O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 1 - A fuga desesperada

Éowyn cavalgava desesperadamente pelo bosque.

O cavaleiro haradrim, contudo, continuava em seu encalço.

Se fosse antes ela o enfrentaria.

Como os enfrentara junto ao Rei Théoden, seu tio, no dia em que este alcançara a glória de derrubar o estandarte da Serpente Negra, nos campos do Pelennor.

Éowyn ainda se lembrava da ferocidade e violência com que aqueles facínoras combatiam.

A ferocidade e a violência que ela espelhara para vencê-los.

E era exatamente por lembrar-se de tudo aquilo que agora corria tanto.

Se fosse antes, enfrentaria.

Agora, porém, carregava o filho de Faramir no ventre.

E instava seu cavalo a deixar um rastro de ventania.


- Faramir! – Éowyn gritou ao aproximar-se do grupo de homens que abria uma clareira na floresta – Haradrim!

- O quê? – corria Faramir para ajudar sua Dama Branca a desapear, os sentidos já procurando o arco, pressentindo a batalha.

- Haradrim! Bandidos de Harad! Eu os vi, e me perseguiram – desmontou a Senhora de Rohan e Ithílien quase sem fôlego, enquanto seu marido a conduzia para terreno abrigado.

...

Os longos arcos de Ithílien aguardavam os homens de Harad quando o cavaleiro chegou à clareira.

- Pare agora, invasor! – Comandou Faramir à criatura de turbante e véus, da qual mal se divisavam os olhos. – Desmonte devagar e jogue suas armas no chão! – Ordenou-lhe na língua comum.

Pesadamente o corpulento cavaleiro desmontou.

Mas ao invés de dirigir as mãos ao tronco para desfazer-se das espadas, como seria esperado, levou as mãos ao alto, numa posição perigosa, da qual uma faca poderia ser atirada a qualquer momento.

- Filho de um cão – murmurou um dos arqueiros, contido entretanto pelo gesto de seu comandante.

Claros eram os olhos daquele haradrim, que tirou o turbante revelando uma cabeleira de ondas douradas que refletiam o sol.

- Mae govannem, Capitão Faramir, espero que se lembre de mim.

Faramir se lembrava.

Aquela era a senhora Míriel.


- Mae Govannem, senhora Míriel, soube que desposou o Senhor dos Haradrim.

Os homens haviam baixado o arco, e Éowyn surgiu dentre as árvores, curiosa, aproximando-se de Faramir e recebendo o doce sorriso reassegurador do filho de Denethor. O que significava aquilo? Como podia um cavaleiro daquele porte ser uma mulher?

- Desculpe se a assustei, senhora - tomou as rédeas da conversação uma ofegante Míriel, segurando com um das mãos o ventre proeminente, enquanto com a outra buscou o necessário apoio para sentar-se num dos grossos troncos que tomavam a clareira recentemente aberta pelos homens de Faramir – mas, fugiu ao nos encontrar caçando, e ... eu – Míriel sentia mais dificuldade para respirar à medida em que o coração desacelerava – quis logo desfazer qualquer mal-entendido ... – Míriel abanava-se com o turbante.

- Tome fôlego, senhora, vamos lhe providenciar um pouco d'água – Faramir vencera a distância entre eles, e agachara-se frente a Míriel. – não deveria cavalgar dessa forma neste estado.

- Tampouco sua senhora deveria fazê-lo, capitão – sorriu Míriel – acho que fomos afoitas as duas.

Éowyn enrubeceu, como aquela mulher percebera? E como sabia que ela era a esposa de Faramir, se não se lembrava de jamais terem sido apresentadas?

Muitas perguntas e bem pouca boa-vontade para com as prováveis respostas passavam pela mente da Senhora Éowyn, enquanto o Capitão Faramir, solícito, estendia o copo rústico que lhe chegara às mãos à senhora com trajes de homem de Harad.

E a pouca boa-vontade da Senhora Éowyn se transformou em absolutamente nenhuma ao ver Daror chegar à clareira com um grande contingente de seus homens, em muita superior ao grupo de Faramir, que, aliás, postara as armas e a atenção de lado ao atender aquela estrangeira, e agora via-se cercado e em desvantagem.

...

- Daror – chamou Míriel – este é o Capitão Faramir, um dos grandes de Gondor.

Daror, único de seus homens a trazer a cabeça descoberta, no que sua aparência bárbara só ressaltava, dirigiu-se para junto de Míriel, batendo no peito com o punho direito fechado, num cumprimento haradrim de grande deferência para com Faramir.

Este realmente só podia ser o grande Daror de Harad, pensou Faramir, e fazia jus ao título.

O bestial condutor da maior das bestas que tanto mal inflingiram aos rohirim nos campos do Pelennor, reconhecia-o Éowyn.

- Parece que a bela moça ficou com medo de meus homens, mas não fazemos mal a mulheres, pode dizer-lhe.

- É sem dúvida a nobre esposa do Capitão Faramir, de quem muito ouvi antes de me casar contigo, Daror, e veja, também está a esperar um filho – acrescentou rápido Míriel, torcendo para que o marido não dissesse alguma impropriedade na língua comum.

- Ah! Pois que seja abençoado – redargüiu Daror, tocando-lhe o ventre no costume de seu povo.

Éowyn sobressaltou-se, buscando recuar com o corpo ao toque daquele homem perverso, no que, entretanto, foi impedida pelo braço de Faramir em sua cintura.

- Que seja abençoado o seu filho também, Daror de Harad, o que faz aqui com seus homens, permita-me lhe perguntar.

-Viemos cumprir o que prometemos ao Rei de Gondor e reapresentar nossas esposas ao final de cinco anos, boa caça é o que buscávamos para elas nestes bosques.

- Ithílien vem recebendo colonos, Senhor Daror, portanto qualquer caçada deve ser feita com a devida cautela, no entanto cabe observar que cinco anos da partida dos haradrim já se passaram: há mais de seis anos que os caminhos do Norte e do Sul se cruzaram.

- Tudo isso? – questionou Daror, cujos anos mediam-se pelo suceder das estações, e não por um calendário fixo – Atrasa-mo-nos então.

- Tivemos uma série de contratempos, realmente – acrescentou Míriel – senão não viajaria pesada assim – e fez um gesto como que para expor o estado do próprio corpo.

- Gondor, todavia, já cogitava em tomar alguma providência, urge, portanto, que lhe envie mensagem de sua aproximação, e é o que farei agora – deliberou Faramir. – Contudo, apesar da humildade das instalações transitórias que improvisamos enquanto não nos estabelecemos melhor aqui, gostaria de convidá-los para partilhar de nossa mesa esta noite. – Acrescentou naturalmente, com sua fidalguia inata.

- Será uma honra e um prazer – despediu-se Daror com um gesto que dessa vez saiu de seu peito e abriu a mão no ar, conduzindo Míriel a subir novamente ao cavalo, cujas rédeas saiu puxando, em direção aos seus.

...

- Gostei desse sujeito – comentava com a amazona – vê-se que é um homem de grande valor.

- Acho que também ele simpatizou conosco – observou Míriel, a quem a grandeza e abertura de espírito de Faramir faziam-se definitivamente uma certeza.

Ao contrário do espírito palpavelmente fechado de sua esposa – suspirou mentalmente – Muito mais semelhante ao que provavelmente encontrariam por todo o Norte.