- Ah!

Um suspiro surpreso escapou dos lábios de Kagome ao entrar no quarto de vestir e deparar-se com Rin trajando seu vestido de noiva. Não era um quimono tradicionalmente branco como as noivas humanas costumam usar, mas quem se importa? Aquele também não era um casamento tradicional - ou um casal tradicional, sendo sincera. O noivo, um Dai-Youkai. A noiva, uma humana órfã de pai e mãe. E eles até mesmo já tinham uma filha! O belíssimo vestido cor vinho que Rin usava era o menos chocante em toda aquela situação.

- Ela está linda não é mesmo, Kagome? - Sango, que terminava de fixar o enfeite no cabelo da noiva, falou.

- Deslumbrante! Eu nunca vi uma noiva tão linda antes, e olha que de onde eu venho as pessoas adoram se casar! - Fechando a porta atrás de si, aproximou-se das outras duas. - E olha esse cabelo?! Tão comprido e macio...

Rin riu quando Kagome pegou um punhado de seu cabelo e esfregou no próprio rosto. Realmente, ele estava enorme. Ela não o cortou sequer uma vez desde criança e aquele era o resultado: madeixas negras indomáveis quase tocando o chão.

- Eu ainda não acredito que você vai se casar... Quero dizer, de certa forma você já está casada, mas...

Sango se enrolou com as palavras, contudo Rin entendeu o que a amiga quis dizer. A verdade é que até mesmo ela tinha certa dificuldade em acreditar naquela reviravolta de acontecimentos. Ainda ontem estava explicando para Sesshoumaru que ser a companheira dele era o suficiente e agora, apenas um dia depois, estava ali, prestes a tornar-se oficialmente a esposa do Lorde do Oeste, Dai-Youkai e príncipe dos cachorros: Sesshoumaru.

Inacreditável.

Mas era real. O belo vestido, encontrado às pressas entre seus pertences, era a prova de que aquilo estava mesmo acontecendo. Sesshoumaru havia pedido sua mão em casamento no dia anterior, enquanto banhavam sua pequena filha, Yuki. Bem, talvez "pedido" fosse um certo exagero de sua parte. Na verdade, ele apenas disse "Rin, você será uma rainha" e, quando ela acordou naquela manhã, quase todos os preparativos para a cerimônia estavam prontos.

- É um pouco difícil para mim também, Sango - respondeu. - Quando acordei e vi vocês conversando sobre meu vestido de noiva, pensei que tivessem enlouquecido!

As mulheres riram.

- Bom, seria compreensível caso eu tivesse enlouquecido. Seu Sesshoumaru literalmente surgiu em nossos aposentos na calada da noite! - Sango arregalou os olhos, demonstrando o espanto que sentiu no momento. - Vocês precisavam ver a reação do Monge! Me fez repensar a escolha de ter casado-me com ele.

- Que cruel, Sango! - acusou. Porém, apesar de sentir pena de Miroku, ria ao imaginar a cena.

Pelo que suas amigas contaram, Sesshoumaru havia acordado todos durante a madruga - após ter certeza de que ela e o bebê dormiam profundamente - e compartilhado seus planos para aquele dia. Embora tivesse apenas designado tarefas, já era um avanço vê-lo tentando se comunicar com seus amigos.

Kagome e Sango ficaram responsáveis pelo vestido de noiva, já Inuyasha, por ajudar Jaken com outros preparativos, tais como comida e decoração; enquanto Miroku seria o responsável por realizar a cerimônia - "ao menos para isso sua posição de monge serviria", foi o que a própria esposa dele disse. Já o noivo... Após dar suas ordens, desapareceu, apenas mandando que avisassem a ela que estaria de volta antes do pôr do sol.

Lembrando-se dessa promessa, Rin suspirou: ele estava prestes a ficar atrasado, pois o sol já cedia espaço para a lua brilhar na imensidão do céu.

- Não se preocupe. - Notando seu olhar distante, Kagome tentou lhe acalmar. - Ele já deve estar chegando.

- Mas onde será que ele foi? - perguntou Sango, sugerindo ela mesma uma resposta para a questão: - Talvez ele tenha ido comprar uma aliança! É um casamento, afinal!

- Hum, acho que não. Pelo que Inuyasha me contou, casamentos youkais são diferentes dos casamentos humanos.

- Sim - concordou, apesar de gostar da ideia de ganhar um anel. - Normalmente, sequer há um casamento propriamente dito. Principalmente se for um relacionamento youkai-humano. Por isso fiquei tão surpresa quando soube que ele queria oficializar nossa união.

- Você deve estar feliz não é, Rin-chan? - Kagome a abraçou de lado.

Rin apenas sorriu meigamente em resposta. Isso e as bochechas coradas eram provas suficientes de sua felicidade.

- Com licença? - Uma voz foi ouvida pelo papel fino da porta. Era Shippou. - Eu posso entrar?

- Entra, Shippou-chan!

- Kagome! Quantas vezes já pedi pra parar com isso de "chan"? Eu não sou mais um filhote! - O rapaz adentrou o quarto já ralhando com Kagome.

De fato, ele não era mais um filhote. O jovem naquele quarto estava crescido - alto, musculoso, com os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo. Mas entendia o porquê de Kagome não conseguir desapegar-se do passado: embora crescido, ele ainda sustentava um ar infantil em suas feições.

Suspirou. Se não soubesse das preferências do garoto, iria querê-lo como futuro genro.

Ao notar Rin meio escondida atrás das outras mulheres, foi a vez do youkai raposa suspirar em surpresa.

- Wow! Rin, você está fantástica!

- Obrigada! - Aproximou-se do amigo, abraçando-o. - Você também não está nada mal!

Não mesmo. O jovem rapaz trajava um quimono preto - uma noite estrelada desenhada por todo o tecido -, e uma calça, também preta.

- Obrigado. Em parte devo isso ao seu noivo, já que as vestes são dele. Mas só em parte! O resto é fruto de minha beleza natural - respondeu, convencido.

Revirando os olhos para a arrogância juvenil, Kagome aproximou-se dele, e, apoiando suas mãos nos ombros largos do ruivo, falou em um falso tom de preocupação:

- Shippou-chan, quem é que está te iludindo assim, meu jovem?

Rin riu da expressão contrariada que se formou no rosto do youkai. Já Sango, resolveu entrar na brincadeira:

- Deve ser culpa do meu irmão! O que Kohaku andou te dizendo, Shippou?

Ao ouvir aquilo, o rapaz corou, seu rosto ficando ainda mais vermelho quando a voz de Kohaku - irmão de Sango e amante declarado de Shippou - soou atrás deles:

- O que tem eu?

- Nada! - O ruivo apressou-se em responder, causando mais risadas nas garotas. - Mudando de assunto, eu vim aqui, Rin, para dizer-lhe que Sesshoumaru já retornou. E ele a espera no quarto de vocês.

Só de ouvir tal nome, seu coração disparou. Acalmando-se, em seguida, por saber que seu companheiro havia voltado em segurança para casa.

- Oh, certo. Eu já v...

- Nada disso! - Kagome a interrompeu. - O noivo não pode ver a noiva antes do casamento!

- Por que não?

- Porque dá azar!

- Tudo bem, Kagome, são apenas superstições.

- Não é uma superstição! - Soou ofendida. - De onde venho, todos acreditam que o noivo ver o vestido de noiva antes do casamento trará grande azar para os dois!

- Bem, vamos ter que lidar com isso caso aconteça. - Foi sua única resposta antes de fugir do quarto. Às suas costas Kagome chamava o seu nome, ao que ela respondeu: - Não se preocupe, eu sei como usar uma espada!

Rin não importava-se com superstições humanas de outra Era, só queria vê-lo. Se isso fizesse começar a chover de repente ou algo assim, que fosse.


Estava levemente ofegante quando parou em frente aos seus aposentos. Sesshoumaru, parado em frente à grande janela que ficava próxima à segunda porta do quarto, olhou-a.

Por tempo demais.

Rin sentia-se corar sob o escrutínio daquele olhar.

- Entre, Rin. - Foi o seu comando, afinal. - E feche a porta.

Ela fez o que ele disse e então deu alguns passos hesitantes quarto adentro antes de parar. Estava ficando desconcertada com o olhar - não havia outro modo de descrevê-lo - faminto de seu companheiro.

Percebendo que ela não sairia do lugar, Sesshoumaru tomou para si a responsabilidade de romper a distância entre os dois. Lentamente, um passo por vez, e então ele estava em frente a ela.

Não permitiu que falasse. Antes disso, a beijou. Agressivamente. Enquanto segurava-a contra seu corpo com o braço esquerdo, usava a mão direita para firmar sua cabeça em uma posição que tornasse mais fácil o acesso para os lábios dela. Os lábios finos e macios dela - era sua obrigação pessoal devorá-los. E teria continuado cumprindo sua missão se não houvesse sentido a necessidade de Rin por fôlego. Em momentos como aquele, amaldiçoava o quão frágeis os humanos eram - principalmente seus pulmões.

- O-olá para você também. - Sua companheira balbuciou, ofegante. - Onde esteve?

- À procura de um presente pela cerimônia.

- A-ah? Realmente?

Odiou a expressão de espanto no rosto de Rin. Era como se sequer houvesse cogitado a hipótese de ele ter saído em busca de um presente para ela. Não precisava ler mentes para saber o que se passava na dela - sua companheira era um livro aberto.

- Rin - começou a falar. E ao ouvir seu tom de voz, a mulher corou por saber que havia sido descoberta. - Não seja tola. Se você não fosse digna de meu tempo, jamais o desperdiçaria com você.

Pois esses eram os pensamentos que assolavam sua mente: "não era preciso se dar ao trabalho", "eu não preciso de nada", "não se esforce tanto por mim". Pensamentos inaceitáveis para uma companheira sua, mãe de sua cria, e futura Lady do Oeste.

Apesar de não terem sido ditas com essa intenção, as palavras de Rin mostraram-lhe que esteve agindo errado para com ela durante todo aquele tempo. Sim, havia tomado-a como amante, feito dela sua companheira, mas não de forma oficial. Entre os youkais, principalmente entre os Lordes Dai-Youkai, era costume manter várias amantes, guardando o título de Lady, ou seja, de legítima esposa, para a youkai que dispusesse das qualidades necessárias para gerar os mais fortes herdeiros. Sendo assim, embora seus sentimentos por Rin fossem verdadeiros, sequer pensou em torná-la Lady. Sua família já havia desprezado as tradições vezes o suficiente, era o que pensava. Mas ali estava ele: não apenas tinha seguido os passos de seu pai e relacionado-se com uma humana, tendo um filho com ela, como tinha decidido-se por fazer dela sua rainha.

Pensar na ironia daquilo o fez sorrir.

- Você está sorrindo!

Ao ouvir a voz dela, se recompôs imediatamente. Havia deixado-se levar mais uma vez.

- E qual o problema? Não me diga que, assim como Jaken, tens medo de meu sorriso? - Usou um tom sarcástico para camuflar sua preocupação em receber uma resposta afirmativa. Tudo o que ele não desejava era que Rin o temesse.

Entretanto, para seu alívio, ela respondeu:

- Não. De maneira alguma. Na verdade... - sorriu, tocando-o a face - seu sorriso é lindo. Assim como o resto de você.

Se Sesshoumaru fosse qualquer outro que não um Dai-Youkai com mais de 400 anos de vida e treinado na arte da guerra, teria corado.

- Não diga tolices - repreendeu-a. Então, apesar de seu interior ainda formigar agradavelmente com o elogio, mudou de assunto: - Como andam suas habilidades espadachim?

De todas as formas que Rin poderia surpreendê-lo, ela escolheu a melhor: tornar-se uma espadachim.

Foi durante sua estadia no vilarejo em que Inuyasha morava. Em um dos espaços de tempo entre suas visitas ao lugar, ela decidiu abandonar o arco e flecha - após já tê-lo dominado completamente, devido aos ensinamentos da senhora humana que a acolheu - e começou a ter aulas de manejo com a espada. Lembrava-se muito bem de quando voltou a vê-la e ela, ingenuamente, lhe propôs um duelo. A luta durou cerca de 1 minuto - e isso porque durante mais da metade dele Sesshoumaru apenas testou a garota, tentando descobrir se possuía algum talento. E de fato, era talentosa. Desajeitada e óbvia demais em seus ataques, mas com potencial.

Lembrava-se também de ter sido durante aquele duelo que finalmente pôde dar nome ao sentimento que dominava-o sempre que estava na presença dela, ou pensando nela: amor. Assim que aquela visita acabou, certificou-se de que Rin ficaria a par de seus sentimentos. A carta chegou no vilarejo três dias depois.

- Hum, já faz um tempo que não treino, então posso estar enferrujada, mas... Por quê? Será que finalmente aceitará meu desafio? - perguntou, animada. Desde a primeira e última luta deles, vinha insistindo em uma revanche. Mas não aconteceria tão cedo. Ela ainda não estava pronta.

Ao invés de respondê-la, desvencilhou-se dela e caminhou até o móvel próximo à janela em que esperava anteriormente. Em cima dele descansava uma caixa de madeira, comprida e pesada, a qual pegou e levou até a mulher.

- Abra - disse, depositando o objeto de forma horizontal nas mãos dela. - É seu presente.

- Não me diga que...

- Abra.

Entendendo que ele não daria informação alguma sobre o conteúdo da caixa, mas tendo um ótimo palpite sobre o que seria, a abriu.

Dentro da caixa, envolta em seda e protegida pela bainha mais exuberante que já vira, havia uma espada.

- Uma espada... Onde conseguiu?

- Conheço um bom ferreiro - respondeu simplesmente. Não precisava chocá-la contando os pormenores de como convenceu Toutousai a forjar uma espada em apenas um dia - e uma espada útil, não apenas um pedaço de ferro feito às pressas.

- Toutousai-sama? Então deve ser belíssima.

- Desembainhe e verá.

Ele assistiu em silêncio ela entregar-lhe a caixa e, com a destreza de uma espadachim treinada, sacar a espada. Viu quando seu olhos arregalaram-se em surpresa e brilharam com prazer ao primeiro vislumbre da lâmina branca. Sim, a lâmina daquela espada era branca, não prateada como deveria ser. O que estava acontecendo? Será por isso que Toutousai o alertara a não desembainha-la, deixando somente Rin - a legítima dona - fazê-lo? Aquele velho...

- Sesshoumaru-sama! Sesshoumaru-sama! - repetia seu nome sem parar. Sesshoumaru podia dizer que ela estava tentando não dar pulinhos de felicidade. E tudo isso por uma simples espada. Francamente, humanos - aquela em especial - eram todos tolos.

- Rin... - Antes que pudesse falar mais alguma coisa, foi calado pelos lábios dela. Somente um curto encontro de lábios, mas o suficiente para fazê-lo querer mais. Rin, no entanto, afastou-se, ocupada demais com seu presente para notar a frustração que habitou os olhos de Sesshoumaru por apenas um segundo antes de desaparecer.

- Obrigada! Ela é tão linda! Toutousai-sama deve ter trabalhado nela por tantos anos!

- O que está dizendo? Eu fui até ele nessa madrugada.

- Mas se uma espada humana leva no mínimo dias... Então ele já devia estar quase finalizando-a.

Sesshoumaru irritou-se.

- Acaso pensa que este Sesshoumaru lhe daria um presente qualquer como celebração de nossa união? - Com um olhar frio, retirou a própria espada de seu cinto e ergueu-a. Estava menor que antes. - A espada em suas mãos é a irmã gêmea de minha Bakusaiga, feita a partir de um fragmento da mesma. Byakusaiga, foi o nome que recebeu.

Rin ofegou. Devia estar surpresa por ele ter sido capaz de abrir mão de uma parte de sua única espada, para que ela também pudesse ter uma. Novamente, não achava-se merecedora. Por que ela não entendia?

- Byakusaiga...

- Ele disse que quando chamá-la, ela virá por você. E também... Rin? - Assustou-se ao ver os olhos de sua companheira encherem-se de lágrimas. Teria ele exagerado? Não queria magoá-la com seu modo rude, mas simplesmente não conseguia mudar.

- Rin... - começou, porém, foi novamente interrompido. Dessa vez, por um abraço.

- Muito obrigada - sussurrou.

Ela não disse mais nada depois disso. Então ele apenas retribuiu o abraço. As espadas gêmeas pendiam ao lado de seus corpos - a Bakusaiga na mão direita de Sesshoumaru e a Byakusaiga também na direita de Rin.

Depois de um tempo, a mulher rompeu o abraço dizendo:

- Venha. Estamos atrasados para o nosso próprio casamento.


- Inuyasha?

Após tê-lo procurado por toda a casa, Kagome foi encontrar seu marido no jardim lateral da mansão. Mesmo de longe, ela viu quando ele congelou ao ouvir sua voz, como se tivesse sido pego no meio de algo terrível. Desconfiada, aproximou-se.

- O que está fazendo aqu... - A pergunta morreu em sua garganta quando, ao aproximar-se o suficiente dele, notou o que, ou melhor, quem estava em seus braços: Yuki, a filha recém-nascida de sua amiga e cunhado. A sobrinha deles. E a filha que nunca poderiam ter.

- O-oi, Kagome! - Fingiu animação - Sabe o que é.. é que o tampinha estava muito ocupado, a bebê começou a chorar, e como eu não tinha nada pra fazer, trouxe ela pra dar um passeio... - Deu todas as desculpas que podia de uma vez só.

Kagome odiava aquilo. Odiava que ele sentisse necessidade de explicar algo tão natural quanto um tio querer passar algum tempo com sua pequena sobrinha.

- Não faça isso... - avisou, mágoa presente em sua voz.

- Fazer o quê? Não estou fazendo nada. - Riu.

- Não pise em ovos toda vez que for falar comigo. Não aja como se eu fosse uma granada prestes a explodir. Não esconda seu carinho por crianças, só porque eu não posso engravidar! Não seja condescendente comigo, merda!

O barulho do vento roçando as árvores foi tudo o que se ouviu naquela parte do jardim durante os minutos que seguiram-se ao seu ataque.

Droga.

Se ela queria provar não ser uma pessoa instável, falhara miseravelmente. Não tinha intenção de gritar, é só que estava tão cansada. Desde quando seu casamento havia tornado-se aquela eterna consulta com o terapeuta? Quando foi que assumiu o papel de paciente traumatizada e deixou Inuyasha bancar o Doutor Compreensivo?

- Desculpe - sussurrou Inuyasha.

Tão passivo... Ela quase riu.

- Não se desculpe. Não quando nós dois sabemos quem está errado.

- Exatamente. E o errado sou eu. Sinto muito por tornar essa situação tão desconfortável. Sinto muito por continuar fingindo que está tudo bem, mesmo sabendo que não está.

- Inuyasha...

- Eu quero ser pai, Kagome! - Ele a interrompeu. Seus olhos tristes, brilhavam. - Quero ser pai de um filho seu! Saber que não posso... Isso acaba comigo. Acaba comigo.

Kagome estava paralisada. Lágrimas percorriam sua face livremente. Ela sempre soube como Inuyasha sentia-se a respeito daquele assunto, entretanto, saber e ouvi-lo dizer tais palavras... Ele dava voz aos seus próprios sentimentos. O fato de que ela não poderia engravidar, gerar e dar à luz a um filho... acabava com ela. Este fato esteve matando-a aos poucos desde que a palavra infertilidade cruzou pela primeira vez sua mente. Pensou que podia aceitar, até mesmo superar com o tempo, mas pelo visto não seria assim tão fácil. E Inuyasha pensava da mesma forma.

- D-desculpe... - disse entre soluços. - D-desculpe.

- Por que está se desculpando, ba-ka? - Ele separou as sílabas da "ofensa" em uma tentativa de aliviar a tensão do momento. - Se vai chorar como um filhote perdido, deixe-me ao menos terminar de falar. - Encostou sua testa à dela. - O fato de não podermos ter nossos próprios filhos me machuca, sim, mas eu sofro ainda mais com essa distância que surgiu entre nós. Pensei que ao não falar sobre o assunto, ele desapareceria, levando toda a dor consigo, mas foi o oposto, não é?

Ela usou toda sua força para assentir e murmurar um "hm" como forma de concordar com ele. Não estava em condições de formar sequer uma palavra, quem dirá uma frase inteira. Percebendo isso, Inuyasha assumiu a responsabilidade de esclarecer as coisas entre eles. E quando falou, foi pelos dois:

- Talvez nunca pare de doer. Não totalmente, pelo menos. Porém, se ficarmos juntos, nos apoiando, tenho certeza que será mais fácil. Sim, com certeza. Porque... eu posso sobreviver à dor de não ser um pai, só não posso... - A voz dele falhou pelo choro preso. Com o braço que não segurava a criança, abraçou sua esposa. Com força, como se temesse perdê-la. Ela retribuiu na mesma intensidade. - Só não posso ficar sem você, Kagome! Só de pensar... a dor é tão maior... Não posso... Não v-vou...

Era humanamente impossível não chorar. E ainda que fosse um hanyou, a parte humana sempre falou mais alto nele. Kagome acolheu cada uma das lágrimas de Inuyasha, enquanto também chorava as suas. Abraçados naquele jardim - uma criança que não era deles em seus braços -, choraram grande parte da dor que sentiam para fora de seus corpos.

Inuyasha tinha razão: a dor não sumia, mas, quando lidavam com ela juntos, tornava-se menos pesada. Juntos, eles podiam voltar a respirar.


- Para aonde é que vocês levaram a menina Yuki?!

Após vários minutos de um desabafo extremamente necessário, Kagome e Inuyasha retornaram para a mansão - a alma de ambos um pouco mais leve. Isso, é claro, somente até serem recebidos por gritos do escandaloso Jaken e um olhar assassino de Sesshoumaru.

- A-Ah.. nós estávamos no jardim... Vocês esperaram muito? - Kagome corou de vergonha. Por quanto tempo estiveram fora?

- Se esperamos?! Pensamos que ela havia sido sequestrada! Inconsequentes! HUMANOS! - O pequeno youkai verde proferiu a maior ofensa que conhecia. Pouco importava se apenas a garota fosse humana. Eles haviam desaparecido com a princesa a quem servia, portanto, odiava os dois.

- Inuyasha... - começou Sesshoumaru, gelo em sua voz.

Notando a seriedade no tom de seu companheiro, Rin resolveu intrometer-se:

- Nada de brigas no dia do meu casamento! - avisou. - Lembre-se de que agora eu tenho uma espada, Sesshoumaru-sama! - Deu um sorriso convencido para o noivo.

É claro que, ao não ver sua filha na cozinha junto de Jaken - onde a deixara antes de ir arrumar-se - ela passou por um momento de mais puro terror, todavia, não era necessário que alguém morresse por isso. Além do mais, confiava com sua vida em Kagome e sabia que ela nunca deixaria que mal algum recaísse sobre sua filha.

Então, voltando seu olhar para a amiga, falou:

- Kagome?

Entendendo o recado, Kagome aproximou-se dela e colocou a menina nos braços da mãe. Depois de desculpar-se por tê-la preocupado e esta aceitar seu pedido de desculpas, mudou de assunto perguntando:

- Que história é essa de espada?

- Ah, depois conto para vocês. - Rin sorriu. - Temos algo mais importante para fazer agora, não é mesmo Miroku-sama?

Miroku, surpreso por ter sido incluído na conversa de repente, limpou a garganta e disse:

- De fato. A lua já está alta no céu e a comida logo esfriará. Se não houver objeções, podemos dar início à cerimônia. - A última parte foi dita com um olhar nada sutil para o Dai-Youkai ao lado de Rin.

Sesshoumaru - que não havia parado de observar Inuyasha nem por um segundo desde que ele entrara em sua casa carregando a sua filha nos braços -, sopesou suas opções. E talvez tenha sido por ser capaz de sentir a tristeza e o cheiro de lágrimas que seu meio-irmão emanava, ou talvez fosse apenas sua pressa em terminar logo com aquilo e ver-se livre dos convidados barulhentos de sua noiva, mas decidiu ignorar o acontecido.

Ao invés de dar a lição que aquele hanyou merecia, segurou a mão de Rin e, caminhando na frente de todos, ordenou:

- Vamos para o jardim dos fundos.

Ninguém que visse a cena poderia negar o ar imponente de realeza que os noivos exalavam, muito menos a lealdade - ainda que para Inuyasha, forçada - presente nos olhos de seus amigos, que seguiam, admirados, atrás deles.