Cap 21 - NA PRESENÇA DE ELESSAR

Míriel finalmente conseguira uma audiência com o Rei.

Na mais desfavorável das condições.

Horas de angústia e desconforto haviam roubado o calor que a ira com a situação de Cassor lhe provira, bem como a haviam deixado mais consciente e suscetível à insalubridade da cela.

Até que os carcereiros a encontraram, à hora da refeição de pão duro e água escura.

O alarme correu os postos de guarda da cidade.

Mas o coche que trouxera as duas mulheres há muito já deixara suas muralhas.

Levando todo o infortúnio ao conhecimento do recém-chegado Rei Elessar.

Que escutara com o semblante cada vez mais carregado as vãs tentativas de seus soldados de explicar o inexplicável.

Explicar que a cada grupo de checagem pelo qual a mulher de Harad passara, suas mãos pousavam em seus quadris, que eram largos, seus dentes se arreganhavam em frases insolentes, que eram provocantes, seu queixo se erguia, e era desafiador, e seus olhos negros dardejavam um fogo que incendiava a imaginação dos soldados.

- Estão me dizendo que ninguém percebeu que a acompanhante da senhora Darai era um homem?

Antes mesmo que as recalcitrantes tentativas de explicação recomeçassem, Aragorn já se arrependia da pergunta que fizera. Haldir postara-se impassível ao lado da cadeira de seu escritório durante os relatos gaguejantes e desencontrados, mas o rei podia jurar que o estava ouvindo rilhar os dentes.

- A mulher de ... isto é, a esposa do Capitão Haldir ... quer dizer, desculpe-me, majestade, a pessoa que estava com ela foi transformada num mero vulto aos nossos olhos, como que por magia – dizia o ordenança de olhos baixos, torcendo a mão ante os insustentáveis olhares do Capitão dos elfos e do Rei dos homens.

Todos sabiam de que era constituída aquela magia.

Quando por fim os guardas se retiraram, Aragorn ainda chegara a se voltar para o amigo

- Haldir...

Mas este meramente lhe levantara a palma de uma das mãos, numa orgulhosa solicitação que silenciara o Rei de Gondor.

Aragorn sentia-se numa situação delicada.

Mas, se culpabilizar a esposa de Haldir era algo que o monarca tinha várias restrições a fazer, atribuir a devida responsabilidade à cidadã de Minas Tirith que auxiliara que um criminoso se evadisse da lei, não.

Míriel soube pelo rei que seria formalmente acusada, e que apenas em respeito ao seu estado de gestante lhe seria deferido o favor de permanecer em prisão domiciliar, em sua casa na Cidade Alta.

E o rei não ouviu seus argumentos de que a prisão de Cassor fora injusta, que as condições em que ele foi encontrado na prisão eram insalubres, e nem de que Míriel era a esposa de Daror de Harad, e mereceria a deferência de algum tipo de imunidade diplomática ...

Relações diplomáticas entre Harad e Gondor estavam se revelando uma perspectiva cada vez mais fugidia.

E Míriel saiu do palácio escoltada por uma guarda, diretamente para os portões da casa da senhora Morwen.

...


Anoitecera quando Míriel abriu os portões de sua antiga casa e ultrapassou seu umbral num transe de preocupação e medo.

Que desatino!

Que estupidez!

Promovera a fuga de Cassor para não o ver nas masmorras, e agora era para lá que Daror iria!

Pois era certo que, ao sabê-la detida, Daror viria buscá-la ele mesmo!

Pelo Sol de Harad! Míriel podia antever a fúria com que se dirigiria à Cidade Branca, podia vê-lo derrubar com os próprios punhos portões, guardas e o que mais se interpusesse em seu caminho, podia ver quantos feridos e mortos resultariam disso, e podia ver onde aquela história iria terminar: nos mesmos calabouços de onde haviam resgatado Cassor!

Precisava pensar! Precisava fazer alguma coisa! Era preciso atinar com uma forma de evitar aquela desgraça!

A ira não faz boas obras, e a de Daror menos que a de qualquer outro!

Merda!

Merda, merda, merda!

- MERDA! – gritou alto.

Ante o olhar da senhora Morwen.