CAP 9 - O RETORNO DOS CINCO ANOS
Assim, os mensageiros por sua vez enviados pelo Rei Elessar chegaram a Lórien com notícias e com a convocação para o Conselho de Capitães da Terra Média, trazendo a Haldir junto com estas a indesejada lembrança de seu compromisso para com o gigante de Harad.
Chegara a estranhar que Mornfinniel não lhe cobrasse tal viagem ao final de cinco anos – pois mesmo o elfo percebia o quanto ela ansiava por rever o seu povo.
Suspeitara, entretanto, que Darai não relacionava a passagem de meses e anos, mas de luas e estações.
E, como não partilhava de forma alguma daquela ansiedade de reencontrar-se com o povo de Harad, calara sobre o atraso dos sulistas, enquanto ela se entretinha com a criança.
Agora, entretanto, se o tempo de reapresentar suas esposas a Gondor chegara para os haradrim, da mesma forma chegara para Haldir e para sua Cabelos Negros.
Comprometera sua palavra, e agora deveria se preparar para viajar a Minas Tirith com a esposa.
E a esta também deveria ser dada a oportunidade de deixar um mau marido, lembrou-se Haldir das palavras de seu cunhado.
Era um mau marido para sua esposa?
O que seria um bom marido aos olhos dela?
Percalços houvera, ele o sabia.
Mas ocorrera também um reencontro no amor, ele queria crer.
E a chegada da élfica flor dourada que era sua filha ao lar que reconstruíam em seus corações parecera-lhe uma afirmação, provindo diretamente do Único, desse reencontro.
Desde a partida da Senhora Galadriel, contudo, muito se modificara.
Entristeceram-se, como toda Lórien, pela partida da Senhora.
Ele, principalmente, por tal partida simbolizar o fim de uma era e do domínio dos elfos sobre a Terra Média, e por, acompanhando-a até os Portos, ter sentido o chamado do mar, e trazida ainda mais à consciência a inexorabilidade das perdas que o aguardavam.
Ela, por perder aquela que a acolhera e velara, protegendo-a e ao seu filho e aos segredos de ambos, a quem considerara como uma mãe nos últimos dez anos, e a última pessoa a quem realmente respeitou em sua vida.
Mas a uma tal tristeza, cada um reagiu ao seu modo.
Haldir devotando-se ao serviço de Galadriel até seus últimos momentos na Terra Média – como quem busca o consolo interior do dever cumprido e da missão finda.
Cabelos Negros, deixando-se encantar pelo bebê.
O destino brindara-a com uma filha, uma herdeira em sua feminilidade, e aquela maternidade Darai viveu para si.
Pois se antes não se lembrara de qualquer canção, desta vez embalava a todos com canções que faziam Haldir rir.
E trazendo os filhos mais velhos para junto de si, aspiravam juntos o perfume da pequena.
E faziam-lhe cosquinhas nos pés.
E tão logo seus cabelos cresceram, uma infinidade de fitas adornaram os cabelos de ouro daquela criança de tão fácil manejo.
...
Consolou a Haldir saber a esposa tão confortada na graça da filha quando partiu na longa caravana do adeus da Senhora Galadriel, para só retornar muitos meses depois.
Foi quando, sabedores de seu retorno, Rúmil e Orophin, seus irmãos, acompanhados das esposas, visitaram-no, que observou, estarrecido, a filha, que já andava, aproximar-se da mãe, subir-lhe ao colo, e puxar de suas vestes para alcançar o seio.
Sem sequer interromper a conversa, a mãe manuseou o peito, colocando-o à melhor disposição da menina, que aconchegada em seu colo mamou enquanto quis, e quando lhe aprouve largou do bico e voltou para junto aos irmãos, no que a adan apenas ajeitou o decote do vestido para voltar a conter o que dele retirara para servir a filha.
Darai nem chegou a notar quando os elfos desviaram o olhar, divertido da parte de Orophin, francamente reprovador da parte de Rúmil.
Imodesta, fora como o irmão do meio uma vez se referira a Mornfinniel.
Motivos não lhe faltariam para continuar julgando-a assim.
- Já não era tempo dessa menina estar desmamada? – indagou Haldir tão logo se viram a sós.
Tratava-se, contudo, de uma pergunta retórica, conforme o indicava o tom em que foi pronunciada.
Eram muito mal recebidas pela mulher de Harad as perorações começadas daquela forma.
- E que lhe importa isso?
- Importa muito, faz-me marido de uma esposa que se expõe e pai de uma criança que não se está educando.
- Expõe-me o meu leite? Deseduca minha filha alimentar-se do meu seio? Humilha ao pai de tal família a cena, é o que vejo que você quer dizer, pois saiba que em Harad ...
- Não estamos em Harad e nem você nem Goldeneirien são animais para comportarem-se como tais!
A mão veloz que dirigiu-se ao rosto do elfo não o pegou de surpresa, pois a senhora Darai não fazia a menor questão de esconder sua ira, e segurando no ar o pulso da esposa, Haldir preveniu-a:
- Não faça algo de que vai se arrepender.
Tais palavras, entretanto, só serviram como combustível para inflar ainda mais a sua fúria, de forma que, a caminho da mesma agressão, agora o pulso esquerdo da mulher também acabara preso na outra mão do elfo.
- Estou lhe dizendo, lhe pedindo, para não fazer algo que nos conduzirá, num rumo do qual só poderemos nos lamentar – tentava Haldir trazer à razão a mulher que num frenesi ainda tentava soltar-se. – Não vê que está errada, e cada vez mais?
- Estou sempre errada para você, sempre!
- Não tente valer-se de palavras injustas para me atingir quando sabe ...
- O que sei é que depois de meses de ausência, tudo que ouço de meu marido quando ele retorna são críticas! Tudo que faço o desagrada! Deveria ter escolhido para si uma esposa élfica, suave e gentil como as de seus irmãos...
- Não desejei para mim uma esposa élfica.
- Não mesmo, desejou para si um animal da raça de Harad, e é o que eu sou!
Nesse momento, Haldir ainda a tinha entre as mãos, e, se a houvesse subjugado naquela hora, teria, sem o saber, tomado um caminho haradrim para a solução de sua rusga.
Mas submetê-la sem seu claro consentimento era algo que o elfo não se permitia mais fazer, pois, como outros, Haldir nunca alcançou que Darai não confundisse em nada as torturas que sofrera em Orthanc com os folguedos da paixão, que conhecera na adolescência de sua meninice, ainda em Harad.
Ante a impossibilidade de descortinar um caminho que lhes preservasse a dignidade e o respeito mútuo naquela situação, o elfo finalmente largou-a, e, sem dizer palavra, saiu do talan.
Lágrimas de ódio escorriam pela face da filha quando as versões femininas daqueles seres bestiais a arrastaram para a cela, de volta de seu suplício periódico.
Criaturas não apenas feias, criaturas sem feminilidade, sempre pareciam a Ravai, desonradas, desamadas, envilecidas...
Mas, ainda que por tudo que testemunhara, tão desagradadas de seus pares quanto as próprias mulheres de Harad, ainda assim criaturas despeitadas destas.
Especialmente da menina, fazendo questão de ressaltar toda vez o destino que cada vez mais se avizinhava daquele ventre estéril, açulando no que podiam a horda a pressionar o mago pela fêmea que não reproduzia.
As lágrimas de ódio que escorriam dos olhos da filha, entretanto, ainda traziam alento ao coração de Ravai.
- Vem cá, filha – chamou-a a se aproximar do corpo que já mal se mexia sob o ventre monstruoso.
- Vão ver só! Vão ver só quando a ira de Harad cair sobre eles! – aproximou-se colérica, enxugando o rosto com as costas das mãos – Veremos quem é que geme alto então – completou agachando-se no chão para pegar o urinol e servir à mãe.
- Sim filha, há de ter tua vingança, minha princesa.
- Haveremos de tê-la todas nós, minha mãe, todas nós – assegurou-lhe Darai confiante, enquanto cuidava da mãe.
Todavia, se vingança houvesse, a rija Ravai não a testemunharia, sabia-o nas fisgadas com que urinava e nas facas enfiadas em sua nuca, que lhe davam a certeza benfazeja de que não sobreviveria àquela gestação amaldiçoada.
Pois já vivera sua vida – era o que pensava, mesmo sabendo que era uma fraqueza, sem conseguir deixar de conjecturar que já tivera seus filhos, amara e fora amada.
Fora uma com a deusa aos olhos de seu marido e então o vira morrer, o próprio corpo ser consumido por aqueles gestações maléficas conduzidas pessoalmente pelo bruxo, e não encontrava motivo ou forças para negar-se ao fim.
Exceto pela filha.
Exceto por sua menininha, tão adorada pelo pai, tão admirada pelo povo de Raor, tão mimada pela família, tão alegre, tão maliciosa, tão indomável, tão haradrim.
Darai sobreviveria ao que a aguardava?
Ao destino cada vez mais óbvio em virtude da não-concepção que por um tempo as mulheres de Harad haviam considerado uma benção? Ao que aquelas harpias horrendas lhe prediziam?
E se sobrevivesse?
- Estou certa de que terás tua vingança, filha, e depois a deixarás para trás, também, quando conheceres do amor de um homem de verdade.
O olhar de Darai se fez travesso.
Sim, sorriu a alma de Ravai - aquecida como só o sol de Harad que a filha ainda trazia, intacto, dentro de si, lograria - se isso ainda era possível, a princesinha da primeira Casa continuava ali, galho rijo da melhor cepa de Harad, herdeira de sua melhor tradição, de toda sua tradição, a fazer-lhe ares de segredo.
- Darai? – questionou a mãe, buscando em si um resto de brincadeira para temperar a pergunta, para gozar daquele quê de graça com que só Darai mantinha disposição de animá-las, de lhes reassegurar de seu legado feminino, de seu feitiço de mulheres de Harad.
- Oras, mãe, já conheci do amor de um homem de verdade – confidenciou faceira, o sol brilhando na malícia do seu sorriso, como se estivessem não naquela pocilga tenebrosa, mas em pleno Harad.
- Ramur? – encontrou no sorriso da filha a força para sorrir também Ravai.
- Ramur – acedeu a menina.
- Uhn – fez-se falsamente grave Ravai – e honrou-te muito ele?
- Bastante, mãe, tanto que tomei daquele panelão de chá, não lembra?
A fibra já tão retesada do coração de Ravai inflou numa dor impossível até o ponto de se supor que iria estourar pelo peito, e foi quando a percebeu esgarçar-se, enchendo-a de um desesperado sentido de urgência, ao lembrar da ocasião,
A ocasião em que recebera o pretensamente encoberto retorno muito tardio da filha com desprezo e ameaça: "Apareça-me tu de barriga aqui, para ver se teu pai te leva nalguma viagem, tua mumakiá desgovernada"
Pronto, fora o que bastara!
Ante o risco de ver-se privada do passeio ao Norte, Darai cozinhara um caldeirão de erva amarga, e o bebera todo, para cair em dias e noites de uma cólica terrível.
" Louca irresponsável, vais arruinar teu ventre!"
Mas ao fim daquela tormenta, regras vieram-lhe em borbulhas, e a filha exibiu desafiadora à mãe as palmas vermelhas:
" Diga agora quem não irá ao Norte, Ravai!"
Respondera-lhe e mão da mãe em seu rosto, insuficiente entretanto para espancar a vitória dos olhos de Darai.
Terríveis eram mesmo os desígnios dos deuses: não houvesse Ravai provocado o gênio medonho da filha, uma criança poderia ter frutificado em seu ventre. Darai teria ficado em Harad, protegida, entregue a um marido apaixonado, e hoje sobraçaria um bebê nos braços.
- Não se pegue no quanto a desacatei, minha mãe – e Darai enlaçou-lhe os dedos com os seus, dando sua própria interpretação ao tormento que via estampado na face de Ravai – eu estava em erro, a mãe é uma com a deusa, e a essa junção eu devia o meu respeito.
Nem sob a chibata de Raor, em ocasião alguma, Darai chegara tão perto de um pedido de desculpas.
- Nem, filha – agora era Ravai que contemporizava aquele pesar sem propósito àquela altura – Ramur era mesmo a escolha de Raor para ti, minha princesa.
- Rá-rá-rá, era o que Ramur sempre dizia ao me tentar convencer.
- E convenceu-te, hein? – foi a vez de Ravai mostrar sua malícia, na expressividade de mestra de tradições.
- Nem! Fui deixando-o louco até que me tomasse. –Redarguiu Darai, prosa de seus encantos – Senão pensaria que estava apaixonada também, e é o homem que deve amar à mulher, mais que o contrário.
- Certo, minha feiticeira, mas ouve, que é importante: ainda que ciosa do mistério que alimenta seu encanto, a dançarina deve amar também, é o que a faz ir além, alcançar o ápice ao qual a tradição que lhe leguei a destinou.
- Oras, Ravai, não era com esse amor que tu me havias amaldiçoado? Não era o amor que me iria enfim dominar?
- Mas também te libertará, filha, também te libertará.
- Presta atenção, Darai – e Ravai apertou a mão da filha, séria, pois chegara a hora de enfrentar a verdade – Podes experimentar aqui ainda muito mais horror, muito mais ... Contudo, se há uma dentre todos os filhos de Harad capaz de sobreviver a isso, és tu, minha brava, junção do Sul e do Norte de nossa terra, sangue de Raor, Herdeira de Ravai, tradição encarnada, rosa do deserto, vastidão – desfiava a mãe com a urgência desesperada de um entendimento que só se realizara plenamente entre elas em meio a adversidade mais profunda, todas as qualidades que gerações de mulheres haviam legado a apenas uma, que retinha a abissal responsabilidade de não deixá-lo fenecer - mas, se mais que te deixares amar, se não amares também, do que acontecer aqui nunca te libertarás realmente, nem nunca encontrarás a plenitude de tradição que procuras!
...
Darai não tinha dezessete anos quando foi arrastada para a turba ululante, no único dia em sua vida no qual suplicou.
Mas, ainda que chegassem às prisioneiras do subsolo, Ravai não poderia ouvir os gritos da filha.
Pois já estava morta.
...
