CAP 28 – A ARENA E O PALCO
Atônitos pela intervenção do olifante, atônitos pelo surgimento daquela figura saída do exótico conto de uma terra distante, todos os expectadores daquele espetáculo viam-se agora sob o teatral efeito da entrada em cena daquela personagem.
Haldir não era exceção.
Nunca a vira tão soberba.
Às botas longas e calças negras folgadas com que já se acostumara a vê-la na cidade – sempre indo ou voltando de uma cavalgada ao acampamento dos sulistas – acrescentava-se agora o vermelho-sangue de uma blusa de mangas bufantes – cor que sempre favorecera a filha da primeira casa.
Ajustado ao corpo, contudo, um colete negro delineava acintosamente as curvas formadas pela cintura esbelta e pelos seios fartos. Arrematando o traje, um cinturão dourado cravejado de pedras vermelhas no qual se cruzavam a espada de Harad e a espada Noldor que a dama de cabelos negros semipresos por fios de ouro portava.
Uma espada noldor de cabo longo – contudo leve e precisa.
Uma cimitarra de ouro e bronze – exótica e ameaçadora.
Artes do norte e artes do sul a armavam.
Pois esta era tanto Darai quanto Mornfinniel.
Amava uma, odiava a outra, desejava as duas, e não podia tê-las em separado.
Era tudo uma coisa só.
Conforme sintetizado naquela imagem de pé sobre a muralha, a atrair e prender mais que seu olhar ou seu pensamento, todo o seu ser, qual como se possuidora de algum poder magnético.
Capaz de calar a multidão de tanto assombro por vários instantes.
"Recupere a consciência de si, elfo imbecil" – Haldir ordenou a si mesmo – "Pare de bancar o idiota, não é para isso que está aqui ... Pense ... analise ... O que ela veio fazer aqui? O que está pretendendo?"
Como o de Haldir, afinal alguns cenhos começaram a franzir-se, e um burburinho cresceu na multidão circunstante, enquanto o elfo tentava compreender a intenção da esposa: os orgulhosos haradrim certamente não estariam pretendendo subornar a justiça de Gondor com seu ouro...
Apesar de sua pouca boa vontade ou conhecimento acerca do povo de Darai, algo lhe dizia que simplesmente ... não seria do seu feitio.
- Ela vai acabar caindo assim – cochichava Gimli para Legolas, por uma vez atento a não preocupar Haldir.
Embora o tom de voz baixo não fosse surtir o efeito desejado pelo anão, Legolas respondeu-lhe também sem fazer alarde.
- Mas enquanto se mantiver de pé sobre a muralha, ou em apenas parte dela, não se pode dizer que a senhora Darai tenha pisado na Cidade, e os guardas desta nada mais podem fazer que ouvi-la.
- Ah! – fez o anão bem alto, esquecendo-se que conversavam em segredo – Não a podem prender enquanto não puser os pés para dentro da muralha!
Não fosse o alívio que lhe trouxera a dedução de Legolas, Haldir teria esganado Gimli ali mesmo: que estrupício podia ser aquela criatura nanica!
As palavras do anão, contudo, certificaram os guardas de seus próprios limites, e o jovem tenente que os chefiava começou a ponderar que, na condição de autoridade ali presente de Minas Tirith, talvez não devesse deixar sem resposta o que lhe pareceu o reclame provocativo daquela sulista enganadora que ... quer dizer, da esposa do Capitão da Aliança – que por acaso estava lá – e que, por acaso, era do povo bárbaro de Harad, e por culpa da qual uma série de seus colegas fora rebaixada de posto, e que ...
Contudo, antes dele, um outro seria o próximo protagonista do insólito espetáculo que haveria de se desenrolar no local, e naquele instante adentrou em cena.
- Eu me apresento! –calou o burburinho e os pensamentos do tenente uma voz esbaforida – Eu me apresento ... sou Naufelam ... pai da moça que o seu compatriota matou!
A falta de fôlego do corpanzil que acorrera dentre a multidão prejudicou um pouco da ênfase que quisera imprimir a frase, mas suas palavras puderam ser ouvidas por todos.
- Era o pai da esposa de Cassor? – questionou a haradrim.
- Sim, eu era o pai de Alëna, da linda Alëna, cuja vida me foi tomada.
Naufelam não era de forma alguma isento do dom da representação, sabia muito bem construir um personagem, emprestar-lhe credibilidade, conquistar-lhe a empatia do público, avaliou Darai, saboreando os primeiros lances daquele estranho embate...
- Há alguém aqui que testemunhe pela veracidade de sua informação? – perguntou agora a filha de Raor.
- Eu o testemunho – adiantou-se finalmente o jovem oficial da guarda – Era a autoridade de plantão na noite do assassinato da moça, fui eu que efetuei a prisão do marido homicida, quando este fazia uma balbúrdia ensurdecedora à porta da casa do senhor Naufelam, e garanto que tal só foi logrado ao custo de muito esforço, pois o mesmo ignorou nossas ordens para que se entregasse, enfrentando a guarda de Minas Tirith!
E o rapaz aprumou-se, sentindo a aprovação da plateia à sua intervenção: iria mostrar àquela mulher que não estava lidando com um de seus colegas desavisados.
- Ahn! – fez Darai, acedendo com a cabeça à façanha narrada pelo tenente – Trata-se de um bravo de Gondor então, aceito seu testemunho.
Ela o estava fazendo, ela o estava fazendo – crispou-se a mão de Haldir sobre a espada – apenas aquele jovem tolo não o percebera, ruborizado e envaidecido do título que a bela mulher do sul lhe atribuíra.
- Se é assim, Harad honrará sua dívida – voltou-se agora para Naufelam, cujas mãos ávidas já quase se estendiam para o tesouro.
O meio sorriso já mal escondia seus dentes arreganhados de predadora.
- Contudo, uma tradição de meu povo se impõe, antes da consecução deste pagamento.
O coração de Naufelam descompassou-se: por um momento lhe parecera tão perto, como uma mão inigualável que se vai desvelando ao revirar das cartas numa mesa de jogo, e, de repente ... na virada da última carta ... quando já se apostou tudo ...
- Não há justiça na imposição de uma nova condição aqui, mocinha – endireitou-se Naufelam - nenhuma condição sobre o desfazimento dos casamentos com as donzelas de Minas Tirith foi mencionada pelo povo de Harad quando este os contratou.
- Não se trata de uma condição sobre o desfazimento dos casamentos contratados junto a Minas Tirith, conforme suas palavras, Mestre Naufelam, mas de uma condição atinente a situação diversa.
Ela gostava que lhe resistissem.
Aumentava o prazer do esporte.
- Como? – perguntou Naufelam, confuso como boa parte da massa às palavras da mulher de Harad
- Sabia que sua filha estava grávida ao morrer, mestre Naufelam?
Um coro de "Oh!" se fez ouvir, vindo da multidão. O homem do maldito Harad havia morto não só a esposa, mas a esposa grávida. Quanta ignomínia ... precisavam saber o que iria acontecer agora.
- Não o havia confidenciado ao senhor e à sua outra filha pouco antes do retorno desta para junto do marido no acampamento? Pelo menos foi o que me disse a senhora Lëana.
"Hein?! Como?!", era o som que provinha das pessoas aglomeradas junto à muralha agora. Mas e não é que era isso mesmo, o conhecido Naufelam tinha outra filha, também casada com um dos morenos ... Quer dizer que Lëana permanecera junto aos haradrim, mesmo depois do que acontecera?
- Sim – acedeu Naufelam contrafeito – ela me contou, não tinha segredos para mim, a minha caçulinha querida ...
As últimas palavras foram dirigidas à multidão, era ele a vítima, que todos se lembrassem disso.
- A criança era então filha de Harad, e os nossos não encontram descanso na terra, senão quando dispersas suas cinzas no vento.
Um eloquente silêncio de incompreensão foi o que as palavras da princesa de Harad obtiveram desta vez. Mesmo que atinassem com o que ela queria dizer, não entendiam aonde pretendia chegar.
- É preciso cremá-la, e para isso precisamos cremar o corpo da mãe.
Os murmúrios vindos da multidão variavam da incompreensão à incredulidade.
- Lamento, senhora, o corpo de minha filha já foi sepultado.
A dignidade, a dor honrada com que Naufelam proferiu tais palavras ... Aquele pai era um mártir, juraria naquele instante a multidão indignada.
Mas o rosto de Naufelam tremeu, quando Darai agachou-se sobre as muralhas e descerrou os ferrolhos da arca.
E seus olhos brilharam quando ela mergulhou a mão no baú, retirando-a numa concha de pepitas douradas, em meio à qual faiscavam safiras azuis.
- Estas pedras são as lágrimas que o clã do pequeno derrama por ele – uma a uma, gemas preciosas e pedregulhos dourados maciços escorregaram por entre os dedos da mulher do sul, de volta à caixa – estão misturadas ao ouro, como misturada estava a carne da mãe e do filho, e assim ficam ou voltam, conforme a sua decisão, meu mestre Naufelam.
O mundo pareceu suspenso nas mãos daquela mulher que novamente aferrolhava a arca, ao menos para os que assistiam a cena.
Darai pusera-se de pé sobre o limite das muralhas novamente, e limpara as palmas uma na outra, fazendo com que a multidão quase levantasse as mãos, para tentar colher do vento a poeira de ouro que imaginava escoar daquele gesto.
O silêncio de expectativa dos presentes era absoluto, mas se prolongou por tempo suficiente para ser quebrado pelos pensamentos de Haldir "Você perdeu, minha bela e tola esposa, jogou com a reputação e com as intenções do pai da moça e perdeu ... Admita sua derrota, vamos juntos buscar o perdão do rei e combinar a apresentação de seu conterrâneo as autoridades de Gondor. Chega deste circo, você já se expôs demais ..."
Contudo Darai, elevada como uma Vala no topo da muralha, não tinha atenções que não para com os olhos claros de Naufelam, que prendera nos seus, e via o filete de suor a lhe escorrer da têmpora apesar do clima frio...
- Eh ... unrrr ... Se é para demonstrar minha ... consideração ... para com o fruto do ventre de minha querida Alëna, o neto que não conheci, então, senhora, ainda que com o coração partido, eu lhe entrego o corpo de minha filha.
As exclamações de estupefação gerais tiveram um tempo muito breve para se dar, antes que Darai ordenasse:
- Vá buscá-lo agora, então. A arca será entregue quando eu o receber.
- Mas ... será preciso ... desenterrá-lo.
- Aguardarei – E o tom de voz de Darai era o de quem profere uma sentença. Se assenhorara da situação e a controlava agora, só restando a Naufelam desabalar-se para atendê-la, acompanhado pelos olhares incrédulos dos que assistiam a cena.
Exceto pelos de Haldir, capturados pelos olhos negros que finalmente haviam se voltado para ele.
NOTA POP DA AUTORA: O Tema de Darai é LEILEY, na interpretação de Dania Katib
