CAP 18 - O CRISTAL PARTIDO
Assim passavam-se os dias daquele frio e tumultuoso inverno, em que Arwen buscava equilibrar tantos acontecimentos e conflitos.
A nova vida ... A outra vida, pela qual tanto ansiara, pela qual tanto aguardara, aquela que escolhera – não sem dores, não sem sofrimento - a vida pela qual optara, viera a lhe trazer muito mais do que supunha.
Era agora a Grande Rainha, mas também a dona de casa, a mãe, a mulher, a amante ... e também a companheira, a parceira vinculada às necessidades políticas e administrativas de seu esposo. Politicamente era preciso disfarçada e sutilmente postergar a tomada das providências requeridas antes da partida do povo de Harad. Era de fundamental importância estabelecer laços com aquele povo tão diferente, mas ao mesmo tempo espalhado por uma terra tão rica quanto desconhecida...
Mas não deixara nunca de ser Arwen, sensível, terna, apaixonada, criada na harmonia de Caras Galadhom, na beleza de Imladris ... Alguém a quem angustiava presenciar, em seu próprio palácio, o ponto ao qual podia chegar o desentendimento entre um casal.
A animosidade entre Haldir e sua esposa era tão patente que, nos raros momentos em que a senhora Darai esteve presente à mesa, um silêncio constrangido se abatera sobre os circunstantes.
Não que jamais tivesse havido qualquer demonstração pública de discordância ou dissenção entre ambos – ao menos que ela soubesse. – Ao contrário, era exatamente o silêncio em que se mantinham – como se, ainda que lado a lado, lhes fosse impossível estabelecer uma comunicação entre si - que acabava por contagiar aos demais.
Chegava a ser doloroso observá-los, como a duas almas torturadas pela tarefa exaustiva de tentar manter unido um cristal que já se partiu em mil pedaços ...
Se, entretanto, alguma ocasião houve em que tentou fazer saber a Haldir que estava à disposição e o quanto desejava ajudá-los, o orgulhoso elfo fez que não o percebeu – o que nada tinha de surpreendente.
Uma, e apenas uma rara vez, contudo, Arwen logrou ver-se sozinha num corredor em que se encontrava também a senhora Darai.
A rainha aproximou-se rápida e silenciosamente. A não menos orgulhosa esposa de Haldir por certo acabaria por evitar da mesma forma qualquer oferta piedosa se tivesse chance de fazê-lo ...
Mas em sua surpresa, escapou à esposa de Elessar o que pretendia dizer, pois, antes de ser notada, percebeu que a esposa adan de Haldir cantarolava baixinho, num idioma misterioso e cheio de musicalidade, cadenciado pelas passadas do caminhar que, próximo, podia ser percebido quase como uma dança, acompanhado por expressivos gestos das mãos e por um menear de ombros incomum.
Darai virou-se ao sentir a presença da rainha a alguns passos de si, mas o sorriso de seu momento enlevado, permanecia-lhe no rosto.
- Senhora Darai, espero não a ter perturbado ... Vejo que está feliz – não pode deixar de observar Arwen. Aquela constatação era tão inesperada que não pode deixar de verbalizá-la.
Ao invés da costumeira reverencia, Arwen viu a mulher de Harad erguer suavemente a mão direita com a palma voltada em sua direção e pronunciar uma benção de sílabas rascantes e desconhecidas, que mais parecia o continuar daquela canção.
- Tenha muitas filhas, rainha Arwen, as filhas são a continuação da mulher – disse baixando a mão – É uma benção de meu povo: aquela que já tem um filho, já tem a encarnação da força em sua casa, pode então buscar a encarnação da graça.
Arwen levou a mão ao peito em agradecimento, como soube ser adequado naquela língua que se valia do gestual e das expressões da face tanto quanto das palavras para construir seus significados. A resposta da haradrim foi um sorriso de despedida, antes de partir para mais um dia no acampamento além do Pelennor. Em poucos minutos toda uma compreensão fora construída entre elas.
Por que não ocorria o mesmo com Haldir?
A Estrela de dois povos não saberia dizer o que a desconcertava mais: se o fato de haver atingido o entendimento tão rapidamente com aquela mulher tão diferente, quando isso parecia tão difícil para seu amigo de quem ela era esposa, ou se o regozijo que reconhecera naquela criatura.
A encarnação da graça, ela lhe dissera ... "Tenha muitas filhas, Rainha Arwen, elas são ... a encarnação da graça".
Era como se a mulher de Harad reconhecesse a si mesma como tal, como a encarnação da graça.
Ao menos quando longe do marido.
Como isso poderia ser?
Se houvesse de desentender-se com o seu ... Senhora das Estrelas, se por um momento que fosse não se entendesse com ele ... Se, ao final de tudo, ele não a compreendesse ...
Uma miríade de pensamentos desencontrados a perturbaram depois daquele encontro ...
E não era apenas a alegria da moça, era sua ... plenitude.
Aquela que encontrara nos corredores era a senhora Darai!
Aquela, e não a moça que por um momento hesitara, nos salões do palácio anos atrás, ao narrar sua história, e que discretamente então olhara com amor para o elfo refletido em seus olhos, mas também com a coragem de quem enfrenta a própria dúvida, lançara-lhe um convite.
Aquela, e não a austera e indiferente senhora que Haldir conduzira ao salão de refeições outra noite, na presença da qual a música se calara.
A verdadeira senhora Darai, então, era aquela que não podia conter seu riso, cujo coração cantava, e cujo cantar pulsava por todo corpo.
A verdadeira senhora Darai, então, era aquela que se sentia tão abençoada enquanto mulher, que podia generosa e poderosamente abençoar a outra, abençoar a ela, a Estrela Vespertina...
Mesmo a senhora Míriel, em seus contatos, guiava-se para com ela pelo protocolo numenoriano de cortesia, e parecia jamais haver-se esquecido de que fora sua dama de companhia.
A Senhora Darai, naquele dia, fora a primeira mulher mortal a trata-la de igual para igual ...
De onde lhe vinha aquela plenitude, aquela certeza, aquela força, aquela segurança?
Arwen intuiu, sem compreender, que vinha do próprio Harad
E por um segundo Arwen o vislumbrou, o ciúme terrível que habitava o coração do elfo!
Ele, que não temera as incontáveis hostes inimigas, o suplício e a morte, temia a força da mulher que amava.
Temia que a força dela lhe desse asas para voar para longe dele, como já fizera uma vez.
Tentava podá-las.
Mas elas cresciam novamente.
Haviam crescido mais longas e mais fortes do que jamais ele as vira.
Ela poderia alçar vôo a qualquer momento.
Senhora das estrelas, como desejava que o SEU amado estivesse ali!
Uma miríade de pensamentos e sensações desencontradas passou a acompanhar os dias e principalmente as noites de Arwen após aquele encontro.
Um pássaro negro que crescia.
Asas negras que se abriam.
Um coração que sangrava em suas garras.
O vulto que descia dos céus sobre a pomba branca.
- Não! Não! Ele vem me buscar! – gritos que ouvia sem poder acorrer.
Um corpo de mulher caindo num abismo sem fim.
Gritos vindos do fundo do ventre.
Homens puxando suas espadas.
Gritos e sangue.
Dor, escuridão e batalha.
Paredes que se fechavam sobre sua cabeça.
O som de uma porta pesada que se trancava, encerrando-a na escuridão
E o despertar desesperado em que a consciência buscava em vão aprisionar aqueles sonhos, fornecer-lhes um sentido, encontrar as respostas que encerravam.
Mas ao acordar, Arwen não sabia sequer quais eram as perguntas.
A ausência dos que amamos é sempre longa demais. Era tudo que podia saber.
