CAP 14 – O TANTO E O MUITO

Inviável prosseguir com a esposa pelo descampado. Ela precisaria de abrigo para o frio das noites. E Haldir desviou-se por caminhos que levavam a uma hospedagem.

Prestimosa e espantada foi a acolhida que recebeu o capitão do belo povo, na estalagem vazia àquela época do ano em que se evitava viajar devido ao frio.

Acesa a lareira do quarto, contudo, Mornfinniel, sentada na poltrona contígüa, recuperou um pouco a cor das faces.

- Está melhor, minha bela? – perguntou o elfo, oferecendo-lhe uma caneca de sopa simples, porém quente.

Embora distantes, os olhos negros da edain, miraram-no com uma intenção de agradecimento.

Ele velava por ela, afinal, concentrou-se Darai nos dedos quentes que acariciavam seu rosto.

Não estava só!

Poderiam enfrentá-los.

Poderiam afastá-los.

Ele poderia afastá-los.

Para sempre.

A princesa haradrim entreabriu a boca para os dedos que por lá passeavam.

- Termine a sopa – sorriu Haldir, satisfeito ao ver a consciência retornar aos olhos dela, limpando-lhe os lábios com um pano úmido.

Ele cuidava dela – refletiu Darai.

Apesar do tanto que os separava, havia muito que os unia.

Ajudara-a até a vestir-se, esticou as pernas sob a camisola.

Aproximava-se, agora, após as demais providências do pernoite, surpreendendo-a no quarto para qualquer outro demasiado frio, despido da camisa.

A edain sorveu aquela imagem com seus olhos negros, como se sorvesse de uma taça doce de vinho.

Ele a trouxera de volta à vida uma vez.

De volta à sua essência através da paixão que nutriam um pelo outro.

Fora assim que ela se reencontrara.

Se algo lhes faltava agora, poderiam reencontrá-lo.

Reencontrar-se.

Haldir era uma visão soberba. E seu corpo foi então assaltado pela memória do porquê movera céus e terras para ver-se devolvida a ele.

Poderia, mais uma vez, voltar a sentir-se plena, e sem se mexer na poltrona, ela deixou que seus olhos contassem aos dele o que ele poderia fazer-lhe agora.

O que queria que lhe fizesse.

Lânguida.

Oh sim, rusgas esquecidas, ela o queria agora, estava pronta, e o corpo do elfo parecia bruxulear, espelhando o fogo da lareira.

Aquela viagem valeria à pena, pensou, erguendo o corpo de sua amada, como o erguera na situação pavorosa em que se conheceram e fora preciso carregá-la daquela forma, revezando-se com os irmãos, até Caras Galadhom e os cuidados da senhora Galadriel.

Da outra vez que a tivera em seus braços do mesmo jeito, fora na não menos terrível ocasião em que a desposara nos bárbaros costumes de Harad.

Sustentá-la agora, contudo, em momento de intimidade, reiterava-o do produto positivo de tais iniciativas: haviam-na feito dele.

E não desejaria outra coisa.

Haldir conduziu-a à cama, onde a deitou docemente.

Meu amor – elucubrava de si para si – far-te-ei tão satisfeita com teu marido que você haverá de rir seu riso selvagem na cara de teu irmão, caso ele lhe pergunte se "é de sua vontade" permanecer ao meu lado.

Beijavam-se agora, como pouco se haviam beijado desde que sua filha nascera, prestes a realizar o que não ocorria desde então.

Ali não haveria crianças batendo à porta, ali não haveria de a mãe pôr-se antes da mulher e atender uma menina estragada pela permanente satisfação de suas manhas.

Ali não haveria a pressão da refinada sociedade élfica, a comparação com as esposas dos irmãos do marido, com a doce e discreta Niéle.

Ali, suas essências, masculina e feminina, simplesmente se encontrariam.

Se reencontrariam.

Se reassegurariam.- pensava, sem imaginar o quanto seus pensamentos e desejos refletiam os dela.

Os laços da camisola desfeitos, Darai sentiu a mão sôfrega sobre o seu seio.

Até que uma explosão de leite represado varreu aquele momento.

Atônito, o elfo viu-se involuntariamente banhado pelo líquido branco e gorduroso que jorrava da teta em sua mão, qual jorraria de uma vaca ao ser ordenhada.

As mãos ainda tentaram reter aquele fluxo, estancar a inundação antes que empapasse os lençóis, quando a dama dos cabelos negros arrancou-se de seu alcance.

Ele tem nojo de mim – constatou Darai, escorregando para fora da cama com o olhar furioso e ferido.

- Querida – estendeu-lhe a mão o elfo – não ...

Querida – nas raras vezes em que lhe dirigia essa palavra, parecia-lhe fazê-lo com indisfarçável tom de pena.

Senhora ou esposa, era como a tratava habitualmente.

Mornfinniel como a nomeava.

Cabelos Negros como a chamara no que se lhe assemelharam seus longínquos momentos de amor ...

- Afaste-se – sibilou – Vá se limpar, meu leite está escorrendo pela sua fronte – sugeriu friamente, enquanto fechava os laços da camisola.

Tinha nojo dela. Do mero animal que era para ele

E ela sabia o que era ter nojo de alguma coisa.

Não podia contar com ele.

Estava só para combatê-los.

Estava só.

- Esposa – chamou Haldir ao retornar para o leito.

Oh sim, ele fora lavar o rosto, como ela sugerira que fizesse.

Nisso lhe acatara sem hesitação.

- Senhora, venha para baixo das cobertas, viemos ter aqui para que pudesse se abrigar do frio.

Darai simplesmente pegou da manta que jazia sobre a poltrona e enrolou-se nela.

A friagem à volta não lhe parecia maior que o frio que assobiava em seu coração, tal qual o vento assobiava do lado de fora da janela de madeira à qual se encostara.

Queria poder abri-la e olhar para as estrelas.

Tantas vezes ansiara vê-las sem o poder.

- Lembra de quando as nomeei para você, minha bela? – Haldir aproximara-se e a envolvera. Carregava consigo o amor élfico pelos corpos celestes, e, por mais incompreensão que houvesse entre eles, um olhar perdido em direção aos céus junto a uma janela fechada numa noite escura era um signo fácil de se decifrar.

- Lembro.

Graças.

Agora era só segurá-la pelos ombros e vira-la para si. Acariciar-lhe o rosto, recostá-la em seu peito ...

- Era mais fácil quando eu não era ninguém, não é mesmo? – lançou-lhe baixo tão logo seus olhos se encontraram.

- Do que você está falando? – Valar! Ia começar de novo.

- De quando eu era uma criatura saída do nada, que podia ser tudo que você quisesse.

- Nunca fui senhor de sua vontade, sabe disso, quisera ter sido, mas jamais fui.

Mas ele o fora sim, mais do que ela seria capaz de admitir até para si mesma.

Fora o sol que iluminara o escuro caminho do retorno de sua consciência torturada.

Porém, a capacidade que porventura tivera de aquecê-la, extinguira-se.

Estava só.

Estava só para combatê-los.

E dormiu uma noite de sonhos terríveis sobre a poltrona.


O orc salivou ao avaliar o lombo envolto pelos trapos encardidos.

Aquela carne era tenra.

Era macia e suculenta.

Seus outros apetites apascentados, ele já antecipava como seria saborosa, ao aproximar-se sorrateiramente do butim que jazia entre os corpos de seus companheiros adormecidos.

O berro da ceia, entretanto, acordou o restante do bando, francamente contrário àquele uso para a criatura.

- Sua besta, que está fazendo? Não vê que esse aqui é outro tipo de repasto? – rugiu um, afastando o outro do ser ferido que massageava os flancos lacerados, gemendo.

- Pois para mim já não serve! Lembra-se como gritava e se debatia no começo? Pois agora só fica muda e parada ...

- Mas ainda é melhor que nada, ainda dá um bom divertimento.

- Dará um assado melhor ainda – disse o orc faminto reaproximando-se.

- Não ouse, escória – puxou-lhe a adaga um orc alto e forte – não antes que eu me farte bem dela!

- Pois eu lhe mostro é que já estou farto dessa porcaria que comemos todo dia.

- Pois eu lhe darei uma carne para que se farte, já que não tem outro uso para o que está entre suas pernas.

Logo os orcs urravam, excitados, nesse momento mais interessados na luta que se desenvolvia frente aos seus olhos que no animal machucado que rastejava para o extremo do círculo que agora formavam.

Mas sempre havia uma mão segurando a corda que lhe saía do pescoço.

- Venha, venha, cadelinha – pegara sua coleira o aleijão, o orc de perna atrofiada e mão retorcida que não a conseguia disputar com os demais, puxando-a para longe da algazarra.

- Veja o que eu tenho para você, cadelinha, veja o que eu tenho para você – ao alcançar o canto ele revelou a fruta, quase boa, na mão retorcida – Aqui pegue, pegue vamos – mas quando ela estendia a mão para o alimento, o orc segurava-lhe a coleira firme no pescoço, e o animal não podia alcançá-la.

Ante os risos do orc, o animal começou a rosnar.

- Rá-rá-rá – riu ainda – pegue, pegue – disse por fim jogando a pêra no chão sujo.

O bicho faminto avançou para o fruto, colocando-se por fim na posição que o orc desejava.

O ser bestial agora guinchava, babando sobre a massa imunda de dejetos e cabelos negros da criatura concentrada no pomo, sua humanidade esquecida bem fundo.

Era um ser de puro instinto.

Comer e beber rápido.

Proteger a cabeça quando estivesse levando paulada.

Sobreviver a todo custo.

E aguardar.

Aguardar o dia em que não houvesse uma mão firme segurando a corda.

Aguardar o dia em que, por um momento, não estivessem sobre ela.

Aguardar o dia em que lhe deixassem uma brecha.

E então mergulhar no rio que seus ouvidos lhe informavam sempre que passava rápido por perto.

Até lá, a criatura de instintos apenas aguardava.


...

As manchas escuras do cansaço dos mortais tomavam o derredor dos olhos dela, quando Haldir finalmente sussurrara em seus ouvidos palavras que serenaram-lhe o sono.

Fora mais fácil.

Fora mais fácil sim, refletia Haldir, apôs havê-la carregado adormecida para a cama.

O elfo desfez a trança de viagem da esposa, espalhando os cabelos negros pelo travesseiro.

Constituía o cerne de seus desentendimentos últimos.

- TUDO O QUE FEZ POR MIM? Acha que o MEU SACRIFÍCIO foi menor? Abandonei Harad por você, para viver uma vida de exilada ao seu lado, e achei que me compensaria, todo dia e a cada momento, MAS NÃO O FEZ!

- Pois você poderá reconsiderar isso junto ao seu povo, como seu irmão me fez prometer!

- Certo!

A filha que parecera celebrar o renascer de sua felicidade, outras vezes assemelhava-se-lhe ao último rebento de uma ilusão que os dois haviam querido sustentar.

Não eram mais aquelas pessoas que se haviam casado outrora em Lórien.

Não eram aquelas pessoas.

Mas ele ainda espalhava os cabelos dela pelos travesseiros ao dormir.

Os cabelos da adan intratável que um dia fora tão sua.


...

A manhã seguinte despertou-os cedo para um desjejum rápido, em que Darai lhe assegurou que seu desejo era chegar logo a Gondor; frio, vento, distância ou desconforto às favas.

- Contudo, pode refazer essa trança, está malfeita.

- E porque desmanchou a que Niéle entrançara? Teria durado toda a viagem, e aqui não tenho pente ou espelho.

- Deixe-me entrançá-los então.

- Mas era só o que me faltava, um marido efeminado a me arrumar os cabelos.

Haldir sentiu ganas ferozes de mostrar-lhe quem era o marido efeminado, mas ela já montara e partia, e teria galopado sem o elfo se este não tivesse utilizado de toda sua agilidade para erguer-se sobre o animal já em movimento.

Seus braços circundaram a adan, tomando a crina e o comando do cavalo em suas mãos.

Se ela queria velocidade, velocidade era o que teria.

Que o vento gelado fustigasse aquela criatura teimosa!