O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 8 – Das esposas de Nasser e Cassor – Parte 2

A ausência de entendimento entre Cassor, o mais jovem dos senhores de Harad, e sua ainda mais jovem esposa, Alëna, ficara patente desde a marcha de volta ao Harad.

Enquanto a irmã dessa, Lëana, era só sorrisos para o experiente Nasser, Alëna vivia de olhos baixos.

- Não quero ... não gosto – chorava às vezes no colo da irmã mais velha.

- Nasser – chegara a pedir-lhe Lëana – será que não podes ... aconselhar ao marido de minha irmã? Entendemo-nos tão bem, eu e tu, não compreendo ...

- Vem cá, mulher – chamara Nasser a sua nova esposa para que se recostasse em seu peito.

- Não podes?

- Êh mulher, um homem não diz certas coisas a outro.

- Mas tu sabes mais que ele.

- Pior ainda ... E se sei, sabes quem me ensinou? A mulher ...

- Ahn ... entendo – murmurara Lëana, desgostosa da menção do marido à primeira mulher, o horizonte que julgava que Nasser avistasse quando seu olhar se perdia ao longe.

- Êh mulher ... Mulher, mulher, mulher ... não te ponhas de costas para teu homem, não me desacates que te castigo – e ele já a virava para si, e já cumpria a ameaça...

...

- Destas coisas, é a mulher que ensina o homem.

- Mas não posso eu falar com Cassor.

- Não, mulher tola, fala com tua irmã, e ela fala com Cassor.

...

- Querida, você tem de dizer para seu marido do que gosta e do que não gosta.

- Não gosto de nada, nada que venha dele e, se pudesse, não queria que me tocasse nunca mais.

- Oh, Alëna, não diga isso.

- Oh, Lëana, porque papai fez isso conosco?

- O quê?

- Entregar-nos a esses ... esses homens bárbaros.

Lëana respirou fundo.

- A idéia foi minha, irmã, eu já estava passando da idade de casamento, e não via boas perspectivas em Minas Tirith.

- Ah, mana, sabe que não foi isso.

- Alëna, que você está insinuando?

- Ele nos vendeu! O pai nos vendeu a esses maridos que não escolhemos!

Lëana suspirou.

- Sim, Alëna, ele nos casou, e em troca encheu as burras de ouro, e, por mim, esse foi um negócio feliz para todos os envolvidos.

- Pois não foi para mim!

- Não foi porque você não quer que seja! Hoje em dia você tem um marido alto, forte, jovem, bonito e rico, um príncipe de Harad, pronto a devotar todo seu vigor em agradá-la, se você lhe retribuir com um sinal, um sorriso, um olhar, um suspiro que seja. E o que você teria em Minas Tirith, se lá tivéssemos ficado? Uma mesa em que havia comida um dia sim, o outro não, presentes que papai nos trazia um dia para vendê-los no seguinte, cobradores à porta ... mais de uma vez olharam para você, Alëna, acho que realmente foi mais feliz que o pai a tenha entregado a Cassor por ouro que aos cobradores pelas dívidas de jogo!

- Não é assim como você está falando!

- É sim!


Somente no parto de Lëana as irmãs se voltaram a ver

- É tão pequeno e tão lindo, irmã – dissera Alëna chorando ao entregar-lhe o bebê, num olhar que implorava perdão em meio ao azáfama das mulheres em torno da cama.

- Tão pequeno e lindo como você foi um dia em meus braços, minha caçulinha – sorriu-lhe docemente Lëana.


Alëna delongou-se o mais que pode no cuidado da irmã e na paixão pelo sobrinho.

- Agora chega, querida, é hora de voltar para junto do seu marido.

- Marido, esposa ... nem usam tais palavras aqui, é homem, mulher ... uma gente grosseira, sem cultura, sem valores.

- Em todas as culturas de que algo nos foi ensinado, um dos valores mencionados foi o da obrigação da esposa para com o marido, e é bem grosseira a mulher que menciona a este ou ao seu povo de forma desrespeitosa. Quer voltar para Gondor e para a vida que levávamos ao lado de papai? Creio que metade do tempo de espera para tanto já correu, mas vá aguardar o restante desse tempo ao lado de Cassor!

- Está me expulsando de Sua Casa?

- Não querida, estou lhe proporcionando a chance de descobrir AGORA que Cassor pode ser um marido maravilhoso, e não numa noite solitária de inverno em Minas Tirith, após seu repúdio, quando então nenhum mimo extravagante e fugidio com o qual papai possa brindá-la a compensará da burrada que está fazendo!

- Que burrada? O próprio Cassor já me disse que não me quer mais, o que, aliás, é bem conveniente a ele, agora que já fez um uso abusivo de mim!

- Que uso abusivo fez Cassor de você?

- Oras, nada, é que eu ... não gostei.

- Querida, se não me contar claramente o que aconteceu, não conseguirei ajudar.

E por fim Alëna relatou a Lëana o que se passara entre ela e Cassor.

E Lëana riu muito, concluindo que o problema que se arrastara por tanto tempo era a combinação de uma mocinha excessivamente romântica com um marido excessivamente afoito, ambos muito jovens e inexperientes.

- A primeira coisa, maninha, é aprenderes a falar a língua de teu marido: nem mais uma palavra na língua comum será pronunciada nesta casa até que tu voltes para a dele.

- Mas ...

- Hum- hum – meneara a cabeça negativamente a irmã mais velha.


E mesmo Nasser achou por bem falar algo a Cassor, depois de todos aqueles anos.

- Devias te aliviar sozinho antes de ter com tua mulher, na tua idade não é mau ...

- Não vou mais "ter" com minha mulher, Nasser, se é o que quer saber, cansei-me dela e ouro para muito repúdio é o que trouxe das minas.

Mas, após haver conduzido Alëna à Casa de Cassor, Nasser achou por bem de lá quedar-se, inspecionando os entornos, cuidando de cursos d'água, de fortes, de colheitas...

...

Uma flor de jasmim, Alëna encontrou sobre seu travesseiro, onde há tanto não repousava.

...

O perfume da mulher, foi o que Cassor sentiu ao pegar da muda de roupa separada sobre a cama, em meio à qual ela esquecera um lencinho perfumado.

Esquecera ou deixara propositalmente? Questionou-se Cassor, cheirando o lenço com curiosidade, buscando decifrar há quanto tempo aquele aroma fora registrado no pedaço de pano: horas? Dias?

Ela o embebera na lavanda para aquele uso particular ou sempre lhe pingava algumas gotas? – seguiu questionando o odor depositado no pano

...

Cassor esfregava a mão no rosto, tentando parar de sentir aquele perfume que de repente parecia haver-se entranhado em suas narinas.

Sua barba, há quanto tempo não a fazia?

Cassor mirou-se no espelho de Alëna, e descobriu que voltara das minas tal qual um louco desgrenhado, a barba de vários anos, sem corte, dando-lhe uma aparência de desleixo.

Cassor decidiu barbear-se. Ao contrário da ascendência materna sulista que garantira a Daror o rosto imberbe, os homens do Norte do Harad podiam, se quisessem, cultivar um cavanhaque elegante, como Terair e Nasser, ou uma barba rente, como Raor.

E, ao contrário de Daror também, que perdera todo o cabelo na exposição de sua calva ao sol, Cassor possuía belos cachos negros sedosos, os quais ressaltaram ainda mais quando ele os aparou curtos.

Quanto a aliviar-se sozinho, isso era coisa que ele se acostumara bem a fazer, de qualquer forma.

...

Naquela noite, junto à fogueira, Alëna serviu-lhe vinho e a seu tio Nasser, como boa anfitriã.

Deixando no ar o perfume que estivera com Cassor o dia inteiro.

Nossa, ele até parecia um príncipe!

Ele era um príncipe, um príncipe de Harad.

Banhado, arrumado e, principalmente, barbeado, parecia muito pouco mais velho que ela.

E Alëna sentiu seu coração acelerar ao perceber o olhar daquele garoto sobre si, baixando rapidamente os olhos, como que enamorada.

...

Partilhariam o leito ainda, aquela e muitas noites, como já o haviam partilhado, costas com costas, dispostos a que nada acontecesse.

- Que é isso? – Perguntou Alëna ao ver o pequeno saco fechado por cordões sobre a cama.

As pedras que trouxera das minas, as estiveras mostrando ao tio, devia tê-las jogado displicente ali, após admirá-las.

- São safiras - mostrou-lhe – as pedras de Minha Casa.

- São lindas.

- Lembram-me teus olhos – estudou uma contra a luz da lamparina Cassor – à noite não se apercebe tanto, mas trazem do mesmo azul – disse, aproximando a pedra dos olhos de Alëna, para melhor comparar.

Cassor passeou com a safira pelo rosto da mulher, ora junto aos seus olhos, ora no centro de sua testa, e por fim no início do colo, onde o brilho celeste refulgiu sobre a pele alva.

- Toma, são tuas – disse colocando a pedra de volta no saco e entregando-o à moça.

- Minhas? – espantou-se Alëna

- É – deu de ombros Cassor.

Trouxera-as das minas com a intenção de engastar um colar para ser usado pela senhora de sua casa.

Mas agora que as vira sobre a pele de Alëna...

Era uma pena que não quisesse ser ela essa senhora.

Contudo, ainda era jovem, e poderia desposar uma outra após o retorno dos cinco anos, talvez uma jovem do sul do Harad...

- Se a prender assim, ficará bem? – perguntou-lhe Alëna

- Como?

- Nessa fita preta, veja – disse a moça, segurando junto ao colo com uma das mãos a fita de veludo e com a outra, logo abaixo, a pedra azul.

- Formam um lindo contraste com tua pele – observou Cassor – e ressaltam ainda mais teus olhos.

Ainda mais, que aquilo não eram olhos, eram pedaços do céu.

- São muito lindas mesmo – agradecia – são o presente mais belo que já ganhei na vida, obrigada.

- Não precisas agradecer, as Minas de safiras pertencem à Minha Casa e à minha disposição.

- Ainda assim, nunca esperei ... mesmo se me repudiares, terei orgulho de usá-las até o dia em que me devolva a meu pai.

Se?

- Não, são tuas ... são tuas de qualquer forma, não adornarão a outra como a ti!

- Oh!

Grossas, duas lágrimas escorreram das safiras faiscantes que eram os olhos de Alëna.

Não adornariam a outra como a ela, e Cassor buscou enxugar as lágrimas que corriam para a boca daquela criança nívea que ele teimara em desposar.

- Não chore, menina, não chore ...

- Menina? Tu não fizeste de mim uma mulher em teus braços, Cassor? – pousou ela a mão no belo rosto moreno, reforçando sua busca de resposta.

- Não sei ... fiz?

- Não sei ... faz-me saber – sussurou ainda, já com a boca dele sobre a sua, bebendo das lágrimas que teimavam a escorrer daqueles olhos azuis.

...

Mesmo após o par e meio de anos de sua coabitação, aquele foi o primeiro beijo verdadeiro que se deram.

Ao menos o primeiro a que Alëna correspondeu.

O primeiro a que Cassor lhe deu tempo para que correspondesse, sem estar a apressadamente tirar-lhe as roupas, afoito, desconhecedor de que a juventude do corpo da mulher não partilhava do mesmo tempo da juventude do corpo do homem.

Dessa vez, entretanto, talvez inspirada pela harmonia entre homem e mulher com a qual convivera nos longos meses em que estivera na Casa da irmã e de Nasser, talvez inspirada pelo seu desejo de igualmente ser mãe, ou talvez simplesmente porque chegara o tempo de seus tempos se encontrarem, Alëna foi que despiu a Cassor, tateando pelos contornos do torso forte de campeão, quase desproporcional ao rosto de garoto.

Chegara a temê-lo, tanta vez se vira embaixo dele sem uma preparação, um cuidado que a reassegurasse, um gesto que a reconhecesse como era.

Nunca lhe prodigalizara as gentilezas daquele dia: a flor sobre o leito do casal, o olhar atento, o arrumar-se para ela.

As lindas pedras da cor de seus olhos, como oferta generosa, haviam sido apenas o toque final.

Por isso apenas agora, par e meio de ano após desposarem-se, Alëna sentia-lhe o coração, pulsando em suas mãos.

Alëna libertou-se dos próprios cordões, deixando o vestido azul escorrer lentamente por seu corpo, que escondeu junto ao dele, ambos ainda de pé.

Cassor refreava em agonia seu brado de guerra, incerto como acreditava que um homem nunca deveria estar junto à mulher.

- Que quer de mim? – gemeu, as mãos a tremer ao lado do corpo.

Alëna não se expunha à sua visão, o corpo escondido junto ao dele, apenas tomou daquelas mãos nas suas, mãos que um dia lhe haviam parecido tão rudes, e conduziu-as à sua cintura, envolvendo-o em seus braços, puxando a boca do homem para si novamente.

Era ela que beijava agora a um Cassor temente do arroubo tão próximo do qual se encontrava.

Deusa-mãe! Ela o estava puxando para a cama!

Cassor sentou sobre as próprias mãos, reclinando-se, apavorado de estragar aquele momento.

E mais temeroso ainda ficou quando Alëna tirou-lhe as botas, e despiu-o das calças, revelando a masculinidade agressiva que tanto rejeitara.

A moça mirou-o, também incerta. Estava ali, parado, como se esperasse que ela o conduzisse.

Saberia fazê-lo?

Alëna então reclinou-se sobre ele, beijando-lhe o rosto.

O perfume, o perfume dela o estava enfeitiçando por completo.

Tomou de uma das mãos dele, e a conduziu por seu rosto, seu pescoço, seu colo.

Seus seios, seus seios de bicos róseos que estavam agora escuros ...

A barriga branca, tão macia ...

A penugem escura.

Cassor deitou-se e fechou os olhos, franzindo pesadamente o cenho, tentando pensar em como se conter àquilo tudo.

- Não me queres?

- Te quero demais – arregalou os olhos – te quero mais que tudo.

- Também quero ... também quero ser tua ... vem.

Obedecê-la.

Obedecê-la seria a coisa mais fácil do mundo.

- Não, vem tu.

- Eu?

- Sim ... não te quero machucar mais ... mostra-me ... mostra-me como o fazer.

- Não!

- Por quê?

- Eu ... embaraço-me.

- Te escondes ... e eu ... eu não me posso esconder ...

E Alëna viu que era verdade, na revelação da agonia que o simples roçar de sua perna, ao montá-lo, lhe causara.

Na reação desmesurada ao contato quente e úmido de si mesma.

Nos dedos crispados que agarraram os lençóis quando iniciou seu trote.

No olhar enlouquecido ao crescer de seu cavalgar.

Nas mãos que garantiram sua permanência sobre a montaria quando esta não pode mais conter-se de reagir.

No salto que deram juntos para o céu de safiras estreladas, onde ficaram suspensos no ar, por um momento.

...


- Bom que te hajas entendido com ela.

- Ao final das contas, apenas Mahor houve que pagar um dote de repúdio.

- E disseram que a devolvida não ostentava um ar nada satisfeito.

- É!

- Bem que essas mulheres complicadas agradaram-se de nós, homens do Harad!

- Até a de Daror, rá-rá-rá!

- Êh Nasser! – ouviu-se o chamado fora da tenda.

- E é ela que chega a procurá-lo.

- Entra, Leoa de Harad, que estávamos mesmo a falar de ti – descerrou-lhe a entrada Nasser, pois não se entra na morada – seja ela tenda, choupana ou palácio - sem o convite do dono.

- Escutei, pois parece que estão em companhia do vinho que faz risos altos!

- Arre! Mulheres ... – puxou-a Daror para sentar-se em seus joelhos.

- Ai, Daror, vai quebrar o banco!

- Ai, Daror!

- Rá-rá-rá!

- Acho que já beberam demais, vamo-nos Daror.

- Vêem? É assim que essa mulher me trata ... – despediu-se Daror, entre risos, que ao sair para o vento frio, contudo, converteram-se num acesso de tosse.

- Ai, Daror – gemeu Míriel, batendo-lhe nas costas – precisas de te agasalhar, não podes sair nesse tempo só de camisa.

E ao chegarem à propria tenda, Míriel correu a buscar de um agasalho nos baús, para só então se dar conta de que tal não existia.

Míriel cobriu as costas do gigante com o próprio longo manto de peles negras.

- Arre tola! – impacientou-se Daror, envolvendo-a novamente no abrigo – E tu vais vagar a descoberto? – ralhou, alimentando o braseiro quase apagado e tossindo novamente, até finalmente dirigir-se à saída da tenda e escarrar.

- Essa umidade gelada parece agarrar-se na garganta do homem!

- Certo, certo. Senta aqui – Míriel puxara assento para junto do braseiro, que demoraria horas até aquecer todo o ambiente, e cobriu a Daror dessa vez com uma manta.

Daror era a fonte do próprio calor, o máximo que conhecia de agasalho, nas noites frias do deserto profundo, era por de uma camisa sobre a outra, um colete negro, uma couraça de couro talvez.

Neve caíra no Pelennor já várias vezes.

Míriel precisava era comprar-lhe de uma pele.

Isso! Vez por outra ia à cidade; eram muitos assuntos pendentes a tratar com os funcionários do Rei: passaria pela Casa de Leilões e arremataria uma boa partida de peles para os filhos de Harad. Estavam a precisar.