CAP 24 – MALDIÇÕES
- Menina Míriel, está tudo bem?! – chamava a voz de Ananeth do outro lado da porta.
- Está tudo bem! – Respondeu Míriel, buscando enxugar o choro da voz.
- Menina, não pode ficar assim ... Venha comer, preparei-lhe um consomée.
Míriel enxugou as lágrimas. Um consomée ... estava na casa da senhora Morwen, a caldo ralo seria dado o nome de consomée.
- Eu já vou, Naneth!
Suas vidas estavam nas mãos da senhora Darai, ao menos por enquanto.
Devia ao seu filho pelo menos o cuidado do próprio corpo nesse interregno – buscava resignar-se, já abrindo a porta do quarto.
- É de que esse consomée, Naneth? – a velha criada não tinha culpa de suas desditas.
- De legumes, querida – esclareceu a senhora Morwen, surgindo a acompanhá-la pelo corredor à sala de refeições.
Míriel respirou fundo
- Se houver alguma fruta, também...
- Mas claro, querida.
- E pão, manteiga e leite – completou sentando-se à longa mesa de toalhas imaculadamente brancas.
Estava com fome.
- Nem pensem em abrir esta arca – avisara aos olhares curiosos da mãe e da criada ocupadas dela no quarto – Uma maldição de Harad recairá sobre quem o fizer.
Massageavam-lhe os pés, cortavam-lhe as unhas, ajudavam-na a banhar-se e vestir-se, e aquilo estava muito bom, pois Míriel desejava manter-se no máximo repouso possível, esperançosa de postergar aquele parto o quanto pudesse.
Danaël procurando-a, entretanto, a ordem era chamá-la mesmo se estivesse dormindo.
- Míriel, não acho conveniente que você se tranque...
- Pouco me importa o que a senhora ache conveniente ou não, mãe, meus atos são para estar sob o jugo do meu arbítrio, e não do seu.
- Seu arbítrio parece ter lhe conduzido à condição de pessoa mantida em prisão domiciliar.
A senhora Morwen e seus velhos criados tinham custado a entender o que se passara e o porquê havia guardas à entrada da casa, sendo-lhes impossível acreditar que sua menina havia entrado nas masmorras de Minas Tirith, com o fito de visitar um preso, cuja evasão promovera ...
- Míriel! Isso é crime, a culpa desse criminoso pode ser imputada a você!
- Cassor não é um criminoso, é um Senhor de Harad e, como tal, homem de muita honradez – exortara de imediato – Entretanto – ponderou, dizendo as palavras ao mesmo tempo que aquela idéia opressiva se lhe desenhava na mente – Entretanto ... se culpa vier a me ser imputada ... e de alguma forma eu daqui seja levada ... devem conduzir meu filho aos haradrim ... e entregá-lo a Daror.
- Oh! – exclamaram horrorizadas então.
-Se a senhora minha mãe ainda não percebeu, estou tentando evitar me aborrecer, senhora Morwen – redarguiu Míriel ao comentário tão característico.
Evitar aborrecimentos e preocupações naqueles dias, entretanto, assemelhava-se a uma causa perdida para Míriel. Ainda mais com as notícias que Danaël lhe trouxera.
- Então, Danaël, mandou-me dizer algo a senhora Darai.
- Não, mã ... senhora.
A contenção do tratamento na boca do rapaz incomodando a ambos.
- Certo – suspirou Míriel ... a senhora Darai certamente não concedera a primazia de seus esforços ao mero apaziguar do coração da cunhada.
- E Cassor, como está?
- Doente, senhora, não o vi desde que retornou ao acampamento.
- Oh! E quem cuida dele?
- A senhora Lëana e a senhora Darai – e confidenciou-lhe – a senhora Darai quer o mínimo de gentes perto dele, embora pareça nem ter plena consciência da morte de Alëna.
- Como assim, Danaël?
- Cassor ardeu em febre todos esses dias, e não fala coisa com coisa, mas, a morte de sua esposa é coisa da qual apenas Nasser, a mulher e eu fomos informados pela senhora Darai, e instados a guardar segredo por enquanto.
- Quer dizer que ... Daror não está sabendo do que aconteceu?
- Não senhora.
Míriel custava a crer que um assunto de tal monta pudesse manter-se escondido de Daror ... O acampamento permanecia em grande isolamento, e bastava que fossem designados para descarregar os víveres contratados antecipadamente por Mariän rapazes desconhecedores da língua comum, vez que com a chuva constante daquelas semanas, criando tantos atoleiros, aí mesmo é que o retorno de alguma mulher ao Pelennor não seria esperado; mas, entender Daror alheio ao que ocorrera era algo quase impossível para Míriel.
- Como ... como pode uma coisa dessas ser escondida de Daror?
Danaël fitara o chão à esta pergunta, tomado de grande perturbação.
- O Pai não ...
- O Pai não o quê, Danaël?
Danaël hesitou, confuso.
- O Pai não ... não está interessado.
- Como assim? – Isso não estava bom, e menos ainda a expressão agoniada de Danaël.
- O Pai ... está alheio – o rapaz dava voltas.
Mas Míriel agora o inquiria com seu silêncio.
- O Pai bebe todos os dias o dia inteiro, Mãe – revelou por fim o rapaz, em profundo constrangimento.
Aquelas palavras, o que descreviam, o tom de desilusão em que foram proferidas...
Harad! Que dera em Daror para fazer tal coisa, para portar-se assim na frente de seus filhos? Que absurdo! Que falta de senso!
Que fortaleza seria Daror para os filhos de Harad, se estes é que tinham de carregá-lo para a tenda todas as noites, após o Pai cair de bêbado às suas vistas?
- Mas, Danaël – Míriel argumentara, ainda estupefata – seria necessária uma quantidade enorme de vinho para conduzir Daror a semelhante estado.
O rapaz dera de ombros sem levantar os olhos do chão.
- A senhora Darai mantêm-lhe a taça cheia – respondeu.
A senhora Darai.
A senhora Darai era uma aranha, refletia agora Míriel, acercara-se de seus filhos, controlara o acesso a Cassor, alijara-a do acampamento e alheara Daror do que ocorria embaixo de seu nariz.
Mais de uma vez ouvira ser comentado, por Tunir, por Terair, como por outros capitães e Senhores, a cada vez num tom de voz diferente, em alguns momentos aprovador, noutros nem tanto, que havia certa conveniência de Daror em haver entregue a irmã a um casamento distante.
Terair podia acatar enfim a toda sentença de Daror, mas nunca escondera suas objeções àquela decisão.
Mesmo Tunir, lhe esclarecera certa feita um de seus pontos contrários.
- A vida não oferece certezas, Míriel, e a batalha menos ainda. Daror é um soldado temerário, nunca se acostumou a comandar da retaguarda, se um combate, ou qualquer outra surpresa do destino o tomam de nós, Harad esfacela-se, que Naraor é muito novo ainda, e nenhum há que detenha a possibilidade de liderança inconteste de todas as Casas, exceto Darai.
- Mas, Tunir – argumentara então – a senhora Darai é mulher, e na tradição de Harad, à mulher nunca coube o governo.
Tunir retirara o turbante da cabeça, e no longÍnquo entardecer de uma das ocasiões em que Daror estava fora de sua Casa, Míriel animara-se com a perspectiva de uma preleção, enquanto os pequenos adormecidos permitiam a prosa entre ela e o casal na grande tenda.
Na ausência de Terair, caberia menos a seu neto, Hadair, que ao marido de Mariän o título de Mestre de Tradições do Harad. Além de maduro, Tunir era paciente e interessado na transmissão dos conhecimentos de seu povo – portando, inclusive, a ainda mais incomum qualidade entre os haradrim, de exercitar seu senso crítico a respeito das informações que repassava.
- Na tradição de Harad, o governo nunca coube – ou nunca se sustentou muito tempo – àquele que não conseguisse se impor, Míriel. A força em que se ampara tal capacidade está menos vinculada à força física dos candidatos que ao somatório de forças que fosse capaz de liderar.
- Como a Primeira Casa, desde a mais longínqua das lendas, sempre foi a detentora dos maiores exércitos e alianças, a liderança suprema de nosso povo lhe é atributo natural – cuja contestação, aliás, sempre resultou na derrota dos que a questionaram.
- Fazendo-se líder de nossos exércitos e nossas alianças, e face à posição que alcançou no coração dos membros de todas as doze Casas de Harad, Darai encontraria plena condição de governar de fato. Se Daror com certeza virá a se tornar um filho de Harad lendário, Darai já o é.
Míriel franzira o cenho, buscando apreender o máximo daquela informação. Compreendê-la.
Amava Harad.
Tanto ou até mais do que amava Daror.
Mas conhecê-lo, de todo ... seus meandros, suas sutilezas ... Harad não era pátria de uma história escrita, de um conhecimento sistematizado. Sua tradição era transmitida oralmente, e variava conforme o viés do guardião.
Ou do humor – sempre irascível – de Terair.
Depois de todos aqueles anos o venerável Mestre e guardião das tradições ainda não lhe oferecia sequer o respeito devido àquela que ocupava a posição de Mãe de Harad.
- Estás querendo demais do velho – rira-se Tunir – Uma mulher jovem, estrangeira, branca e, francamente, muito menos afeita ao lidar com as armas que qualquer filha de Harad.
- Também eu sou estrangeira e branca – lembrou-lhe Mariän – não está bom que tais características nos desclassifiquem aos teus olhos. Não pareceram dissuadir os tantos que escolheram noiva no Pelennor.
- Terair não estava entre eles, nem permitiu que Hadair estivesse. Foi buscar uma mulher do Sul para garantir-lhe a descendência. – redarguiu o esposo de Mariän
- A questão, de qualquer forma, não é essa, Tunir, é o porquê de supores que mesmo um tradicionalista como Terair, acataria o comando de uma mulher, qualquer que seja ela – tentara colocar em palavras uma de suas dúvidas Míriel.
- Mas é exatamente porque Terair a acataria que Darai teria os exércitos ao seu lado. Terair tem ascendência não só sobre as forças da Primeira Casa, mas foi ele que formou praticamente todos os Senhores e Capitães que comandam hoje.
- Estás conduzindo tuas respostas em círculos, Tunir. Darai governaria porque teria o apoio de Terair. E porque teria o apoio de Terair?
Tunir lhe sorrira. Tunir era calmo, inteligente, e eventualmente comunicativo, se a ocasião e a disposição de espírito de seus interlocutores fossem propícios ao tipo de explanação que conduzia agora, mas de uma forma geral seu divertimento era extravasado de forma bem mais discreta.
Se almas gêmeas havia neste mundo, eram ele e Mariän.
O sorriso de Tunir, portanto, intrigou Míriel, sabedora de que a informação que dele proviesse agora deveria ser compreendida, levando também em conta a expressão do rosto do interlocutor, seu tom de voz, seus gestos ... até o brilho dos olhos agregava significado às palavras proferidas no idioma de Harad, podendo a mesma palavra ter significados opostos, em função da forma em que saia da boca do falante.
- Darai foi, de todos os pupilos de Terair, aquele que conquistou maior desenvolvimento na tradição e maior espaço em seu coração. Darai é a imagem de Ravai.
A imagem de Ravai.
A adorada mãe de seu amor.
A frase que, dita com aquele sorriso, parecia conter toda a explicação possível sobre as opiniões de Tunir, se Míriel a compreendesse.
- De qualquer forma, a realidade de Harad, hoje, é Daror líder tanto em força quanto na consideração de seu povo.
Mas por quanto tempo Daror manteria sua liderança, atentando contra a própria autoridade de Pai, desmoralizando-se a si mesmo numa embriaguez cotidiana? Transformando em maldição as bênçãos do vinho?
E se os grandes de Harad se vissem na situação de preferir outro para ocupar o lugar do maior deles?
Seria nessa direção que a provável escolhida estaria manipulando a todos?
Seria mera coincidência que uma série de maldições parecessem estar recaindo sobre os haradrim desde sua chegada?
