CAP 23 – MÃE E FILHA – Parte 2
Fora a escolha dela. Fora a escolha dela.
Durante cinco anos a senhora Morwen repetira para si mesma: fora a escolha dela.
Fora a escolha de Míriel abandoná-la. Abandonar sua casa, sua família, seu legado, sua ancestralidade, sua dignidade, sua criação.
Fora a escolha de sua filha, abandonar a mãe, repetira-se a Senhora Morwen durante mais de cinco anos.
Os anos em que seu mundo ruíra, em que o patrimônio e a renda que gerações de ancestrais lhe haviam legado se esfacelaram à ausência de um gerenciamento para o qual jamais se preparara - ou mesmo se interessara - ocupada ainda com o próprio amargor, com sua dignidade injuriada.
Pois tudo e todos que amara escaparam-lhe por entre os dedos.
Inclusive a criança adorada, que a mãe jamais supusera capaz de dar um passo sem a sua supervisão.
Mas, afinal, fora a escolha dela, e a Senhora Morwen esforçava-se para não ocupar seus pensamentos com a preocupação pelos fados terríveis pelos quais a sua bonequinha poderia estar passando.
Pelos quais certamente estaria passando.
Se ainda estivesse viva.
Isolada de todos após retirar-se definitivamente do séquito da rainha depois da partida de Míriel, ocupando a grande casa com não mais que a companhia da velha aia Naneth e do surdo e não menos velho criado Mosel, voltados os três para o rechaçar dos cobradores e o lamentar dos impostos que agora recaíam sobre a morada nobre, mas mal conservada, como haviam recaído sobre as fazendas improdutivas – agora redistribuídas aos veteranos da Guerra do Anel – a senhora Morwen não tomou conhecimento de que se tratava da sua filha a nobre esposa do Chefe de Harad, a qual era recebida pela rainha e pelos prepostos do rei, nos tratos de interesse comum, legados pelo marido ao seu encargo.
Qual não foi, portanto, a surpresa da senhora Morwen quando, no último momento de seu calvário, junto ao púlpito do meirinho, pronta a ver-se destituída de sua própria casa, em meio ao burburinho excitado da multidão ávida pelo espetáculo de sua derrocada, aquela voz lhe chamara finalmente a atenção.
" Míriel de Daror, por Daror de Harad"
E ela olhara na direção daquela voz em tempo de assistir à imponência do gesto de desprendimento com que sua filha atirara a jóia magnífica para o púlpito.
Majestosa, foi como lhe pareceu Míriel, como a senhora de uma riqueza infinita, para quem aquele colar maciço não fosse mais que uma côdea de pão para atirar aos pombos.
Impávida, foi como a viu ostentar o ventre pagão, inabalável frente ao ataque dos comerciantes e especuladores que ambicionavam a moradia ancestral e questionaram a legalidade de seu ato, enfrentando-os com raciocínio arguto e desdém maldisfarçados, até que o meirinho interpôs a lei à especulação.
E antes mesmo que a Senhora Morwen desse-se conta do que acontecia, sua filha se fora novamente, como a grande e ocupada senhora que era, a tratar de seus assuntos, como se pela Casa de Leilões tivesse entrado de passagem, e arrematado a casa da família da sanha dos especuladores por mera coincidência.
Desde aquela ocasião a mãe esperara todos os dias, e, depois de anos, arejara os quartos, trocara os lençóis às camas, fornira as despensas, nos preparativos para o retorno de sua filha ao lar.
Pois, certamente, esse era o intento de sua menina, regressar para sua mãezinha.
Ah, fora uma mãe má, certamente! Sabia que magoara sua bonequinha, que dissera-lhe coisas em que não acreditava de fato.
E por causa disso, vivera em preocupação e arrependimento atrozes esses anos, acreditando-a perdida para sempre, de todas as formas.
Entretanto, no momento de maior necessidade, ela lhe retornara, em triunfo!
Que importava à Senhora Morwen o que pudessem dizer ou pensar de sua menina agora? Por acaso aqueles que porventura viessem a se levantar para criticar a filha haviam-se levantado para lhe salvar a mãe? Decerto que não!
Sem dúvida, fora sacrificado para a filha, conquistar o que parecia à mãe haver conquistado: riqueza e posição. Mas agora tais dissabores passariam a lhe integrar apenas o passado: sua filhinha retornaria para casa, e seriam uma família novamente, cuja ancestralidade permanecia inegável – não importando os percalços pelos quais a necessidade, porventura, as houvesse forçado a passar.
Demorava-se, entretanto, a sua garotinha, e a senhora Morwen começou a conjeturar que, por óbvio, seria necessário que desatasse os nós que a uniam aos bárbaros.
Até a noite em que ouviu sua voz dentro de casa, a pronunciar aquela palavra.
- Merda!
...
- Míriel, não diga essa palavra, uma verdadeira dama ...
- Mas era só o que me faltava! – bradou Míriel ao subitamente cair em si a respeito de mais aquele desventurado aspecto de sua detenção – A esta altura da vida ter de escutar os delírios de aristocracia da senhora minha mãe!
- Filha!
- Quer ser uma dama de uma sociedade naufragada? Faça-o! Eu prefiro ser uma mulher de Harad, sem freios na língua ou no coração! – declarou com toda a ênfase, antes de retirar-se para o quarto, batendo a porta: precisava pensar.
Daror!
Harad!
Míriel quedou-se sobre uma cadeira, reparando por um momento que móveis de outros cômodos lá haviam substituído os que levara, como se à espera de que seu quarto fosse novamente ocupado.
Não que isso lhe importasse, e nesse momento menos ainda.
Como poderia impedir que Daror viesse resgatá-la?
Ou, pelo menos, como evitar que o fizesse em tal fúria que o resultado fosse a Guerra entre Gondor e Harad?
Daror preso ou morto – Oh Deuses de Harad! Oh Valar! – Harad em pé de guerra.
E, se não queria arriscar a Daror, menos ainda a Harad.
Não queria e não podia!
Passara a noite na cela de Cassor, tempo em que certamente este e Darai teriam chegado ao acampamento. Sendo encontrada pela manhã ou, o mais tardar no meio do dia, era de se esperar que fosse liberada e retornasse também ao acampamento no mesmo dia ou, quando muito, no seguinte.
Caso não retornasse no dia seguinte, portanto, Daror logo perceberia que algo estava errado.
E Tunir e Mariän, os ponderados, não estariam por perto para contê-lo, ao contrário, junto a Daror estaria o velho Terair, louco por sangue e batalha.
Cassor, assim que se recobrasse a si, também não haveria de ser com o mais judicioso dos humores.
Contudo, talvez se oferecesse para ser trocado por ela.
Nem! Se Daror aceitasse aquela barganha ignóbil, não seria Daror!
E também para o Trono de Gondor seria uma ignomínia, cogitar tal proposta, mesmo sabendo que, de outra forma, seria necessário mobilizar seus exércitos para lograr reconduzi-lo do acampamento à Cidade, com funestas conseqüências sem volta.
Nasser era o único de quem se podia esperar alguma sensatez naquela situação.
Mas nem tanta, que o que acontecera a Alëna, poderia bem ter acontecido a Lëana, e então Nasser teria tomado o lugar de Cassor, mais velho mas não menos haradrim, e tudo teria dado no mesmo!
Que situação!
Nenhum dentre os homens do acampamento sequer tentaria deter a Daror, e muito provavelmente iriam junto com ele envolver-se na empreitada de resgatá-la de uma casa no alto da Cidade, atrás de seis de seus sete portões!
Desgraça! Desgraça! Desgraça!
Por que ela e a senhora Darai não haviam refletido melhor sobre o que estavam fazendo?
Refletir? Refletir e acovardar-se eram a mesma palavra no idioma de Harad.
Míriel mordeu os lábios, covardia certamente era uma característica ausente à senhora Darai.
Como a admirara ainda mais após conhecê-la, após testemunhar o respeito, a quase idolatria que inspirava aos filhos de Harad.
Quando verificara o amor que Daror devotava à irmã ...
Como quisera também estar perto dela, servi-la, conhecê-la melhor, se com isso houvesse por bem alcançar mais da tradição das mulheres de Harad que continha em si.
Deusa-mãe, só uma mulher absolutamente certa do próprio feitiço conseguiria ter cegado todos os soldados de Gondor daquela forma!
Por um momento, Míriel desejou que sua cunhada não tivesse obtido tal sucesso.
Se a farsa não houvesse prosperado, dificilmente ela mesma estaria nessa situação agora.
Míriel envergonhou-se muito desse pensamento.
Míriel, Míriel, que covarde tu és – admoestou-se – e ainda te dizes uma mulher de Harad, dando-te a lamentar a própria sorte e a considerações que não levam a nada!
Volta a pensar, concentra-te: como evitar essa tragédia anunciada?
O marido de sua cunhada - pensou Míriel - sem dúvida detinha grande consideração do Rei Elessar.
Poderia fazê-lo rever aquele ato.
Talvez pudesse ... mas não o faria, teve certeza Míriel. Vira-lhe a expressão aos relatos dos guardas ... mais que à Lei e ao Trono de Gondor, a atitude da Senhora Darai ofendera a ele pessoalmente. Não abriria sua boca ou exporia ainda mais seu orgulho na defesa da esposa, quanto mais na defesa da mulher do irmão desta esposa.
Desconhecia ou não compreendia os laços de aliança estabelecidos pelo casamento entre os de Harad.
Desconhecia ou não compreendia o que desposara, e Míriel soube que aquela era uma união frágil.
Permitindo-se então um inaudito momento de desprezo de um adan por algum dentre os primogênitos.
Se não dava conta da mulher, não devia pretendê-la.
Arre!
Voltara à estaca zero: o que podia fazer para evitar que uma tragédia se abatesse sobre o seu amor e sobre o seu povo?
Dois guardas no portão da frente: a reconduziriam para casa com facilidade, ainda que saísse munida de uma espada;
Os altos muros do palácio de um lado: impossível e certamente improdutivo escalá-los no estado em que se encontrava;
À volta de tudo o mais, uma bela queda em direção aos círculos baixos da cidade.
Míriel dirigiu-se à sacada.
Ainda que sem vida, se seu corpo fosse devolvido aos haradrim nas próximas horas, reavê-la deixaria de ser uma questão.
Atirando-se do alto, culpa não poderia ser atribuída a Gondor.
O importante seria garantir que seu corpo fosse encaminhado a Daror o quanto antes.
Míriel passou uma vista d'ólhos pelo quarto, antes de dirigir-se à porta, gritando por papel, pena e tinteiro.
Mas trazia o filho de Daror no ventre, e deste brotou uma dor aguda e lancinante.
