Cap 10 – De dias difíceis
Àquele desentendimento seguiram-se outros, ora motivados por uma palavra ríspida da mãe aos filhos, ora devido a uma gargalhada mais escandalosa, ora ainda envolvendo algum excesso na indumentária da filha, que Darai já começara a ornamentar com ouro.
Rusga após rusga, os entreveros sucediam-se entre eles.
Valar, que era esta mulher!
Angústia.
Melancolia.
Angústia ou melancolia eram palavras existentes no vocabulário das línguas élficas. Mas o conceito que expressavam não encontrava tradução entre os haradrim; e ainda que um passasse muito tempo explicando-as, não é certo que algum de Harad as compreenderia ...
Ódio, raiva, vingança: todo sentimento negativo que alcançassem, seria para desencadear uma ação (como, aliás, todo sentimento positivo também. Amor, desejo, contentamento: tudo seria demonstrado, expressado por palavras, presentes, agrados, testemunhos ...)
Se o destino, a escolha de um pai ou o apaixonar-se por uma dançarina uniam um homem e uma mulher em sua terra, era com a intenção e a responsabilidade de se contentarem mutuamente. Um não dava ao outro mais do que o esperado, mas nenhum dos dois contentava-se com menos que isso ...
Conforme a idade e a condição de cada um eram acordados os casamentos – não havendo pretensão de aliança que sobrepujasse as tradições a respeito ...
Por um momento, Darai se pegou lamentando que não houvesse, em sua tradição, qualquer previsão contrária a um casamento como o seu ...
- Querida – a voz de Haldir subitamente à trouxe de volta – onde você está? – indagou o elfo, acariciando-lhe a face.
O corpo dela estava ao seu lado na cama.
A mente, no entanto ...
O volver daqueles olhos negros para ele, contudo, incentivou uma nova tentativa, e o elfo a beijou.
Darai entreabriu a boca, buscando concentrar-se no gosto fresco daquela água límpida que saciaria o mais sedento dos viajantes ...
Mas uma parte dela estava exausta demais até para sentir sede.
Discutir com o marido implicara realmente na condução a situações das quais não conseguiam sair.
Não discutir implicava num esforço de autocensura permanente.
Tudo. Tudo que vinha dela o irritava.
Não só o que ou como pudesse falar, mas seu modo de andar, de sorrir, de relacionar-se com os filhos ...
Não, não era o que vinha dela que o irritava.
Era o que ela era.
Pois no fundo de seu coração ele não conseguia aceitar que ela tivesse outra identidade que não a que ele lhe atribuíra um dia.
Como pudera uma união tão díspar, um dia lhe parecer tão certa? Perguntava-se emocionalmente exausta de ter de partir-se em duas, a semente do cansaço para com a vida na Terra Média que o mar depositara no coração do elfo transferida para o seu semblante, subitamente sem ânimo de responder-lhe as eventuais observações.
Ela apenas o olhava.
Nada lhe respondia.
Punia-o, pensava ele.
- Não sei onde você está – reclamou o elfo, soltando-lhe o corpo por fim – mas não é aqui!
- Você me irrita! – cuspiu-lhe Darai as palavras – Por que me reclamou a meu irmão? Por que me desposou no Pelennor?
Era menos uma pergunta que uma acusação e, ao mesmo tempo que fez o sangue do elfo ferver, instalou mais uma chaga em seu peito.
- Já a havia desposado em Lórien. Não teria como abrir mão dos laços que já se haviam estabelecido entre nós.
A resposta que a voz gélida lhe ofereceu feriu a Darai mais do que um açoite furioso poderia tê-lo feito.
Se tivesse dito que a desejava, se houvesse dito que sua dança o enlouquecera ...
- Por que me instou você a fazer esse reclame?
- Por que eu o amava! – a resposta sincera e imediata deixou-lhe uma faca fincada na garganta ao sair impensadamente.
A suprema humilhação de amar sem ser amada.
E o coração da adan terminou de congelar-se naquele instante. ...
Já o coração do elfo quisera-o, mas não poderia.
Amava.
A flexão do verbo no passado...
Varda!
Ele se unira a ela ... haviam tido filhos ...
Aquele corpo ... pertencera a ele ... pertencera tão inteiramente quanto somente em sonhos um amante pode esperar que sua amada se lhe pertença ... se lhe entregue ...
...
Mas, quando Haldir a avisou o quão brevemente partiriam para Gondor, rumo à reunião de retorno dos haradrim ao Pelennor, a alegria retornou à fisionomia de sua Cabelos Negros, seus olhos adquiriram uma luz que o elfo jamais vira, e um sorriso que continha o próprio calor do sol tomou-lhe o rosto.
Era maravilhoso ...um contentamento mais que visível, um contentamento encarnado na figura que rodopiava à sua frente. Tão radiante e cheia de vida que chegou a deixá-lo atônito:
Como uma só criatura podia conter tanta vida dentro de si?
Ainda inebriada de alegria ela lhe comentou então o quanto as crianças gostariam de conhecer de seus parentes do Harad, de viver suas tradições, de irmanar-se ao seu povo.
E o elfo estremeceu.
Desta vez, contudo, Haldir fez-se extremamente cuidadoso na escolha das palavras e do tom com o qual se dirigir a Mornfinniel.
- Não duvido, minha bela, que nossos filhos encontrassem grande interesse nessa viagem, pois nunca saíram de Lórien – disse, tomando de uma das mãos da esposa nas suas – o que me pergunto e se tal viagem traria apenas o bem para eles.
Darai franziu a testa a um tal comentário.
Mas não arreganhou os dentes no prenúncio de uma resposta irada.
E desta vez, também não se mostrou arredia ou indiferente à observação de Haldir sobre os filhos, pois sabia que o elfo os amava.
A todos.
Especialmente ao seu mais velho.
Aquela noite, enquanto dormiam, Darai sentou-se junto à cama de cada um.
E observou que a pele de Mîleithel não brilhava sob as estrelas como a dos outros.
E que também o tom moreno que ostentava era bem diferente do moreno avermelhado de sua própria pele.
Viu no sono do filho que seus dentes, apesar de bons, eram imperfeitos, e que sua boca não se fechava de forma simétrica, o que comprometia o equilíbrio de toda a face.
Enquanto seus outros filhos pareciam criaturas angélicas.
Darai suspirou, acariciando o braço do filho.
Estava comprido, e terminava em mãos enormes.
Nos últimos tempos, parecia que o menino havia sido esticado. E sua voz ainda infantil vez por outra soava rouca e distorcida.
Nada que ela não tivesse visto ocorrer com Daror.
Mas sobre a concepção de seu irmão não pairava qualquer dúvida.
Ao contrário do que aconteceria com Mîleithel, caso alguém somasse os elementos daquela equação.
E hoje ela sabia porque orcs haviam tentado levá-lo um dia.
Por reconhecerem nele traços dos seus.
E era no isolamento de Lórien que a Senhora Galadriel o dissera protegido.
Por isso, desta vez, Darai concordou com o marido.
Que acreditou que não poderia pedir mais aos Valar, e se decidiu a também dar-se por contente, enquanto deixavam seus filhos, mais uma vez, aos cuidados de Niéle, e preparavam-se para a viagem.
