CAP 24 – MISÉRIA
...
Quando se apercebeu, a claridade já ia alta.
Míriel voltou-se nos travesseiros, buscando o despertar, os lençóis com o cheiro característico de sua infância ...
- Quê?! – sentou-se na cama com um grito.
- Calma, filha, calma! Está tudo bem ...
- Como? – Míriel levava as mãos à cabeça, sem atinar como fora parar na cama, de camisola.
- Desmaiou, filha, é normal, muita emoção ...
- Muito tempo sem se alimentar. – complementou Naneth.
- Que horas são?!
- A tarde vai alta.
- Não, não pode ser! – Míriel livrou-se das cobertas, correndo a vestir-se, no que a mãe e Naneth buscaram auxiliá-la, sem atinar com o sentido daquela urgência.
Míriel buscou de janelas de onde pudesse avistar o Pelennor, certificando-se de que ainda nenhuma força marchava contra Minas Tirith.
Força visível não divisou, o que não significava que não estivesse para vir, ou mesmo que Daror, sozinho, já não estivesse aos portões, que tal não haveria como enxergar.
Cavalos, vozes de homem e o movimento nos portões da casa as mulheres entretanto logo ouviram, e Míriel voltou-se às carreiras para os halls de entrada da moradia, onde o velho Mosel já abria a porta para a entrada de Danaël.
- Onde quer que ponha, senhora? – indagou o rapaz.
- O quê? – perguntou Míriel.
Mas a pergunta era desnecessária.
Míriel sabia bem o que o filho de Mariän carregava nos braços com visível esforço.
Uma arca de repúdio.
- São pertences de minha filha? Deixe-os no quarto, por favor – indicou a Senhora Morwen ao rapaz.
Míriel pousara uma mão sobre o ventre e outra sobre o coração descompassado.
Tirar a própria vida não lhe teria sido tão doloroso.
Míriel dirigiu-se ao quarto, trancando-se com Danaël.
- Danaël, que aconteceu?
- Eh... unh ... O Pai mandou-me trazer a arca, Mã ... senhora.
Já não era mais a Mãe no coração de seus filhos?
- Assim supus, mas, Daror lhe disse alguma coisa sobre seus motivos?
- Não ... não, senhora, quando saiu da tenda em que estivera com a senhora Darai, o Pai apenas ...
- Apenas?
- Ele escarrou no dote.
- Ahn ...
Danaël deixara a arca no chão, aos pés da cama, e agora olhava para o piso, claramente incomodado, desejoso de apenas retirar-se, estudando as dobras das vestes de Gondor que trajava.
- E ... unh ... quem está com as crianças? Alguma mulher retornou ao acampamento?
- A senhora Darai ficou com elas, instalou-se no acampamento.
- Ahn ... E como está Cassor?
- Não sei, senhora, não o vi.
- Uhn ... Daror mandou-me dizer alguma coisa?
- Não.
- Uhn ... E porque está com roupas do Norte.
- A senhora Darai pediu-me ... que me misturasse ao povo de Minas Tirith.
- Entendo... E a senhora Darai, mandou-me dizer alguma coisa?
- Não – respondia Danaël, não menos agoniado com aquela conversa, com aquela situação – Apenas pediu-me que lhe deixasse o coche após entregar a arca.
- Certo. – então ... a situação tavez não estivesse de todo perdida.
- Danaël – Míriel aproximou-se e segurou nos ombros do rapaz – filho de Mariän, pergunta à senhora Darai, quando estiveres no acampamento, se tem algo a me dizer, e, quando estiveres na cidade, vem me trazer notícias, certo?
- Sim, certo – e Míriel leu nos olhos do rapaz o desejo de ainda chamá-la de Mãe, de não ver seu clã esfacelado, o mundo que conhecia desarrumado, fora do lugar.
- Talvez – disse ela tomando de uma das mãos dele – breve tudo volte a ser como deve ser que, tu sabes, filho de Mariän, rusgas entre homem e mulher vem e vão.
Danaël forneceu a Míriel um meio sorriso, brigas entre Daror e a mulher muitos já haviam presenciado, como entre quaisquer casais do Harad.
Mas Daror escarrara no dote, lembrou o sorriso que feneceu.
Nem todas as rusgas eram iguais.
...
Míriel deixou-se ficar no quarto após a saída de Danaël.
Trancara a porta novamente após despedirem-se, fazendo com que ele lhe prometesse pela mãe que voltaria à casa alta sempre que pudesse.
No momento, era o melhor que poderia obter, ponderou Míriel, de pé frente à arca que não conseguiria erguer sem ajuda.
Daror enviara seu peso de pejada, e Míriel buscou consolar seu ventre com as mãos, que, de fato, apesar de não haver passado por seu pensamento, aquela era a melhor saída no momento.
Era uma louca desvairada, quase matara o filho de Daror – pensara, gelo circulando por suas veias.
A senhora Darai era mesmo arguta.
Muito arguta.
E muito rápida.
Então Daror a repudiara tão facilmente assim, mediante alguma mera declaração de sua irmã?
Que havia de ter lhe dito a senhora Darai?
Daror escarrara no dote.
Algo de bastante ruim a irmã tivera de dizer para convencê-lo.
Daror certamente não a repudiaria a um pretexto fútil.
Pejada.
Daror não renegaria a ela e ao filho assim.
Meu pequeno bebê, meu filhinho.
Preso, como eu, em meio a esta gente fria, nesta terra fria, com este ouro gelado – foi o que lhe passou pela mente, enquanto suas pernas escorriam-se, tal qual as lágrimas que se lhe vertiam seus olhos, até que Míriel viu-se ajoelhada no chão, junto à arca que deveria conter uns oitenta quilos de ouro.
Miséria, miséria, miséria.
...
