O RETORNO DOS CINCO ANOS
Prólogo – Peçonhenta
Finalmente, após meses de campanha, Raor e seu exército haviam retornado à Casa, em meio a grande festa.
Daror adentrara a cidade junto ao Pai, atrás apenas das histórias sobre bravura e ferocidade que agora o precediam onde quer que fosse.
Em meio às comemorações, contudo, o rapaz fez questão de ressaltar também as façanhas de outros jovens capitães, filhos de Hamur e dos Senhores de outros Clãs – a maioria dos quais tomara o rumo de suas Casas antes de chegar a Or - na campanha com que mais seguras os haradrim deixaram suas fronteiras com Umbar, conquistando e fortificando território suficiente para desencorajar qualquer atrevimento dos corsários pelos próximos anos.
Eram opiniões alimentadas pela vitória, que debochava do excesso de ponderação de Tunir sobre a facilidade com que fora obtida.
O triunfo era tão inebriante quanto o vinho, e a gloriosa cidade de ouro e gemas de Raor se recolheu ao leito embriagada aquela madrugada.
Daror chegou a estranhar quando, após tanto tempo, seu corpo sentiu-se recostar num colchão macio de lençóis limpos.
Ah, aquilo era um perigo, um perigo maior que o de qualquer campanha, pois em meio a todo aquele conforto sentiu que aqueles sonhos o tomariam novamente, já parecia sentir o perfume dela no ar ...
- Com que está sonhando meu maninho?
Daror sobressaltou-se, que merda de guerreiro era ele para não perceber a presença de Darai em seu quarto?
- Ora relaxes – Disse Darai empurrando-o para que se recostasse novamente. – Não se pode querer abraçar propriamente nosso companheiro mais querido depois de tão longa ausência? – sorriu gaiata, abrindo os braços a Daror.
Daror se deixou abraçar. Ela parecia-lhe a encarnação de tudo que amava, a tradição de seu povo, a beleza de sua terra, o espírito indomável de Harad, seu feitiço e seus perigos.
Daror abraçou-a também, com a força daquele amor profundo que era o seu.
Era impossível não rir também, ela lhe fizera falta, e os irmãos se abraçaram longamente.
- Peçonhentazinha, e não é que cada bote seu me sai ainda mais primoroso que o outro.
- Oras, isso é que é um cumprimento para se receber de um irmão que nos deixou tanta saudade – declarou Darai, recostando-se à cama do irmão – Agora deixa de lado as bravatas e me conta tudo da viagem e da campanha.
O sono se fora, ele sentira falta das conversas noturnas, dos segredos, de como riam juntos de tudo e de todos, tripudiando das manias de Terair, da cautela de Tunir, dos primos e primas, dos outros príncipes e Senhores, criando referências que posteriormente só eles dois poderiam compreender, e inserindo-as nas conversas em meio aos outros, acabando por rir sem que ninguém soubesse por que.
- E Ramur, lhe confidenciou se já juntou ouro suficiente para meu dote?
- Rá, e quem disse que será Ramur o escolhido do Pai para ti?
- Por quê? O Pai disse algo a Daror?
Daror riu:
- Não, mas é que tripudia do filho de Hamur, insinuando sempre que tem uma oferta maior do que aquilo que o primo teria para oferecer por ti, rá-rá-rá...
- Tolice, o Pai sabe que Ramur é a melhor escolha.
- É aquele que já melhor controlas, deverias tu dizer.
- Mas nem! É a aliança mais preciosa de nossa Casa, deve ser permanentemente reforçada, até Daror sabe disso.
- Até Daror? Está aí um bom elogio para ouvir da irmã favorita na noite em que voltamos para a casa depois de meses, estamos mortos de sono e ela invade nosso quarto para fazer um interrogatório.
- Êh bobalhão, então não queres saber das escolhas que o pai teria para ti também?
- Escolha de noiva para Daror? Ouviste algo disso? – Daror mal deveria ter tempo para pensar nisso, mas a verdade é que queria muito uma noiva: as primas de sua idade se estavam todas casando, não sobrava com quem brincar – e a ele, no pouco tempo que suas obrigações lhe deixavam, menos ainda.
Fora que suas necessidades de homem não estavam mais a procurar paliativos: queria uma mulher à sua disposição; uma bainha para agasalhar sua espada e um abraço no qual aconchegar-se depois.
- Estou cada vez mais inclinada a indicar nossa prima Atalá, da Casa de nossa mãe, para ti.
- Atalá? Mas Atalá não passa de uma menina boba que te segue por toda parte.
- Vai se tornar uma grande dançarina, faz tudo que digo, e esta aprendendo a tocar dos instrumentos comigo também.
- Pois é o que digo, não passa de uma garotinha que te quer imitar.
Daror era um menino dócil, e acataria a escolha de seu Pai sem pestanejar, acolhendo em seu coração a noiva que este lhe designasse, contudo, não aceitaria que Darai fizesse essa opção por ele, que desse como certo que Raor se guiaria por ela até nisso!
Era tão filho dele quanto ela, se o Pai a ouvisse até para esse tipo de decisão, teria de ouvir a Daror também, e ele diria que tudo que não queria era uma mulher igual a Darai.
Afinal, de que lhe valeria uma imitação da coisa verdadeira, se esta estava fora de seu alcance?.
- Mas nem! Quem é Darai para pretender eleger noiva a Daror? Ainda mais se quer escolher o próprio marido?
- Ora maninho – contemporizou achegando-se – casada com Ramur fico mais perto de ti, e tu precisarás de mim, bem o sabes. – disse correndo os dedos pelos fortes braços do irmão.
- Sua cobrinha louca – Daror a agarrou pelos braços e tomou a direção da porta, pronto a fazê-la correr de seu quarto, antes que não pudesse mais responder por si – para que haveria de precisar de ti, eu que sou teu irmão, se tu te esqueces?
- Não esqueço – agarrou-se a ele – Tu és Daror, filho de Raor, Cão de Guerra de nossa Casa, e partilhamos o mesmo sangue.
Cão de Guerra, fora este o título que o Pai atribuíra com tanto orgulho ao feroz guerreiro em que o filho se tornara.
- O Pai te treinou nas artes da guerra, mas o governar o Harad ensinou a mim, partilha das decisões comigo, e tu, mais que ele, precisará partilhar também, que sei que és de natureza por demais cordata ...
- Achas mesmo, Darai, que controlas o Pai? Que tola és – livrara-se do abraço de serpente da irmã, e afastara as mãos que ela pousara em seu rosto, ainda que a custo.
- Tola? Por te querer ajudar? A ti?
- Podes não acreditar nas minhas capacidades, Darai, ou podes querer me levar a duvidar delas, mas fica certa de uma coisa – eram as mãos dele que acariciavam o rosto da irmã agora, enquanto os olhos de ambos travavam um embate de vontades – se alguma vez precisar de conselhos de mulher, não serão os teus.
- Não é o que os olhos de meu irmão dizem – desafiou ela.
- Mas é o que a razão e entendimento que tenho de ti comandam – confessou em agonia, cheio de piedade pelos dois – Anseias demais ao poder, acima de tudo, e essa obsessão é a que faz os piores conselheiros.
- Tens medo de mim, Daror? – Perguntou sarcástica, sem ouvir a verdade das palavras do irmão, pois só escutava aquilo que poderia servir à sua vontade – Tens medo de tua irmã, de amá-la?
Daror respirou muito fundo, soltando-a e se afastando.
- Tenho pena, pena do homem que se deixar dominar pelo amor a ti. – Queria que ela sumisse, saísse o quanto antes e o deixasse em paz.
Mas algo em suas palavras finalmente atingira Darai.
- Por que dizes isso? Farei muito feliz o homem que me desposar.
- Não, não fará ... a menos que se torne capaz de amar algo além de si mesma.
- Amor? – Darai riu-se, mas nem Daror sabia o que a deixara tão encolerizada a ponto de tremer enquanto procurava manter sua máscara de autoconfiança absoluta – Darei ao homem que me desposar todo o amor de que ele precisará para ser feliz, algo que, infelizmente, tu nunca experimentaras.
- Nem quero! – Ela o atingira de novo – Suma daqui, peçonhenta maldita!
E para sua surpresa, dessa vez ela o fez.
Darai saiu correndo pelos corredores, de volta ao próprio quarto, atirando-se à cama e enterrando a cabeça nos travesseiros.
Ânsia de poder. Incapacidade de amar. De onde Daror tirara aquelas palavras, tão parecidas com as que Ravai lhe lançara ainda outro dia: "Vives voltada para o poder, interessada em questões que não te competem e nunca te competirão ... mas um dia, ele virá, o amor, e te fará submeter-se à tua natureza de mulher, tu verás."
Parecera-lhe quase uma maldição o destino que Ravai lhe predissera.
A mãe tinha ciúmes de si, percebia, e Daror sempre lhe fora o filho favorito, mas a ela coubera o favorecimento do Pai: se Raor não andasse tão ocupado nas campanhas, sempre próximo a Daror...
Distanciavam-se, e já não a sentava aos joelhos para ditar suas sentenças nos Conselhos.
Darai suspirou, virando-se de barriga para cima e ajeitando os travesseiros. Raor dedicava-se ao azáfama de preparar o Harad para a longa viagem ao Norte. Muitos outros Senhores das outras Casas iriam com eles, formando uma comitiva de mûmaks jamais vista. Era preciso deixar líderes de confiança nas Casas do Sul, guarnecer as fronteiras, ressabiar os inimigos ... fora os preparativos da viagem em si. Era isso que ocupava Raor e a mãe no agora, mas quando partissem, Daror ficaria em Or, "governando", e ela seguiria junto aos pais.
Darai riu excitada. Seria ela que viajaria e conheceria as longínquas Terras do Norte, e não Daror.
Haveria tempo e oportunidade para tomar as rédeas do próprio destino nas mãos, e guiá-lo na direção que mais lhe aprouvesse.
Apenas uma coisa a jovem e impetuosa Darai ignorava: o destino era um cavalo imprevisível, e ainda mais indomável do que ela.
