CAP 30 - CULPAS E CULPADOS

Naufelam pôs-se quase que de imediato a arrastar ruidosamente a pesada arca de Harad pelo calçamento de pedra de Minas Tirith, mas ninguém lhe oferecia ajuda, pusilânime, sob o olhar de desprezo de vários dos espectadores daqueles fatos surreais.

Haldir, entretanto, se desligara completamente da figura abjeta. Aproximara-se da muralha, assumindo a mesma posição anterior à chegada do grande animal, apoiando a palma da mão esquerda sobre um dos grandes blocos de pedra a tempo de observar a criatura afastando-se sob o comando da condutora.

Sobre o dorso naquele momento nu de qualquer estrutura, o corpo amortalhado, diminuindo lentamente, ao compasso das grandes passadas, conforme também observava o outro elfo, postado à direita de Haldir.

O animal completara a curva e ganhara o rumo do Pelennor quando a condutora repousou as rédeas e voltou-se, ajoelhando-se junto ao corpo, a silhueta recortada contra o poente rubro.

Havia algo de contemplativo na cena cujos signos os elfos interpretavam agora.

- Sangue derramado?

- Aye.

- Da moça?

- Ou, talvez, sangue que ainda venha a ser derramado por ela ... mas, de qualquer forma, é um vermelho sutil, quase róseo ... um desfecho que restabelece ou encerra em si uma certa harmonia.

- O que afasta as perspectivas de uma batalha então.

- Aye.

- O que vocês estão a murmurar aí, elfos? – aproximou-se Gimli da cena que todos os demais já haviam abandonado, colocando-se entre os dois amigos, as imagens já incertas aos seus olhos.

- O que sua esposa está fazendo, Haldir, rezando?

O Galadhrim custou a responder, o olhar preso ao horizonte. A pergunta se lhe despertava uma série de outras questões a respeito daquela mulher tão insondável para ele.

- Não sei ... nunca a vi rezar. – disse, por fim, acompanhando o pequeno ponto preto e vermelho sobre a grande mancha que se movia, até o acampamento dos haradrim, visível aos olhos élficos qual pintura longínqua e indestinguível à sua compreensão.


Imediatamente antes de ser envolvida pelo tentáculo monstruoso, Darai pousara os olhos no marido, com uma irônica imitação de seu altear de sombrancelhas.

Glacial era a expressão do elfo então como depois, bem diferente, contudo, de seu interior devastado.

Julgara-a injustamente.

A ela, ao seu povo, ao esposo da moça morta.

Eivado de preconceitos, nem se preocuparia, como ninguém na cidade parecia haver-se preocupado, em apurar mais cuidadosamente os fatos antes de formar uma opinião sobre os mesmos.

Leviano, condenara um inocente.

Jamais ceifara em si mesmo a semente da inimizade para com o povo dela, deixando-a germinar, adubada por seu amor possessivo e incompreensivo.

Mesquinho, ignorara o sofrimento dos envolvidos na situação.

Aprofundara, de todas as formas, a já não pouca distância entre ele e a esposa.

Ela levara a prisão de seu conterrâneo a ele? Não.

Ela solicitara seu auxílio para libertá-lo? Também não.

Ele poderia objetar tais omissões?

Não!

Porque não teria envidado esforço algum pela sorte do parente da esposa, Darai sabia e Haldir também.

E, agora via, quando ela tomara as rédeas da situação nas mãos, à sua maneira buscando solucioná-la, simplesmente quedara-se ofendido, inerte de arrogância, atribuindo-lhe um sem número de culpas, com a mesma leviandade com que as gentes da cidade haviam atribuído ao rapaz de Harad a culpa pela morte da esposa.

Porque não a procurara ele, quando sabia que ela não poderia fazê-lo? Porque não buscara ele uma solução para o impasse criado entre os haradrim e o povo de Minas Tirith – ou ao menos uma saída para ele próprio e a esposa ?

O tempo e a percepção de momento de cada um dos dois era extremamente diferente, Haldir o sabia, mas mesmo aos seus olhos parecia-lhe agora que sua inação havia exorbitado.

E a imitação altiva e irônica de seu altear de sobrancelhas pela mulher gritou-lhe todas essas verdades, antes que, sob seu comando, a tromba do olifante, semelhante ao tentáculo de um monstro oriundo das profundezas, tomasse primeiro do corpo amortalhado, e depois do seu próprio.


O pai que vendera as filhas, gastara tudo que por elas recebera, as aprisionara em busca de mais ouro quando o visitaram, matara ou causara a morte da mais nova, acusara entretanto o genro por tal crime – um estrangeiro que sequer falava a língua local para se defender – que bem poderia ser sentenciado com a forca, e que por fim desenterrara ele próprio o corpo mal-sepultado, entregando-o e entregando-se pela satisfação da própria ganância, continuava a bufar sem ajuda, arrastando ainda a pesada arca, afastando-se rumo à própria casa sob os olhares enojados dos que assistiam a cena.

O olhar de Haldir sobre a muralha entretanto, fitava somente o outro afastar-se, o das mulheres sobre o animal imenso.

O afastar-se dele de sua adan.


O crescer da cólera era visível na face do Rei Elessar, à medida em que o relato de Gimli progredia.

Uma cólera sem remédio, pois não haveria um contingente de inimigos vis e declarados sob os quais pudesse ser despejada.

Ao menos esta qualidade poderia ser atribuída aos orcs, sempre lhe foram inimigos assumidos, refletia amargo, transmutando-se parte daquela cólera em absoluto desapontamento.

Sabia que não podia comparar seu povo com o povo élfico de sua meninice em Valfenda ou sua juventude em Lórien, mas neles não encontrava sequer a hombridade dos guardiões dunedain, ou mesmo dos rústicos rohirim, tantos dos quais, entretanto, haviam perecido tão longe de casa, como o valoroso Halbarad, como o Grande Rei Théoden, para defender aqueles homens mesquinhos.

Gimli não economizava nas tintas, mas mesmo quando o olhar suplicante do rei dirigia-se a Legolas este confirmava o relato, ainda que pesarosamente, por todos os motivos.

Haldir deixava que assim fosse. Não trocara mais palavras com os amigos enquanto dirigiam-se ao palácio e à sala do Rei, cioso de não influenciar seus juízos de valor em função de seu interesse pessoal. Até Elessar dirigir-se a ele.

- Haldir ... Haldir, meu amigo, se você ainda me permite chamá-lo assim após todos os problemas que certamente lhe causei.

Genuinamente desconcertado, nem mesmo o galadhrim, habitualmente frio, e especialmente reservado em meio ao turbilhão que enfrentara e enfrentava nas últimas semanas, conseguiu se conter àquela fala tão sem propósito.

- Majestade, perdoe-me, mas acaba de proferir um juízo desarrazoado, tanto porque minha amizade para consigo está muito acima de qualquer dos problemas que eu possa estar enfrentando aqui, quanto porque Vossa Majestade não detêm a mais remota culpa por eles.

- Detenho toda a culpa por eles! Detenho toda a culpa por governar um povo preconceituoso! Detenho a culpa por dar ouvidos a uma gente infame! Detenho toda a culpa por possuir uma guarda incompetente!

- Vossa Majestade não ...

- Homens bons que eu conhecia morreram para defender essa corja! Homens e Elfos! Hobbits! Frodo quase morreu! Sam quase morreu! Merry e Pippin! Você quase morreu!

- Aragorn, pare! – gritou Haldir, quase em tanta cólera quanto Elessar, os próprios nervos atingindo seu limite – Controle-se soldado!

O rei de Gondor e o capitão dos elfos subitamente emudeceram, olhando-se atônitos após aquela sucessão de explosões, um sutil e inesperado rubor de constrangimento misturando-se ao irado vermelho que colorira as faces do elfo enquanto este se dava conta do quanto se excedera.

Foi quando o inconfundível riso rouco escapou do anão, para crescer numa gargalhada, logo acompanhada pelo riso sorridente de Legolas e, após um breve lapso de incompreensão, pelo do próprio Aragorn; até o ponto em que mesmo Haldir postou a mão sobre o rosto risonho, balançando a cabeça negativamente, como quem acha absurda tal reação, mas não consegue deixar de contagiar-se por ela.

Os sons divertidos e rostos sorridentes de seus amigos agora lembraram-no do alívio que lhe proporcionavam, ainda quando carregado de tensões, o riso e as gargalhadas de seu tithen, o primogênito que Cabelos Negros lhe trouxera, Mîleithel.

- Majestade, per ...

- Juro que prefiro ouvi-lo tratando-me por soldado, capitão.

Mais risos.

- Elessar então, que foi como minha senhora Galadriel o renomeou.

- Que seja – deu de ombros o rei.

- Não detêm culpa pelos atos de seus súditos; não é um tirano, eles são senhores das próprias ações.

Aragorn soltou um longo suspiro.

- Posso até não deter culpa, mas detenho responsabilidade. Preciso de uma apuração efetiva de todo esse caso, de forma a instruir um processo verdadeiramente justo, e, que Gondor assegure-se disso, que resulte numa punição exemplarmente rigorosa.

- Não consigo imaginar uma punição rigorosa o suficiente para um tal pulha – comentou Gimli – o sujeito já é algo entrado em anos, vai acabar se safando com uma pena menor.

- É um manipulador escorregadio e bem relacionado, Aragorn – reforçou incomodado Legolas – dificilmente comprovar-se-á sem sombra de dúvida aquilo que a habilidade da senhora Darai, entretanto, evidenciou.

A senhora Darai, Legolas dissera, não a senhora de Haldir ou a esposa de Haldir – ressentiu-se este, o pássaro negro sempre presente em seu peito.

- Comprovar-se-á com toda clareza se Haldir conduzir a investigação – declarou Elessar.

- Quê?! – retornou Haldir – Sabe que não posso fazer isso, sabe que tenho um interesse pessoal e particular na solução desse caso.

- Um interesse pessoal e particular que nunca sobrepujou sua imparcialidade, seu denodo ou seu senso de justiça – respondeu-lhe com a séria verdade o rei.

- Não é o que muitos pensarão.

- Quero que os que não pensam assim vão para as profundezas de Mordor, juntar-se a todo o mal do qual um dia supus, em minha ingênua e tola soberba, haver livrado a Terra Média, para ter de finalmente render-me à evidência de que tanto dele subsistiu no coração do homem. Jamais pugnou junto a mim por seu casamento, sua esposa que sei que adora, ou pelos parentes dela, mesmo sofrendo, por achar que nisso não haveria justiça, nunca colocou esse interesse pessoal ao qual se refere acima da verdade.

- Muito lisonjeiras são as idéias do Rei Elessar ao meu respeito, mas ainda assim, creio que a atribuição de tais funções tende a caber à guarda local.

- A guarda local já demonstrou sua total incompetência para a apuração do caso.

- Tenho certeza que entre seus membros há quem seja capacitado para a tarefa.

- Não, não há, Haldir – redarguiu Aragorn – Para os jovens, a cidade está cheia de oportunidades. Os veteranos receberam terras após a Guerra do Anel, da qual foram cuidar, ou da própria vida. A guarda da cidadela, sou forçado a admitir, abriga hoje em seus quadros sobretudo aqueles que não conseguiram melhor colocação, homens sem iniciativa ou jovens sem experiência.

- O exército de Gondor, entretanto, tenho certeza que não abriu mão de seus melhores tenentes.

- Os quais, junto com a maior parte do efetivo, foram liberados após um infindável suceder-se de campanhas, para visitar suas províncias ou descansar junto a suas famílias.

- Infindável suceder-se de campanhas? – riu Haldir – Por quanto tempo foi você um solitário Guardião do Norte?

- Muito, Haldir – acedeu Aragorn – mas então, como ainda agora, dispunha eu de um tempo que homens como eles não dispõe.

Tempo ... a eterna questão do tempo.

- Ademais, Haldir, mesmo que os convocasse à minha disposição, não encontraria dentre eles um que congregasse as qualidades necessárias para a apuração devida dos fatos com os quais lidamos: autoridade, diligência, raciocínio, conhecimento da lei e fluência da palavra.

- Tem Faramir, que não é um estrangeiro.

- Faramir, que falta me faz – ponderou o rei Elessar – Prendi-o junto a mim, entretanto, durante anos, e finalmente agora, que está cuidando de sua terra, colonizando-a, não posso pedir que largue tudo e venha urgentemente para cá, desimcumbir-se dessa tarefa! E ela não pode esperar, Haldir, e você já está aqui.

Haldir respirou fundo, à procura de uma nova objeção.

- Saiba o Rei Elessar que será questionado por isso.

Aragorn mirou o capitão da aliança com um sorriso nos olhos

- A pessoa aqui presente que se incomoda quando questionada não sou eu – respondeu, arrancando novos risos de Gimli e Legolas

– E, levando em conta tal coisa, avisarei formalmente que, desde já, Haldir de Lórien encontra-se imbuído não só de tal atribuição, como de toda autoridade necessária para desimcumbir-se dela.

- Se assim for, sugiro, preliminarmente, a tomada de duas medidas.

- Quais sejam?

- Uma é nomear Legolas e Gimli meus assistentes, não quero proceder a qualquer diligência sem testemunhas idôneas e fidedignas.

- Deveras? – questionou o anão, tão espantado quanto lisonjeado.

- Deveras, filho de Glóin – acedeu Haldir – se bem que, convocando Legolas, teríamos de nos haver com a sua companhia de qualquer maneira, não é mesmo?

- E a outra medida? – socorreu Aragorn ao bufar de Gimli frente ao troco de Haldir, ambos possuindo em comum o mesmo desagrado em ser alvo de risos.

- Uma vez que pesam dúvidas suficientes sobre a culpa do esposo haradrim da moça morta, relaxada estaria a sua prisão, o que, creio eu, mitiga a motivação de manter-se a esposa do Senhor de Harad detida.

Aragorn paralisou-se por um momento, num espanto mortificado.

- Elbereth! Arwen me admoestou tanto! Pediu tanto pela liberação da moça!

A Senhora Míriel, então, tivera uma advogada, afinal - ponderou Haldir mais uma vez - ao contrário de sua esposa, pois, se esta não encontrava um defensor nele, em quem encontraria? – o coração atormentado nas garras do pássaro negro.

- Haldir, por favor, providencia então que a liberdade dessa senhora seja-lhe comunicada o quanto antes.

- Decerto – respondeu o elfo, novamente sob seu manto frio – irei pessoal e imediatamente comunicá-la, é o mais delicado dos mal-entendidos gerados pela encenação caluniosa do pai da vítima.

- Nem me fale! Surpreende-me assaz que o Chefe de Harad não haja ainda marchado contra Minas Tirith, ou feito reféns dos fornecedores que continuaram suprindo seu acampamento, ou coisa pior.

- Deveras! – reforçou Gimli.

- Parece-me – interveio Legolas – que, assim como boa parte de Minas Tirith, vocês também não estão imbuídos de muito boas expectativas para com os senhores dos grandes animais do Sul.

Às palavras de Legolas, o Rei Elessar acedeu tristemente com a cabeça.

O mal semeado por Sauron nos corações de todos fincara raízes muito, muito profundas, refletiu à retirada dos demais.