Estimado sobrinho
Há quanto tempo, não é mesmo? Faço uma prece silenciosa enquanto escrevo para que esta encontre-o bem. Também rezo para que, apesar de todos esses anos de silêncio entre nós, você não tenha esquecido sobre como sempre fui avesso à certas convenções sociais, pois assim poderei ir direto ao ponto sem que isso lhe ofenda.
São dois os assuntos que fizeram este velho Dai-Youkai voltar a pegar em uma pena e pergaminho depois de séculos: primeiro, a necessidade de parabenizá-lo por seu matrimônio e a chegada de seu primeiro herdeiro - os rumores não foram claros a respeito do sexo da criança, mas presumo que isso não vá interferir na sucessão ao trono, certo? Segundo, há perigo em suas fronteiras. Como deve imaginar, sua escolha de noiva não é algo que youkais completos possam compreender, menos ainda aceitar. A insatisfação sobre o assunto cresce a cada dia e põe em cheque sua autoridade como Lorde. Não irei apontar minhas garras, confio em sua perspicácia. Dentre as crias de meus irmãos, você sempre foi meu predileto, deve estar ciente disso. Assim, ainda que suas mais recentes decisões fujam totalmente de minha compreensão, tens um voto de confiança meu. Não desperdice-o.
Seu tio
Norio, Lorde do Norte
Rin tomava seu chá quando a porta da sala onde estava foi aberta de repente.
- Hahaue! - gritou Yuki, entrando no local. Logo atrás dela, vinha um ofegante Jaken.
Encarregado de fazer companhia à princesa em suas brincadeiras diárias, o youkai não podia afastar-se dela um segundo sequer. O problema era que a menina movia-se rápido demais até mesmo para seus olhos treinados, então, como resultado, ele vivia a correr pelos corredores do palácio atrás dela. E ainda haviam os afazeres domésticos! Definitivamente, exercícios demais. Naquele ponto, Rin tinha certeza que ele só não pedia ajuda, por orgulho e medo de desapontar seu mestre.
- Yuki-chan - falou suavemente -, quantas vezes já disse para não correr assim? É perigoso. Você pode cair e machucar-se. - Depositou a xícara de chá em cima da mesa ao seu lado, e, com um gesto, chamou a filha para sentar-se em sua frente. Após a menina ter acomodado-se, continuou: - Além do mais, acredito que já tenhamos conversado sobre esses seus modos. É proibido entrar em um cômodo sem antes ser anunciada, lembra-se?
Como uma criança de apenas quatro anos, era normal que agisse impulsivamente. Mas, como filha primogênita de um Lorde, deveria demonstrar o mínimo de educação. Rin esforçava-se para encontrar um meio termo entre ambos, para assim poder ensiná-la a portar-se como uma princesa, sem que precisasse abrir mão de sua liberdade infantil.
- Sinto muito, Hahaue - respondeu, abaixando a cabeça e o tom de voz.
Jaken, que havia recuperado o fôlego, acusou:
- Eu sempre digo isso para ela, Rin! Mas você acha que ela me escuta? É mais teimosa que você!
- Yuki-chan, você deve obedecer o Jaken-sama. E não faça ele correr atrás de ti por todo o castelo. Você sabe que ele está velho demais para isso - falou, olhando seriamente para a filha. Apesar de que, por dentro, ria da expressão indignada que Jaken fazia. Um hábito que ela nunca perderia, não importa quantos títulos nobres viesse a possuir, era o de provocá-lo sobre sua idade.
- Haaai! - A menina concordou, animada. - Mas, Hahaue, por que a senhora usa o sufixo "sama" para falar com o senhor Jaken, enquanto ele só a chama por "Rin"? - perguntou.
Curiosa como a mãe, perceptiva como o pai. Como sua amiga Kagome havia dito anos antes: Yuki era a combinação exata deles. Metade, metade.
Antes que Rin pudesse respondê-la, no entanto, a voz de Sesshoumaru soou do lado de fora, no corredor:
- Essa é um excelente pergunta, Yuki.
- Chichiue!
Mesmo tendo sido repreendida por seus modos há poucos segundos, Yuki excedeu-se novamente, e, ao ver o pai, gritou por ele, pulando em seu colo. Rin não ralharia com ela por isso. Sendo honesta, sempre que via o marido, sentia vontade de pular em cima dele também. Infelizmente, sua posição como Lady do Oeste não permitia que fizesse isso. Não em público, pelo menos.
- Sesshoumaru-sama! Precisa de algo? Um lanche? Um banho? Eu preparo! - Jaken mantinha-se curvado, a testa quase tocando o chão.
Rin sorriu divertida. Tudo aquilo era medo de levar uns cascudos?
- Rin - Sesshoumaru ignorou o servo e dirigiu-se a ela -, estou de saída. Voltarei a noite ou, no mais tardar, amanhã de manhã.
- De manhã? - estranhou. - Mas aonde vai?
- Tenho assuntos a tratar mais ao Sul. - Foi tudo o que disse.
Rin não fez mais perguntas. Sesshoumaru era bem reservado sobre os assuntos do reino. Às vezes ela esquecia que ele era o Lorde governante de todos os youkais que viviam nas terras do Oeste daquele país. Tinha de admitir que tê-lo conhecido como apenas um youkai peregrino contribuiu muito para isso.
- Certo. Então, já que você vai sair, Yuki e eu também vamos. Está na hora de conhecermos as pessoas lá embaixo - disse ela, já levantando-se.
Desde que chegou ali, três meses antes, vinha adiando sua visita à aldeia logo abaixo da montanha onde localizava-se o castelo. Esteve tão ocupada com Yuki e Sesshoumaru, que acabou por negligenciar seus deveres como a Lady daquele povo. Podia não ser youkai, mas agora era rainha, e eles, seus súditos. Precisava causar boa impressão.
Entretanto, Sesshoumaru não compartilhava de seu entusiasmo.
- Não - disse ele. - Se quer conhecer os arredores, eu levo vocês quando voltar. Não irá sozinha. Muito menos com a criança.
- Por quê?!
- Porque eles tentarão matá-la e então eu terei de estraçalhá-los com minhas próprias mãos.
Rin ficou tão chocada com o entendimento que lhe atingiu de repente, que não ralhou com o esposo por usar tais expressões sanguinárias na frente da filha. Sim, ele tinha razão. É claro. Aquela cidade não era como o vilarejo da senhora Kaede. Os habitantes da aldeia no sopé da montanha não eram como as pessoas com quem cresceu. Eles não eram humanos. Todos ali eram youkais completos - não da mesma estirpe de um Dai-Youkai como Sesshoumaru, mas youkais mesmo assim -, e se eles desprezassem os humanos com a mesma intensidade que um dia Sesshoumaru desprezou...
- Ah, entendo...
Sim, ela entendia. Nada de visitas cordiais ao seus súditos, então.
Por mais que possuísse o título de Lady, eles não eram seu povo. Contudo, o que mais a preocupava não era sua própria situação, e sim a de sua filha. Como humana, ainda que fosse odiada pelos youkais, Rin sempre teria um lugar entre os seus. Mas e quanto à Yuki? Um hanyou não é um youkai completo, tampouco é totalmente humano. Qual era o lugar de sua filha? Onde ela pertencia? Pela primeira vez desde que deu à luz, sentiu-se apreensiva sobre o futuro daquela criança. E seu medo foi tão grande, que até mesmo Yuki pôde senti-lo.
- Hahaue... - sussurrou. Seus olhos dourados encheram-se de lágrimas ao sentir o cheiro do pânico que a mãe exalava.
Rin quis estapear a si mesma. Suas preocupações acabaram por assustar a pequena. Apressada, aproximou-se do esposo e pegou a menina no colo, confortando-a.
- Rin, ela é a princesa do Oeste. Ninguém ousaria machucá-la sabendo de quem é filha.
Por mais incrível que possa parecer, essas palavras de consolo saíram da boca de Jaken. O pequeno youkai podia estar sempre zangado com ela e reclamando de sua filha, porém não restavam dúvidas de que ele se importava com ambas. Youkai ou não, elas eram parte da família.
Rin sorriu para ele, um pouco mais calma. Voltou, então, seu olhar para Sesshoumaru, dizendo:
- Pode ir. Espero que consiga resolver seus assuntos.
Ele ficou em silêncio por um momento, apenas observando sua esposa e filha.
- Volto ainda hoje - declarou.
- Não é preciso. Leve o tempo que precisar - respondeu. A última coisa que queria era atrapalhar os negócios dele com suas preocupações.
- Volto ainda hoje. - Ele estava irredutível. - Enquanto eu estiver fora, procure por servos para trabalharem no castelo, Jaken.
- Realmente?! - Jaken mal soube disfarçar sua felicidade. - Vou cuidar disso imediatamente! Sesshoumaru-sama tem alguma preferência?
- Contrate dentre os que organizaram o castelo. Duas dúzias devem ser o suficiente. Acomode-os na ala sudoeste e deixe claro que não quero ser incomodado. Se eles causarem problemas, assumirei que é sua culpa. - Encarou o youkai com seu pior olhar.
- H-hã? - perguntou, toda a felicidade que sentiu segundos antes, esvaindo-se de seu rosto. - S-sesshoumaru-sama...
Ignorando o temor do servo, Sesshoumaru despediu-se com um aceno e saiu da sala. Lá fora, usou sua bola de luz para ascender às alturas e então partiu.
- Itterashai! - gritava Yuki.
Ela e Rin acenaram para ele até que não pudessem mais distingui-lo do azul da imensidão do céu.
Cerca de três horas depois, ele já podia ver, ouvir e sentir, não muito longe dali, as casas, sons e cheiros característicos de qualquer aldeia.
Não que Kuryuu fosse comum, longe disso.
Na verdade, Sesshoumaru agradecia internamente por Kuryuu - que estava há apenas um rio de distância das terras do Sul - pertencer ao seu território. Os serviços que o clã líder deles oferecia eram bons demais para deixar que outro território os monopolizasse.
Sorriu. Tinha certeza que os outros Lordes - em especial a governante do Sul, que estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe de Kuryuu - pensavam da mesma forma que ele.
Seu sorriso, no entanto, não durou muito, pois lembrou-se o porquê de estar ali. A diversão deu lugar ao mais puro ódio. Sentiu seu sangue ferver, exigindo a mudança que ele não permitiria que ocorresse. Ainda não. Guardaria toda a fúria que sentiu ao ler aquela carta para quando chegasse o momento... Se chegasse.
Uma semana antes, havia recebido uma carta de Norio, Lorde do Norte e seu tio por parte de pai, depois de mais de um século de silêncio entre os dois. Embora o conteúdo não tenha sido surpresa alguma, o irritou mesmo assim. Sempre soube que casar-se com uma humana geraria desconforto entre seu povo, incitando os mais gananciosos a tentar derrubá-lo, todavia, como tinha conseguido mantê-las em segredo durante todo aquele tempo, pensou que, talvez... Mas não. O primeiro peão tinha sido movido. Agora era uma questão de qual rei cairia primeiro: Rihan ou ele.
Norio podia não ter citado nomes, contudo, Sesshoumaru conhecia bem demais o Lorde do Leste para acreditar que ele não estava envolvido em seja lá qual fosse o terrível plano em curso. Filho bastardo de um dos quatro Dai-Youkais cachorros, Inumaru, com uma de suas várias amantes, sua ascensão ao trono deixou um terrível rastro de sangue para trás. Rihan havia matado não apenas o pai, como também todos os irmãos que poderiam reivindicar a coroa um dia - mesmo os bebês não foram poupados.
Ainda que isso não fosse o suficiente para despertar em si um grande desprezo pelo primo, o fato de que Rihan tentou matá-lo há não muito tempo, seria.
Fora logo após a morte de Inu no Taishou. A alma de seu pai mal havia feito a travessia, quando o Lorde do Leste atacou, faminto por mais uma fatia de território para chamar de seu. Sesshoumaru, é claro, frustrou seus planos, fazendo-o voltar com o rabo entre as pernas - e um olho a menos - para o Leste. Agora, o desgraçado preparava-se para atacar novamente. Porém, diferente de antes, daquela vez ele tinha um ponto fraco. E era para o seu calcanhar que Rihan mirava suas presas.
Cerrando os punhos, o Dai-Youkai recusou-se a pensar na hipótese de Rin e Yuki saírem machucadas daquele jogo de poder. Isso não aconteceria. Não permitiria que acontecesse. Massacraria Rihan e todo seu reino antes.
Por isso estava ali. Precisava preparar-se e Kuryuu tinha o que ele queria: soldados.
Toda aquela cidade, apesar de pertencer a ele, funcionava de forma autônoma, podendo fazer negócios com outros territórios contanto que isso não atrapalhasse o Oeste. Eles possuíam seu próprio sistema de trabalho, tendo cada aldeia se especializado em um ramo: fabricação de espadas, armaduras, carruagens de guerra e treinamento de soldados. Conhecidos como Descendentes de Dragões, os serviços daqueles youkais sempre eram requisitados durante guerras. E, uma vez assinado o contrato e recebido o pagamento, lutavam até a morte para cumprir suas ordens. Honestamente, a única diferença entre eles e mercenários comuns é que possuíam honra - não matavam por diversão; apenas em batalhas onde não lutar, significa morrer.
Exatamente por isso, deveria contratá-los agora, antes que outro o fizesse.
Assim que pousou no meio da aldeia, as pessoas afastaram-se. Não precisou apresentar a si mesmo, eles sabiam exatamente quem ele era e abriam caminho para que passasse.
Sesshoumaru foi direto para a Toca do Dragão - residência da líder do Clã -, entrando na sala que sabia servir para reuniões. Havia sete pessoas no local, todas mulheres. Uma delas - uma youkai pálida como a neve e de cabelos e olhos pretos como uma noite sem estrelas - levantou-se de onde estivera sentada até então. Aproximando-se, curvou-se perante ele, fazendo com que as outras seguissem imediatamente seu exemplo.
- Lorde Sesshoumaru-sama - cumprimentou ela. - Bem-vindo de volta à Kuryuu. É uma honra recebê-lo em minha casa.
- Ryo, quero soldados - seco, foi direto ao ponto.
A líder do clã não o respondeu de imediato. Ao invés, olhou-o seriamente por alguns segundos. Só então, abriu um sorriso convencido e disse:
- Então veio ao lugar certo.
O primeiro peão tinha sido movido. O jogo já estava em andamento. Agora era só uma questão de tempo até saber qual rei cairia primeiro: Rihan ou ele.
Sesshoumaru nunca antes havia perdido uma guerra, não iria começar logo agora que encontrou algo para proteger.
