O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 6 – Da partida da Comitiva

- Pode deixá-los comigo, Mariän, leva Danael.

- Estás pesada, e também tens teus afazeres e teus pequenos.

- Há sempre uma que outra mulher para olhá-los.

- Não nesses dias, enfurnaram-se na cidade e no seio de suas próprias famílias que só vão rever de novo daqui a outros cinco anos que passam de seis, se voltarmos.

- Acha que abandonarão Harad? – externou sua preocupação Míriel.

- Não sei ... muitas, quando desacompanhadas dos maridos, encontram calorosa recepção junto a famílias ansiosas por um segundo dote.

- Humf ... – grunhiu Míriel – Não as esclareceste sobre a possibilidade de tornar em renda para as famílias o dote pago no casamento.

- Sim, mas o dobro deste seria ainda melhor; sem contar que boa parte quer mais ver a arca em suas mãos que receber uma mera renda, ainda que vitalícia – explicou Mariän – Acham que vão financiar seus sonhos de grandeza ... eu que não daria tal destino a meu dote, para ser consumido em aventura temerária ou futilidade descabida.

- És mesmo cheia de capacidade ... amiga – disse Míriel, pousando hesitante a mão no braço de Mariän.

Essa voltou-se e sorriu-lhe, reconhecendo que amizade e admiração genuínas entre mulheres era coisa rara.

- Tu também.

- Mas nem ... só se for capacidade de produzir gases.

As duas riram.

- Estás imensa – reconheceu Mariän – por isso deixo Danael. Pode olhar pelas crianças, as minhas e as tuas ... teu parto talvez não demore.

- Ah Mariän – gemeu Míriel – três meses, é certo que meu filho vai nascer em Gondor – reclamou – não queríamos isso.

- Eu ... lamento – assentiu Mariän

- Não lamente, é coisa a que nos dispusemos pelo bem de Harad, sentença de Daror, assunto encerrado.

- Certo.


Assim partiu, na forma de um pequeno e disfarçado grupo, aquilo a que ficara restringida a caravana de comércio outrora proposta por Daror. Reduzidíssima em tamanho, destituída de estandarte orgulhoso e oficialmente capitaneada por outrem.

Oficialmente, que a contenda de Ramur jamais fora com Mariän, a qual pôde dispor de tudo como melhor lhe aprouve: vestimentas, mantimentos, trajeto e cavalos – velhos, mas comprados de lavradores e não de negociantes - ao invés de carroças – que o ouro do pagamento ficaria depositado no acampamento, que ela é que não seria parva de carregá-lo consigo.

Em vestes de camponeses, o bronzeado dos haradrim passaria por resultado de uma vida de labuta ao sol, e frente aos da terra apenas Mariän e Maxel falariam.

Mas mesmo quando apenas entre si, o silêncio era uma constante, junto ao arredio Ramur.

Um rapaz tão bonito, reparou Mariän, era raro que uma pessoa que nunca sorrisse ainda assim parecesse bela. Os cabelos negros e ondulados cortados curtos, os negros olhos distantes, o nariz forte e reto, o porte ereto, a circunspecta masculinidade.

- Ele sempre foi assim? – indagou Mariän a Tunir.

- Assim como?

- Tão ... sério.

- Não.

Ramur fora um dos rapazes mais alegres de que Tunir podia se recordar.