O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 5 – O CONSELHO DOS HARADRIM – Parte 2

- Vê, Mariän – redargüiu Daror ante o silêncio em que conseguira colocá-la – não somos bem vindos aqui, e não devemos nos delongar, logo os rapazes estarão arrumando confusão e, embora fosse meu desejo que os acontecimentos se desenrolassem de uma forma diferente, se o que o destino está colocando ao nosso alcance agora são esses cavalos velhos de que você está falando, ao preço extorsivo que essa tua raça de mercadores cobra, é disso que terei de me valer. Voltaremos às minas, juntaremos mais ouro, e aí tu encabeçarás uma caravana de comércio, sem tanto pirralho, tanto mulherio, tanta confusão e tanto frio à volta, que me diz?

Nem mesmo a ponderada Mariän poderia deixar de se sentir lisonjeada com, mais do que a consideração de Daror em lhe justificar suas decisões, a extrema confiança em sua pessoa e em sua capacidade externada naquele projeto futuro, a ser encabeçado por ela, segundo as palavras do Pai de Harad.

- Serás minha Capitã de Comércio, que achas?

- Ôh Daror, desde quando já se ouviu falar nisso?

- Desde que, definitivamente, rompemos com os cães de Umbar, que apesar de toda cobiça e traição que os haradrim nunca ignoraram, constituíam o único mercado que dava acesso ao que o Harad não provê, e depois que varreram nossa terra como uma praga, destruindo cada jardim, campo arado, criação e pomar, ainda mais.

- E desde quando Daror acha que os Senhores de Harad colocarão toda sua riqueza, tão escassa após essa pilhagem, tão árdua de ser reconstituída, nas mãos de uma mulher? – redargüiu Ramur

- Arre, Ramur – interveio Nasser, ante os olhares beligerantes que Daror e Tunir lançaram ao interpelado – todos que a conhecemos botamos confiança à mulher de Tunir.

- Ramur não bota menos, pois mais que à sua mulher, conheço a Tunir – contrapôs o filho de Hamur – mas e os que não a conhecem? Os tradicionalistas senhores do Sul do Harad? Os guardiões do cinturão do Haradwaith? O Harad é constituído de doze Casas, não responde a um só Senhor.

- E te deram procuração, os Pais das Casas, para falares por eles? – levantou-se Daror, pronto a bater-se contra aquela dissensão ainda em seu nascedouro – Hein?

- Não, Daror – sacudiu a cabeça Ramur, incapaz de assumir outro tom que não o de irônica condescendência – deram-na a você, seu cérebro de mûmak.

- Quê?

A reunião demorara a virar uma conflagração, era o que pensava Míriel: que Daror tinha que tratar a Mariän com aquelas deferências? Se dissesse que mandaria a Tunir, acompanhado da mulher em missão de comércio após a agregação de mais haveres para as trocas, a resistência seria bem menor que a que criara tratando a outra de Mariän para cá, Mariän para lá ... Agora todos os presentes estavam tendo que se interpor entre Daror e Ramur, antes que este fosse partido ao meio por aquele.

- Se não é tolo está se fazendo passar como se o fosse. Os Senhores de Harad confiaram sua riqueza a VOCÊ, Daror, - apontava-lhe o dedo Ramur - para ser utilizada AGORA, na formação de forças e criações e famílias de que precisam AGORA, não daqui a cinco anos ou quando, entre um bebê e outro, for conveniente a uma mulher viajar, ou à Primeira Casa.

- Tolo sem tradição é você, que me desacata quando seu Pai mandou-o vir sob o meu comando e proteção!

- Êh Daror! Êh Ramur! – tentava intervir Nasser – estão ambos certos e estão ambos errados, vamos conversar, Harad não está preparado para uma guerra entre vocês ...

- É apenas por respeito ao velho que não te quebro agora.

- Experimenta, Daror, experimenta – fora Ramur que vencera a distância entre eles – Bem poucos laços unem nossas Casas atualmente, e quando o saudosista do meu Pai se for, presta atenção Daror, porque tua Casa pode ficar sem a aliança da minha.

Tunir, Nasser e mesmo o forte e jovem Cassor eram poucos para manter àqueles dois afastados, e se não fora a pesada Míriel a se interpor, ambos teriam chegado às vias de fato.

Mas nenhum haradrim se bateria havendo uma mulher prenha no meio.

E Daror teve que engolir seu orgulho, pois claro que levaria a melhor num embate com Ramur, e claro, também, que isso deixaria o acampamento em pé de guerra.

E posteriormente o Harad, provavelmente, pois Ramur era príncipe e herdeiro da Segunda Casa.

Daror não queria arriscar dano ao filho de um tio querido como Hamur, aliado tão fiel de seu pai.

E não deveria ver-se em desacordo com o futuro Senhor de uma Casa tão poderosa e vizinha à sua.

Por fim, então, suspirou.

- Toda mulher disponível de minha Casa, Ramur, está e estará à disposição de Tua Casa, sempre. – Sentenciou, para grande espanto de todos os presentes, já preparados para uma briga das boas.

E, se um Senhor grande como Daror podia colocar os interesses de seu povo acima da própria vaidade, Mariän também podia.

- Daror, Senhor do povo que escolhi, seria uma honra além do que jamais sonhei, carregar dos estandartes do Harad como sua enviada em missão cuja importância talvez só quem tenha sangue de mercador possa aquilatar, mas...

- Arre! Mulheres! Tem sempre de haver um mas – interveio Cassor, dissipando com o gracejo a atmosfera ainda há pouco carregada da tenda

Riram os senhores, embora Míriel e Mariän tenham observado que Ramur não rira, dia a dia mais taciturno.

- Mas o quê? Fala mulher de Tunir – interpelou entre risos Nasser, Chefe habilidoso, aliado inconteste de Daror, mentor de Cassor e amigo pessoal de Tunir, tendo ambos se iniciado juntos nas campanhas de Raor e Terair.

- Mas, se pagarmos agora o que estão exigindo pela mercadoria que nos estão oferecendo, jamais conseguiremos bom preço pelo que quer que seja no Norte, não importa quão fundo nele uma caravana no futuro possa mergulhar, pois a notícia se espalhará, e os mercadores de todo o lugar combinarão preço e amarrarão a si os fornecedores através de empréstimos.

Mariän parou para tomar fôlego ante os sobrolhos turvados que se voltavam para ela. Será que estavam alcançando aquilo que explicara, aqueles senhores guerreiros do primitivo Harad?

- Mariän, Mariän, do que estás querendo me convencer, mulher ... três meses confinados num acampamento gelado, sem guerra, sem labuta e sem nem festa, só esperando, vai enlouquecer os homens e rapazes, são quase um milhar.

- E precisam de mulher – murmurou Ramur.

- As mulheres precisam de tempo também, Senhores, mas aqui estarão na primavera, quando os caminhos do Norte não estiverem mais tão frios e a notícia do acampamento dos haradrim houver chegado às províncias.

- E as mulheres da Cidade, como tu? – interveio novamente Cassor

- As mulheres de Minas Tirith já estão comprometidas, a Cidade Branca cresceu em pujança nestes seis anos, agregou muitos que aqui vieram reconstruí-la, e não se encontra mais nela quem passe fome – informou Mariän, prática, objetiva e realista. – São as províncias, abandonadas por esses homens que vieram tentar a sorte na capital, que concentram agora as mulheres sem perspectiva de casamento que podem vir a atender à necessidade dos rapazes de Harad.

- Arre Mariän! Isso está ficando complicado – impacientou-se novamente Daror – E não vejo como as Casas dessas moças vão trazê-las aqui sem a promessa do pagamento de um dote ainda maior do que pagamos anteriormente.

Mariän olhou muito séria para Daror.

Muito séria mesmo.

- Do que Míriel teria a dizer às mocinhas do Norte não sei, mas da parte do que Mariän tiver a dizer-lhes, um grande dote em ouro é algo que as mesmas podem até vir a dispensar.

Mais turvados ainda concentraram-se em Mariän os sobrolhos dos Senhores de Harad.

Realmente não entenderam o que estava a dizer.

A não ser que ...

Estivera a mulher de Tunir a tentar fazer um gracejo?

Mariän não estava sequer com as bochechas rosadas, estava vermelha até as orelhas, ao pensar em como tentar explicar o que quisera dizer.

E já escondia o rosto entre mãos nervosas quando a cristalina risada de Míriel se fez ouvir.

Logo seguida da de Daror.

Por sua vez sucedida pelas de Cassor e Nasser, que em pé ao lado de Tunir lhe batiam às costas.

Tunir era mesmo um homem de grande valor.

Era o que o testemunho de sua mulher diria.

Já quanto ao testemunho da mulher de Daror...

- Rá! Rá! Rá! Deixa Terair ouvir essa ... – buscava o ar Daror, enxugando as lágrimas - Tu és mesmo uma mulher tinhosa, Mariän, e, ouvindo o que dizes sobre as maquinações dos mercadores, creio que não lhes terias menos ardis, que além de negociante és uma bela mulher.

- Mas bem que deixou claro a paga que prefere – riu mais Cassor, batendo novamente nas costas de Tunir.

Foi a primeira e única vez que Mariän emitiu um gracejo entre os haradrim – e talvez em toda sua vida.

Contudo, Daror ainda hesitava. Por todos os motivos que havia exposto – e por uma série de motivos que evitara expor.

- Não me traz bom presságio uma estadia delongada aqui.

- Quanto mais riqueza esbanjar aqui, agora, mais riqueza terás de aqui deixar no futuro, Daror, e isso não está bom. Estarás demonstrando fraqueza ao invés de força, desespero ao invés de determinação, e os mercadores do Norte rirão, dizendo que subjugaram o Harad à sua vontade e à sua sede de lucro.

- Vê – interveio por sua vez Ramur – levantar acampamento e bater em retirada atabalhoados, sem resolver propriamente dos assuntos que viemos tratar aqui, não favorece Harad.

Míriel e Mariän acompanharam o entreolhar de Cassor e Nasser, enquanto Tunir acompanhou a carregada troca de olhares entre Ramur e Daror, até que este por fim suspirou e deu de ombros.

- Bem, Ramur, já que fazes tanta questão de defender as urgências dos Senhores de Harad, parte pelos caminhos com Mariän e Tunir, então, e encabeça o grupo, se tens mais mérito que ela para tratar de negócios.

O olhar crispado de Ramur, ao perceber a armadilha em que caíra, foi o cerne da resposta que ofereceu a Daror.

Havia encontrado um jeito de afastá-lo! Mais uma vez!

- Preparem-se para partir em dois dias, Daror falou - encerrou o gigante de Harad.

Que de tolo não tinha nada.

...