O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 4 – O CONSELHO DOS HARADRIM – Parte 1

...

O clima gélido dissuadia assembleias ao ar livre, e mesmo a guarda do acampamento era prestada sob alguma cobertura – e sob as pragas dos jovens sempre designados para os ofícios que lhes pareciam piores, debaixo do jugo de um Terair pior humorado ainda que de costume ...

Portanto era na tenda maior de Daror que se reuniam, este, Míriel, Tunir, Mariän, Ramur e os pais das Casas do Norte do Harad, Cassor e Nasser - únicos dois grandes senhores que haviam desposado mulheres de Gondor, além do próprio Daror - uns em pé, outros sobre os tapetes, outros ainda em assentos.

- Se o rei não está na cidade, então não há muito que fazer. Míriel presta contas das mulheres a representantes do trono enquanto Mariän negocia os animais que viemos comprar e vamo-nos embora deste frio maldito de volta para Harad.

- Mas aí é que está, Daror – ponderou Mariän – pelo preço que aqui encontramos, nem um terço dos animais que precisamos conseguiremos; e Harad ainda terá que escolher entre o gado que alimenta e os cavalos que formam forças.

- Quanto a isso, Mariän, teremos que nos contentar com o leite e a carne de nossas cabras, é o que dizemos os senhores de Harad.

- Mas mesmo neste caso, Daror, os cavalos que estive vendo já conheceram melhores dias e não são investimento para o futuro.

- E não te esqueças de mulheres, Daror – interveio Ramur – Centenas de rapazes da Casa de Hamur acompanham-me em vista de noiva.

- Mais da metade rapazolas que poderiam bem aguardar mais cinco anos. Teu pai está pretendendo mais do que aquilo com que pode lidar, casando todo e qualquer varão da Casa agora.

- Todos foram às minas e provaram o valor de seu trabalho pagando tributo ao Pai e fazendo dote para o casamento.

- E bem rico aqui te encontras agora graças ao ímpeto dos filhos da Casa de seu Pai, hein?

- Daror não está para falar de Hamur quando o que faz é o mesmo!

- Daror rico, Harad rico! E Daror só junta para gastar!

- Senhores! Senhores! – interveio Mariän – isto ... isto é parte do problema: não negociam preço, ofertam a aquilo em que ainda nem foi posto valor, ostentam e se vangloriam da riqueza. Nada disso faz bons negócios!

- Arre Tunir! Já disse que precisas de por esta mulher menos inquieta! – Voltara-se Daror da altercação com Ramur, e agora ria-se das faces coradas de Mariän.

- Agora escuta, Mariän, o que estás a dizer é que o mercador cobra além do que sua mercadoria vale, e não faz desconto pela necessidade de quem precisa, muito ao contrário – voltou-se-lhe então inteiramente Daror, com voz de uma paciência inesperada naqueles dias frios e sem sol que tanto irritavam os de Harad – o que é algo que Daror não ignora, embora nisso não veja justiça. Quando digo, contudo, que Mariän pensa como mercador porque tem sangue de mercador, Daror não a quer ofender, apenas não pode observar somente a isso.

A essas palavras, Mariän franziu o cenho; não tanto por desentendê-las, muito mais por perceber-se alvo de tanta atenção em meio a um círculo de grandes.

Sobretudo atenção de Daror, que então, como às vezes, dirigia-se a ela com um tipo de deferência condescendente, da qual muito desconfiava.

- A questão, Mariän, é que, enquanto observas o mundo com teus olhos de mercador, Daror o faz com o olhar de um guerreiro, compreendes?

Mariän, incerta, fez que não com a cabeça, e Daror, divertido, perguntou-lhe.

- Mariän acha Daror grande e forte?

Onde Daror estaria querendo chegar com aquela pergunta?

- Acha, Mariän?

- Sim, por quê?

- O guerreiro maior e mais forte que já viu?

Mariän cruzou os braços. Daror iria fazer mais alguma pilhéria com ela, conforme seu humor grosseiro.

E quanto mais séria Mariän ficava, mais divertido parecia Daror.

E, por uma fração de um instante, Mariän viu em seus olhos que a avaliava como mulher.

Apenas por uma fração.

Até que, sorrindo, Daror indagou:

- Mariän tem idéia de quantos embates Daror venceu sem necessidade de esforçar-se ao lutar, às vezes mesmo sem qualquer luta, pelo simples fato de que seus oponentes acreditaram que não o poderiam enfrentar?

- Muitas, Mariän, muitas. E assim é também entre os povos, as nações e os exércitos, como entre os predadores e suas presas: não se hesita em atacar o que se identifica como fraco, mas ao que aparenta ser forte, sempre se respeita.

Bem ... aquela havia sido toda a estratégia das mulheres que defenderam o Sür: disfarçar-se de homens de Harad e fazer do temor a eles sua grande arma.

- E riqueza e poderio caminham juntos, nas terras do Norte como nas minhas, ou não?

Em tantos aspectos da vida aquilo era verdade, que Mariän não pôde deixar de aceder:

- Entretanto, se a riqueza que custou tanto aos filhos e aos Senhores de Harad angariar for mal aplicada, ficarão sem nem uma coisa nem outra.

- Lá isso é verdade, Daror – ponderou Nasser, Pai da maior das duas Casas do Norte do Harad, que regulava em idade com Tunir, e como este era mais judiocioso que chefias mais jovens, como as de Ramur (cada vez mais delegado de responsabilidades pelo velho Hamur), Cassor, ou do próprio Daror. – Parece, entretanto, que a mulher de Tunir não insistiria nessa questão se para ela não tivesse resposta, nem?

E mais que antes as atenções voltaram-se para Mariän.

- Podemos buscar gado e cavalos na terra de Rohan, aquela que fica ao norte de Gondor e foi atravessada por Daror ruma à Torre Alagada em que jaziam suas parentas.

Daror fixou com grande interesse o teto da tenda por alguns momentos, antes de responder, com certa irritação:

- Mas naquela ocasião os haradrim tiveram a permissão do Rei de Gondor para empreender tal viagem, e ele não está aqui para dá-la agora, ainda mais que desta vez nossa justificativa seria bem outra.

- Não falo em ir com os haradrim até lá, mas eu sou uma mulher de Gondor, e não encontraria interdito nessa estrada.

- Tu? Sozinha? Nem se Tunir deixasse, Daror não permitiria isso, que uma mulher de minha Casa seguisse desprotegida pelos caminhos.

- Nesse caso, Tunir e nossos filhos poderíamos ir juntos, bastava que não seguissem com a indumentária de Harad.

- Arre! E seguirá um capitão de Harad com trajes de camponês ou mercador? – mas, ao olhar de Daror, Tunir simplesmente deu de ombros – Tu vales mesmo teu peso em ouro, mulher, se pões o homem para te acatar assim ... Mas, ainda que fossem contigo, Mariän, Tunir e os rapazes, e ainda que um tal grupo, por pequeno, conseguisse atravessar tal imensidão disfarçado e despercebido, ainda assim seriam poucos para conduzir a tanto bicho para cá. Para tanto tu precisas de um contingente de homens bem maior, e com ou sem eles, a vinda de tais rebanhos até aqui não passaria despercebida pelo Rei de Gondor, e não sei se ele teria boa vontade para com isso, se com tal seria dos mercadores dele que estaríamos deixando de comprar, e se até para caçar em Ithílien queriam que pedíssemos permissão, não fosse a cordialidade do príncipe Faramir.

- Daror, trazer os rebanhos para cá é coisa de que me desincumbo – afirmou Mariän – e, se necessário for, sem dar a perceber que qualquer de Harad pisou além do Pelennor.

- Mariän, Mariän ... e quanto tempo vai levar isso?

- Uhm ... ao menos três meses

- Três meses? Queres que passe o inverno todo aqui, nesse frio maldito que já começa a adoecer as crianças?

- A pressa faz tão bons negócios quanto a ira faz boas obras, e boa parte das mulheres pode encontrar melhor abrigo na Cidade Branca, junto a suas famílias.

- Mas isso é que não! Que marido há de permitir à mulher quedar-se longe? Que pai há de querer suas crianças apartadas de si?

- Todos aqueles que não derem conta de crianças presas em tendas montadas sobre um lamaçal! E porque os maridos também não posam na casa dos sogros e cunhados, junto às esposas?

- Teu marido foi bem recebido na casa de tua família?

E a esta pergunta, finalmente Mariän ficou sem argumentos para submeter a uma ponderação de Daror.


Mariän encontrara a cunhada, os sobrinhos e a mãe residindo numa casa menor do que aquela que um dia possuíram, mas ampla, arejada e em bom estado de conservação. O filho e a filha de seu falecido irmão haviam desabrochado numa juventude de quem não conhece privações, a viúva deste dispunha de uma criada para ajudá-la nos cuidados da casa, e mesmo sua mãe parecia estar gozando de uma saúde melhor do que quando a deixara.

Nenhum comentário de gratidão ou de reconhecimento por esse bem estar, propiciado pelo dote pago por Tunir em Mariän e convertido por esta numa renda que era o que certamente provia todo aquele conforto foi, contudo, ouvido, quando os visitaram.

Já nos portões de cada nível da Cidade, ao subir, houve questionamento sobre os tantos homens de Harad a acompanhá-la, e foi preciso que mostrasse que destes, dois, Maxel e Danael, apesar dos trajes de Harad, eram filhos de Gondor, que os outros dois jovens eram seus enteados, que o homem era seu marido, que eram uma família, que tinham vindo tantos até para lhe ajudar com os presentes e com os filhos pequenos, e que todos, principalmente o mais forte e de olhar mais penetrante, entendiam da língua comum o suficiente para avaliar o respeito, ou a falta de, com o qual estavam referindo-se a eles.

Mas, se Mariän era firme e assertiva, bem como Tunir excepcionalmente paciente e controlado para um haradrim, muitos dos casais formados por mulheres de Gondor e homens de Harad não partilhavam dessa mesma fortuna. Muitos homens recusaram-se a cruzar os Muros de Minas Tirith ao serem instados a deixar suas armas sob guarda, dos quais uma boa parte proibiu a esposa de agir diferente.

Chegara-se a um ponto onde a quantidade de homens de Harad permitida a estar na cidade por vez, era controlada no primeiro portão.


- Arre! Pois agora é Daror que proíbe aos haradrim de ir ter num lugar onde não são bem vindos!

Tal sentença, por sua vez, gerou outros problemas, pois se eram propriedade dos homens de Harad, suas esposas eram haradrim também.

- Apenas os varões estão proibidos de ir.

Mas os filhos adotivos dos haradrim também eram varões.

- Apenas os varões nascidos em Harad.

Mas havia vários meninos nascidos em Harad que as mulheres queriam apresentar aos avós e tios de Gondor.

- ARRE! Vão todos ... Ôh Míriel, resolve isso que minha paciência já se esgota! – Praguejou Daror, tão atordoado com o zunir das mulheres que se retirou da tenda para o tempo frio, decidido a inspecionar a guarda e atazanar Terair com os defeitos que fez questão de encontrar na disposição da mesma.

...

O que as mulheres queriam era uma ponte entre dois mundos, o de suas famílias de origem e criação, em Gondor, e o de sua escolha e realidade, junto aos maridos de Harad, pensou Míriel, sem nenhuma vontade de pretender o mesmo.

- Da alçada da mulher são os filhos de menos de cinco anos, e a disposição do homem não pode impedir a vontade dela por ocasião do retorno, quando as mulheres podem ir, vir e decidir. – sentenciara a Leoa.

E se alguém quis questionar tal sentença, sentiu o peso da mão de Daror, afinal mais formado para os embates do que para as palavras.


Era no contexto desses acontecimentos que se amparava a pergunta de Daror.

- Teu marido foi bem recebido na casa de tua família?

Não o fora.

...

Maxel e Danael, foram recebidos com indisfarçável emoção pela avó, e com alegria pelos primos, e foi aproveitando-se da situação, que Mariän fez chamarem Tunir a entrar na Casa, para apresentar os dois pequenos.

Sulir e Sufir, de cinco e três anos, entraram no lugar estranho nos braços do pai, e dali foram postos pela mãe no colo da avó.

A mãe de Mariän lhes apertou as bochechas, dizendo que eram iguais às da filha na mesma idade.

Mas não havia laços afetivos entre a idosa e aqueles novos netos, saídos da carne de um estrangeiro bárbaro.

Mariän não era possuidora da maior paciência do mundo, mas esforçou-se para lembrar o quanto a mãe perdera em vida, e como devia ter-lhe exigido trabalho e sacrifícios quando menina, como toda criança acaba por exigir de seus pais.

- Trazemos também alguns presentes; Meran, minha sobrinha, podes pedir a meus enteados para trazê-los, por favor.

Macios tecidos de algodão Mariän tecera à sombra das árvores do Sür, e dariam belos trajes à cunhada e à sobrinha.

- Isto, minha mãe – disse pegando e uma pequenina cabaça – é para passares em suas articulações, creio que surtirá um efeito bastante benéfico sobre suas dores.

- O que é minha filha? Um ungüento?

- Sim, feito da seiva de uma árvore – respondeu, pegando de duas outras cabaças minúsculas, feitas, como a primeira, de nozes de Harad ocas, às quais improvisaram-se tampas de cortiça – também é boa para o cabelo e para a pele – disse estendendo uma para a cunhada e outra para a sobrinha – e até como perfume leve e adocicado.

Meran, agradecida, teve a boa iniciativa então de oferecer de um chá aos visitantes, enquanto Mariän perguntava ora à cunhada, ora ao sobrinho do que se passara com eles durante aqueles quase sete anos de sua ausência.

As respostas secas que obtinha, entretanto, não levavam ao entabular de uma conversação.

Ninguém dirigira uma palavra a seu marido pois, da forma como este a acompanhara até ali, pelo jeito não havia pensamento de separação entre aquele casal, o que significava que não havia perspectiva do pagamento de um segundo dote em Mariän ...

As pessoas realmente não a surpreendiam.

E nem seus pequenos, que, perdendo da timidez inicial, já davam mostras de que iriam começar a mexer no que não deviam.

- Bom, acho que já é hora de pensar em irmos, há muito que fazer e os caminhos até o acampamento estão demorando boas horas para serem percorridos de carroça.

- Oh, mas e meus netos? Deixe-os aqui conosco, filha.

- Maxel e Danael tem obrigações de rapazes dentre os haradrim, mãe, mas voltaremos todos sempre que pudermos.

- Ah sim! Voltem logo, todos – dissera a entusiasmada Meran, perceptíveis suas trocas de olhares e sorrisos com Sendir, o filho mais novo de Tunir, soando entretanto como uma voz solitária.

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