CAP 17 – A VOLTA DE LËANA – PARTE2
O próprio Daror surpreendera-se com a intensidade de sentimentos que o assaltou ao saber que sua irmã chegara, ao encará-la frente a frente.
"Ainda está zangada pelo que fiz, maninha?" – perguntou-lhe com os olhos.
"Estou" – respondera-lhe incontinenti – "E Daror terá seu troco"
Ainda e sempre a mesma, como então ele se sentiu também, apertando-a no abraço que gritava, como jamais quaisquer palavras diriam, o quanto lhes fizera falta, o quanto lhes era querida, como era bom tê-la ali!
Os braços à volta dele disseram-lhe o mesmo, e o mesmo gesto de suas façanhas conjuntas ele repetiu, soerguendo-a e sentando-a em seu ombro, para anunciar ao povo que sua irmã estava ali.
Seu esteio.
Sua tradição.
Sua heroína.
A filha de Harad que sobrevivia.
A mulher que fascinava.
A própria rosa de selvagem, em seu esplendor e seus espinhos.
Reassegurando-lhes quem eram.
Como eles a reassegurariam.
...
- Ela lhe lembra alguém? – perguntou Lëana, depois de vários dias de retorno fascinado do marido aos encontros com a irmã de Daror.
- Quê? – acordou subitamente Nasser de uma impressão benfazeja.
- A mulher morena, a irmã de Daror, ela lhe lembra alguém? – insistiu Lëana.
Nasser respirou fundo. Sim, Darai lembrava-lhe alguém, muitas pessoas na verdade: sua mãe, suas tias, sua esposa e suas filhas mortas, todas as tantas mulheres que já lhe haviam sido queridas antes, que meneavam as cadeiras ao andar, que jogavam os cabelos para lá e para cá, que sorriam com feitiço, provocavam e flertavam com os homens, dançavam como deusas, lutavam como fúrias e resistiam como Harad.
Recusava-se ele, como os demais haradrim, a supor que elas pudessem um dia ter desistido. Darai era a prova de que qualquer delas resistiria além dos próprios limites, e lhas trazia de volta em seus trejeitos, em seu jeito, em sua mera existência, na qual podiam lembra-las e louvar a cada uma delas.
- A quem Darai deveria me lembrar? – perguntou.
- À sua primeira mulher – respondeu Lëana sem olhar nos olhos do marido.
Nasser respirou fundo novamente.
- Voltaste estranha da casa de teu pai. Triste, nervosa, com essa idéia fixa sobre o meu primeiro casamento ...
O Senhor do Norte do Harad fez uma pausa, abrindo caminho para que a esposa desabafasse, pusesse para fora o que a estava incomodando. Não lhe prestara muita atenção nos últimos dias, era verdade, queria estar com os filhos, queria gozar da presença da prima, retomara com novo vigor suas atividades de supervisão, mas também, Lëana nunca fora uma esposa difícil, uma haradrim contenciosa.
- Senta aqui, mulher – chamou-a para seus joelhos, numa nova tentativa de achegá-la, fazê-la dar-se a entender no que a estava perturbando.
Lëana aproximou-se, pois era de natureza dócil, mas foi o máximo a que conseguiu chegar.
- Não me amas, não é mesmo?
- Quê? – o mal das mulheres muito razoáveis é fazer seus esposos suporem que elas serão sempre assim.
- Sou apenas a substituta, o sucedâneo daquela que você realmente queria, mas que não pode mais ter, não é assim?
Aquilo realmente estava passando das medidas para Nasser.
- Do que estás falando, mulher?
- Tu nunca a esqueceste, tua primeira mulher, às vezes teu olhar se perde ... se perde de mim, e vai ter com ela, com a lembrança dela, é o que sinto.
Agora o olhava nos olhos, e Nasser tratou de fixar aqueles olhos verde-acastanhados, embora sem deixar de se perguntar se uma boa surra na mulher não lhe seria uma resposta mais efetiva às angústias.
- Notável que tu só tenhas sido tomada por um tal sentimento após retornar da casa de teu pai. Que aconteceu lá, Lëana?
A chamara pelo nome, e isso não lhe pareceu bom.
Nada lhe parecia bom ultimamente, estava tão confusa ...
Seu pai, oras, seu pai desejava o seu bem, vê-la feliz ... sabê-la realmente amada, ao invés de iludida.
-Fico satisfeito, filhotinhas, que esses homens as tenham feito felizes, já que o declaram.
- Sim, papai, estamos felizes – afirmara Lëana.
- Oh, é bom sabê-lo, bom sabê-lo, pois muito me preocupei nesses anos.
- Oh, papai, não há com que se preocupar – confirmou Alëna.
- Mas meu coração de pai ... – e Naufelam balançava a cabeça, batendo levemente no lado esquerdo do peito.
- Papaizinho querido – abraçavam-no então as filhas, achegando-se mais ao obeso e carinhoso Naufelam no sofá da luxuosa e acolhedora sala, em frente à bela lareira, acariciando-lhe braços e joelhos.
- Ai, filhotinhas ... – suspirava então Naufelam, como sempre que falavam em retornar ao acampamento – meu coração não vai suportar ver-se apartado de si novamente ... meu pobre e velho coração fraquinho – arfava.
...
- Mas, papai, há muito dias já que estamos aqui, meu marido também deve estar sentindo falta de mim e das crianças.
- É fato – ponderou Naufelam – um estóico, pelo que me contas ... Perder filhos crescidos e uma esposa adorada, e ainda assim conseguir encontrar nos escombros de seu coração destruído algum afeto para atribuir à minha Lëana – suspirou – Eu não o conseguiria ... nunca amei outra, depois que sua mãe morreu ... por que eu a amava de verdade.
- ... Meu marido me ama de verdade – Lëana redargüiu.
- E estou a dizer que não? E estou a dizer que não? Vejo o quanto minha Lëana gosta dele, o quanto a impressionou, só pode ser mesmo um grande homem, embora não o conheça melhor, pois a minha menina mais velha certamente não se deixaria iludir por um simulacro de amor.
Lëana piscou.
Um simulacro de amor.
- O que me dá Nasser todas as noites é um amor bastante palpável – defendeu-se rispidamente a mulher.
Naufelam fitou a filha com o rabo dos olhos, sua modesta Lëana, quem diria, amparara sua consideração ao marido em atributos noturnos e palpáveis ...
- Minha tolinha – riu-se de repente – nenhum homem deixaria de apresentar uma "palpável" admiração por uma moça bonita como você, todas as noites, se isso lhe fosse permitido.
Naufelam sorriu quando Lëana corou.
- Oh, papai, desculpe-me – sorria ela também – minha compostura tornou-se um tanto fluida nesses anos ...
- Ora, ora – abraçou-a o pai – minha menininha tornou-se uma mulher ... – e brincou-lhe com o queixo – sua mãe morreu e eu nunca soube como falar a vocês sobre os fatos da natureza ... E realmente, filhotinha, é um fato da natureza que os homens apreciam às mulheres ... como os coelhos às coelhas, os patos às patinhas, os carneiros às ovelhas...
- Pai, onde está querendo chegar? – incomodara-se novamente Lëana.
- Ao fato de que não me surpreende nem um pouco a atenção que seu marido devota a você, filhota – riu-se o rosto próspero de Naufelam – supreender-me-ia é se fosse o contrário.
- Espero então, e de uma vez por todas, pai, que as dúvidas de seu coração estejam sanadas, e que o senhor não se disponha mais a perturbar o meu com elas.
- Decerto, filha, decerto – deu Naufelam por encerrado aquele assunto – estou absolutamente seguro de que, palpavelmente, ele não entregou mais à primeira mulher do que a você, e, se isso é suficiente para você, tem de sê-lo para mim também.
- Era bela?
- Quem?
- A esposa de seu marido?
Lëana levou alguns instantes para entender que a esposa de seu marido à qual Naufelam se referia não era ela.
- Porque essa pergunta, pai?
- Ah filha, desculpe-me, sou mesmo um desastrado, não a queria melindrar – lastimou-se – Tome o seu chá, tudo que falo parece aborrecê-la.
- É que, em tudo que o senhor fala, parece haver a intenção velada de plantar a semente de uma dúvida em meu coração.
- Intenção velada? Desde quando uma filha vê intenções veladas nas palavras de seu pai? Você me respeite, Lëana ... você ... ai ... ai meu coração.
- Pai, o que foi?
- Papai! - Acorreu Alëna, que brincava com os sobrinhos na pérgola – o que houve?
- O que houve? O que houve é que a sua irmã mais velha traz no fundo do coração uma dúvida que não o quer admitir, preferindo atribuir a mim tal responsabilidade.
- Como? – intrigou-se Alëna.
- Eu só fiz uma pergunta inocente.
- Que pergunta? – indagou Alëna tentando compreender o que se passava.
- Perguntei-lhe se era bela a esposa morta do senhor marido sulista de minha filha. Há algum mal nisso, Alëna? Há, minha caçulinha? – e Naufelam segurou nas mãos da filha mais nova ao perguntar, já fazendo um ar jocoso e piscando-lhe.
- Ora, Lëana, que bobagem – voltou-se Alëna para a irmã – tanto tempo longe, tão pouco para nos divertirmos juntos, e você, logo você, a pegar-se com tolices.
Contudo, apesar de não ser nem um pouco feia, Lëana crescera ouvindo o quanto a irmã mais nova era bela, escutando comparações que sempre davam a sua própria beleza como inferior ...
- Não sei como era a primeira mulher de meu marido. Nasser sempre teve o bom gosto de não tocar no assunto.
- Bom gosto nunca foi uma característica marcante dos haradrim ... – comentou Alëna servindo-se de um biscoitinho, estava adorando a estadia na casa do pai, o carinho, o conforto, os mimos .. .a despensa recheada de tentações deliciosas, o luxo extravagante da casa reformada, os saraus, todas as coisas familiares de que se vira apartada por tanto tempo e das quais em breve se apartaria novamente por outro tanto...
- O que só faz crescer minha admiração por esse homem, se apesar da reconhecida rudeza de seu povo, tem com minha filha todo esse cuidado em poupá-la.
As poucas mulheres de Harad que Lëana chegara a conhecer pareciam-lhe lindíssimas.
Voluptuosas, morenas, exóticas, atrevidas, provocantes.
Às vezes Nasser a olhava como se esperasse mais dela.
Noutras, parecia surpreender-se quando ela se atirava em seus braços.
Lëana mais de uma vez sentira-se em dúvida sobre a melhor maneira de agradá-lo.
Mas o nascimento dos filhos silenciara tais questões: os dois saudáveis e travessos garotos contentaram por demais ao marido, bem como tomaram a ela o tempo de sequer pensar.
Seus dois filhos ancoravam o amor de Nasser em si, pois enquanto necessitassem dos cuidados da mãe, à disposição dela pertenceriam, e onde ela ficasse estariam.
Um elo poderoso a ligar o homem à mulher.
Se isso bastasse a ela.
- De fato, então, se o pai não se quer ver apartado dos filhos, precisa manter a mãe das crianças ao seu lado? – recapitulou Naufelam, dirigindo-se a Alëna, como a conferir se entendera corretamente mais aquela lição sobre os exóticos costumes do Harad.
- Caso contrário as crianças agregam-se ao clã de origem da mãe, ou ao clã de seu novo marido.
- Que curioso!
- E não é, paizinho? – sorria-lhe Alëna, servindo-se do saboroso pão de nozes e passas. Os cozinheiros da casa do Pai pareciam se esmerar em tentá-las a cada dia com um acepipe mais exótico e delicioso que o outro.
Já para os netinhos, Naufelan houvera por bem providenciar um pônei... as novidades se sucediam: a cada dia mercadores visitavam a casa, exibindo produtos luxuosos a elas e aos convidados que volta e meia vinham vê-las – alguns amigos de longa data de seu pai, e outros tantos que as filhas de Naufelam jamais haviam visto, mas todos demonstrando grande interesse em ouvi-las relatar seus cinco anos de aventura no Harad ...
Naufelam chegara a tecer algumas conjecturas íntimas sobre a explanação de Alëna, mas logo abanou a cabeça. Se não se concentrasse em seu objetivo primordial, outros perderiam o proposito...
- Diverti-mo-nos com os convidados ontem até altas horas, não foi, minha caçulinha? – retomou então a conversa com a filha introduzindo um novo assunto.
- Ah sim, papai querido – abraçou-o Alëna – Nunca mais havia dançado o minueto – riu-se – Mas tenho de concordar com Lëana ... foi praticamente um baile, com menestréis e orquestra ... não está o senhor gastando mais do que deveria com essas extravagâncias, paizinho?
- Ah minha caçulinha ... minha doce Alëna ... minha filha favorita – segredou-lhe o pai a última afirmação – Não vai criticar seu velho pai como sua desagradável irmã, não é mesmo? Por isso não arranjava marido aqui, nem está certa de haver agradado o que arranjou no estrangeiro...
- Ah paizinho, não fale assim ... Suas idéias estão a infelicitar Lëana, a pô-la em dúvida.
Naufelam pressentiu mais que percebeu a aproximação da filha mais velha, e tratou de pôr um fim àquela conversa.
- Lëana não precisa carregar dúvida alguma consigo. Pelo que me contaste, a mera existência de filhos comuns manterá o marido sulista atado a ela, quer a ame ou não.
Naufelam apenas não foi rápido o suficiente para que a filha não escutasse suas palavras...
Estava sofrendo, era uma agonia, apenas queria que ele lhe confirmasse ... Os dois meninos, ela os deixaria com ele, apesar de ainda pertenceram a ela ... só não queria que continuasse atado a ela por causa deles...
Praticamente fugira da casa em que seu pai os retinha a todos, com tantos mimos, tantas benesses, tanto interesse, tantas conversas, tantas conjeturas e sugestões, praticamente fugira, à busca daquela resposta.
Faltara-lhe entretanto, por todos aquele dias, a coragem para fazer a pergunta, para confrontar o sim nos olhos do marido, para suportar a ausência de um sentimento mais profundo em seu semblante, para selar o trato que os desobrigaria, para mirar tão somente concórdia, quando se despedissem ...
- ... os deixo contigo ... os deixo contigo – soluçava já
- Nenhum deixará a nenhum aqui – assegurava-lhe a voz firme dos braços que a haviam contornado e retido junto ao próprio peito, buscando aquietá-la – estás tal qual preá assustada, mulher. Que te fizeram, préazinha, que te fizeram? – repetia Nasser, sem outro objetivo mais que acalmá-la, passando-lhe a mão sobre os cabelos, prendendo-a junto a si até que se esvaziasse daquele pranto, derrubando-lhe lenço e xale na carícia continuada durante um longo tempo.
Quando finalmente a mulher se aquietou, o marido não precisaria mais lhe perguntar nada, pois que o cérebro de Nasser trabalhava muito bem, o que lhe restava agora, então, era reassegurá-la, até que aqueles fantasmas deixassem de assombrá-la.
Nasser puxou-lhe do queixo, fazendo-a mirar as juras ternas que lhe preparava, ao tempo em que ele também lhe mirava a doce figura, as orelhas delicadas, o colo branco, os cabelos castanhos ...
- Cadê tuas jóias, mulher? – foi o que lhe saiu, entretanto, ao vê-la totalmente despossuída do tanto com que a adornara.
...
- Tu, estás proibida de voltar à Cidade Branca e, se não gostares do que diz teu homem, vá te queixar a Daror, mas arca com as conseqüências, mulher confusa – sentenciou Nasser, sabedor de que, nesse momento, o melhor que podia dar à mulher eram rédeas. – Quanto a Cassor, vou avisá-lo de que dê um jeito de trazer a mulher de volta, ainda mais depois do que me revelaste.
Lëana acatou a sentença do marido, com cálido conforto na reação nada indiferente dele à sua proposta de separarem-se, e dela jamais se queixou a Daror, que, portanto, nunca a conheceu.
