Capítulo 6. – Claire's Birthday - Parte I

I want a normal life

(Quero uma vida normal)

Just like a new born child

(Como uma criança que acaba de nascer)

I am a lover hater

(Sou uma amante do ódio)

I am an instigater

(Sou um instigador)

You are an oversight

(Você é uma descuidada)

Don't try to compromise

(Não tente comprometer)

I'll learn to love to hate it

(Eu aprenderei a amá-la e odiá-la)

I'm not integrated

(Eu não estou integrado)

Just call my name

(Só chame meu nome)

You'll be okay

(Você estará bem)

Your scream is buring through my veins

(Seu grito está queimando através da minha veia)

Sooner or later your gonna hate it

(Cedo ou tarde você vai odiá-lo)

Go ahead and throw your life away

(Vá em frente e jogue a sua vida fora)

Driving me under, leaving me out there

(Me levando pra baixo, me descartando)

Go ahead and throw your life away

(Vá em frente e jogue a sua vida fora)

You're like an infantile

(Você é infantil)

I knew it all the while

(Eu sabia disso tudo há muito tempo)

You sit and try to play me

(Você senta e tenta me controlar)

Just like you see on TV

(Como se assiste na TV)

I am an oversight

(Sou um descuidado)

Just like a parasite

(Como um parasita)

Why am I so pathetic

(Por que sou tão patético?)

I know you won't forget it

(Sei que você não se esquecerá)

Sooner Or Later - Breaking Benjamin.

Já haviam se passado dois meses desde o acidente da Ângela e a minha conversa com o Chris. Pensei bem no que ele tinha me dito e resolvi seguir seu conselho.

Muita coisa fazia sentido agora que sabia que Ângela estava grávida, finalmente suas alterações de humor não me deixavam tão confuso quanto antes.

Eu estava sentado no sofá assistindo a um programa qualquer que passava na TV, afinal, nem estava prestando atenção mesmo. Olhei para o calendário que ficava na parede logo a frente e sorri "25 de Março... É hoje.."

O dia de hoje seria especial, pois era o aniversário dela. Não sabia ao certo o que fazer se deveria vê-la, ligar ou simplesmente ignorar, mas até o fim da tarde resolveria isso.

- Bom dia amor! – Ângela tinha acabado de acordar e caminhava em minha direção, sorrindo.

- Bom dia... – Sorri também, chegando um pouco para o lado, deixando um espaço para que ela sentasse.

- O que ta assistindo? – Para minha surpresa ela sentou de lado em meu colo, apoiando os pés no espaço vazio ao meu lado.

- Não faço a menor idéia. – Ri, passando um dos braços por volta de sua cintura, segurando-a para que não caísse. – Dormiu bem?

- Maravilhosamente bem... – Encostou a cabeça em meu ombro. – Por que você estava sorrindo?

- Nada, algo engraçado que vi na TV... – Espero que ela acredite.

- Em um programa de pesca? – Ela parecia desconfiada.

- Você não faz idéia do quanto um programa de pesca pode ser engraçado... Acredite, é surpreendente... – Falei de forma meio irônica.

- Seu louco... – Riu, desencostando a cabeça do meu ombro, me dando um selinho. – Vou tomar café, você vem?

- Não, já tomei café. – Sorri, ela então se levantou e foi para a cozinha.

A manhã passou mais rápida do que imaginava, quando dei por mim, já era hora do almoço. Fui até a cozinha ver se Ângela precisava de alguma ajuda.

- Precisando de ajuda? – Encostei-me ao arco de entrada da cozinha.

- Não precisa... – Sorriu, abaixando o fogo de uma das bocas do fogão. – Quero te pedir uma coisa...

- E o que seria? – Ela parecia meio hesitante, mas logo se pronunciou.

- É que o.. – Foi interrompida pelo som da campainha.

- Vou lá atender... – Eu estava prestes a ir abrir a porta, quando senti ela segurar meu braço . – O que...?

- Deve ser o Curtis...

- Você convidou seu irmão pra vir aqui hoje e não me avisou?

- Ia fazer isso agora... – A campainha tocou novamente. – JÀ VAI!

- Maravilha... – Revirei os olhos, bufando de raiva.

- Leon, por favor, seja gentil... – Ela suplicou, largando meu braço.

- Eu vou sair...

- Mas..

- Isso não vai prestar Ângela... – Dei um beijo em sua testa, indo até a sala. – Volto mais tarde.

- Você não pode fazer um esforço, por mim? – Suspirei, pegando uma jaqueta preta no guarda casacos que ficava embaixo da escada, voltando para a cozinha.

- Não quero chatear você, então é melhor eu ir. – Peguei as chaves que estavam sobre um balcão da cozinha.

- E se ele perguntar algo?

- Inventa qualquer coisa.. Até depois... – Sai pela porta dos fundos que ficava na cozinha mesmo.

Fiquei parado próximo a uma das janelas da sala, apenas ouvindo e observando a conversa. Curtis estava na sala junto com Ângela, sua filha e esposa.

Jane, a filha de Curtis, sentou-se no sofá para assistir TV junto com a mãe, Júlia, enquanto Curtis foi para a cozinha com Ângela. Dei a volta, indo para uma das janelas da cozinha.

- E então, como vão as coisas? – Curtis puxou uma das cadeiras em volta da mesa e sentou, olhando para a irmã.

- Ótimas... – Angel sorriu, desligando todas as bocas do fogão, sentando-se também.

- Onde está o Leon?

- Ele deu uma saída, não deve demorar a voltar...

- Como ele pode te deixar sozinha?... – Balançou a cabeça para os lados – Eu disse, ele não presta, nem ao menos se importa com você.

- Curtis, por favor.. Não começa. – Ela suspirou.

- Tudo bem... – Respirou fundo. – Sabe ao menos onde ele foi?

- Não...

- Se ele não estiver te traindo, não é nada... – Naquele momento me deu uma vontade enorme de quebrar a cara dele...

- Já chega ok?.. Ele deve ter ido à casa do Chris, sei lá...

- E daí?.. Só por que ele foi à casa do Chris não significa que ele não tenha um caso...

- O que quer dizer com isso...?

- Nunca passou pela sua cabeça que o Leon e o Chris tem um caso?

- Você está insinuando que o Leon é..

- Gay! Isso mesmo.

Meu sangue ferveu naquele momento. Como aquele desgraçado ousa me chamar de gay?

- Claro que não! Você andou fumando o que? – Ela estava indignada com aquilo, e não era para menos.

- Nada... Mas vai dizer que isso não tem fundamento?

- Não!

- Claro que tem... O Chris é o único amigo que o Leon tem, e eles se conhecem desde a infância. Pode ser amor gay incubado.

Ele falava como se em toda minha vida eu só tivesse conhecido o Chris. Como se a Ada e até mesmo a Claire nunca tivesse existido... Se bem que ele não sabe delas. Enfim, continuo com vontade de matar esse cretino.

- Por Deus.. O Leon teve uma amiga de infância também Curtis...

- Pra brincar de Barbie Não é?..Continuo achando ele gay.

- Aff... Ela era irmã do Chris se não me engano...

- Qual o nome dela?

- Não me lembro, acho que era Clara, alguma coisa assim.

"Clara? De onde ela tirou esse nome?" Pensei.

- Você já a viu alguma vez?

- Não, mas...

- Então pronto isso não prova nada...

- O Chris tem namorada.

- Você já a..

- Sim, já a vi e até conversei com ela.

- Ele pode ter pagado uma...

- Chega Curtis! – Ângela bateu na mesa com uma das mãos. – Vamos mudar de assunto.

- Tudo bem Ângela. – Ele se deu por vencido. – Vamos almoçar, que tal?

- Ótima idéia.

Ângela foi até a sala chamar a cunhada e a sobrinha, enquanto Curtis arrumava a mesa.

Sai dali logo em seguida, estava prestes a voar pela janela direto no pescoço dele, e com a raiva que eu estava com certeza ele sairia dali direto para o cemitério.

Aquele era um dia frio, o céu estava cinzento, poucos raios de Sol atravessavam as nuvens carregadas, o que tornava o dia agradável. Eu particularmente adorava o frio, me trazia boas recordações.. Lembranças de quando eu ainda era criança e não precisava me preocupar tanto quanto agora.

Estava caminhando sem rumo, não tinha a menor idéia de onde estava indo, e sem nenhuma pressa de voltar para casa. Atravessei a rua e me deparei com uma cafeteria logo na esquina, como não tinha nada melhor para fazer, resolvi ir até lá.

Assim que entrei no local o aroma de café fresco invadiu meus pulmões, fazendo minha barriga roncar alto, só ai lembrei de que não havia comido mais nada desde o café da manhã.

Procurei uma mesa vazia e me sentei, uma garçonete já de idade veio me atender. Fiz o pedido e fiquei vasculhando o local com os olhos, encontrei uma figura conhecida próxima ao balcão. Assoviei, atraindo alguns olhares para mim, incluindo o ser próximo ao balcão, que ao me ver veio caminhando em minha direção.

- Quem é vivo sempre aparece!

- Eu que o diga Chris. – Ele sentou do outro lado da mesa. – Andou sumido.

- Eu? Você quem anda entocado em casa. – Riu. – E aí, como vão as coisas com a Ângela?

- Estão indo bem, to aprendendo a lidar com as alterações de humor dela.

- Então por que está aqui a essa hora? – Ele arqueou uma das sobrancelhas, como se duvidasse.

- Uma palavra, seis letras: Curtis.

- Se fodeu meu amigo!

- Como você é otimista...

- Não tem de que... – A senhora veio entregar meu pedido, anotando o do Chris e saindo em seguida. – Quer dizer que estava com medo de enfrentar "a fera"? – Ele riu.

- Nem era isso, só não queria chatear a Ângela brigando com o irmão dela.

- Era só não brigar com ele.

- Estamos falando do Curtis, é uma missão impossível não entrar em qualquer tipo de conflito com ele. – Bebi um gole do chocolate quente que havia pedido, adorava essa bebida em dia de frio.

- Qual é, o cara não deve ser tão ruim assim!

- Ele me odeia.

- Não ta exagerando um pouco..?

- Chris, ele acha que sou gay... – A garçonete havia acabado de voltar, trazendo consigo o Cappuccino do Chris, indo embora em seguida.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA... – Ele caiu na risada, fazendo com que olhassem para nós.

- Você acha engraçado não é?

- Mas é claro... – Ele respirou fundo.

- Vamos ver se vai rir disso: ele acha que temos um caso.

- O QUÊ? – E mais uma vez todos os olhares estavam voltados para nós.

- De acordo com ele, temos uma paixão gay encubada.. – Falei baixo para que ninguém ouvisse.

- Eu odeio seu cunhado.

- Bem vindo ao clube.

- Como ele pode pensar isso de mim? – Ele parecia indignado com aquilo. – De você tudo bem, mas de mim?

- Como assim "de você tudo bem..". O que quer dizer com isso? – Agora era eu quem estava indignado.

-Err, nada.

- Fala Chris...

- Certo... – Ele respirou fundo mais uma vez. – É que as vezes você parece meio afeminado, se é que me entende.

- Não, eu não entendo. – Cruzei os braços.

- Já sei... – Ele fez uma pausa, mas logo continuou. – Cara, seu cabelo ta diferente, ta com um certo "brilho". O que você fez?

- Sério que ta legal? – Ele balançou a cabeça positivamente. – Meu cabeleireiro fez um "novo corte" pra tirar um pouco o volume e me recomendou outro reparador de pontas, até mudei o shampoo por...

- Viu o que eu disse? – Só ai me dei conta do que estava falando...

- Hey! Isso é jogo sujo!

- Não é! Por isso que eu disse que você estava meio afeminado.

- Ok, vamos mudar de assunto..

- Tudo bem. – Ele riu. – Já sabe se é menino ou menina?

- Ainda não, a Ângela quer manter o suspense..

- Você acha que é qual dos dois?

- Menina, é só uma palpite.

Continuamos a conversar, a maioria dos assuntos era besteira. Terminamos de tomar as bebidas, e ai me lembrei de algo que queria perguntar a ele...

- Então Chris... – Pigarreei – Hoje é aniversário da Claire, não é?

- É sim.. E..?

- E o que?

- O quer mais quer perguntar?

- Sabe se... Ela vai fazer alguma coisa?

- Tipo festa?

- Isso...

- Não, nada.. – Ele não sabia mentir...

- Qual é, fala sério...

- Estou falando sério.

- Uhum... – Fiquei pensando por um instante – Já que não vai ter festa, onde vão comemorar o aniversário dela?

- Na casa da mãe do... - Ele estava quase falando. – Não adianta, não vou falar.

- Nem precisa, você já disse o que eu queria saber... – Sorri.

- Merda.

- Só me diz uma coisa, por que eu não posso ir?

- Não é uma boa idéia.

- E por que não?

- As coisas estão muito "recentes" ainda, não seria uma boa você aparecer lá com a Ângela.

- Mas eu não preciso ir com a Ângela, posso ir sozinho.

- E o que você vai dizer a Ângela? – Pensei um pouco.

- É verdade, mas eu posso dar um jeito e..

- Leon, esquece. Você não pode ir.

- Mas é o aniversário dela..

- Eu digo a ela que te encontrei e que você mandou lembranças.

- Eu quero ir... – Eu estava parecendo uma criança, e o Chris era o pai chato que nunca deixava nada.

- Não e pronto. – Ele retirou a jaqueta, deixando-a sobre a mesa, levantando. – Vou ao banheiro, e desista dessa idéia louca.

- Hunf.

Esperei ele sair da mesa e fui checar a jaqueta. Algumas pessoas me olhavam meio de lado, estranhando minha atitude. Ignorei os olhares e continuei a vasculhar a jaqueta, acabei encontrando o celular dele, e assim que puxei o aparelho, um pedaço de papel veio junto.

Peguei o pedaço de papel e o desdobrei, sorrindo de canto ao ler o que estava escrito. Provavelmente aquele era o endereço de onde seria a "festa" de aniversário da Claire. Tirei meu celular do bolso, salvando no aparelho o endereço, guardando rapidamente o papel e o celular de volta no bolso da jaqueta do Chris. Mão demorou muito para que ele voltasse para a mesa.

- Chris, sobre a festa... – Ele sentou na cadeira.

- Não adianta, a resposta ainda é a mesma.

- Tudo bem, eu não vou.

- E não adianta insistir... Espera, o que você disse?

- Que eu não vou, desisti de ir...

- Não achei que seria fácil assim.. Ainda bem que não precisei te bater, nem nada do tipo pra você mudar de idéia.

- Você... Me bateria mesmo? – Arregalei os olhos, fazendo ele rir.

- É brincadeira... Mas seria uma boa opção.

- Chris, sem terror psicológico ok?

- Ta, parei.

Pedi para a senhora garçonete que nos atendeu para fechar a conta. Ela voltou em pouco tempo com o valor, cada um pagou metade e Chris ainda lhe deu uma boa gorjeta.

Quando estávamos prestes a nos levantarmos para sair, uma moça que estava na mesa atrás da nossa, se aproximou, falando em um tom de voz baixo, mas alto o bastante para que entendêssemos o que ela falava.

- Eu acho que vocês deveriam resolver de uma vez os seus conflitos...

- Como? – Perguntei, não fazia idéia do que ela estava falando.

- Ouvi parte da conversa, sem querer é claro, e acho que vocês formam um casal tão bonito... – O filho da mãe do Chris queria rir, mas estava segurando o riso.

- Olha moça...

- Era isso que eu estava falando pra ele! – Chris resolveu se pronunciar, mas pelo jeito era só pra sacanear mesmo.

- Sei que é difícil para os gays assumirem um companheiro em público hoje em dia, e é por isso que admiro a coragem de vocês! – Ela sorriu, parecia contente com aquilo que dizia. – Mas não deixem que atrapalhem o amor de vocês!

- Sim moça... Obrigado pela ajuda, nós vamos fazer uma terapia de casal, não é querido? – Ele falou, me olhando de um jeito realmente gay, segurando minha mão que estava sobre a mesa.

- Sim docinho, nós vamos. – Falei de um jeito mais feminino, piscando para ele. Resolvi entrar na brincadeira, a merda já estava feita, então não tinha como piorar.

- Que maravilha! – Ela parecia emocionada com a situação.

De repente ouvimos aplausos ecoando por toda cafeteria. Foi ai que me toquei, o nosso tom de voz não estava mais tão baixo assim, e agora toda cafeteria já sabia do meu "conflito amoroso" com o Chris, e aplaudia a nossa "reconciliação". Logo quando eu achava que não podia piorar.

Saímos sob aplausos e gritos de "Viva o amor gay" da cafeteria. Graças ao Chris nunca mais poderia voltar lá, e eu tinha adorado do chocolate quente dali. Quando chegamos na esquina, paramos de andar, e ele então começou a rir.

- Foi demais... Viu a cara do pessoal?

- Porra Chris, graças a você nunca mais vou poder voltar lá!

- Calma "querido", não fica bravo, ou eu conto tudo pro nosso terapeuta! – Ele continuava a rir, debochando da minha cara.

- ... – Apenas revirei os olhos, fazendo-o rir ainda mais.

- Ok, eu parei. Sério mesmo.

- Hunf.. – Ele olhou para o relógio no pulso esquerdo.

- Cara, eu preciso ir.

- Mas já?

- Eu marquei de encontrar a Jill, e já to meio atrasado.

- Então é melhor ir, ela detesta esperar.

- A gente se vê por ai...

- Certo.

Despedimos-nos e ele foi embora. Decidi tomar o rumo de casa também, talvez o Curtis já tivesse ido embora, ele não costumava ficar muito tempo lá.

Liguei para casa pra ter certeza de que ele já tinha ido embora, era melhor prevenir do que remediar. O telefone chamava e chamava, mas ninguém atendia provavelmente Ângela havia saído junto com o irmão e a família dele, então a casa estava livre.

Caminhei calmamente o trajeto de volta, estava pensando se deveria mesmo ir ao aniversário da Claire, ainda tinha tempo para pensar no que dizer e em como agir caso fosse. Não demorou muito para que eu chegasse em casa.

Dei uma conferida pela janela antes de entrar, queria ter certeza de que a casa estava vazia. Parecia não haver ninguém lá então dei a volta e abri a porta, a casa estava mesmo vazia. Bati a porta e caminhei até as escadas, subindo e indo até o quarto, me jogando na cama.

Quando estava prestes a pegar no sono, ouvi um barulho vindo das escadas, pareciam passos. Ignorei, deveria ser apenas Ângela que havia chegado. De repente, a porta abriu, mas eu permaneci de olhos fechados, provavelmente ela veria que eu estava "dormindo" e me deixaria em paz.

- Eu disse que ele já deveria ter chegado! – Com certeza essa era a voz da Ângela.

- Mas é um preguiçoso mesmo.. Eu te avisei que ele não prestava Ângela. – Que inferno, pensei que tinha me livrado dele.

- Chega Curtis.. Ele é o pai do meu filho ok?

- E daí? Podemos dar um jeito nisso rapidinho!

Devo ter jogado merda na cruz para merecer isso. Eu mal tinha acordado e já estava de mal humor.. Se bem que eu nem ao menos cochilei, mas a questão não era essa, eu estava de mau humor e pronto. Respirei fundo e me sentei na cama, olhando para a porta onde os dois estavam.

- Já acordei.

- Desculpe ter te acordado amor.

- Desculpa o escambal, tava mais do que na hora desse traste acordar.

- Curtis, por que você não vai para o inferno?

- Só vou pra lá "cunhadinho" – ele ironizou a palavra. – depois de você.

- Seu filho..

- Chega vocês dois! Que inferno, é sempre a mesma coisa quando se encontram. – Ela acendeu a luz, fechei os olhos no mesmo instante, aquela claridade me incomodava.

Nós dois ficamos quietos, era extremamente perigoso quando ela ficava irritada.

- Enfim, Leon, preciso que me faça um favor.. – Seu tom de voz mudara rapidamente de um tom agressivo para um mais suave.

- Que seria...? – Abri os olhos, encarando-a.

- Lembra aquele meu par de sapatos novos?

- Qual deles? – Eram MUITOS os pares.

- O que eu usei apenas uma vez. – Fiquei com uma cara de interrogação, deixando que ela continuasse. – O par de sapatos vermelhos, Leon.

- Vermelho cereja, que estão no alto do closet?

- Isso!

- Oh... – Levantei da cama e me espreguicei, indo na direção do closet, que ficava a alguns passos da cama, do lado esquerdo. – Mas pra que você os quer?

- Vou dar de presente para Júlia.

Curtis já não estava mais ao lado de Ângela, ele havia descido para chamar sua mulher, só não sei para que. Abri o closet, pegando a que ficava guardada lá dentro, desdobrando-a até que ela ficasse "montada", subindo na mesma.

Fiquei procurando a bendita caixa dos sapatos dentre as diversas outras caixas que havia naquela prateleira.

- Achei! – Peguei a caixa que estava no meio de outras duas, olhando para Ângela em seguida. Só ai percebi que ela não estava sozinha, Jane estava com ela.

- Tio Leon... – A menina de longos cabelos castanhos claros se aproximava de onde eu estava, parando na porta do closet.

- Sim? – Olhei ara ela, sorrindo. Apesar de ser filha do energúmeno chamado Curtis, ela era uma boa garota.

- É verdade que o Sr. é gay? – Ela perguntou de forma inocente.

- Claro que não! – Respondi de olhos arregalados. Ângela estava imóvel na porta do quarto, sem saber do que fazer.

- É que o papai disse... – Não deixei que ela terminasse de falar.

- Olha Jane, nem tudo que seu pai fala sobre mim é verdade.

- Ah.. Então também é mentira que o Sr. já foi Miss da parada gay no Brasil né?

Estava prestes a fazer um discurso dizendo muitas coisas ruins sobre o pai dela. Mas na hora que fui descer da escada, por estar irritado demais, pisei em falso, e quando fui tentar me segurar em uma das prateleiras do closet, ela cedeu, fazendo com que a prateleira de baixo também caísse.

Resultado: Cai em cima da escada, fazendo com que a caixa de sapato voasse para perto de onde Ângela estava, e todas as coisas que estavam sobre as prateleiras ficaram por cima de mim. Fui "soterrado" vivo por um monte de muamba.

Não faço idéia de quanto tempo fiquei desacordado, provavelmente tinha morrido e fui parar no inferno, porque a visão que eu tive quando estava abrindo os olhos era a do Capeta. Estava com a vista meio embaçada, mas podia jurar que vi alguns chifres na cabeça dessa criatura esquisita. Engraçado como o Capeta era parecido com o Curtis.. Até o bafo de cebola com alho era o mesmo...

- Já não chega você me atormentar na Terra, tem que me perseguir no inferno? – Falei meio grogue.

- Do que ele ta falando? – Parecia ser a voz da Ângela.

E mais uma vez o Capeta colocou a cara perto do meu rosto, e aquele bafo me fazia ter ânsia de vômito. Incrível como até a voz dele era parecia com a do Curtis.. Acho que vou pagar os meus pecados com um Capeta igual ao meu cunhado, é carma demais.

- Porra Leon, levanta.

Ele me segurou pela gola da camisa e me sacudiu freneticamente. Foi ai que eu percebi, eu não havia morrido e ido para o inferno, o que por um lado era bom, porque não iria agüentar um Capeta igualzinho ao Curtis, e por outro lado era ruim, porque teria que aturar meu cunhado por mais um tempo.

- Se você parar de me sacudir, eu ficaria grato e não vomitaria na sua cara.

No mesmo instante ele me largou. Por sorte não bati com a cabeça no chão, e sim em um travesseiro que havia ali. Tanto Curtis quanto Ângela se afastaram enquanto eu me sentava aos poucos no chão, ainda estava meio zonzo.

- Curtis, eu acho melhor você ir agora... O Leon precisa descansar.. – Ângela pediu gentilmente, caminhando até a porta enquanto fazia sinal para que o irmão a acompanhasse.

Ele me lançou um olhar fulminante e logo depois seguiu Ângela, murmurando algo que não consegui entender e nem fazia questão. Respirei fundo, desviando olhar para as caixas que estavam caídas no chão do quarto, até que uma delas me chamou a atenção.

Era uma caixa pequena de madeira envernizada, deveria ter quase uns 13 anos. Levantei-me e fui até ela, segurando-a entre as mãos. Ao ouvir passos se aproximando do quarto, escondi a caixa embaixo da cama, mais tarde poderia ver melhor o que tinha lá dentro.

Depois de algum tempo Curtis já havia ido embora e eu consegui me recuperar daquele tombo. Esperei até que Ângela fosse deitar para pegar a caixa, com o maior cuidado possível para que ela não acordasse. Fui direto para a sala em seguida, e então finalmente pude abrir aquela caixa sem que ela ficasse me fazendo inúmeras perguntas. Fazia tanto tempo que não mexia ali que já não me lembrava das coisas que havia lá.

Destampei a caixa e me sentei no chão, começando a retirar os itens que tinham lá dentro. Não encontrei nada além de algumas fotos antigas, e quando estava prestes a guardar tudo novamente, algo me chamou atenção: era pequeno, de metal e cintilava perante a luz da lâmpada.

Peguei o objeto que estava sob algumas fotos e o olhei mais de perto. "Como pude esquecer?" Ri de mim mesmo ao olhar mais de perto o anel. Ainda me lembrava do dia que dei isso a "ela".