CAP 11- NA CASA DE LEILÕES

Míriel descia lentamente pelos caminhos da Cidade Branca, após mais uma ida infrutífera ao Palácio – não de todo, é verdade, pois não só a rainha viera falar-lhe, como a convidara a tomar chá consigo, ocasião em que conversaram, e em que a estrela de dois povos se mostrara vividamente interessada em sua história pessoal e em sua vida com os haradrim.

- Então, a senhora se considera feliz hoje, ao lado do Chefe dos haradrim.

- Sem dúvida, majestade, sem dúvida.

- Realmente, registraram-se muito poucos casos de esposas afirmando não querer voltar ao Harad, mas o que dizer das outras tantas que simplesmente não retornaram?

- Preparei um relato que nomeia as que vieram a falecer no Harad, que afortunadamente foram bem poucas, e as circunstâncias em que tal evento ocorreu, geralmente referentes ao parto. A maioria das que aqui não estão, entretanto, ou encontravam-se em adiantado estado de gravidez ao tempo que nos dirigíamos para cá, ou justamente estavam envolvidas nos cuidados de uma criança ainda muito tenra para tal viagem.

- Contudo, vê-se que tais situações não dissuadiram a senhora mesma de empreender uma tal aventura.

- De fato – sorriu Míriel – eu viria da qualquer maneira para acompanhar a Daror, entretanto só descobri que estava grávida quando a marcha do retorno já ia adiantada.

- Tão longos assim são os caminhos do Harad? – não pode deixar de perguntar a Rainha. – Oh, desculpe-me, não quis ...

- Desculpe a mim, majestade, pois talvez aparente uma gestação mais avançada do que realmente carrego – deu de ombros Míriel, rindo; seu ganho de peso exagerado a aborrecera até a hora em que Daror começara a fazer graça dele e, uma vez que nada mais a respeito parecia poder ser feito no momento, era melhor levá-lo assim: Mariän lhe garantira que muitas mulheres engordavam realmente além do esperado durante a gestação, mas que também era comum que recuperassem a forma em poucos meses após o parto. – Harad contudo, de fato é uma vastidão.

- No entanto, não consigo imaginar o que seja, um deserto – devaneou Arwen, quase que para si mesma, olhos arregalados ante a constatação de que seus longos anos élficos ainda não haviam visto tanto do que havia para ver.

– Porém – via-se na Rainha um certo constrangimento, uma incerteza sobre a melhor forma de abordar algum assunto – com relação a essas senhoras que, por um motivo ou outro, não retornaram, questionamentos vêm chegando ao palácio sobre se, de alguma forma, não constituiriam em dívida os haradrim, talvez.

Tal era exatamente o rumo que Míriel desejava que a conversação tomasse.

- Creio, majestade, que o interesse maior das famílias que levantam tais demandas é o de locupletarem-se do dote que os haradrim pagam por suas esposas, pois poucas foram as que, ao partir, deliberaram sobre o destino do dinheiro que ficou depositado nos cofres reais; boa parte delas, entretanto, incumbiu-me agora de reverter tais depósitos em renda para os seus, é um dos assuntos, contudo, que gostaria de ver tratados de forma oficial.

- Oh Senhora Míriel, compreendo e concordo com um tal propósito e, creia-me, a intenção do trono de Gondor não deve ser diferente.

Mas a Rainha habilmente postergava a formalização de quaisquer acordos.

Era muito importante o estabelecimento de um Tratado com Harad, Arwen o sabia.

Precisava manter o Chefe do Sul em Gondor até o retorno de Elessar.

Distantes eram agora os dias de decisões urgentes após a batalha do Pelennor e antes da coroação do Rei Elessar, assim como Míriel não era desconhecedora da formalidade numenoriana da corte de Gondor, para a qual, ao que parece, o que concernia ao Harad eram assuntos de menor importância, e que poderiam esperar, refletia ela ao descer lentamente pelos caminhos da Cidade Alta.

E menos mal, que os haradrim também não poderiam partir antes da chegada de Mariän com os rebanhos, portanto Míriel, por sua vez, também não tinha por que por pressa à Rainha Estrela Vespertina.

Muito chá e muito assunto deveriam ter vez ainda entre elas.


Contudo Míriel voltava do palácio incomodada. Dada à viagem de Maxel com Mariän, e à responsabilidade de Danael para com os pequenos do acampamento na ausência das mulheres encasteladas em Minas Tirith, restara-lhe conduzir a charrete por si mesma, e se, carregando aquela barriga imensa, qualquer posição atualmente lhe significava desconforto, a que forçosamente assumia naquela função mais ainda.

Sentia que regurgitava o chá.

Sentia que aqueles brincos monstruosos, ardiam-lhe nas orelhas e rasgavam-lhe os lóbulos.

Sentia que o colar em seu pescoço pesava 10 vezes mais que seu já ostensivo peso.

Ai, Daror, quanto faço por ti! – Pensava quando passou pela Casa de leilões.

Daror! Quase esquecera! Espirrara à noite e pigarreara pela manhã, comprar-lhe uma pele era assunto urgente – freou o veículo, voltando-o na direção dos largos arcos de pedra que constituíam a entrada da construção larga e baixa.

Míriel adentrou o pátio do estabelecimento. Naqueles portões não era incomum a chegada e a saída de carregamentos, por isso não houve dificuldade em fazer acomodarem o animal e o transporte.

Tomou então o rumo dos corredores, à procura de uma sala onde estivessem sendo ofertadas algumas partidas de peles.

Uma pele negra de urso cairia muito bem a Daror.

- Oh menina Míriel! Que bom! A senhora Morwen precisará de si agora.

Míriel espantou-se enormemente de encontrar Naneth, aia de sua mãe, na casa de leilões.

Seu nome na verdade, era Annaneth, e fora sua ama, uma das mais antigas e fiéis criadas de sua casa.

- Minha mãe? Que ocorreu com ela, Naneth?

- Mas a menina não sabe? Não é por isso que está aqui? – a simplória idosa só agora reparava na suntuosidade da figura de sua menina. Elbereth, e carregava um filho no ventre! E certamente era dos homens bárbaros!

- Minha mãe, o que ocorreu com ela, Annaneth?

- Er ... sua casa, senhora, a casa de sua mãe, estão-na leiloando neste instante.

- Leiloando? A casa de minha família? Mas por quê?

- Ah menina, isto é, senhora Míriel, as dívidas, os impostos, nem sei; só sei que tivemos aviso há poucos dias de que iria a leilão hoje.

- Mas que dívidas e que impostos são estes? E a renda das fazendas?

- As fazendas? Ora, senhora, perdidas ou abandonadas sem quem lhes tome conta, e mesmo aquelas que sua mãe vendeu não representaram grandes negócios.

Ah, mas isso era tão típico de sua mãe! Quedar-se sem fazer nada, a supor que o mundo giraria em função dela e de sua posição, que dar-se ao trabalho de cuidar do lado prático da vida estaria abaixo de sua posição! ...

- Onde está correndo o pregão, nesta sala?

- Saí para que não me visse chorar ... oh, senhora Míriel, que será de sua mãe e nós que ficamos, já velhos demais para procurar serviço, sem um teto? Onde iremos morar?

Mas Míriel deixara aquela lamentação para trás e adentrara o salão do meirinho, percorrendo aos poucos o corredor central apinhado.

Os bancos estavam cheios: muitos comerciantes recentemente enriquecidos disputando aquela moradia nobre.

E muitos olhares curiosos e, Míriel não duvidava, intimamente divertidos, a assistir a derrocada daquela família tão soberba ...

- Essener, da Firma de madeiras do mesmo nome, setecentos e oitenta dinheiros.

Pois Daror estava certo, e era para as presas fragilizadas que se voltavam os predadores.

- Helder de Dan, pelos moinhos associados da família Dan, setecentos e noventa dinheiros.

E viam que a senhora Morwen estava desassistida.

- Elberth da serralheria, setecentos e noventa e cinco dinheiros.

Chacais

- Essener sobe seu lance para oitocentos dinheiros.

A casa de onde ela fora expulsa.

- Janlock, o fazendeiro, oitocentos e quinze dinheiros.

Se houvesse ficado, Míriel poderia ter administrado as fazendas, tomado conta dos negócios.

- Albrant, da casa de penhores e empréstimos Albrant, oitocentos e cinqüenta dinheiros.

Ou não.

- Helder de Dan, dos moinhos, oitocentos e sessenta dinheiros.

A ocupação daquela casa por sua família datava da época dos primeiros reis de Gondor.

- Albrant, o banqueiro, oitocentos e setenta dinheiros.

Albrant, o usurário, ouviu Míriel comentarem.

- Dulbrick, importador e exportador, oitocentos e oitenta dinheiros.

Seus antepassados haviam navegado à Terra Média com Elendil, fundado Gondor junto a ele, batalhado ao lado de Anarion e Isildur na Primeira Guerra do Anel.

- Albrant banqueiro, novecentos dinheiros.

Um murmúrio de espanto foi o que se ouviu no recinto, o rosto da Senhora Morwen impassível, junto ao púlpito do meirinho, os credores atrás dela a esfregar as mãos.

- Novecentos dinheiros, senhores, alguém mais gostaria de oferecer um lance por essa casa fincada nos pilares numenorianos da tradição e da antiguidade?

E para seus filhos, quando visitasse a Cidade Branca, Míriel apontaria para a casa em que nascera, em que sua mãe nascera, em que a mãe dela nascera, e diria "essa é a casa que foi de minha família".

- Meus senhores, trata-se da segunda moradia mais alta de Minas Tirith, acima da qual encontra-se apenas a moradia do rei, mais um lance por favor!

E o último capítulo da história da família seria para referir-se a como uma velha tola pusera tudo o que sobrara a perder, indo terminar seus dias da forma que um dia preconizara para a filha, humilde e humilhada nos círculos baixos da cidade

- Dulbrick, o maior negociante da terra média, sobe seu lance para novecentos e cinqüenta dinheiros.

Quem poderia dizer a Míriel que isto não era merecido?

- Albrant da casa de penhores e empréstimos, novecentos e sessenta dinheiros

E quem poderia dizer que era?

- Novecentos e sessenta dinheiros, senhores, quem dá mais?

"Essa é a casa que FOI de minha família"

- Novecentos e sessenta dinheiros, senhores, alguém sobe esta oferta?

Míriel dirigiu as mãos à nuca.

- Novecentos e sessenta dinheiros, dou-lhe uma!

E encontrou os encaixes de seu colar.

- Novecentos e sessenta dinheiros, dou-lhe duas.

- Míriel de Daror por Daror de Harad – disse Míriel atirando com toda sua força o imenso adorno aos pés do meirinho.

Um clangor tremendo se fez ouvir em meio ao silêncio absoluto que tomou o salão.

...