CAP 3 – Do Retorno ao Pelennor

A chegada dos mensageiros de Faramir a Minas Tirith tirara um grande peso dos ombros do Rei Elessar.

Não lhe interessava, de forma alguma, embarafustar-se pelos ermos do sul, para tanto mobilizando homens e recursos escassos, em busca de súditas que, afinal, haviam partido para o Harad de livre e espontânea vontade – e com sua aquiescência!

Uma vez que as informações de Faramir davam conta, porém, de que a prestação de contas dos haradrim apenas se atrasara – e relatava ainda o príncipe de Ithilíen que ao, por fim, alcançarem os limites de seu reino, demonstravam estes, por seus atos, grande disposição de boa vontade – pôde o Rei do Ponente, aliviado, voltar-se para outras campanhas

Pois, embora Sauron tivesse desaparecido, os ódios e maldades semeados por ele não haviam morrido: era preciso subjugar muitos inimigos, antes que a paz da árvore branca pudesse florescer.

- Partirás de novo, então, esposo? Tão próximo o inverno? – perguntou Arwen.

- Senhora minha – beijou-lhe as mãos Aragorn – Não me peça para ficar, ou ficarei ...

A estrela de dois povos sorriu-lhe em resposta.

Ele nunca ficara quando era necessário partir.

E nunca ficaria.

- É exatamente no inverno que os camponeses de Rohan tem-se visto atacados, quando a fome dos bandos desgarrados em que se tornaram os antigos aliados que Saruman atiçou contra as forças do Rei Théoden, bárbaros das colinas e pastores da Terra Parda, lhes suplanta o medo.

- Mas, se o Rei Elessar e o rei Éomer sabem que é a fome que os move, não haveria outro meio, mais generoso que a força, de restabelecer a paz na região?

Brilharam no amor profundo que nutria pela esposa os olhos de Aragorn, ao reconhecer nela, mais uma vez, a nobreza de espírito, a grandiosidade da mais elevada dama da Terra Média.

- Senhora minha – beijou-lhe as mãos – há circunstâncias em que, mesmo para ser generoso, é preciso estar numa posição de força. Certamente é o que Éomer pretende alcançar, mas para isso, necessita de um contingente cuja supremacia desencoraje de vez o enfrentamento e imponha a ordem, é por isso que vou.

- E, se os sulistas vão ajudar a Faramir, também não devem chegar aqui antes de transcorrida mais da metade do inverno. Marcarei Conselho com os capitães da Terra Média para essa época, quando estarei de volta, acompanhado de Éomer.

Arwen continuava a sorrir, ouvindo-o.

Mas era triste o sorriso da Estrela..


Muito antes do suposto pelo Rei Elessar, contudo, os haradrim chegaram ao Pelennor, pois, em uma semana, seu mûmak adiantara o serviço dos homens de Faramir em vários meses.


Cinco não, seis anos para mais se haviam passado, contudo, os vestígios do acampamento antecedente dos haradrim no Pelennor, além do rio, ainda podiam ser percebidos.

Longas pegadas de olifante transformaram-se em poças, e a área onde os grandes animais haviam sido guardados, verdadeira lagoa.

Tudo coberto por finíssima camada de geada, ao alvorecer da manhã em que os haradrim finalmente chegaram.

- Que merda! – Praguejou Daror.

Que merda de lugar úmido.

Que merda de frio gelado.

Que transtorno montar acampamento num local assim.

Homens em campanha enfrentam qualquer intempérie, porém Daror trazia consigo famílias, mulheres gestantes, crianças pequenas ...

- Que merda! – repetiu. – Tunir, toca com Mariän para a cidade enquanto descarregamos os animais e as carroças e traz-me um grande carregamento de tábuas de madeira, para podermos fazer forro sob as tendas.

...

- Sinto muito, Daror – começava a explicar Mariän – mas o preço que nos fizeram era extorsivo e...

- Arre! Mulheres! Mandei comprar madeira, pouco me importa o preço!

- Pois deveria importar, senão vais deixar toda a riqueza do Harad nas mãos dos mercadores de Minas Tirith sem levar quase nada em troca.

- Barganhas com os comerciantes porque tu mesma és uma deles, mas Daror não é.

- Pois sou mesmo! E, se interessa ao Grande Daror, trouxe uma quantidade de palha que fará o mesmo efeito isolante sob os tapetes das tendas, a um custo infinitamente menor, mas se quiser a devolvo e fico por aqui, se minhas prendas de mercadora não são bem vindas entre os haradrim!

- Arre! Que brava! Podes deixar da palha aí – redargüiu Daror, logo se voltandoe para Tunir, a acrescentar – e tu, imprestável, vê se honra essa mulher direito, que parece uma potranca nervosa!

- Mas nem! – Riu-se Tunir, absolutamente tranquilo quanto ao desempenho dos próprios deveres maritais para com a esposa que, se encontrara em si desenvoltura suficiente para enfrentar Daror, perdera toda a restante ante a observação jocosa do gigante de Harad, e agora fazia-se rubra como os rubis da primeira Casa.

...

- Mas nem! Como podes tolerar que Daror faça esse tipo de insinuação?

- Mas nem, Mariän, ainda que Daror falasse sério, não te conhecem como eu, mulher bravia – e Tunir descerrou a entrada da tenda na cara de seus filhos e enteados: que os mais velhos tomassem conta dos mais novos, e fossem todos buscar trabalho na montagem do acampamento.

- Se te ponho mansa quando quero – sussurrou-lhe ao ouvido, num tom de voz grave, belas palavras do idioma do Harad, com seu erre arrulhado e seus emes sonantes

– Tu és a rosa, de meu jardim a flor formosa ... – murmurava, o hálito próximo já deixando-a morna, arrepiando-se, os olhos revirando nas órbitas.

Pois só ele a conhecia, nas noites em que a tenda finalmente dormia, e os amantes despertavam discretos, a acariciar-se em silêncio, a unir as bocas em gritos mudos e a pertencer-se por completo.


Assim armou-se o acampamento do retorno no Pelennor, e nas tendas de Daror, aquecidas por braseiros, as mulheres puseram-se num azáfama de preparação para o reencontro com Minas Tirith, gratas pelo calor que ali encontraram para si e para seus filhos, descosendo de três vestidos de Míriel para fazer-lhe um.

Veludo verde, veludo vermelho e seda verde formavam a esdrúxula combinação com a qual ela se dirigiria à cidade. Não só porque eram dos mais quentes trajes que lhe restavam, quanto também porque a mistura de cores era a mesma presente no colar, nos brincos e nas pulseiras com as quais Míriel se apresentaria ao trono de Gondor, em embaixada preparatória ao encontro entre Daror e o Rei Elessar.

Míriel gemeu ao sentir o peso com que faziam pender seus lóbulos os brincos que ali colocara.

Mais adequados às orelhas de um mûmak, pareceram-lhe, como mais adequado ao pescoço de um mûmak lhe parecera o colar. Peças formadas de grandes placas redondas de ouro maciço, cada uma contendo em seu centro imensos rubis e esmeraldas.

- Ai, Daror, tem paciência, isto pesa!

- Mas decerto que pesa, é ouro!

- Daror ... – Míriel procurava por uma palavra, mas não havia outra – é ... é feio.

- Feio? Feio! Feio, Míriel, é uma mulher andar despossuída, como se seu marido ou sua Casa fossem pobres e fracos, desprovidos de riqueza para adorná-la! Agora tu, que fazes tanta questão de dizer que és uma mulher do Harad, mais que qualquer outra devias me poupar de humilhação e tornar visível meu poder, manifesto na riqueza com que te posso cobrir!

Tão ofendido fora o discurso de Daror que afinal Míriel se convencera.

Crescera apreciando peças delicadas de artistas de cepa numenoriana, enquanto os artesãos de Harad criavam peças rústicas, largas e suntuosas, cujo sentido finalmente apreendera.

Era a mulher de Daror – suspirou – e o testemunho ambulante da prosperidade de seu reino – pensou – e isso estava bom.

Infelizmente, inclusive, bem que o tamanho daquelas joias condizia com seu porte atual – refletia desgostosa ao subir no coche conduzido pelos filhos mais velhos de Mariän pelas ruas da Cidade Branca em direção ao Palácio.

Nem por um decreto se disporia a locomover-se a pé por aquelas ladeiras em seu atual estado.

...