CAP 19 – A QUEDA NO ABISMO
- Rainha Arwen – chamou-a a senhora Darai, sob o olhar desaprovador das damas e criadas do palácio ali presentes, tão logo a esposa do Rei Elessar saiu de seus aposentos íntimos aquela manhã – poderia conceder-me alguns instantes de sua atenção?
- Decerto, senhora Darai, o que houve?
Assumindo um gestual tipicamente masculino, a senhora Darai conduziu a Rainha Arwen para longe da curiosidade intrometida dos demais, amparando discreta mas firmemente as costas da elfa até um aposento em que pudessem estar a sós.
Era o gabinete particular do Rei Elessar, onde tudo estava preparado para a tão aguardada volta de seu marido.
Longe de olhares e ouvidos curiosos depois que a senhora Darai fechou a porta, esta ainda fez um gesto para que a Estrela Vespertina se sentasse.
Era realmente uma mulher de extrema decisão aquela, ponderou Arwen, e tal temperamento sem dúvida devia ver-se em choque com o de Haldir constantemente.
- Perdoe-me, senhora Arwen, neta da senhora Galadriel, se pareço ter esquecido em meus modos, que certamente seriam desaprovados por meu marido, quem é a senhora desta casa.
Arwen teria aberto a boca de espanto ante a franqueza crua das palavras de sua hóspede, não fosse a sensação, com que despertara, de que o fado ruim que há semanas pressentia em seus sonhos finalmente começara.
- Não há o que perdoar, senhora Darai, sei que apenas um acontecimento de extrema gravidade a traria até minha presença desta forma. Em que posso ajudá-la.
- Um homem de Harad foi preso em sua cidade esta madrugada. Pode libertá-lo?
Arwen arregalou os olhos. Além de decidida, a senhora Darai era extremamente objetiva e rápida.
Rápida demais.
- Desculpe-me, não sei se compreendi, como assim um homem de Harad foi preso esta madrugada em Minas Tirith? Em que circunstâncias?
Arwen Undomiel não se agradou do olhar que recebeu da senhora Darai após fazer aquelas perguntas. Quase o olhar de um guerreiro que vê um orc a lhe barrar o caminho.
Mas a senhora Darai logo recuperou a compostura e aprumou-se numa posição menos beligerante e ligeiramente mais afastada de Arwen no sofá em que ambas haviam tomado assento, tomando fôlego para ser menos breve:
- Várias das esposas dos haradrim estão hospedadas na cidade, em visita às famílias de seus pais. Seus maridos, contudo, não tem sido bem recebidos na cidade, haja vista que os soldados de Gondor obviamente têm medo de precisar enfrentar nossa destreza e coragem em combate. Tal temor, contudo, é desnecessário, pois meu irmão proibiu os homens de meu povo de se envolverem em escaramuças durante sua estadia aqui. Acontece que um marido saudoso houve por bem buscar sua esposa ontem à noite, mas o pai da moça não lha quis entregar, o conflito se estabeleceu e meu primo acabou preso.
- Seu primo?
- Sim, o haradrim que foi preso é um grande senhor, um príncipe de Harad, e fortes laços unem a Casa dele à minha.
- Ah, entendo ... – Intrincados eram os laços de parentesco e aliança entre aquele povo sobre cujo viver sabia tão pouco. – Creio que tudo não deve ter passado de um lamentável mal-entendido.
- Decerto.
- Vou verificar o que ocorreu e, se não puder liberá-lo imediatamente, garanto que meu marido o fará amanhã, quando estiver de retorno. Desejo que o príncipe de Harad venha a reencontrar sua esposa tão ou mais brevemente do que eu venha a me reencontrar com meu marido.
- A esposa dele está morta.
