Cap 29 – O DESFECHO DA PEÇA

Uma Vala, uma Vala bela e terrível, exercendo todo o esplendor de seu poder nos Dias da Ira, era o que ela lhe parecia, os adornos de ouro dos cabelos cascateando por suas costas e ombros ... as mãos repousando nos cabos das espadas que se cruzavam em seu cinturão, como um xis a assinalar sua beleza paradoxal.

Mas eram os olhos, que ele não se lembrava de jamais ter visto com tal brilho, que o devastavam verdadeiramente. Não mais o enfrentavam. Não mais o desafiavam. Não parecia mais importar a ela provar-lhe coisa alguma.

"Não lhe importo mais, minha bela?"

Haldir conteve o gesto de dirigir a mão ao peito que já se formava em seu braço.

Maldita, aquela paixão o transtornava o tempo todo.

"É minha esposa e virá comigo tão logo essa pantomina termine, e então iremos embora daqui para sempre" – buscou dizer-lhe com os olhos.

Mas os olhos dela já não se prendiam aos seus.

Seus grandes olhos, tornados ainda maiores pela imodesta pintura daquele povo de imodestos costumes, já não olhavam para ele.

Qual uma pantera, sua senhora esticava os membros longos, flexíveis e perigosos, caminhando sobre a muralha.

E qual o tentáculo de um monstro das profundezas, a tromba do animal que ela conduzira do Pelennor até ali, o maior, mais antigo e feroz dos grandes, milenares e selvagens animais do Harad, subia até ela, como a comunicar-se com sua condutora.

Ante o olhar estupefacto dos presentes, ela acariciou a monstruosidade que a poderia derrubar dali para o vazio a qualquer momento, reassegurando-a.

"A menina" Passeava pelo cérebro do mastodonte um fio de pensamento, à sua maneira.

"Houve poucas meninas, ao longo do longo tempo"

"Estou aqui, menina"

- Estou aqui, Harad, permaneça comigo – cantava ela para o animal.

Enquanto a tromba acompanhava seu passeio.

...


Por fim, já de há muito passado o meio do dia, sujo de terra como quem houvesse cavado ele mesmo, retornou alquebrado Naufelam, seguido pelos quatro soldados enviados em seu auxílio, cada um a carregar uma das pontas do lençol em que jazia o corpo amortalhado.

- Uma mortalha e não um caixão? – estranhou Legolas.

Os trajes de Naufelam eram ricos, seus modos e seu linguajar o de uma família de posses. Quando se verificara, pelo burburinho geral, que a jovem não fora enterrada num sepulcro em local adequado, mas nos jardins da casa, o próspero senhor fizera logo correr a justificativa de que o golpe súbito que fora a morte da filha o desconcertara.

Mas ver aquele corpo cujo repouso fora profanado pelo próprio pai chegar à frente de todos na humilde mortalha, cheia de terra, era, além de chocante, por demais incongruente com o que a família envolvida naquela situação aparentara ser.

Aparências.

Aparências podem ser enganadoras.

Mas até que ponto?

Aos pés do ponto da muralha em que estava a senhora Darai, os soldados depositaram o corpo, do qual se afastaram rapidamente, com expressão desgostosa.

Mas, após horas de espera, a multidão, agora com o interesse reanimado no aguardo daquele desfecho, foi tomada de excitação.

O corpo estava aos pés da mulher de Harad, mas do lado de dentro da muralha.

Iria a esposa do Capitão élfico – que estava lá, armado, e com ar de pouquíssimos amigos – ser presa ao resgatar o corpo?

O que o gélido guerreiro loiro faria então?

Que pensaria o rei desta situação?

E Naufelam, receberia agora sua paga?

E tantos dentre eles mesmos, receberiam paga pela filha ou sobrinha que não retornara?

E as esposas de haradrim que não haviam arredado pé da cidade nos últimos meses, decidir-se-iam por fim a abandonar os maridos e enriquecer o povo de Minas Tirith?

Teriam os haradrim, realmente, ouro para lhes pagar por aquelas separações?

Ah, se não o tivessem! Gondor deveria marchar sobre aquele acampamento e tomar tudo o que nele houvesse, e dividi-lo entre o povo, era o que muitos pensavam, e alguns, animados pela situação presente, começavam a externar em voz alta.

Darai agachou-se sobre a muralha fitando em silêncio o corpo embrulhado no lençol, até voltar-se, a mão semi-estendida na direção do tenente de Minas Tirith.

- Capitão, como é mesmo seu nome?

Capitão? O jovem da província quase desmaiou quando os olhos negros daquela figura saída de um sonho exótico entraram em seus olhos, e ela lhe dirigiu aquela pergunta, usando aquele título.

- Anderor, senhora, sou o tenente Anderor.

- Tenente Anderor, meu bravo, é este então o corpo da moça cujo falecimento o senhor testemunhou naquela noite?

- É sim, senhora.

Darai olhou bem para o rapaz antes de perguntar:

- Como o pode afirmar com tanta certeza, se está coberto?

Risos escaparam da multidão agora, e mesmo de Gimli.

- Afoito o jovem tenente na formação de suas convicções, hein? – voltou-se o anão para Legolas em busca de aprovação ao seu comentário.

Mas os dois elfos pareciam haver-se abstraído dos acontecimentos isolados que se sucediam na tarde que avançava, atentos em captar o seu todo.

O pobre tenente Anderor empalideceu, e certamente sua dignidade o teria naquele momento libertado totalmente do feitiço da filha de Harad, se não estivesse o jovem mortificado com a sugestão implícita nas palavras dela. Devia descobrir o corpo e olhar para o rosto do cadáver, para uma face em decomposição.

Anderor quis gritar que era uma indignidade o que estavam fazendo com a defunta, que era uma ofensa à morta e ao descanso e respeito que aqueles que já se foram merecem.

Mas Naufelam já se adiantara, e descobrira a face da filha.

Os elfos viraram o rosto num reflexo, assim como os guardas próximos – e ao contrário da multidão, que espichava os pescoços na tentativa de enxergar uns por cima dos outros.

O tenente da guarda também virara a própria face àquela visão, mas viu-se instado pela situação a voltá-lo novamente naquela direção e fitar o destino dos homens.

- Sim – repetiu então – esta é a senhora cujos olhos cerrei naquela noite. Reconheço-lhe os cabelos, os trajes ... o que lhe resta dos traços ...

- Satisfeita, senhora? – levantou-se Naufelam, num ímpeto. Aquilo fora longe demais, muito além do que deveria ...

- É o vestido com que estava quando faleceu, tenente Anderor?

- É sim – ainda se lembrava daquele azul.

- É o mesmo vestido, senhora, enterrei-a exatamente como morreu, não suportava vê-la sem vida.

- E estava sem qualquer joia quando morreu?

- Estava senhora, já disse que em minha dor a enterrei quase que imediatamente, ...

- Não estava não – discordou Anderor – trazia uma imensa gema azul presa ao pescoço por uma fita preta, era da cor dos olhos dela ...

O jovem tenente lembrava-se como se fosse ontem, o contraste do brilho da safira com a ausência de brilho dos olhos, o lindo rosto da linda moça caído no chão da sala de Naufelam, à beira da escadaria.

- Devia trazer brincos que combinassem.

- Creio que sim, acho que tremeram quando examinei a cabeça e certifiquei-me da fratura do pescoço.

- É um homem sensível e atento, tenente Anderor, a situação devia ser de muito tumulto, não é? Aliás, foi antes ou depois de efetuar a prisão do marido dela que examinou o corpo.

- Depois senhora, não o poderia ter feito antes. Fomos precisos uns vinte homens para render aquele, não respondia a nenhuma ponderação nossa.

- Entendo. E depois que o prenderam, quem foi que abriu a porta da casa para que examinasse o corpo e atestasse o óbito?

- Foi o próprio senhor Naufelam.

- Mas, se a porta estava fechada, e se prenderam Cassor de Harad do lado de fora, como é que o corpo da jovem estava dentro da casa?

Anderor, o tenente da guarda de Minas Tirith que estava de serviço naquela noite fatídica e, conforme a infeliz escala levantada pelo filho de Mariän - juntamente com outros dados - também neste dia desagradável, aprumou-se lentamente, voltando os olhos de seus devaneios sobre a moça morta abaixo para a realidade que o fitava acima.

- Ehr ... o senhor Naufelam, em prantos, contou-me o que ocorrera ... que o homem de Harad havia invadido sua casa ... tentara arrastar a moça embora ... discutiram e ele a empurrou ... que o senhor Naufelam havia então logrado faze-lo sair de sua casa mas, quando voltara, vira que a filha havia caído e quebrado o pescoço ...

- Sei ... o senhor Naufelam havia expulsado meu primo de sua casa ... Quantos homens mesmo disse que foram necessários para prendê-lo?

- Eu ... eu ... eu não quis dizer que o fiz sair pela força – tentava se explicar Naufelam – eu o convenci a sair.

- Convenceu? Não duvido, mestre Naufelam, que o senhor seja possuidor de uma forte capacidade de convencimento. Logrou com suas palavras algo que duas dezenas de guardas da Cidade Branca não conseguiram com as deles, talvez pelo fato de que Cassor não conheça nada da língua comum!

O murmúrio da multidão transformara-se em escarcéu: como podia ser? Que havia realmente acontecido? Aonde aquela mulher os estava querendo levar? Então, era possível que não tivesse sido o marido que matara a mulher?

- Vizinhos corroboraram a versão do senhor Naufelam, senhora Darai – interveio Anderor - dizendo que, em meio ao alarido produzido por seu conterrâneo, podiam-se ouvir os gritos da moça, chorando a dizer "Não! Não! Ele vem me buscar!".

- Gritos que podiam muito bem ser dirigidos a um pai que tentava impedir a filha de partir COM o marido, segurando-a no topo de uma escada da qual ela veio a cair, acabando de vez com qualquer perspectiva do senhor Naufelam pôr as mãos ávidas num novo dote, exceto se conseguisse converter a culpa pela morte da moça num débito de Harad.

Golpe após golpe certeiro a princesa de Harad desferia contra suas presas.

Predadora.

Impiedosa. Estava tirando prazer daquele espetáculo abjeto, Haldir podia senti-lo ... "chega, minha criança malvada, já conseguiu o que queria ..."

Realmente, ela teria continuado indefinidamente, saboreando a resistência de suas presas, felina, como um grande gato a brincar com um camundongo encurralado por mera crueldade ...

Naufelam, flagrado em uma óbvia mentira no tocante às jóias da garota, ainda buscava justificar-se, como podiam duvidar dele, um pai, um homem doente?

Mas o jovem tenente pouco a pouco se afastava de sua pessoa, subitamente consciente da questionabilidade de suas próprias conclusões àquela noite, e já não mais corroborava suas explicações com a mesma convicção ...

- Vocês me respeitem ... minha família por parte de mãe tem raízes em Númenor ... Sou amigo do magistrado da Cidade, prestem bastante atenção ... Conheço sua Chefia, tenente Anderor, lembre-se disso.

E apesar de seus pendores sádicos, a filha de Ravai era dotada de grande senso de oportunidade, e soube reconhecer o momento derradeiro em que mais não seria melhor.

- O que esses haradrim traiçoeiros querem é nos espoliar, negar-nos os direitos. Cidadãos de Gondor, escutem-me...

- Direito ou não, aqui está o que queria – declarou Darai, empurrando a arca com pé até que esta caísse no chão com estrépito – faça bom proveito – disse, comandando a tromba de Murdug a encontrar o corpo da moça e içá-lo.

Logo depois aquele membro que se assemelhava a um tentáculo saído das profundezas a recolheu de sobre as muralhas também, para também depositá-lo sobre a cabeçorra que então recuou daqueles muros, sob seu comando lentamente virou-se, e partiu em direção ao por do sol de um sutil tom avermelhado.