Cap 26 - AIN'T NO SUNSHINE...

Com a mão no parapeito, Haldir fitava o céu de Gondor, identificando as estrelas características do Reino dos homens.

As janelas dos quartos do palácio propiciavam visões magníficas, tanto do firmamento quanto de Minas Tirith. Sob os telhados, um lusco-fusco de lamparinas e lareiras formava um jogo de luz pelos círculos da cidade vista daquele ângulo.

Após as muralhas, o início do campo do Pelennor era por sua vez iluminado por fogueiras esparsas, onde aqui e ali aqueles que tinham assuntos a tratar na capital pernoitavam, em barracas ou carroças, uma vez que a metrópole que reflorescia já não conseguia acomodar todos que a ela acorriam.

Mais além, ainda em escombros, Osgiliath, a antiga capital. Sim, reconstruí-la e habitá-la, restaurar sua antiga glória seria o caminho natural do Reino que experimentava novamente o sentimento de pujança e crença no destino, distraía-se o elfo a refletir.

Até que seus olhos perspicazes se estreitaram, buscando enxergar ainda mais além, nos extremos do campo do Pelennor, que continuava para além de Osgiliath, à procura instintiva de um certo acampamento.

De súbito Haldir afastou-se da janela, como se assim pudesse afastar-se de seus pensamentos.

Haviam-no conduzido para ela mais uma vez.

Sempre.

Não adiantava mais manter-se à janela, uma nuvem escura toldara as estrelas.

Olhou então para o quarto. O mesmo quarto onde há mais de seis anos lutara contra ela.

E fora vencido.

Tivera de curvar-se à paixão pela adan, buscá-la, reclamá-la como esposa de acordo com os costumes bárbaros de seu povo, à frente de toda Gondor, envolvendo o próprio Rei Elessar num acordo cujas implicações sequer alcançavam totalmente.

O que o alcançava era a humilhação, a desonra em que aceitar por final todos aqueles termos o submetiam, e o que demonstravam...

Era um fraco.

Era incapaz de comandar a própria vontade quando se tratava dela.

Haldir se odiava. E por um momento permitiu-se o pensamento "Por que não a deixar ir-se? Ela se iria de fato algum dia".

As garras do pássaro negro cravaram-se com tanta força em seu coração, que Haldir caiu junto à cama com a mão no peito.

Uma lágrima escorreu de um dos olhos do elfo quando finalmente os reabriu: a distância dela ... os desentendimentos entre eles ... tudo que implicasse em desacerto entre os dois induzia-lhe uma reação física que chegava a deixa-lo atônito, tal sua intensidade.

A prevalência do wröa quando se tratatava dela sempre lhe parecera eclipsar o domínio que o fëa deveria ter sobre aquele ... O componente físico daquela paixão o perturbava demais...

Ele tentava resistir, manter a mente no controle das situações.

Queria que ela fizesse o mesmo, mas obviamente Cabelos negros fazia o oposto: se zangada, gritava; se furiosa, quebrava coisas e o confrontava, até fisicamente.

E depois, se oferecia, se insinuava, como a querer provar que não importava o que ela fizesse, ao final o dominaria com a paixão que seu corpo lhe inspirava.

Como lhe custava resistir, na tentativa inglória de conduzir aos dois por outros caminhos, onde sentimentos mais nobres e comportamentos mais dignos fossem introjetados, e por fim os levassem a um amor mais tranquilo, mais civilizado.

O que conseguira fora o oposto.

Parecia haver um fosso tão fundo quanto largo entre ele e sua esposa agora.

E essa largura atravessava todo o Pelennor.


...

- Por que não vai ter com ela – perguntara a Rainha Arwen.

- Arwen, por ajudar na fuga de um estrangeiro, o Rei de Gondor colocou sob custódia uma senhora gestante; nada me leva a crer que a senhora minha esposa não seria merecedora do mesmo tratamento...

Por outro lado, se fosse para ir ter no acampamento dos haradrim, a justiça me mandaria que o fosse para recambiar o fugitivo aos dispositivos da Lei de Gondor. Acontece que o próprio Rei Elessar também não fez isso, e sabe por que, Arwen? Porque todos nós sabemos que os bárbaros não o entregarão sem luta, uma luta cuja vitória seria uma derrota para qualquer perspectiva de paz entre Gondor e Harad. É nesta bela encruzilhada irresponsável e desonrosa que minha mulher nos colocou a todos, entende?

...

Mas tanto Haldir quanto Arwen sabiam que não era toda verdade.

Haldir não queria ser ele a procurá-la, a buscá-la mais uma vez.

Dessa vez, Darai é que deveria dar o braço a torcer.

Uma nuvem escura toldava as estrelas.

E Haldir chegava a duvidar que alguma vez houvessem brilhado, à sombra daquela paixão que o consumia por dentro.


...

- Ter com ela, Haldir, e não trazê-la para cá – A objetividade de Arwen espantou-o deveras! Supunha-a serena, superior ... a quintessência da dignidade e sabedoria de seus antepassados.

O que Arwen lhe mostrava agora de si, naquela sugestão, era algo de adan, algo de mulher; como se o permanecer juntos fosse um valor acima da honradez, da consideração de seus pares ...

- Nunca entendi porque não se estabeleceram logo no acampamento dos haradrim, forçando-a a cavalgar todos os dias até lá.

Haldir podia sentir o sangue se converter em gelo dentro de suas veias e artérias: repudiara veementemente a sugestão da esposa nesse sentido, e fez questão de ignorar o comentário de Arwen, como se idéia tão absurda não devesse de fato sequer ser emitida.


NOTA DA AUTORA 1: Não sou defensora da utilização contumaz do inglês em qualquer situação, mas simplesmente não havia como dar um outro título a este capítulo.

NOTA DA AUTORA 2: Ain't no Sunshine when she's gone é uma canção bem conhecida, e todas as versões que já ouvi parecem-me maravilhosas mas, ao procurar uma que soasse como Haldir, deparei-me com a interpretação do jovem Shaun Smith para o Britains Got Talent, e, ao ouvir sua voz, soube que a havia encontrado.

NOTA DA AUTORA 3: Próximas atualizações na primavera.