CAP 12 – BEM QUERER E MAL QUERER
- Quer dizer, então, que trocaste a riqueza com que Daror a adornara por uma casa que fica numa cidade onde Daror não pode entrar? – perguntou Daror muito sério, sentado num banco junto ao braseiro em meio à tenda, embora não parecesse menos que um rei grave sentado no trono de seu palácio.
- Bem, sim, mas ... – Míriel torcia as mãos, não vira desta forma.
Daror continuava olhando-a sério.
Bem sério.
Quando o ricto no canto de seu lábio começou a tremer.
E Daror não conseguiu mais segurar o riso, dobrando-se a gargalhar, batendo nos joelhos, chorando, engasgando e tossindo sem conseguir parar de rir.
Arre! Aquele seu marido era um doido mesmo, pensou aliviada, vindo sentar-se num canapé ao seu lado, a apreciar o franco divertimento de seu menino, tão preocupado por aqueles dias.
- Ah, Míriel, bem-querer – tomava fôlego Daror – e aquele colar valia uma casa?
- Não sei quanto estão valendo as casas em Minas Tirith, pois há muitas casas vazias, contudo, pelo que minha casa representa, certamente as demais ofertas estavam baixas, você conhece os mercadores, na hora de vender, querem vender caro, mas na hora de comprar...
- De qualquer forma, florzinha, isso é tão esplêndido que eu nem poderia imaginar. Todos dirão agora que a mulher haradrim adorna seu pescoço com uma casa.
- Pois certamente pesava como uma casa.
- Conta-me mais, florzinha, conta-me mais.
E Míriel lhe contou que, apesar de os funcionários da casa de leilões declararem que não havia como precisar o valor daquela jóia de imediato, levando-se em conta que além do pesado ouro, havia também de se determinar o preço de cada uma das muitas pedras de rubis e esmeraldas nele engastadas, a oferta de nenhum concorrente poderia igualá-lo.
Isso posto, os pretendentes à casa começaram a reclamar que não poderiam ser vendidos imóveis de Gondor a estrangeiros de Harad, no que Míriel exigira que lhe apontassem o édito que determinava tal coisa, esclarecendo a todos o meirinho, versado naqueles assuntos, que uma tal lei não existia.
Ao final, o meirinho lhe esclarecera ainda que, pagas as dívidas e os impostos, certamente sobraria muito dinheiro para que a Senhora Morwen adquirisse uma nova moradia e desocupasse a mansão.
- Ora, mas se a casa é de Daror, não há porque a sogra de Daror sair dela.
- Foi o que disse eu ao meirinho – esclareceu Míriel.
...
Daror estava verdadeiramente encantado da façanha de sua tinhosa esposa ... Arre, sua riqueza estava mais que provada para toda a Cidade! E em breve a mera fama dela percorreria todo o Norte!
Daror ajoelhou-se junto ao assento no qual Míriel recostara-se, deitada sobre vários travesseiros e almofadas, tirando as botas e massageando os pés inchados daquela que se revelara sua bela campeã no tipo de embate que travava hoje em dia.
- Estou verdadeiramente orgulhoso de ti, florzinha – ria-se ainda, pressionando a planta dos pés de Míriel com a ponta dos dedos.
Os sábios dedos de Daror proporcionavam um alívio incomensurável aos membros tão gelados quanto doloridos.
Os dedos sábios de Daror, suspirava Míriel, mesmo conformada.
Até que o nariz quente de Daror esfregou-se em seu nariz frio.
E a devoradora boca de Daror cobriu a sua.
Ah, Daror! Há quanto tempo já nem a beijava, tanta falta lhe fazia ...
E suspendera-lhe o corpo nos braços – como se não estivesse pesando quase o dobro do habitual, mas a mesma coisa! – E conduzia-os para o leito!
Míriel passara também seus braços em torno do pescoço de Daror, retribuindo-lhe a paixão daquele beijo infinito, deitados à cama.
Ah, Daror ... seu corpo já o antecipava dentro de si ... Ainda que não se aventurasse forte ou fundo, como o queria!
E subira-lhe já as saias!
E descia-lhe as ceroulas, beijando-lhe o ventre.
- Então diga-me, filho, já não vês a hora de vir cá para fora ter com teu pai, certo?
Quê?
Míriel ainda aguardou, a cabeça coberta pelas saias, as ceroulas abaixo do ventre, a indignação crescendo em seu peito à medida em que perdurava aquela conversa entre pai e filho, enquanto ela simplesmente jazia esquecida, naquela posição ridícula.
E o filho respondia ao pai, mexendo-se incomodamente em resposta à voz de Daror, como a assegurá-lo de que em breve estariam juntos.
Míriel desistiu: esquecera-se dela! Não a queria. Estava gorda. Estava inchada. Soltava gases e, definitivamente, o que restava de seu bom humor esvaíra-se!
- Que te faz ter tanta certeza de que não é uma menina? – Ergueu o tronco de súbito, jogando as saias novamente para cima das pernas e recompondo-se, uma vez que o desnudar de seu corpo perdera a seu ver qualquer propósito.
- A barriga está apontando para cima mesmo deitada como estás mulher, e sossega, bravia – sorriu Daror recostando-a novamente
- Sossegado demais fica Daror, que nem parece mais lem brar-se que Míriel é sua mulher! – A culpa pelo seu péssimo humor era dele, que lhe dera aquela esperança vã.
- Está com o mal das mulheres prenhas, quer mais atenção que uma criança. – Quis ainda e mais uma vez rir Daror. – Não vê que teu homem sofre mais que ti ao ter de evitá-la?
- Viu? Estás evitando-me! E porque, pergunta Míriel, se afinal já estamos no Pelennor mesmo e daqui não sairemos antes desse nascimento? Por que não nos satisfazemos de uma vez e que essa criança então venha logo?
Míriel estava mesmo com o mal das mulheres prenhes, da emoção exacerbada, já tão comum às mulheres, flutuando entre e ira e a melancolia, e a resposta de Daror de que não via com bons olhos a perspectiva do nascimento de uma criança em meio às tempestades de neve com que o tempo ali vinha ameaçando-os todas as noites, só a fez sentir-se ainda mais rejeitada.
- A intempérie não impede Daror de mandar Míriel à Cidade Branca, para cuidar dos assuntos de seu interesse, enquanto ele fica muito sossegado no acampamento. Sossegado demais para um que deveria saber que seu primeiro filho foi concebido lá, e não por ele!
A mão de Daror agarrou o pescoço de Míriel com tal rapidez e tanta fúria que o coração dela chegou a parar.
Míriel dirigiu as mãos ao pescoço, buscando espaço entre os dedos de Daror para voltar a respirar.
- Este homem de que falas, não está morto?
- Sim, sim – conseguiu responder quando os dedos à volta de seu pescoço afrouxaram o aperto.
- Sempre supus que assim fosse – afastou-se Daror da cama, rumo à saída da tenda – E, se não o é, será. – sentenciou ao deixá-la, trôpego tanto de ciúme quanto de horror de si mesmo. A ira não fazia boas obras, e a dele menos ainda.
Míriel nem correu a chamá-lo, atônita. Num momento tudo eram risos e beijos, noutro uma simples palavra mal colocada e pronto, a dissensão instalava-se.
Conviver não era fácil.
