O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 7 - DAS ESPOSAS DE NASSER E CASSOR – Parte1

Embora os haradrim não houvessem encontrado boa recepção em Minas Tirith, suas esposas e filhos pequenos aconchegaram-se no reencontrar de suas famílias. Eram filhas revendo os pais e avós conhecendo os netos, junto às convidativas lareiras de casas bem aquecidas – muitas vezes graças ao dote de Harad ou, quando uma filha partira praticamente à revelia da família, fiada no crédito deste.

As moças traziam, além dos pequenos, outros presentes, tais como tecidos de macio algodão, castanhas, frutas secas e jóias.

Era rara a esposa de um haradrim em cujo braço não tilintassem pulseiras, em cujo dedo não faiscassem anéis, e a uma mãe com a qual tivesse havido uma despedida áspera alguns anos atrás, muitas vezes era ofertado um pedido de desculpas dispendioso, uma muda e sonora súplica de paz.

Não era o que acontecia na casa de Naufelam, que de bom grado casara as filhas com os dois senhores do Norte do Harad e que as recebeu de braços abertos, prodigalizando ele os presentes.

- Papai, que lindos! – exclamavam em uníssono, ao acariciar os alvos casacos de pele que as aguardavam.

- Há mais! Há mais! Precisam ver seus quartos!

- Paizinho, reformou a casa, que linda! – acariciou Alëna o macio veludo dos novos estofados.

- Êh crianças! Vejam onde põem esses pés. Aquietem um pouco e venham conhecer seu avô – chamou Lëana, a mais velha das irmãs.

Netos! Com essa Naufelam não contara.

- Meus lindos, venham cá dar um abraço no seu vô! Sabem o que temos atrás daquela porta? Uma mesa compriiiiiiiiiiida, cheia de bolos, doces, biscoitos e muitas outras coisas gostosas ...


Embora aquele se denominasse o retorno dos cinco anos, no dia de seu reencontro com o pai fazia mais de seis que Alëna e Lëana haviam sido conduzidas por Naufelam, num coche, ao acampamento dos haradrim no Pelennor.

Se Míriel fora a mais nobre e altiva das mulheres de Minas Tirith a encabeçar aquele grupo, Alëna fora sem dúvida a mais bela, com seu rosto angélico que ainda trazia tantos traços de criança.

Ao vê-la, o impetuoso Cassor, então com não mais que dezessete anos, enamorou-se imediatamente.

Já Nasser, com mais que o dobro da experiência do outro, embora lamentando ainda a viuvez da qual só recentemente tomara conhecimento, e mais ainda a perda de filhos e filhas, tanto dos que haviam com ele partido em campanha quanto dos que supusera haver deixado em segurança no Harad, mas premido exatamente por tal circunstância a constituir nova família urgente e a todo custo, ponderou melhor que a moça um pouco mais velha e um pouco menos bonita sentada ao lado da irmã, mostrava-se muito mais sorridente e disposta que a beldade de ar desconfiado.

- Casa tu com ela, oras! Havemos de nos aparentar ainda mais, tio, e próximas elas também poderão ajudar uma à outra.

Bom, nem o tão jovem Cassor desconhecia que todos precisariam de ajuda naquele momento, e mocinhas estrangeiras recém-apresentadas ao Harad mais ainda – embora supusesse que o ardor que se sentia pronto a devotar àquela delicada flor fosse suprir parte daquelas necessidades.

Tal ponderação pareceu, portanto, bastante razoável a Nasser, o qual estendeu sua mão aos olhos brilhantes de Lëana, ajudando-a a descer do coche conduzido pelo pai, para ter seu dote pesado e entregue.

Cassor então dirigira o mesmo gesto aos olhos baixos de Alëna, a qual instada pelo pai, por sua vez viu-se na situação de repetir o gesto da irmã, pousando hesitante os brancos e delicados dedos sobre os dedos rudes e morenos de Cassor.

Ambas as moças declararam aos escribas de Gondor ser de sua vontade que se casavam, constituindo o pai em depositário de seu dote.

Os genros cumprimentaram o sogro e carregaram o coche com as arcas do dote, prometendo, no pouquíssimo que conheciam da língua comum, que honrariam as noivas que ele lhes entregara.

Naufelam então voltara para Minas Tirith, enquanto suas filhas partiram para o Harad...


- Merda! – praguejava Míriel baixinho.

Daror estava a delongar-se pelo acampamento, e ela presa a cuidar das crianças.

Naraor apenas fungava de vez em quando, mas Batiá tivera febre duas noites seguidas, e agora era Hadair que não parava de chorar, apontando para o ouvido. Não era à toa que as mulheres haviam-se refugiado junto às lareiras de Minas Tirith: os nascidos em Harad não se entendiam com aquele frio úmido, mesmo as mulheres se haviam desacostumado dele.

Sulir e Sufir também estavam com os narizes a escorrer e, à vista da ansiedade de Míriel, resolveram dar-se a um raríssimo acesso de manha e chamar pela mãe.

Batiá também chamou pela mãe, e até Naraor pediu colo, demonstrando ciúme do regaço em que finalmente o mais novo encontrara algum aconchego, graças à compressa quente providenciada por Danael.

Mariän era uma benção mesmo, previdente em tudo, a valorosa.

- Êh filha, vamos parar com isso agora – abaixou-se Míriel como podia, após haver conseguido que Hadair dormisse e o depositado num ninho de almofadas, próximas ao calor do braseiro – Os irmãos de Danael já pararam, vês? E a mamãezinha deles nem está aqui, como a tua.

- Quero minha outra mamãe – fungou ainda Batiá.

- Tua outra mamãe, Aniá, está e estará sempre contigo: em teus cabelos, em teu nome, em tua dança, que continuarão a ela – tentou consolá-la Míriel – não a sentes por perto quando o sol acaricia tua pele.

- Aqui nunca tem sol! – reclamou Batiá – Mamãe Míriel! – exclamou de repente, abismada – será que nunca mais vai fazer sol?

- Claro que vai, querida, quando voltarmos a Harad, nosso grande Pai, O Sol, vai nos receber com todo seu calor, e nosso espírito sentir-se-á aquecido novamente, podes acreditar.

- Oh mamãe, e porque não voltamos logo? – perguntou Naraor, achegando-se também ao colo da mulher que, nem sabia como, conseguira sentar-se sobre as almofadas.

- Por que está frio demais para viajarmos – respondeu Míriel, congratulando-se mentalmente pela agilidade de seu raciocínio em fornecer-lhe uma resposta que, rezava, não conduziria a mais um porquê.

...

- Batiá chorou pela mãe Aniá ontem – confidenciou Naraor à mãe que acariciava a fronte morena da menina que finalmente adormecera.

- Foi, filho? – o garoto acedeu – Sua maninha estava com febre ontem, sua pele estava quentinha, lembra? O corpo também devia estar doendo, a garganta, os ouvidos ... Batiá é uma valente e não choraria se não estivesse dodói, não é?

- Pediu colo ao vô Terair e reclamou que estava perdendo a tradição dela.

- Oh, isso é grave, não queremos perder nossa tradição, não é mesmo?

- Mas nem, quero iniciar na tradição do embate com meu pai, peça a ele mãe!

- Mas nem, tu ainda estás muito pequeno para essa tradição, nem Daror iniciou-se tão cedo.

- Mas eu quero!

- Êh, tu ainda precisas de crescer e aparecer antes de falar com tua mãe assim ... Agora deita e vai dormir, que preciso ir ter com teu Pai, e então, talvez, eu lhe fale das pretensões de tradição do Senhor Naraor – respondeu Míriel após aconchegar o filho junto às outras crianças, e procurar uma forma de levantar-se, o que, claro, só logrou fazer com a ajuda de Danael.

- Cuida de mantê-los cobertos e aquecidos – disse ao sair.

- Certo! Abençoa-me, Mãe.

- Abençoado seja, filho.

Bem abençoado era como se sentia Danael ao alimentar o braseiro, prestes a dormir numa tenda bem quentinha, ao contrário dos abrigos de guarda, onde os rapazes eram fustigados tanto pelo vento gelado quanto por Terair.

...


Daror bem que preferiria estar no calor de uma tenda

Mas seus homens montavam guarda no frio, e não seria justo que ele não confrontasse a intempérie também.

E nem prudente.

- Essa guarda é inútil! Se as gentes do Norte não nos pretendem atacar, não faz sentido; se pretendem, não lhes conseguirá deter.

A mão de Daror atingiu em cheio a nuca do incompetente vigia falastrão, projetando-o vários metros à frente no terreno molhado.

- Alguém mais quer discutir a utilidade de montar guarda aqui, ou onde quer que seja?

- Não Pai.

- Não senhor.

- Êh Daror, o filho de Minha Casa o desacatou? – surgiu Nasser a perguntar – Quer que o castigue?

- Não carece; que troque essa roupa molhada de lama por uma seca, não quero nenhum desses inúteis insolentes a reclamar amanhã de febres e dores, como mulherzinhas.

- Ai! Ai! – imitou Cassor.

- Ai! Ai! – fizeram coro vários dos rapazes ao que se ia trocar; alguma tosse misturando-se aos risos.

- Venha Daror – chamou Nasser - venha tomar de vinho aquecido em minha tenda.

- Uhnn ... Não sei ... será boa medida bebermos enquanto os moços...

- Arre Daror! Deixa de ser um purgante – admoestou Cassor – já tomou para si a responsabilidade da Guarda mais que qualquer outro, deixa-a ao menos esta noite para Mahor.

- Mas nem! Quem tomou responsabilidade da guarda todas as noites foi Terair, não eu! – respondeu já tomando assento, no interior da tenda.

- E onde Terair está, logo lhe aparece o pupilo, como se quisesse demonstrar a própria tradição – observou Nasser, oferecendo a Daror a taça de vinho quente com canela.

- Rá-rá-rá – riu Daror, aceitando a taça - Achas que preciso de demonstrar minha tradição para Terair?

- Eu não – respondeu Nasser – a questão e se Daror acha.

- Harad! – brindou Cassor.

- Harad! – ecoaram Daror e Nasser.

- Uhm! Muito bom vinho – comentou Daror, aspirando o perfume da canela – E tuas mulheres?

- Enfurnadas na casa do pai há semanas – reclamou Cassor – Eu o proibiria, mas tu disseste que estava bom.

- Êh Cassor – brincou Daror – As filhas sempre visitaram aos pais no costume de Harad, não havia porque ser diferente aqui.

- Êh Daror – caçoou por sua vez Nasser – Não vê que isso é cacarejo de galo novo à falta de sua franga?

- Mas nem! – riu Cassor.

- Mas nem digo eu – folgou Daror – Geme ela como gemeste lá fora: ai, ai?

- Ai, Cassor! – caçoou Nasser mais um pouco.

- Ai! Ai! Cassor.

- E quando disseste na reunião que com mulheres há sempre um mas?

- Mas pára Cassor!

- Mas não faz assim, Cassor!

- Mas chega, Cassor! – riam os senhores do Norte do Harad e seu Grande Senhor, aquecidos pelo bom vinho.

- Bom que finalmente te entendeste com ela – observou Nasser.

- Mas nem – respondeu Cassor – é preciso ... sei lá ... quem entende as mulheres afinal?

- Nenhum – reconheceu Daror – Míriel é uma que ... nem sei ...

- Pois é exatamente o que estou dizendo – o jovem Cassor animara-se, tocado pelo vinho – o homem faz de um tudo, e a mulher não se agrada de nada.

- A mulher de Tunir declarou-se bem agradada – lembrou Nasser

- Rá! Rá! Rá! – gargalharam

- Já a de Daror ...

- Rá! Rá! Rá!

- Daror faz o que pode – ria-se este – de manhã, de tarde, de noite ...