CAP 13 - A ALMA ROUBADA
Cabelos Negros estava no quarto, separando aqueles dentre seus poucos pertences pessoais que levaria consigo, quando Haldir reparou na saia vermelha e no cinturão de ouro que estavam sobre a cama.
- O que é isto? – perguntou para a esposa.
- É meu traje de dança – respondeu Darai, seguindo a direção dos olhos do marido.
- Traje de dança? Não sabia que você o tinha guardado. Para que vai levá-lo?
- Sempre há dança quando Harad se reúne, é a tradição de meu povo.
- E você pretendia dançar? – inquiriu o elfo.
- Sou guardiã de tradição, esposo – respondeu Darai, como quem dá uma explicação óbvia e suficiente.
Haldir reviu mentalmente a tradição de que ela era guardiã.
- Não vai dançar novamente – falou o capitão de Lórien, olhando severamente para a edain.
E Darai não falou nada, mas simplesmente jogou o traje dentro do alforje, fechando-o.
Estava pronta para partir.
Sempre me desafiando – fitou-a Haldir, no poderoso embate de vontades que os caracterizava. – Pois não dançará.
Dançarei sim – foi o que o soerguer orgulhoso do queixo quadrado da haradrim respondeu.
E da colisão entre a resolução dos olhos claros e a disposição dos olhos negros não houve vencedor até que ambos partissem, adiando a decisão daquela batalha para o futuro próximo.
Foi, portanto, num clima de beligerância velada que Haldir e sua esposa tomaram da montaria e partiram.
Ao alcançar a orla da Floresta Dourada, porém, Darai encontrou o inverno em seu caminho.
Embora seu corpo estivesse protegido por élfica capa, e circundado pelos braços do esposo, o vento fustigava seu rosto, trazendo-lhe arrepios.
E um sentimento ruim.
A princesa de Harad combateu tais sensações em seu íntimo – pois desde que recuperara a memória por completo, pusera-lhe rédeas, fazendo com que as lembranças que trazia consigo, boas ou ruins, de amor ou de ódio, de ternura ou de ira, a conduzissem onde e como queria.
Não era o que acontecia agora, e, ao ver os finos flocos de neve aproximaram-se, a haradrim viu-se totalmente desprovida de comando sobre si mesma, tomada de tremores que a fizeram, com um gemido, voltar-se e se aferrar ao corpo do elfo, em busca de abrigo.
- Mornfinniel? O que houve, esposa? – perguntou Haldir, até então distraído pelo espetáculo que não se via em Lórien, sem, entretanto, obter resposta.
- Não se sente bem? Quer retornar para nossa casa? – insistiu.
Um meneio contundente da cabeça firmemente enterrada em seu peito descartou tal opção.
Realmente, tal possibilidade, por mais que a desejasse, não seria condigna. Concordara com a condição imposta quando reclamara a esposa. Concordara com várias condições, e ainda que as desaprovasse, que as desprezasse, não poderia renegá-las.
Ignorara a convenção de retornar aos Campos do Pelennor e reapresentar sua Cabelos Negros o quanto pudera, pois, se os haradrim não cumpriam suas obrigações, sequer ele teria como fazê-lo.
Mas agora que fora comunicado, formalmente, de que para lá se dirigia o povo de sua adan, não poderia se furtar a cumprir com a própria promessa.
Portanto, em função de seu compromisso e da vontade da esposa, prosseguiam, e o elfo envolveu-a mais em sua capa, tocado pela raríssima demonstração de fragilidade da mulher, pelo perfume selvagem de seus cabelos, pela terna sensação de vê-la buscando-o, abrigando-se em seus braços, e correu os dedos pela face escondida.
O próprio galadrim arrepiou-se ao sentir o quão geladas estavam as bochechas habitualmente afogueadas da esposa.
Nienna compassiva, sua adan oriunda de uma terra de sol possivelmente jamais conhecera de um tal inverno de gelo e neve no descampado.
Ou sim?
As risadas guturais acompanhavam os urros de dor do orc ferido.
A mulher quase lhe arrancara um naco.
- Maldita! Maldita! – revidara ele assim que tivera condições, batendo-lhe com os toros de lenha que haviam juntado até quebrá-los.
As risadas guturais acompanharam os ganidos da mulher amarrada no solo.
Incapacitado para o mais, a criatura perversa por fim vislumbrou a neve, e guinchando de satisfação rasgou-lhe o que ainda restava do vestido.
- Vai implorar pelo meu calor, maldita – divertiu-se o ser bestial, escarrando na massa de cabelos por entre a qual escapavam gemidos.
E os flocos de neve queimaram-lhe a pele.
E o frio multiplicou até a loucura a dor de cada pancada e de cada torcedura a qual seu corpo fora submetido.
E ao transformar-se em água, a geada que a recobrira roubou todo o calor de sua alma.
E de sua garganta povoada por espinhos já não saía qualquer palavra quando a buscaram.
Assim como de sua consciência aguilhoada pela febre fugiu a identidade.
Contudo o corpo do qual os orcs apressaram-se a ainda tirar proveito, antes que a vida a abandonasse por completo, teimou, encontrando naquele contato vil algo de que tirar proveito.
Calor.
E sobreviveu.
