Cap 31 – O RETORNO DE MÍRIEL
Sob as ordens de Míriel, os velhos criados da mãe ajudavam-na a carregar a pesada arca até o coche, ao som dos trovões que prenunciavam a tempestade.
- Filha, não faça isso, não carregue esse peso assim! – admoestava a senhora Morwen, juntando-se aos esforços conjuntos na tentativa de afastar sua filha daquela ação absolutamente desaconselhável nas circunstâncias.
- Não pode estar pensando em partir agora, na noite alta, menina – complementou Naneth.
- Mosel, o cavalo – ordenou Míriel ao velho criado atônito com o comando na voz outrora suave que agora se erguia além dos trovões, imponente como os relâmpagos que ignorava.
- Menina Míriel, pelos Valar, não faça isso, a tempestade a pegará no caminho, e vem forte, para vários dias – Naneth suplicou ao ver sua senhorinha subir ao coche e tomar a rédea tão logo atrelado o cavalo ao delicado veículo.
Mas as mãos decididas de Míriel já movimentavam o carro, portanto, mais não pode fazer a senhora Morwen senão subir também, tomando assento ao lado da condutora que comandou o cavalo num tropel louco pelas ladeiras da Cidade Branca, rumo a Daror.
Aterrorizada, a mãe de Míriel mal respirava em meio à correria, às acentuadas curvas, aos declives perigosos, sob os clarões e a ventania da tempestade cada vez mais próxima.
- Filha – suplicava ainda, segurando-se à armação do assento ao aproximarem-se dos círculos inferiores – de que adiantou todo aquele repouso para agora você se submeter a um tal chacoalhar nessa intempérie?
A senhora Morwen mal imaginava o chacoalhar e a intempérie aos quais Míriel as submeteu nos caminhos do Pelennor, fazendo o animal voar centímetros à frente da chuva, guiando-se no escuro pelos constantes relâmpagos e os muitos raios, mais determinada que uma Vala nos dias da ira, seguindo sempre em frente na direção do seu amor.
O bebê poderia ter-lhe saído pela boca naquelas horas, mas não o fez, e assim Míriel e a sua mãe chegaram ao acampamento junto com os pingos rudes da tempestade que prenunciava a mudança de estação.
Míriel mal teve tempo de recomendar ao espantado Danaël, desperto na madrugada pela freada aguda junto às tendas principais, que acomodasse o cavalo e sua mãe, dirigindo-se imediatamente para a tenda de Daror.
...
Não importava o quanto bebesse, a lembrança de Míriel permanecia com ele, o cheiro dela lá, a sensação macia de sua pele, o contorno arredondado de seu corpo pejado, até o a sabor doce de seus lábios róseos.
Aliás, em algum canto de sua mente, Daror tentou registrar a idéia de adquirir mais uma partida daquele vinho, que lhe trazia a sensação dos braços de Míriel em volta de si, do calor da respiração dela em seu corpo, do toque de sua mulher, de como o despia e chamava, do cristal de sua voz meiga e chorosa, do carinho das mãos dela em seu rosto, reassegurando-o da presença que ele necessitava, daquela concavidade, de sua umidade a envolvê-lo, de sua ânsia a buscá-lo, como ele deixou-se buscá-la também, com pressa, com aflição, inquieto, angustiado, atormentado por uma dúvida, que no entanto não se lembrava qual era.
...
Daror forçou sua mente aprisionada pela dor a registrar a observação de devolver qualquer partida restante do vinho hediondo que o fizera acordar assim, bebendo o chá que Míriel conduzia à sua boca sem nem abrir os olhos, tais as tenazes que lhe apertavam os miolos então.
Era estranho, contudo, que alguém pudesse se sentir tão bem quando se sentia tão mal, sem nem saber que dia era aquele ou como sucedera de beber a tal ponto, mas, percebendo a cabeça de seu bem-querer recostada em seu peito, e retendo-lhe a mão na sua, a própria bem-aventurança reafirmava-se-lhe, com uma força que não compreendia.
E Daror deixou-se ficar um muito longo tempo deitado com Míriel, simplesmente feliz, em meio àquela formidável ressaca.
Sabia que já passava de todo da hora de despertar quando finalmente sentou-se à cama, auxiliado pela mulher, um tom de apreensão nos olhos dela, aos quais esforçou-se para sorrir. Que sua flor não se preocupasse, logo haveria de estar bom, quisera lhe dizer ao sorrir, levantando-se para lavar o rosto junto à bacia, a tentar desanuviar os olhos e as idéias.
Foi quando Naraor irrompeu pela tenda, carente e sem paciência, correndo para pular no colo de Míriel.
- Mãe! Onde esteve esses dias todos?! Porque nos deixou?! – despejou de supetão à mãe que o acolhera nos braços esquecida do ventre imenso, o qual levara um tremendo e doloroso pontapé, ao tempo em que Daror urrava de cólera, atirando mesa, bacia e ânfora pelos ares.
- Filha, eu não sei ... Vamos mandar buscar alguém às Casas de Cura.
- Não ... é ... preciso. .. Sou ... boa ... parideira – Míriel redargüia entredentes – só precisa se preparar para ... receber o bebê ...
- Míriel, minha filha, nunca fiz isso, sempre fui assistida ...
Míriel fechara os olhos em busca de fôlego e paciência ... Estar só com sua mãe justamente nessa hora! Porque não a surpreendia que a senhora Morwen não fosse de auxílio algum naquele momento? Que falta lhe fazia Mariän! Que falta lhe fazia Hellë ...
Casas de cura? Báh! Como delirava a senhora Morwen! Ainda que algum de lá fosse acorrer, não seria sob a tempestade que, a essa altura, certamente já transformara o caminho num grande atoleiro.
Não, nenhum das Casas de cura acorreria, nem qualquer das mulheres, pois que ainda estavam em Minas Tirith, teria de contar apenas com os deuses, e com a posse embriagada de Daror, que lhe havia de ter aberto os caminhos.
Apenas seu dobrar-se de dor ao pontapé de Naraor, contudo, o havia impedido de matá-la no instante em que Daror caiu em si de tudo que ocorrera, pois a ira do haradrim, quando despertada, não conhecia medida.
Outro senhor, entretanto, cuidou de cobrar-lhe as dívidas e castigá-la por seus erros naquele instante, e o filho de Daror rompeu a bolsa e encheu seu corpo de dores violentas.
Não conseguira proceder a nenhuma preparação. Mal alcançara a cama, e não havia nenhuma mulher no acampamento que a pudesse ajudar.
- Deixa-me ver tua abertura – aproximou-se Darai sem delongas, ao adentrar a tenda.
- Você!? – estreitaram-se os olhos de Míriel, que juntou novamente as pernas, com toda força que ainda conseguiu reunir ... Se havia uma pessoa da qual não queria auxílio algum, aquela pessoa era sua cunhada.
- Saia daqui agora – sibilou entredentes.
- Nem, mulher do Norte, aqui nasce um filho de Harad, e eu estarei presente.
- Nem, criatura peçonhenta, chamo a Daror, e vamos ver se ele não a tira daqui... quando lhe contar ... tudo que andou a fazer.
- Pois conta, pálida cunhada, conta tudo, quer que o chame?
- Jogou Daror contra mim, envenenou ...
- Daror aguarda o filho junto ao fogo, e quando a criança lhe for levada, sua ira já se terá consumido sem que Norte e Sul se tenham confrontado, exceto se minha cunhada lhe contar o que fiz, ou acha que será contra mim que a ira de Daror se voltará então?
Míriel nada respondeu, tomada por nova e violenta contração, no que Darai pôs-se a diligenciar, alimentando o braseiro, dispondo de água morna e lençóis limpos, testando o gume e esterilizando o punhal.
- Para que isso?
- Para cortar o cordão, mulher tola, agora me deixa ver de teu progresso, anda.
- Não confio em você.
- Pois não parece ter escolha – observou Darai ao certificar-se do que supunha. - O filho de Daror é maior que tua abertura.
Merda.
- Mais um pouco e ver-se-á entalado, quando então morrerão os dois.
Míriel estava tomada duma ira ainda maior que a de Daror, tentando forçar o bebê para fora a cada contração, inutilmente.
Pela potestade dos Valar, não era possível o ter de colocar-se nas mãos daquela mulher de novo!
A senhora Morwen só sabia torcer as mãos, sem compreender as palavras ou a confrontação das duas mulheres.
- Não confio em você – reafirmou Míriel.
- Minha mãe também não confiava em sua sogra, mas não teve remédio senão permitir-lhe fazer uma incisão que facilitasse a saída de Daror, o que como você sabe, não impediu uma nova concepção depois.
Lágrimas vieram aos olhos de Míriel, seu Daror havia de ter sido um bebê imenso, realmente, e tal sucedia por certo agora com seu filho ...
- Então?
Míriel respirou fundo ... a parva de sua mãe não serviria sequer de testemunha, caso algum mal sua cunhada fizesse a ela ou ao bebê, ou a ambos. ...
- Se quisesse um tal mal, bastar-me-ia não fazer nada.
Míriel bufou, encolerizada e sem saída.
- Pois faz, então.
E não falou duas vezes.
NOTA POP DA AUTORA: O tema do retorno de Míriel é a interpretação de CINDI LAUPER para I DROVE ALL NIGHT
