CAP 22 – MÃE E FILHA – Parte 1.

Dia após dia, mês após mês, ano após ano a dignidade numenoriana da senhora Morwen fora posta à prova.

A morte de seu marido. A morte de cada um de seus cinco filhos em batalha. A perda de sua posição na corte. O empobrecimento repentino e continuado frente ao seu desconhecimento sobre a administração das fazendas da família, frente à carestia que se estabelecera numa cidade que, após séculos de declínio, conhecia um crescimento aceleradíssimo, frente à especulação que enriquecia sobretudo aos oportunistas, e sempre em detrimento dos que não apreendiam com a devida rapidez as idiossincrasias da nova organização social trazida pelo progresso, na qual tradição e ancestralidade pareciam valer menos que tino e empreendimento...

Mas, de todos os golpes que a senhora Morwen sofrera, nenhum se comparara ao rompimento com sua filha.

A mãe de Míriel gerara cinco filhos varões para o marido.

Mas Míriel ...

Míriel era sua.

Era sua menininha.

Sua bonequinha.

Sua obra.

Que o marido fizesse de seus filhos bons soldados e bons senhores, mais não lhes seria exigido.

Ou destinado.

Mas, a Míriel, o destino podia reservar uma posição superior.

Pois a senhora Morwen obraria dia e noite para que a filha alcançasse o que ela mesma não lograra.

O amor do regente.

Haja vista que, desde menina, a senhora Morwen amara apaixonadamente o jovem Denethor.

Eram aparentados, como a maioria das famílias nobre de Gondor, mas não o suficiente para que tal representasse algum impedimento à sua união, embora próximos houvessem crescido.

Mais próximos ainda tornaram-se ao final da adolescência dela, para contentamento da jovem e bela Morwen, a impetuosa, que nunca fugira ao desafio de uma cavalgada, um debate de idéias, ou mesmo uma partida de xadrex com o arguto filho do senhor Ectélion, o Regente, chegando mesmo a vencê-lo nas primeiras e nas últimas, embora, com relação à segunda modalidade de torneio, nunca haja logrado reconhecer-se em vitória, pois o futuro regente sabia utilizar-se do silêncio ainda melhor do que de qualquer outro argumento.

Mas ganhar ou perder tais disputas não lhe importava realmente, apenas estar ao seu lado, gozar de sua companhia.

Sabê-lo cada vez mais próximo.

Até o dia em que sua postura assertiva fosse por ele abraçada também, e finalmente se encontrassem numa comunhão de almas.

E de corpos.

- Morwen! – saudara-a ao receber a visita da parenta, após retornar de Dol Amroth.

Sua face parecia iluminada ao vê-la, e jamais a saudara tão alegremente.

Será possível que a distância houvesse rompido às últimas barreiras de reserva do eventualmente até formal Denethor?

Iria se declarar a ela, finalmente?

- Quero que conheça alguém – disse oferecendo-lhe o braço e conduzindo-a aos jardins do palácio, onde distraidamente passeava uma jovem de beleza etérea tal que, por um momento, a jovem Morwen supôs tratar-se de uma visão dos tempos antigos.

A visão de um ente do belo povo.

- Finduillas, esta é minha prima Morwen, de quem lhe falei – apresentou-a Denethor.

- Senhorita Morwen, esta é Finduillas, irmã do príncipe Imrahil de Dol Amroth – introduziu-as o filho do regente, enquanto as jovens abaixavam-se em graciosas reverências uma à outra – minha noiva.

De repente a jovem Morwen sentiu que lhe faltavam forças para levantar-se.

E seu sorriso transformou-se numa expressão de dor.

- Oh, Denethor! Ajude-a, sua prima não se sente bem. – alertou preocupada sua noiva, fazendo com que o jovem Denethor amparasse a senhora Morwen antes que esta caísse, numa posição que certamente seria patética, e a ajudasse a levantar.

Foi a única vez em que esteve em seus braços.

Os braços em que durante anos sonhara estar.

Aos quais sonhara pertencer desde que se lembrava.

- Está bem, Morwen?

- Sim, claro ... foi ... meu sapato que prendeu-se.

- Está bem mesmo, senhora? – perguntou meigamente a princesa estrangeira.

- Mas certamente, minha querida, Morwen é forte e arrojada, tem a saúde e a disposição de um touro.

- Então a invejo – declarou docemente a tímida Finduillas.

- Não há porque – tomou-lhe as mãos entre as suas Denethor, beijando-as – se foi pelos seus atributos, opostos, que me apaixonei.

A graciosa futura esposa fez com que o noivo se desculpasse pela indelicadeza de suas observações, o que Denethor fez, reconhecendo que a diáfana criatura que o fizera conhecer do amor alterava seu comportamento e seu discernimento.

Mas tal foi inútil, de qualquer forma.

Pelo resto da vida da esposa de Denethor, Morwen a observou, e nunca pôde deixar de reconhecer a verdade das palavras dele.

Era o oposto de Finduillas.

Onde era forte, a outra era frágil.

Onde era assertiva, a outra era tímida.

Onde era direta, a outra sequer parecia ter opinião.

Onde uma tomaria das rédeas nas mãos, a doce estrangeira deixava-se guiar.

E o poderoso Denethor jamais procurara para si uma alma semelhante à sua.

Mas uma alma complementar..

E mesmo quando essa partiu, nunca deixou seu coração.

E, de qualquer forma, por essa altura a amargurada senhora Morwen também já se havia casado, com um noivo de família quase tão nobre e quase tão rica quanto a sua, valoroso e enamorado, mas que jamais lhe tocou a alma.

Pois, depois de tantos anos, apenas aquele bebê logrou obter tal feito.

A angélica criança de cachos louros e feminilidade patente em cada gesto, desde o berço ...

A menina linda, a criança adorável, a criatura através da qual a senhora Morwen poderia reescrever a própria história.

A beleza invulgar e suave certamente não lhe faltaria.

Quanto ao mais, seria apenas uma questão de polir aquele temperamento voluntarioso e algo atrevido, tão similar ao seu.

" - Míriel, não corra, você pode cair e se machucar."

" - Míriel, não grite, uma mocinha bonita deve sempre falar baixo."

" - Míriel, não discuta, o papel da mulher é obedecer, e não questionar."

- Minha senhora – chegara a dizer-lhe o marido um dia – essa menina precisa de um pouco de espaço.

- Como, meu senhor? Que dizes? – mas na voz da esposa, gelo além do usual.

Como desejara, em algum momento, fazer aquela geleira derreter-se em algo além de uma boca que recebia seu beijo, um corpo que recebia seu corpo, uma criatura que recebia suas considerações sem jamais desacatá-lo, mas sem jamais oferecer-lhe algo em troca.

Mas o gelo nunca cedera, e naquele momento parecia-lhe ainda maior.

Mais opressivo.

- Nossa filha ... está junto a ela todo tempo, controlando-lhe cada passo.

- Zelo pela sua filha, senhor, vê mal nisso?

- Não, desde que não haja exagero.

- Não ensinou o senhor aos rapazes como portarem-se enquanto bons homens e enquanto bons soldados?

- Sim.

- E alguma vez questionei o que fazia o senhor meu marido?

- Não senhora.

- Foi porque julguei que, sendo o senhor um bom homem e um bom soldado, seria a pessoa mais indicada a guiá-los no mesmo caminho. Se julga o senhor meu marido, entretanto, poder fazer melhor papel que eu no tocante à orientação de sua filha quanto aos meandros do universo feminino, esteja à vontade.

- Não a pretendi ofender, minha esposa.

- Não me ofende, senhor meu marido. Nunca discutimos. Jamais deixei que uma discordância florescesse em nosso matrimônio. Lisonjeia-me sua preocupação com a filha que lhe dei, e estou pronta a seguir o norte que o senhor determinar, à respeito da criação dela.

- Não, senhora, tem razão, não teria o que opinar à respeito de algo que desconheço.

Jamais conhecera outra mulher que não a esposa e, como esta era um mistério absoluto para si, assim o era com tudo que dissesse respeito ao feminino.

Não desejara que fosse assim.

E, como caráter e temperamento podem ser mascarados, mas não suprimidos, naquela questão, como em todas que lhe aprouve em sua vida de casada, a senhora Morwen prevaleceu sobre o marido.

E persistiu em amoldar a filha naquilo que lhe pareceu mais adequado frente à própria experiência.

Até que todas as suas expectativas ruíram, pela segunda vez em sua vida, ao descobrir que a filha estava grávida.

A mesma sensação de que as pernas não lhe obedeciam, a mesma sensação de que a alma lhe fugia, a mesma sensação de que seu coração deveria transmutar-se em pedra para não estilhaçar-se em mil pedaços.

A mesma sensação, trazida também por um rosto de beleza extrema, a olhá-la apreensiva.

Mas dessa vez a Senhora Morwen não tinha o orgulho de evitar expor-se a contê-la, e extravasou o rancor sufocado por mais de trinta anos de rígido auto-controle em direção à causadora de mais aquela desgraça com toda a capacidade de ferir que encontrou dentro de si; apontando tanto a leviandade e o despudor que haviam levado àquela desonra, quanto as conseqüências indignas e desastrosas às quais conduziriam.

E tanto falara, e tanto dissera, e tanto torturara a filha com o ódio e frustração que carregara dentro do peito por tão longa porção de sua vida, que o coração da menina, por sua vez, se enchera do mais absoluto terror e desespero.

A jovem e desarvorada Míriel já se via enxovalhada pelas ruas, perdida e degradada, condenada e ao filho.

Até que a mais irreal das possibilidades de fuga se lhe aparecera.

A fuga para uma terra longínqua, onde ninguém a conhecia, o que lhe permitiria começar uma vida nova, já que a vida que conhecera se acabara.

Fugiria com os haradrim para a Terra do Harad.

- O quê?!

- Isso mesmo que a senhora ouviu, senhora minha mãe: vou-me embora com os homens de Harad. Querem esposa, e não exigem prova de virtude ou castidade. Não estarei mais decaída com eles do que estaria permanecendo aqui.

Sua mãe rira ironicamente de mais aquela criancice, ao ver Míriel dispondo aos criados que carregassem a carroça com os móveis de sua predileção, as tapeçarias de sua estima, os utensílios que juntara desde a infância, a brincar de "enxoval", ganhos dos avós, ou recolhidos de uma que outra fazenda onde não tinham mais uso, com os quais atulhara os cômodos contíguos ao quarto, constituindo-os numa "casinha" em escala real.

A casa que finalmente teria um dia, longe de sua mãe

Bem longe mesmo, ponderara a Senhora Morwen. Tinha certeza de que aquela carroça, conduzida por um criado velho, seria saqueada pelos bárbaros de Harad, as jóias e bens de valor lhe seriam tomados, o mais seria destruído, e aquela menina estúpida e indefesa seria violada e morta.

Aquele pensamento último, por fim, conduziu um pouco de razão à desarrazoada matriarca, e a senhora Morwen dirigira-se à janela, para chamar Míriel de volta.

Espantada, a nobre senhora viu a filha montada sobre o corcel, unindo-se à procissão de mulheres que desciam a Cidade com destino ao acampamento dos haradrim.

A senhora Morwen não poderia conceber que ainda uma terceira vez aquela sensação a atingiria novamente.

Mas foi o que sucedeu.

Pois o desespero e o fracasso tomaram conta da senhora Morwen, quando percebeu que a filha já ia longe na multidão, e não mais lhe escutava os chamados para que voltasse, que ela daria uma jeito, que resolveriam aquilo juntas!

Elbereth iluminada, Nienna compassiva, que sua menina voltasse! Que não se arriscasse assim, que não se expusesse ao perigo dessa forma!

Iriam para uma fazenda distante, teriam aquela criança em segredo ... por um punhado de terra, uma família de camponeses certamente acolheria mais um bebê sem perguntas.

Não a quisera afastar, só a quisera ferir, como ela mesma se sentira tão ferida, por tanto tempo.

- Filha! Volte! VOLTE!

- Filha!

- FILHA!

Mas a multidão barulhenta já ia bem longe quando os joelhos da senhora Morwen fraquejaram pela terceira vez, e a velha senhora escorregou pela parede junto à janela, para chorar ajoelhada e só no chão de pedra frio de sua altiva morada.