Faltam: 5 anos

Ela era linda. Da ponta dos pés às orelhas pontudas: linda. Cílios milimétricos adornavam pálpebras delicadas que escondiam, agora sabia, olhos na cor do mais profundo castanho dourado.

Dormia um sono profundo, enrolada em peles quentinhas, cortesia de um de seus amigos mais queridos: Kouga, o líder dos lobos. Ele desculpou-se por não poder ir prestar seus cumprimentos pessoalmente, pois sua própria companheira estava a meros dias de distância de dar à luz ao quinto filho do casal. Sinceramente, eles pareciam ter entrado em uma competição pessoal com outro casal de amigos seus, Sango e Miroku, para ver quem mais teria filhos.

O presente, assim como o pedido de desculpas, foram transmitidos pelos tios da recém-nascida dormindo em seus braços: Inuyasha e Kagome. Os dois, juntos de Shippo, Kohaku, Sango e Miroku, vieram vê-la assim que as primeiras notícias de seu parto chegaram ao vilarejo da senhora Kaede - que ficou para trás, cuidando dos seis filhos do casal citado antes.

A visita já durava dois dias e ela não sabia por quanto tempo mais seu amado Sesshoumaru toleraria os excessos de seus amigos - principalmente os de Inuyasha que não perdia uma oportunidade de atormentar o pobre Jaken.

- Eu sei que já disse isso dezenas de vezes mas... ela é tão linda! - disse Kagome, com um sorriso enorme no rosto. Toda vez que ela olhava para a criança, parecia brilhar. Rin não podia culpá-la, sua filha era realmente encantadora.

- Eu sei! Mas pensei que talvez fosse apenas meu lado materno falando.

- Acredite em mim quando digo que não é. Ela é simplesmente adorável! - Acariciou levemente o rosto infantil. - Apesar dos detalhes youkai que herdou do Onii-san, ela se parece muito com você!

- Você acha? - perguntou.

Seus olhos estavam fixos em sua filha, absorvendo todos os detalhes e tentando encontrar traços seus no pequeno corpo. De fato, aqueles olhos arredondados, o nariz e boca pequenos eram quase uma cópia dos seus. Entretanto, eram aí que as semelhanças físicas entre as duas terminavam e as herdadas pelo pai começavam.

Apesar de não possuir as marcas youkai tão características de Sesshoumaru, o rosto da criança tinha o mesmo formato do dele; ainda que a boca parecesse com a sua, tinha certeza que futuramente ela abrigaria presas e não dentes comuns; seus cabelos também eram do mesmo tom que os dele e, bom, tinha as orelhas... Nessa parte a menina tinha puxado não à mãe ou ao pai, mas ao tio - que mal conseguiu disfarçar sua alegria ao descobrir este fato. Lá no fundo, ele ainda não havia perdoado totalmente o irmão mais velho pelos anos de desprezo que este lhe dispensou apenas pelo fato de ser um hanyou.

- Sim - Kagome respondeu. - Na verdade, acho que ela é a combinação exata de vocês dois. Metade, metade. Queria saber como é... - Um olhar triste cruzou o rosto dela. Foi tão rápido, que Rin mal pôde vê-lo antes que ela ocultasse a dor com um sorriso e voltasse a elogiar sua pequena.

Rin ficou sem saber o que fazer. Deveria abordar o tema ou apenas ignorar o ocorrido? A verdade é que aquele assunto fora tão duramente evitado, que acabou por tornar-se um tabu. Ninguém ousava mencionar o fato de que eles ainda não haviam tido filhos mesmo que dez anos tivessem se passado desde que Kagome atravessou o poço pela última vez, casando-se com Inuyasha logo em seguida. Ninguém ousava perguntar se eles tinham desistido, muito menos encorajá-los a continuar tentando. Ambos disfarçavam, fingiam não dar muita importância para aquilo, mas, cada vez que viam uma nova criança nascer... nem mesmo eles podiam evitar que um pouco de sua dor vazasse por entre as máscaras de felicidade.

Achando Rin muito silenciosa, Kagome olhou para a amiga. Ao perceber o olhar preocupado que ela lhe direcionava, tratou de acalmá-la:

- Ah, eu estou bem, Rin-chan! É sério. Não precisa preocupar-se comigo. - Ergueu as mãos em frente ao peito, enquanto balançava negativamente a cabeça. - É claro que seria legal ter um bebê metade Kagome, metade Inuyasha por aí, mas nós já superamos isso. Estamos bem. Os dois.

Não era uma mentira. Porém, também não era uma verdade completa. Sim, eles já haviam aceitado que não teriam filhos biológicos - o palpite de ambos é que algo "faltava" nela, já que, tecnicamente, ela não existia - pelo menos não naquela Era. Todavia, aceitar este fato e estar feliz com ele, eram duas coisas diferentes. Eles não estavam bem, mas ficariam. E enquanto esse dia não chegasse, fingiriam. Pelo bem de seus amigos e, principalmente, pelo bem de seu casamento.

Vendo que a amiga sopesava se devia acreditar ou não em suas palavras, foi rápida em mudar de assunto:

- Mas afinal, qual vai ser o nome dessa bonequinha? Ou vocês ainda não decidiram? - perguntou, animada.

Rin ainda ficou em silêncio por alguns segundos, encarando-a. Com um suspiro vencido, resolveu respondê-la:

- Estive pensando e acho que... - Antes que pudesse completar sua frase, no entanto, curvou-se levemente, soltando um gemido de dor.

- Rin? O que houve? Você está bem?

- Aham... Estou. É só que, ainda dói um pouco, sabe...

O parto tinha sido há apenas uma semana, e, apesar de ter corrido tudo bem, sentia uma fisgada ou outra de vez em quando. Perfeitamente normal, pelo que aprendeu com a senhora Kaede. Ela só havia esquecido de um pequeno detalhe: seu companheiro não era treinado como ela - pelo menos não na arte de trazer vidas ao mundo.

- Rin. - Sua voz profunda percorreu todo o quarto. De onde viera ou como chegara tão rápido ali, ninguém saberia dizer. - Você está bem?

- O que foi isso? - Kagome, recuperada do susto que tomou ao ouvir a voz de seu cunhado, questionou. - Rin, você tem um sino mágico ou algo assim?

A mais nova riu do comentário da amiga. Uma ideia ruim. Ao rir, sentiu mais uma fisgada em seu ventre, um pouco mais forte dessa vez. Sesshoumaru se irritou ao ver a expressão de dor cruzar o rosto de sua companheira. Virando-se para a mulher de Inuyasha, ordenou:

- Pare.

- Oh, okay. Certo. Desculpe. - Desviou os olhos do olhar maligno de seu onii-san e novamente pediu desculpas a Rin. Não sabia exatamente pelo quê estava desculpando-se, mas não ousaria contrariar o Dai-Youkai ali presente.

- Não precisa se desculpar, Kagome-chan, eu estou bem. - E dirigindo um olhar doce para Sesshoumaru, repetiu: - Estou bem.

- E por que não estaria? - perguntou Inuyasha, vestido em seu típico traje vermelho, parado à porta, observando toda a cena.

Seus outros amigos, Sango, Miroku, Shippo e Kohaku - os dois últimos tão crescidos que era impossível não suspirar em surpresa toda vez que os via -, ladeavam o hanyou. Espremido entre eles também estava Jaken. O pobre youkai não conseguia entrar para o quarto, tampouco conseguia sair: estava preso.

- Inuyasha... - Kagome pronunciou o nome do marido em tom de aviso. Dois machos esquentadinhos era tudo o que uma recém-nascida e sua mãe não precisavam aguentar. Um "kêh" foi tudo o que recebeu em resposta.

- Vão embora - Sesshoumaru rompeu o silêncio, chocando a todos no recinto.

- Sesshoumaru-sama! O que está dizendo?! - O protesto de Rin encontrou ouvidos surdos.

- Vocês estão atrapalhando a recuperação de Rin. Já prestaram seus cumprimentos, agora vão.

- É impressionante como nem mesmo a paternidade conseguiu fazer você mudar!

- Inuyasha...

- ... Continua sendo o mesmo imbecil de sempre...

- Inuyasha...

Kagome continuava chamando o marido, mas ele não apenas a ignorava, como continuava seguindo em direção ao irmão mais velho, do outro lado do quarto, ainda proferindo impropérios contra este. Todos ali sabiam que não tinha como aquela situação acabar bem uma vez que a distância entre os irmãos fosse rompida.

- ...Arrogante miserável, filho de uma ca...

- SENTA!

Inuyasha caiu com tudo de cara no chão. Nenhum dos presentes piscou mais rápido por isso - já estavam mais do que acostumados com aquela cena. Tendo cuidado de seu marido, Kagome voltou sua atenção para Sesshoumaru.

- Inuyasha pode ter exagerado, mas ele não está de todo errado. Nos mandar embora não é um pouco rude de sua parte?

- Vocês podem visitá-la de novo daqui alguns anos, se quiserem. Agora vão. - A voz dele tinha assumido um tom mais perigoso.

- Sesshoumaru-sama tem razão! - concordou Jaken. Ele tinha aproveitado-se da confusão para escapar dos corpos que o prendiam contra uma das portas e agora brandia seu cajado em direção às visitas. - Vocês são um incômodo!

- Calado.

- Hai! - O pequeno youkai respondeu automaticamente ao comando. Porém, para sua surpresa, e de todos ali, a voz mortalmente séria não veio de seu mestre, Sesshoumaru, e sim da garota Rin. Sentada em seu futon, ela parecia realmente furiosa.

- O único incomodando é você! Não vê que há uma criança dormindo neste quarto?

- A-ah...

O youkai não soube como responder àquilo. Em outra época teria chamado-a de "menina burra" e lhe passado um sermão, mas agora isso estava fora de cogitação. Se ele quisesse manter sua cabeça junto ao corpo, respeitaria a companheira de seu mestre.

- Saiam, por favor. Eu quero falar por um instante com Sesshoumaru-sama. - Ela sorriu gentil para os amigos. - E esqueçam sobre isso de ir embora. São meu convidados, sintam-se à vontade.

Ainda em dúvida sobre qual das ordens obedecer - a de ir embora ou a de ficar -, eles saíram do quarto - Kagome arrastando Inuyasha pelo colarinho.

- Rin...

- Sesshoumaru-sama, gostaria de ajudar-me a banhar nossa filha? - perguntou, interrompendo-o antes que pudesse ralhar com ela. Ao ver um olhar minimamente surpreso atravessar seu semblante, explicou: - Ela acordou. Por isso mandei que saíssem.

- Não fez barulho.

- Acredito que seja um traço hereditário. - Sorriu. A expressão do youkai suavizou-se, embora ele não tenha feito menção alguma de aproximar-se, o que fez o sorriso dela morrer aos poucos. - Eu posso fazer sozinha, não tem problema.

- Rin, por que fez isso? - O tom dele era sério. O tom de quem exigia respostas e não aceitaria uma meia verdade.

Sabendo disso, foi sincera:

- Eles são meus amigos e quero que fiquem.

- Eu não os bani. Eles poderão vir visitá-la em outra ocasião.

- Sim, daqui alguns anos - respondeu, irônica. - Mas não é isso o que você quer saber, não é mesmo?

Por que ela o desautorizou na frente de outras pessoas - essa era a verdadeira questão ali. Nunca antes Rin havia erguido a voz para ele, o contrariado, muito menos lhe desautorizado na frente de outros. E ele queria saber o porquê disso. Ignorando aquela pergunta por um momento, levantou-se com a filha ainda no colo e saiu pela mesma porta que Sesshoumaru entrou. Ao passar ao seu lado, disse:

- Venha comigo. Ela realmente precisa de um banho.

Depois de sair seguiu pelo longo corredor, abrindo e fechando portas de correr até chegar à sala de banho. O cômodo era enorme, com uma grande banheira no centro ocupando a maior parte do espaço. Como o único servo que possuíam era Jaken, e este, apesar de tentar, não era capaz de fazer tudo sozinho - agora mesmo devia estar na cozinha preparando o jantar e reclamando sobre ter que cozinhar para seus amigos -, era necessário que fizessem certas tarefas domésticas por eles mesmos. Sabendo disso, Sesshoumaru - que a seguiu silenciosamente até ali - ocupou-se em separar a água necessária para um banho e esquentá-la na fornalha posicionada no extremo oposto do cômodo. Aos poucos, o calor gerado pelo fogo foi preenchendo o local - o que era muito bem-vindo já que nem mesmo as grossas paredes da mansão que ocupavam temporariamente podiam protegê-los totalmente do frio rigoroso que o recém-chegado inverno trouxe com ele.

Após a água alcançar o ponto de fervura, Sesshoumaru depositou-a em uma pequena banheira de madeira, adicionando água fria até que esta alcançasse uma temperatura agradável. Enquanto isso, Rin separava as toalhas que seriam usadas para secar a criança depois do banho. Esta, apesar de acordada e com olhos bem atentos observando sua mãe, não emitia som algum. Definitivamente, um traço herdado do pai.

- Está pronto - o youkai avisou.

- Oh, certo.

Aproximando-se de onde ele estava, ajoelhou-se em cima do tapete feito de pele de urso e, após checar por si mesma a temperatura da água, retirou o manto que enrolava a pequena e foi passando sua mão molhada no corpinho dela, até que se acostumasse. Quando isso aconteceu, mergulhou-a parcialmente na banheira, deixando o tronco para fora. A reação da criança foi soltar sons felizes, como se tomar banho a divertisse.

Sesshoumaru observava tudo parado em pé no mesmo lugar. Rin gostaria que ele não fosse tão hesitante com relação a elas, mas sabia que esse era o jeito de seu companheiro e ele não mudaria de repente. Por isso, deu algo para ele fazer.

- Sesshoumaru-sama, poderia pegar o frasco branco que está dentro do móvel ao seu lado? - pediu.

Sem nenhuma palavra, ele buscou e lhe entregou o frasco de vidro.

Como teria de usar as duas mãos para limpar a criança, ela novamente pediu sua ajuda:

- Poderia segurá-la enquanto a limpo? Ou você mesmo pode fazer isso?

Ajoelhando-se do outro lado da banheira, Sesshoumaru estendeu os braços para a criança. Rin o advertiu sobre ter cuidado com as garras e então entregou a filha ao pai. Com apenas um braço - o esquerdo, que havia sido restaurado -, ele envolveu o pequeno corpo com cuidado.

Olhando atentamente para seu progenitor, a menina sorria. E pela expressão suave que este exibia, faltava pouco para que retribuísse o sorriso da filha.

Divertindo-se com a situação, Rin depositou em suas mãos um pouco do líquido perfumado que o frasco continha e passou a esfregar as pernas do bebê. Enquanto realizava a tarefa, pôs-se a falar:

- Queria ter certeza de que não sou uma mera convidada. De que este também é meu lar e que minha voz será ouvida quando eu falar.

Sesshoumaru não perguntou ao que ela se referia. Estava claro que aquela era sua resposta tardia à pergunta que ele fez anteriormente.

- Estamos... juntos. Eu apenas não tenho certeza de até que ponto.

- Você é a mãe de minha cria.

- Sim, mas até mesmo concubinas podem dar filhos ao rei. Isso não faz delas rainhas, no entanto.

- Você quer ser uma rainha?

Não querendo que ele interpretasse suas palavras de forma errada, apressou-se a esclarecer:

- Você me tomou como amante. - Ela corou ao dizer isso. Qualquer menção ao fato de que os dois tinham uma relação íntima, fazia seu sangue aquecer. - Ser sua companheira já é o suficiente. Só quero ter certeza de que você entende como me sinto.

Rin não precisava ser uma rainha - sequer pensava em tais coisas. Tudo o que desejava era ser feliz ao lado dele, tendo uma vida o mais comum possível - e isso incluía poder receber seus amigos em sua casa sempre que quisesse, sem precisar preocupar-se com coisas como: "será que eles vão matar um ao outro?".

Esperava que ele pudesse aceitar isso.

- Você está zangado? - questionou.

Levou alguns segundos, mas por fim Sesshoumaru negou estar irritado.

Sorrindo, Rin voltou a lavar a menina, enquanto, com uma voz infantil, conversava com ela:

- Ouviu, bebê? Seu pai não está zangado! Isso é ótimo, já que quando está bravo, ele fica beeem assustador.

A criança riu como se entendesse. Realmente, adorável.

- Rin.

- Certo, certo. Desculpe - disse. Só porque ele não estava zangado não significava que devia provocá-lo.

Contudo, para sua surpresa, a intenção dele não era repreendê-la.

- Antes, você disse àquela garota que já havia pensado em um nome para a criança.

- Ah, sim. Espera... Como sabe disso? Não me diga que estava ouvindo atrás da porta?!

- Não seja tola - soou ofendido. - São vocês que falam alto demais. Deveria este Sesshoumaru andar com as orelhas tapadas, em sua própria residência, somente porque vocês não sabem falar em tom baixo?

Rin teve de segurar uma risada. Ele era tão óbvio!

- Entendo...

- E então?

Ela olhou para a filha, tão pequena, tão frágil... Sua primeira filha que chegou junto à primeira neve do ano. Desejava do fundo de seu coração que aquela fosse uma criança feliz.

- Yuki. Seu nome será Yuki.

Sesshoumaru sorriu. Não era dado a tais demonstrações de felicidade, todavia, sozinho naquele cômodo com sua mulher e filha, permitiu-se expressar o que sentia por dentro.

Ainda sorrindo, contemplou o rosto da criança e disse:

- Yuki é um belo nome.