela sentiu os lábios dele sorrir na sua barriga. "E para sempre nunca soou tão incrível."-Ele respondeu. Bella riu. Fechou os olhos se abandonando na sensação dele. E tal como deve ser quando se ama alguém, ela permitiu que o amor que ele sentia, fizesse parte dela mesma. Bella sentiu o corpo incendiar. Não de um jeito que ela tivesse sentido antes. Sentia o fogo dentro dela. Abriu os olhos e viu a beleza dourada. Olhou sua marca igualmente bela e tão dourada quanto as asas de Edward. Ela arquejou em surpresa. "Quer que eu pare?" -Ele perguntou, todo ele em esplendor. "Não. Vamos queimar juntos." E eles queimaram.