CAP 16 – O REENCONTRO DOS HARADRIM
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- Ah! Finalmente – sorriu Arwen – pensei que me fariam almoçar sozinha.
- Majestade – cumprimentou-a o príncipe Imrahil, de Dol Amroth, com uma mesura.
- Alteza – respondeu-lhe a rainha com um caloroso cumprimento de cabeça.
- Undomiel – cumprimentaram-na Legolas, com um sorriso e Haldir, com graciosa mesura.
- Senhora Rainha e herdeira de toda a beleza – tentou um galanteio a voz rouca de Gimli.
- Amigos – sorriu-lhes a esposa do Rei – sentem-se, por favor – disse-lhes, apontando para os lugares postos à mesa – essas reuniões intermináveis não podem privar-me de sua companhia todo o tempo, ainda mais que sei quão mais longas ainda serão quando meu marido e o Rei Éomer chegarem.
- Trabalhamos para que ambos, assim como o capitão Faramir, sejam poupados quando chegarem, ao menos do que pudermos adiantar – garantiu o príncipe Imrahil.
- Vou fingir que acredito – brincou a Estrela Vespertina – Às vezes parece que meu marido é mais atarefado hoje, no governar de Arnor e Gondor, do que quando se dedicava apenas ao trabalho de reunir os povos da Terra Média no combate ao Um Inimigo.
- Tal não é diferente com qualquer Senhor, Majestade – buscou contemporizar Haldir.
- Se o senhor diz, quem sou eu para discordar, Capitão? – retrucou Arwen, com uma brincalhona ênfase no formal tratamento empregado.
- E a senhora sua esposa, será que ainda vai demorar? – perguntou a Rainha, ao aperceber-se do lugar vago ao lado de Haldir. Possuía grande interesse, franca curiosidade em conhecê-la melhor.
- Minha esposa não virá almoçar conosco – respondeu o elfo.
- Não? – certificou-se Arwen, dispondo-se então a mandar servir a refeição.
- Por quê? – questionou o anão.
- Por que foi ao acampamento dos sulistas – mastigou a resposta o galadhrim, fazendo com que Legolas desse uma élfica cotovelada em Gimli, antes que este emitisse o comentário ou questão, o que quer que fosse que parecia prestes a sair de sua boca.
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- Já esteve lá ontem, estarei em reunião hoje, não a posso levar ao acampamento.
- Mas até por isso é melhor que eu vá, se você vai estar ocupado.
- Exatamente, pode aproveitar para conversar com a Rainha, que foi tão gentil consigo ao chegarmos, e a quem você ainda não retribuiu com a devida atenção.
- Conversarei com a Rainha no momento certo, com certeza ela também tem suas ocupações e não é conveniente que a façamos desviar-se delas para me pajear.
- Já disse que não a posso levar.
Mornfinniel mirou-o, o sorriso egocêntrico de Darai nos lábios informando-o de que sua companhia era mais do que dispensável.
Poderiam se confrontar. Gritar e se agredir no Palácio do Rei, e ainda assim de nada adiantaria.
Ela iria de qualquer maneira, a não ser que ele a trancasse no quarto, quando então ela faria um escândalo que seria ouvido em toda Minas Tirith, se não além.
- Faça como quiser, senhora – desistiu o elfo da batalha que não poderia vencer.
Na verdade não esperara outra coisa. Não após presenciar a recepção do povo de Harad à sua princesa...
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A noite já ia alta quando Haldir e sua esposa aproximaram-se da Cidade Branca, e foi apenas esta circunstância que dissuadiu Mornfinniel de fazer o marido levá-la direto ao acampamento que apenas os olhos do elfo divisavam, mas que algum sentido da adan assegurava-lhe que estava ali.
- Amanhã, senhora, amanhã – repetira-lhe ele infindas vezes, na esperança de dirimir toda aquela ansiedade, enquanto subiam a cavalo os caminhos circulares de Minas Tirith.
O Capitão da Aliança começara a emitir um constrangido pedido de desculpas ao ver-se recebido pela própria Rainha em hora tão tardia, quando os cumprimentos de Gimli e Legolas revelaram que outro era o motivo para que Arwen ainda se visse acordada.
Os olhos da Estrela Vespetina revelavam um contentamento todo especial no rever amigos tão queridos, e suas palavras e desvelo para com a acomodação da esposa de Haldir foram de uma amabilidade ímpar.
O respeito e a correção da graciosa mesura dirigidos por Mornfinniel à neta de Galadriel proporcionaram ao galadhrim, por sua vez, um sentimento de alívio e contentamento: aquela era sua bela esposa adan.
- Amanhã de manhã cedo – disse-lhe ela após se verem finalmente instalados, tratando de dormir após as providências mínimas.
Precisava descansar ao menos um pouco, para chegar ao acampamento em seu melhor.
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- Darai! É Darai! – correu o aviso pelo acampamento antes mesmo que desmontassem.
E ninguém, nem mesmo os filhos adotivos de Harad que nunca a haviam visto pessoalmente, ou os rapazes jovens demais para se lembrarem de sua figura, deixaram de voltar-se para o ponto magnético onde desapeava, em frente às tendas de Daror, no exato momento em que o sol vencia a manhã enevoada, para, na primeira vez desde que lá chegaram, subir para um céu que não estivesse carregado com pesadas nuvens de chuva.
Daror saiu da tenda naquele instante, e aproximou-se da irmã que punha os pés no chão e fazia o mesmo, parando a dois passos um do outro.
Daror e Darai fitaram-se por um momento.
Para então envolverem-se num abraço tão intenso que Haldir sentiu uma dolorosa fisgada em suas entranhas.
Pareciam se dizer naquele gesto mais do que ele soubera dela nesses anos todos.
- Darai está conosco! – exclamou Daror erguendo a irmã sobre os ombros, para que todos a vissem.
E um alarido tremendo, um brado selvagem, invadiu os ouvidos do elfo atônito de ver sua esposa ser levada pela multidão que gritava seu nome, enquanto ela sorria e acenava.
Sorria, acenava e, tão logo foi posta no chão de novo, abraçava e beijava, sendo também abraçada e beijada por uma infinidade de tios e primos, aos quais lançava olhares de flerte e sorrisos de promessas, meneando a cabeça travessamente, colocando dedos falsamente ingênuos na boca, e afirmando que não acreditava que aqueles rapazes soberbos eram as crianças que vira outrora, ou que os homens velhos haviam descoberto a formula da eterna juventude.
- Rá-rá! Minha provocadora – beliscou-lhe as bochechas Terair, encantado da imagem de Ravai que materializara-se à sua frente – ainda hei de te mostrar o que é um verdadeiro homem de Harad.
- Tu, velho? – riu, mais provocadora que nunca – E tu ainda serves para isso?
- Mais que esse teu marido de longas madeixas, podes apostar – garantiu o velho Terair, para gargalhada geral, numa piada que, apesar de, aquela altura, distante, e numa língua que o elfo não podia entender, Haldir não duvidou referir-se à sua pessoa.
Mesmo que quisesse, entretanto, não haveria a quem externar sua indignação: jazia ainda reassegurando o cavalo, esquecido pela esposa em meio a um ajuntamento de bárbaros que não pareciam sequer enxergá-lo.
- Eles a idolatram – esclareceu na língua comum uma voz feminina com acento nobre.
Tão atordoado encontrava-se o elfo que sequer percebera a figura larga aproximando-se.
Alta para uma adan, quase tão alta quanto a Senhora Galadriel.
- Sou sua concunhada, Míriel, esposa de Daror – apresentou-se a dama numenoreana com um despojamento que não lhe comprometia a elegância.
- Maegovannem – conseguiu responder o elfo cada vez mais surpreso.
Parecia-lhe absolutamente incongruente uma união que juntasse aquele troll a uma dama que, além da beleza aristocrática, portava claramente também cultura e sensibilidade.
Apesar do que, aquela senhora, mesmo já desconfortável em seu final de gestação, parecia estranhamente feliz.
Mais feliz do que sua própria esposa tantas vezes aparentava – incomodou-se Haldir - voltando-se novamente para a multidão a procurá-la, constrangido de ver-se abandonado em meio àquela situação, tendo as pessoas que se introduzirem a ele daquela forma, quando o correto seria que permanecesse ao seu lado, para que familiares e amigos se cumprimentassem de maneira civilizada ...
- É como uma lenda viva para eles, uma deusa personificada, quase uma Vala – sorriu-lhe novamente a voz de Míriel, buscando consolá-lo ... era óbvio que não entendia, como ela mesma permanecera tanto tempo sem entender – São um povo diferente, mas fascinante.
- Sem dúvida – respondeu Haldir.
Fascinante, uma palavra tantas vezes mal-empregada, de forma a não se atingir a complexidade e a extensão de seu real significado.
Não a única, mas sem dúvida uma palavra adequadíssima à descrição de sua esposa.
- Mesmo sem conhecê-la, pedia a meu marido que explicasse o que a fazia tão ... venerada entre os haradrim, tão simbólica para eles, já que não deixava de ser um ente de carne e osso, como todos, uma mulher como eu, com sua vida, seu marido, filhos ... Sabe o que me respondeu ele?
- O quê? – perguntou educadamente o elfo.
- Que Darai é o Harad.
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Harad.
A cabeça do elfo doía só de imaginar quantas vezes ainda teria de ouvir aquela palavra.
Mesmo a refinada dama numenoriana a pronunciava com reverência.
Harad, diziam, e quaisquer outras explicações pareciam desnecessárias.
Sua concunhada providenciara para que o cavalo fosse cuidado e lhe garantira um assento entre os que estavam a toda hora sendo buscados dentro das tendas. Pela primeira vez desde que o acampamento se instalara uma reunião tomava lugar fora delas, dada à quantidade de participantes.
O tempo passava, queijo e pão foram-lhe oferecidos - assim como o caldo duvidoso – e uma taça surgiu em suas mãos, na qual foi depositada água, e depois vinho.
Míriel providenciara-lhe um lugar próximo ao em que Darai se encontrava, cercada pelos Senhores e Capitães de Harad, a deblaterar.
Aquela língua, contudo, não possuía parentesco com qualquer língua élfica, ao contrário de tudo que Haldir já ouvira ser pronunciado na Terra Média – menos a língua negra.
Mesmo com essa, que lhe provocara a mesma repulsa, não havia parecença, e o elfo via-se impossibilitado de passar por aquela barreira.
Exceto quando aquela palavra era pronunciada, e ela era pronunciada o tempo todo.
Harad.
Haldir sabia o que era: uma pátria, um lugar; mas ainda assim não entendia. Usavam-na como se encerrasse um discurso inteiro em suas poucas letras.
E com tal devoção e pobreza vocabular a repetiam, que a cabeça do elfo doía só de imaginar quantas vezes ainda haveria de escutá-la.
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A manhã dera vez ao meio-dia, e este por sua vez à tarde, que já se findava também quando Haldir houve por bem de aproximar-se da esposa e dizer-lhe;
- Senhora, faz-se tarde, devemos ir.
- Não é necessário, esposo – voltara-se-lhe ela, finalmente, na língua comum – podemos nos instalar numa das tendas e ...
- Já nos instalamos no palácio do rei, e estamos sendo hóspedes ingratos se não demonstramos à Rainha, que nos acolheu tão gentilmente, nossa consideração de voltar antes da madrugada – insistiu o elfo, já com a mão em seu cotovelo, instando-a a levantar-se, a obedecer-lhe, a ver que aquilo já passara de todos os limites.
Antes que a haradrim arreganhasse os dentes no prenúncio de uma contenda terrível, Daror aproximou-se e tomou-lhe o outro braço.
- Não precisa se preocupar, cunhado – asseverou Daror– por hoje, Darai retornará à Cidade Branca consigo – esclareceu na língua comum – depois que Daror houver tratado com ela de um último assunto - disse, puxando-a para o outro lado, fazendo com que o elfo a soltasse.
Por hoje – bufou o elfo, vendo os irmãos afastarem-se de todos, sua esposa ouvindo atenta ao gigante reclinado em direção a ela como se lhe passasse instruções que ela recebia com atenção dedicada.
Àquele homem hediondo a mulher parecia acatar sem questionamento, a discussão cujo prenúncio Haldir antevira morta ainda no nascedouro pela determinação do ogro de que ela retornaria à Cidade Branca com o marido.
Entretanto Haldir não poderia esperar que seu monstruoso cunhado determinasse que ela não voltasse ao acampamento, ou ao menos que lá não fosse sem o marido.
E todos os dias em que tentava convencê-la de o fazer, sabia que travava uma batalha perdida.
