CAP 32 DA SENHORA MORWEN E DE DAROR

Ela iria se queixar ao senhor Daror.

Sim, iria se queixar ao senhor Daror, era o que pensava a senhora Morwen.

Apesar do pavor que sentira a se deparar com o gigante de Harad, apesar da rusticidade de seus modos, apesar dos despropositados – quando não absolutamente incompreensíveis - costumes bárbaros que pudesse cultivar, até mesmo a senhora Morwen tivera de admitir, ainda que de si para si, que o senhor Daror lhe inspirara um respeito e admiração dignos de sua estatura.

E, conjeturava ela, possuindo então seu genro um inaudito caráter nobre – ou, poder-se-ia até dizer, majestoso – logo ela mesma lhe inspirara também consideração semelhante, por óbvio.

Por todos os Valar, fora mesmo inacreditável como tudo sucedera!

...

Do nada, vira-se aparando um bebê recém-nascido – ela, a quem um sem número de amas e aias sempre atendera nesta hora, vira-se praticamente só, desprovida de coragem de sequer mover-se com o neto berrando sobre o pano em suas mãos, enquanto a cunhada de sua filha voltava-se ao trabalho de suturar a parturiente.

Praticamente só, de fato, pois a garotinha que, para seu grande espanto, viera assistir o momento do nascimento, decerto não fora de tanta valia assim, puxando-a pelo braço – já que a senhora Morwen não entendia palavra do que a menina falava – para junto da bacia, experimentando a água, nela molhando o pano, e com este limpando o bebê dos fluidos com que viera ao mundo.

Dispôs a menina ainda de novos lençóis sobre o cesto acolchoado, e depois de revirar o bebê de formas a limpá-lo também por trás, fê-la deita-lo entre os cueiros limpos, logo dispondo das pontas deste e as entrecruzando, como a um embrulho, ao que então pegou-o – aquela criança – e o mostrou à mãe, dirigindo-lhe palavras num tom como a assegurá-la da saúde e boa formação do rebento, antes de o oferecer à senhora Darai.

- Daror – ouviu a mãe o arrulho da filha – leva-o a Daror.

- Agora não posso. O que estou fazendo deve ser feito neste momento – respondeu-lhe a cunhada, enquanto a menina espichava o pescoço para vê-la cerzir a episiotomia.

- E que irá se estreitar logo tua abertura, mãe – esclareceu Batiá, que, como toda menina criada na tradição de Harad, frequentava desde que ela mesma era um bebê toda dor e alegria que aportavam junto com a chegada dos seus.

- É preciso que Daror o veja, que o nomeie – o assuma, acrescentou intimamente a exausta e ansiosa Míriel, o assegure ... nos reassegure ... que me perdoe ... que não me deixe de amar.

Se chorasse, a cunhada poderia se contrair, e isto não lhe ajudaria o trabalho, bufou Darai, levantando-se e posicionando os braços daquela avó apalermada na posição devida para o acomodar do sobrinho, ali colocando-o.

- Conduz a velha até Daror – ordenou então a Batiá, voltando-se novamente para o minucioso trabalho que realizava.

Daror, pensara a numenoreana senhora naquele nome diversas vezes pronunciado dentro da tenda, naquele nome temido em Gondor, repetido desde a Guerra do Anel em tom grave, como se seu mero som já constituísse uma ameaça, enquanto a menina a puxava pelas saias, em meio ao acampamento enlameado, no qual a mulher esforçava-se para não pisar em falso com o filho de sua filha nos braços, dirigindo-se para a fogueira.

Somente quando a senhora Morwen estava junto ao fogo foi que o viu, as chamas projetando um balé de sombras e sangue em seu rosto escuro de traços largos e cicatrizes selvagens.

Nunca o vira, mas não duvidou por um momento que aquele fosse Daror.

E então a senhora Morwen susteve a respiração.

Por que o homem que supusera de pé, na verdade estivera sentado, e naquele momento levantou-se.

A boca da senhora Morwen abriu-se, enquanto seus olhos fitavam aquele monumento que se aproximava dela.

Se não estivesse paralisada de pavor, com toda sua dignidade numenoreana a senhora Morwen teria saído correndo dali.

Ou ao menos lhe teria interdito, afastado daquele troll o bebê em seus braços.

Mas a senhora Morwen não foi capaz de esboçar reação alguma, quando aquela manopla tirou-lhe a criança dos braços.

Daror trouxe a mão esquerda com o bebê para junto de seu peito, e com a direita desfez o embrulho caprichado de Batiá.

Seu dedo indicador percorreu satisfeito o corpinho do menino, examinando orgulhoso a minúscula mas inconfundível masculinidade, oferecendo-se às mãozinhas agitadas da criança, o sorriso especial abrindo-se sutil e maravilhado em seu rosto.

- Eis o filho de Daror – soergueu-o na direção de seus homens, para que todos vissem – Naor seu pai o chama!

Sons guturais, primitivos, saíram da garganta dos homens à volta, num alarido selvagem que se foi propagando por todo acampamento, e ao qual o bebê respondeu a plenos pulmões, com um choro capaz de se sobrepor a toda aquela algazarra.

Daror gargalhou com seus homens, aquele era seu filho!

- Que pulmões!

- Zurra como um mûmak!

- De certo terá um brado de guerra temível!

E Daror ria-se e ria-se, feliz, quando se aproximou novamente da senhora Morwen e lhe devolveu o menino que se esgoelava.

- Esse vai dar trabalho, não é sogra?

A senhora Morwen não havia sido formalmente apresentada a Daror, mas afinal as circunstâncias em que estavam vindo a travar contato, tinha de reconhecer, não eram das mais favoráveis ao protocolo ... O senhor Daror era um líder guerreiro, o rei supremo de seu povo, e como tal um homem deveras ocupado, e assim sendo despachou-a – isto é, encaminhou-a de volta à mãe - com a criança.


...

Apesar de todos seus afazeres, porém, o rei de Harad várias vezes por dia vinha ver o filho, e não hesitou sequer em dar-lhe banho, como ocorreu quando, vendo-se sem auxílio, a senhora Morwen por um momento atrapalhou-se limpando as fezes da criança.

- Olha só, Naraor, o que o porquinho do teu irmão aprontou aqui, rá-rá-rá. – divertiu-se, já misturando água quente com água fria na bacia, enquanto o rapazinho louro que o acompanhara à tenda interessava-se em espremer com os cueiros outrora limpos a massa grudenta e esverdeada excretada pelo recém-nascido.

Teu irmão - ecoaram nos ouvidos da senhora Morwen as palavras utilizadas por Daror, pronunciadas na língua comum, que ele sempre procurava utilizar quando em sua presença.

A senhora Morwen estudou o menino lourinho que acompanhava Daror a todos os lugares.

Não menos que seis anos – a mãe de cinco meninos o poderia afirmar.

E todos os seus filhos estavam contidos naquele rosto.

Varda! – levou a mulher a mão à garganta.

Aquele era o filho que sua filha carregava no ventre quando partiu para o Harad.

O menino que era agora quem ria, no qual o senhor Daror agora espargia a água suja da bacia, da qual retirava o bebê.

De pai e filho tratavam-se, enquanto enxugavam a criança, para finalmente embrulhá-la num novo cueiro – já uma respeitável pilha suja destes ao lado da longa mesa que lhe servia de trocador.

O rei do Harad adotara como seu o fruto da desonra de sua filha!

A boca da senhora Morwen entreabriu-se novamente, olhando para a figura enorme, agachada ao nível do menino junto ao cesto onde agora descansava a criança banhada.

O senhor Daror não era grande só por fora.

Era grande por dentro.

- Cadê mãe dos garotos? – perguntou Daror por fim, voltando-se para a senhora Morwen.

- Eh ... – um nó se havia formado na garganta da altiva senhora de Minas Tirith, e foi preciso que ela o engolisse antes de responder – Minha filha descansa, senhor Daror, o parto foi ... um tanto cansativo.

- Cansativo?! Mas minha irmã disse Míriel bem!

- Sim, Míriel está bem, senhor Daror – apressou-se a senhora Morwen em apaziguar o tom algo alarmado do esposo de sua filha, já se embaralhando com a gramática da língua comum – Parece-me que a senhora sua irmã trouxe-lhe de um chá que favorece o repouso, mas, de qualquer forma, garantiu-lhe que em breve poderia pôr-se de pé para cuidar do filho.

- Ah! – fez Daror.

Cuidar do bebê sem dúvida convertera-se numa questão. Agora que lhe conhecera a mãe, não se admirava mesmo de Míriel ter se mostrado pouco familiarizada a várias das lides da mulher.

- Minha irmã logo aqui ajudar, é que está só para dar conta de muita ... necessidade acampamento ... E bem ... logo, que os caminhos estão secando e o tempo firmou, outras mulheres ... chegando.

Pelo menos era o que Daror esperava.

Aquele mulherio inútil estava a se demorar demais naquele raio de cidade, justo quando se fazia necessário ali!

E Daror catou Naraor, que já assuntava no anexo da tenda em que dormia Míriel, antes que viesse a acordar a mãe.

Daror sabia bem que dormir seria algo de que ela não teria tanto quanto necessário por um longo tempo.

Aquela filha da Lua do Norte de humores mutantes, que gostava de fazer o coração de le de brinquedo.

Humpf ... Pois um dia o homem do Sul iria se cansar ...

Mas, se não estivesse de fato bem, Darai lho diria – ponderou, observando-a de relance, antes de sair carregando seu levado filho mais velho de ponta cabeça, seguro pelos pés.

Ante uma senhora Morwen não menos atônita que emocionada.

Pegara-se a gostar do genro de uma forma que nunca imaginara fazê-lo.

Almejara para a filha o desposar de um título, de uma posição, de uma ancestralidade, de uma genealogia.

Percebera que, de uma forma imprevista, Míriel desposara tudo isso.

E muito mais.

E era este adendo, intraduzível em palavras, o que lhe arrancava verdadeira admiração, que nunca esperara sentir como o sentia por aquele bárbaro esposo que brindara sua filha com um destino acima de qualquer destino comum...


...

De fato, aos poucos, um que outro grupo de esposas de Harad começou a retornar ao acampamento – umas, acima de tudo saudosas dos maridos, outras, premidas afinal pelos ultimatos de parentes ávidos, aos quais seus retornos para junto dos haradrim constituíam resposta indesejada, mas definitiva.

Assumiram ao máximo o cuidado com o pequeno – e qual delas, no futuro, não quereria dizer a um jovem príncipe de Harad que o carregara no colo e lhe limpara o bumbum?

Míriel também já se levantava – embora a mãe desconfiasse que alguma dor ainda sentia, apesar de não demonstrá-lo a não ser pelos olhos lacrimejantes e ar angustiado com os quais já a flagrara.

Contudo, a Sra. Morwen desejava, de alguma forma, vivenciar aquele papel de avó – da mesma forma que com Míriel, e apenas com ela, vivenciara de fato, ainda que sob o amparo de amas e aias, o papel de mãe.

Aproveitava do sol daquele prenúncio de primavera, então, passeando com o pequeno que apenas há pouco aprendera a segurar – ainda tão molezinho, apenas começando a, por poucos instantes, tentar sustentar a cabeça no pescoço – banhando-o na luz conduzida por Arien.

Mas tal não podia dar-se daquela forma.

Sob aquele olhar.

E era por isso que iria queixar-se ao senhor Daror.

Aquele homem a estava incomodando.

Olhando-a como se ... como se a despisse.

E iria queixar-se dele ao senhor Daror.

Que era aquilo afinal? Devia-lhe consideração! Era a sogra do senhor Daror, e faria com que este pusesse aquele velho lúbrico em seu devido lugar.

Aquele velho que a olhava daquela maneira indecente, acintosa ... como se a devorasse.

Não percebia que a incomodava? Não se dava conta de que aquilo era desrespeitoso?

Iria queixar-se ao senhor Daror, era o que pensava a senhora Morwen, enquanto Terair cofiava seu cavanhaque, acompanhando o patear daquela potranca nervosa, seu vai-e-vem irrequieto, de animal há muito contido que anseia por um bom exercício.


NOTA DA AUTORA: Hesitei um pouco, pois tinha em minhas mãos uma série de capítulos todos contendo cenas concomitantes a este, todos indo e voltando no tempo. Acabei optando pelo que aqui apresento pelo todo orgânico que compõe com o anterior, mas peço que não estranhem caso se vejam em dúvida sobre a linha temporal dos próximos; essa narrativa é uma bagunça mesmo.