Cap 20 - NOS CALABOUÇOS DE MINAS TIRITH
Espiral após espiral descendente, Míriel se perguntava como sua cunhada conseguia ali estar sem agasalho. Aquelas pedras exalavam o tipo de frio úmido que gela os ossos, aconchegava-se a dama em sua pele escura, o rosto mal visível sob o capuz, o corpo pesado tateando com equilíbrio incerto os degraus escorregadios.
O grito agudo gerado quando Míriel quase caiu sobressaltou o carcereiro que as conduzia, iluminando o caminho com um archote, mas sua mão estendida só encontrou desprezo e recusa no olhar da nobre e branca senhora que contraiu as narinas, a ânsia de vômito estampada no rosto que se encolheu ainda mais para dentro do capuz.
- Este lugar fede a mofo! – Darai segurou-lhe o cotovelo, apoiando as costas da cunhada com a mão, ao mesmo tempo em que seu temperamento sanguíneo como o de Daror punha em palavras bem pouco gentis o pensamento de ambas; ao que Míriel só pode concordar, tossindo.
Estrangeira sem modos e insolente – pensou o carcereiro – queria saber se cheiravam melhor as pocilgas em que andou e os animais com quem conviveu, pois bastantes haviam sido as testemunhas do relato da mulher ao Rei Elessar antes da coroação.
E muitas, também, as testemunhas de sua dança no Pelennor.
O homem olhou de soslaio para a mulher haradrim.
Dois olhos negros enviesados fitaram-no em desafio, como se dissessem: "eu sei no que você está pensando".
Até que o carcereiro desviasse o olhar.
- É aqui, senhoras – apontou por fim o guarda quando chegaram a uma porta enferrujada mas maciça, exceto por um pequeno respiradouro gradeado.
- Abra-a – ordenou Darai.
O carcereiro pachorrentamente certificou-se de que o prisioneiro estava bem distante da porta; que aquela mulher não pensasse que poderia lhe dar ordens.
- Chame na hora que desejar sair, minha senhora – disse por fim, dirigindo-se à nobre dama encapuzada, enquanto segurava a porta da cela para que as mulheres entrassem.
O quadro que ambas descortinaram, quando seguro nas mãos de Darai o archote iluminou o local, fez cair mais alguns graus a temperatura do corpo de Míriel. No chão, não havia um só ponto sem umidade. Nas paredes, não se descortinava uma só janela por onde pudesse entrar sol ou claridade. Um lugar para não se saber se era dia ou noite. No ar, o cheiro quase irrespirável de mofo e dejetos que não tinham para onde escoar.
Um lugar que parecia meticulosamente planejado para enlouquecer uma criatura solar como um filho de Harad, acostumado ao Sol quente, ao deserto seco, ao ar livre das planícies e à noite estrelada dos oásis.
Míriel chegou primeiro ao corpo de Cassor, estendido de bruços no chão, enquanto a cunhada depositava o archote num suporte, mas apenas Darai podia agachar-se:
- Eh, Cassor, que tens? – sacudiu-o a irmã de Daror pelos ombros, procurando virar o corpo para cima, correndo-lhe as mãos pelo cabelo e pelo rosto.
- Ele arde em febre – virou-se alarmada para Míriel.
- Deusa-mãe! – exclamou Míriel no idioma de Harad ao tocar a testa em chamas de Cassor.
- Cassor! Cassor! – chamou Darai, batendo-lhe no rosto – Acorda, filho de Harad!
- Prima Darai? – olhos incertos tentaram fitá-la.
Darai sorriu, certamente não lhe tinha idade para ser tia, mas Cassor não era mais que um moleque quando a grande caravana de Raor passara pelas terras de seu pai.
- Acorda, priminho, que te fizeram?
- Oras, prima, jogaram-me neste lugar amaldiçoado quando fui buscar minha mulher e seu pai não ma quis devolver, e foram muitos, ou não teriam conseguido.
- Bem vejo, Cassor – admoestou Míriel – Daror não proibiu que os haradrim viessem à Cidade Branca arranjar confusão?
- Mãe Míriel – levantou-se Cassor, cambaleante, com o auxílio de Darai – E que querias que fizesse um homem de Harad se minha cunhada, irmã de Alëna, me disse que não era da vontade dela permanecer aqui? – Não só de febre, mas também de indignação haradrim ardia Cassor. – Só vim buscar minha mulher, mas o costume desse povo não respeita um homem! – investiu Cassor até ser tomado por um acesso de tosse que pareceu roubar-lhe as forças, fazendo com que Darai não tivesse como evitar que escorregasse novamente até o chão, onde a febre reclamou seu corpo numa série de violentos arrepios que o fizeram tiritar.
Míriel tirou de seu pesado e longo manto de peles, cobrindo o guerreiro indefeso. Não mais sentia frio agora, o amor de seu povo de Harad pondo-a a ferver.
- Cassor não pode permanecer aqui, precisa de cuidado, este frio e esta umidade vão matá-lo!
- Cassor não receberá cuidado algum nesta cidade, cunhada. Nocauteou vários guardas, e a sanha dos mercadores o está acusando de assassinato: se a umidade e o frio não o matarem, a forca o fará.
- Não, cunhada, isto não é possível, não num julgamento justo.
- E como se defenderá num processo meu primo, se sua língua e seu código são os do guerreiro de Harad?
- Mas não temos como tirá-lo daqui! - Míriel sentia-se enlouquecer de ira haradrim, andando furiosa de um lado para outro, sob o olhar atento e calculado de Darai, agachada junto a Cassor.
- Temos sim.
- Temos? – aproximou-se Míriel – Como?
- Com teu casaco – deu de ombros Darai.
- Quê? – franziu o cenho a outra
- Foi o que os olhos dos guardas e carcereiros viram de ti, uma mulher alta sob um capuz. É o que verão se eu conduzir Cassor para fora daqui sob ele.
Míriel franziu seu cenho ainda mais: o que Darai propunha era temerário.
Entretanto as mulheres de Gondor se haviam disfarçado de homens aos olhos dos corsários de Umbar e assim os enganado, portanto o oposto também era possível.
Embora improvável.
- Darai ... – murmurou incerta - Isto não vai dar certo.
À filha de Ravai, bem mais que os sentidos, aquele cenário revirara a alma, e, após o recuar das promessas de ajuda de Rainha Arwen, não se fiaria na boa vontade de nenhum do Norte para com o povo de Harad. O casamento não estreitava laços entre aquela gente estranha, portanto os haradrim só podiam contar consigo mesmos.
E Darai não falharia para com eles, pensou erguendo-se lentamente, e assegurando.
- Sou filha de Harad. Farei com que dê certo.
Quanto mistério e certeza naquele semblante, não pôde deixar de impressionar-se Míriel, antes de argumentar.
- Vai um guerreiro e Pai de Harad se travestir de mulher, e para fugir de um inimigo ao invés de enfrentá-lo?
- Cassor mal terá consciência do que estaremos fazendo – respondeu Darai, os olhares das duas mulheres voltadas para o corpo semi recostado numa parede.
Foi quando Cassor tossiu de novo.
A mesma tosse que Daror tossira no acampamento do Pelennor.
Se fosse Daror ali naquela situação ...
- Vão logo – ordenou Míriel, cuidando de amarrar bem todos os fechos que prendiam o agasalho de peles, escondendo o rosto de Cassor bem no fundo do capuz, enquanto Darai tratava de pô-lo de pé.
- Venha, priminho, vou tirá-lo daqui, e nem pense em bater boca com estes cães, ignore-os, deixe que Darai se entende com eles – admoestou-o ainda.
As recomendações eram desnecessárias: sobravam a Cassor consciência e força apenas para acompanhar Darai, enquanto Míriel se fazia um mero vulto nas sombras da cela.
