CAP 33 - O REVIRAR DAS CARTAS

Legolas e Haldir observavam enquanto o diretor das Casas de Cura examinava minuciosamente o corpo.

- Ataque do coração – diagnosticou por fim o sábio senhor.

- Conforme supusemos – concordou Legolas, voltando-se para Haldir no intuito de que este confirmasse a afirmação.

O que o galadhrim efetivou por fim com um discreto aceno de cabeça.

De fato, uma ocorrência razoavelmente previsível: idade, sobrepeso, sedentarismo, vida desregrada, um carrossel de emoções e, por fim, os exaustivos e sobrepostos esforços físicos e emocionais do dia anterior.

Naufelam falecera sozinho em casa, durante a noite, junto ao tesouro que reluzia na arca de Harad.

Haviam-no encontrado pela manhã, em situação que os conduzira imediatamente a tais conclusões, após forçarem a porta que ninguém acorrera a abrir em obediência a ordem do rei da qual eram portadores.

Não tiveram de fazer grande esforço, verdade seja dita – podia-se notar que fora esmurrada até pender frouxa das dobradiças (e só ao observá-lo Haldir recordou-se dos costumes narrados pela esposa, de que um homem de Harad não pisa no abrigo de outro sem ser convidado – exceto quando em guerra aberta ... E cada vez mais elementos levavam a crer que o genro jamais tencionara conflagrar-se com o sogro, mas tão somente reaver sua amada).

Reaver sua amada.

Elfos e anão o haviam encontrado já frio, na luxuosa sala, junto à arca escancarada, algumas peças sobre o chão.

- Não toque em nada, anão – comandara Haldir. – Legolas, vá buscar um curador da cidade que possa atribuir causa ao falecimento.

- Causa?! – protestara Gimli – Está a me dizer que precisa de um curador para atestar a causa ao previsível desfecho desse infeliz? Pois eu lhe digo ...

- Um curador que possa atribuir OFICIALMENTE a causa do óbito do principal suspeito e única testemunha da morte que fomos incumbidos de investigar, Mestre Anão, ou precisa que EU lhe explique o quão mais complicada ainda tornou-se nossa missão frente a esse novíssimo fato?

- ... É mesmo – Gimli coçou a cabeça – metemo-nos numa alhada ...

- Vou procurar a autoridade das Casas de Cura, então – acedera Legolas, já retrocedendo para a porta.

- Somente o príncipe Legolas deve ir, Mestre Gimli, solicito que permaneça aqui comigo.

O filho de Glóin, então, quedou-se na casa de Naufelam, junto com Haldir, enquanto Legolas ia à busca do diretor.

- É a preocupação com que o possam acusar de conduzir as conclusões da investigação de forma a favorecer o povo de sua esposa que o está melindrando?

Após algum intervalo, Haldir acedeu.

- Não deveria, pois tal acusação é tão certa quanto a confiança de Aragorn no seu parecer.

Haldir mirou o anão.

- Manter-me aqui, como testemunha de que você não está modificando o local onde ocorreram os fatos, aliás, é uma desnecessária, mas muito típica, demonstração desse seu zelo excessivo e, se quer saber, um tanto pomposo ... Diga-se de passagem, você é um elfo de excessos, inclusive em termos de vaidade – Gimli, animara-se em preencher os silêncios do capitão da aliança, sozinhos naquela sala com um defunto – Não sei qual a sua ascendência – e nem tente me explicar, que há muito desisti de tentar entender a miríade de ramificações e cruzamentos destas existentes entre o seu povo – mas, sem dúvida alguma, algum antepassado lhe legou um fogo que você se ocupa demais em tentar controlar ... Não tem como influir sobre o que já aconteceu. De fato, mestre arqueiro, toda verdade já se revelou, o que Aragorn espera é tão somente que você a ponha em palavras.

- Toda verdade já se revelou, mestre Gimli? – voltou-se Haldir para o anão, quando ambos foram interrompidos pelo escancarar da porta da casa, nos halls separados da sala tão somente por um breve pórtico.

- Nafelam, seu velhaco! Soube que conseguiu, nunca o duvidei, e espero que ainda se lembre de quanto crédito me levou fiado nisso ...

Mas o sorriso da voz do usurário morreu ao adentrar da sala onde avistou os amigos do rei, bem como o corpo de seu próprio amigo no chão ...

- Er ... de ... desculpem-me ... – tentou ainda retroceder.

- Não precisa se desculpar – o anão, sem que mesmo Haldir atinasse como, já se postara no hall, impedindo a saída do intruso – faça-se à vontade, como se a casa fosse sua – era a voz de Gimli que estava risonha agora, mas de um jeito que gelou os ossos do homem – Qual é mesmo sua graça?

Ellis, era o nome do sujeito, um comerciante da cidade, que Haldir ordenou o aguardasse nos escritórios de Naufelam – na companhia de Gimli – enquanto o curador trazido por Legolas procedia o exame post-morten.

"Não toque em nada" recomendara Haldir ao fechar as portas do aposento "O mesmo vale para o senhor, mestre anão"

"Ah! E, por favor, mantenham-se em silêncio na minha ausência."

Por Manwë, só esperava que o anão não falasse demais!

Mas Gimli manteve-se surpreendentemente calado até que os elfos adentrassem o recinto, após se haverem despedido do diretor das Casas de Cura, o qual retirara-se prometendo tomar as providências requeridas pelo descanso do morto.

Hadir estudou rapidamente o cômodo, sentando-se atrás da mesa de trabalho de Naufelam sem modificar a disposição dos papéis que a recobriam, e solicitando ao comerciante com um gesto dos longos dedos que tomasse assento à sua frente, do outro lado da mesa.

Ellis não sustentou o olhar do elfo silencioso e altivo por sequer um segundo.

E agora? Como iria safar-se dessa?

O velho não parava quieto na cadeira, mudando nervosamente de posição o tempo todo.

Por que não lhe perguntava nada, aquele elfo maldito?

Não lhe perguntava, porque já sabia.

E o outro elfo? E o anão? – Ellis podia praticamente senti-los, severos vigiando-o, acercando-se dele, prontos a conduzi-lo ao cadafalso.

- E...eu sou inocente, senhor, não fiz nada ... eu juro ... eu juro, foi um acidente ... eu nem estava presente, só soube por que ele me contou ... sou um pobre homem trabalhador, meu senhor, um pobre pai de família que toca seu comércio com muita dificuldade ... o senhor tem de acreditar em mim ... nem sequer concordava com o que ele estava fazendo, mas sempre tive o coração mole, sabe? Sempre fui generoso, nem sei como consegui chegar onde cheguei ... Ele me pedia, e eu não sabia como negar-lhe ... dei-lhe crédito, vendi-lhe fiado, emprestei-lhe algum dinheiro ... foi só isso que fiz, senhor, não é nenhum crime ...

Mas eram terríveis aqueles olhos de aço azul sobre Ellis.

- Passaria fome se eu não o ajudasse, senhor ... apenas o quis ajudar ... ele me dizia que os casamentos de suas filhas andavam muito mal ... haviam sido um erro ... mas quando se desfizessem, ele prometia pagar-me com juros e ...

Ellis, seu velho estúpido! Está se enrolando!

O aço da lâmina que se dirigiria ao seu pescoço luzia naqueles olhos.

Ellis tomou fôlego e aprumou-se na cadeira.

- Não que alguma vez eu tenha cobrado algo a Naufelam, ou a qualquer outro, claro, feito ameaças ... um homem só diz mais mentiras do que quando pede um empréstimo na hora em que tem de pagá-lo, juro por Iluvatar!

As orelhas de Legolas e Haldir tremeram, e este se moveu na cadeira pela primeira vez, cruzando as mãos e apoiando-as sobre a mesa, debruçando-se para Ellis.

- Pronuncie o nome do Único ao alcance dos meus ouvidos mais uma vez, senhor Ellis, e eu lhe garanto que será a última.


O depoimento assinado por Ellis – ao final tomado oficialmente por Haldir, quando o velho usurário finalmente recuperou alguma compostura após aquilo que só poderia ser descrito como um ataque de choro histérico – conduziu ao cerne das conclusões faltantes ao caso, às quais todas as demais provas documentais e testemunhais reunidas por Haldir, Legolas e Gimli só vieram a corroborar.

As muitas e exorbitantes dívidas de Naufelam comprovavam-se quase que pelo testemunho do falecido; eram anotações em seus livros de contas, promissórias guardadas nas gavetas, contas a se amontoar pela mesa ... Podia-se dividi-las conforme sua origem: mesas de jogo ou manutenção de um padrão de vida ostentatório - cujo objetivo parecia ter sido o de alimentar seu crédito.

Para a esmagadora maioria da Cidade de Minas Tirith, Naufelam era um sujeito bem posto na vida, generoso e simpático. Não sabiam ao certo o que fazia, mas casara duas filhas com homens de Harad, e tornara-se guardião dos dotes recebidos já na ocasião: providência que certamente o constituía frente aos seus pares como senhor de um tino notável. Podia dar-se ao luxo de não trabalhar.

Sua casa era ponto de encontro de homens de negócios – que lá passavam momentos agradáveis. Naufelam conhecia muita gente, apresentava pessoas, por certo intermediava algumas transações, aconselhava investimentos ... A excelência do tratamento que ali recebiam os que tinham a sorte de frequentá-lo era testemunho suficiente para eles da capacidade de pagamento do anfitrião, caso este precisasse de algum adiantamento para socorrer-se na eventualidade de que o dividendo de algum investimento não lhe chegasse na data esperada.

O empréstimo de um conhecido pagava a outro, e reconstituído o crédito frente a este ...

Os dotes, haviam-nos consumido o vício do jogo já nos primeiros anos – embora Naufellam jamais tenha deixado de ser considerado um dos homens mais ricos de Minas Tirith à partir do momento em que os recebeu.

Pouco à pouco, porém, os comerciantes mais atinados da cidade – e mais envolvidos com as escusas práticas do jogo a dinheiro e da usura – deram-se conta de que a imagem pública do simpático gordo não condizia com sua real situação.

O jogador, entretanto, recebia-os com vinhos das melhores safras e iguarias finas, em um ambiente de luxo, conforto e acolhimento que muitos não encontravam em suas próprias casas – de várias maneiras.

- Tenho uma carta na manga – mais de um dos vários testemunhos semelhantes ao de Ellis reproduziu a frase.

Um novo dote seria pago pelos sulistas quando viessem devolver as esposas, em cinco anos.

Para centenas de mães solteiras, viúvas e orfãs que haviam partido então, via-se agora surgir uma família saudosa... As moças poderiam não só reverter em seu favor o dote outrora recebido – como pouquíssimas fizeram, entre as quais as filhas bem orientadas de Naufelam – mas dobrá-lo!

- Pensem nisso, senhores, pensem nisso!

A Cidade Branca se tornaria um mercado sequioso por artigos de luxo com os quais a maioria de seus habitantes jamais pudera sonhar.

- Façam estoques de sedas e veludos, senhores, de joias e perfumes, vinhos finos e iguarias exóticas ... E quero depois meu quinhão, por conta da consultoria que lhes ofereço agora.

- Não se riam, falo sério!

Um folgazão, sem dúvida, riam-se das primeiras vezes ... Mas, entre o excelente fumo vindo de uns ermos chamados de Condado e o degustar de sabores não menos exóticos que experimentavam na morada de tantos prazeres, as ideias lhes eram marteladas sutil e constantemente.

- Acham que isto é contar com o ovo ainda na galinha, senhores? Mas se não deixam de ter suas poedeiras em casa, exatamente na expectativa de um desjejum sempre farto ...

- Digo mais, os sulistas virão ainda com mais ouro e mais necessidade que da primeira vez ... Cavalos, entre eles, só os havia os que sobraram das batalhas ... grãos, vinho ... há memória de ter havido uma estrada entre Gondor e o Harad, que conduzia nossas mercadorias e exércitos para o Sul.

- Se tem tanto ouro, que mal há em majorarmos as vendas feitas a eles? Afinal, nesse caso, estaremos provendo o inimigo com nossas mercadorias.

- E nesse caso, então, será que, de qualquer forma, devemos negociar com eles?

Risos eram despertados quando algum filho mais jovem a acompanhar o pai propunha um dado tipo de questão.

- Nesse caso, jovem mestre, suponho mesmo que não deve o senhor fazê-lo.

- Ora bem! – ria-se mais ainda o pai do ingênuo – Assim sobraria mais negócio para cada um dos senhores, hein?!

- Não sei se deveria manter esse trecho, Legolas, conduz a eventos que extrapolam a finalidade de nossa investigação – ponderava Haldir – Trarão mais desencanto ao Rei ...

- Extrapolam a mera elucidação da morte da moça, concordo, mas trazem a baila situações de que ele precisa tomar conhecimento da mesma forma. Apadrinhada pelo pai da moça, como querem fazer crer muitos dos envolvidos que aqui testemunharam, ou não, uma praga de especulação alastrou-se pela Cidade Branca, e agora que a expectativa em que se amparava ruiu, com o retorno das esposas para junto de seus maridos e o aparente desinteresse dos haradrim pelas mercadorias que os comerciantes de Minas Tirith têm para lhes oferecer, nós estamos a descobrir que uma pirâmide de empréstimos se constituiu a contar com fatos que não se efetivaram, e não se sabe quantos vão despencar junto com ela.

Haldir escutava atentamente as considerações de Legolas.

Queria encontrar-lhes uma falha.

Do momento em que encontraram Naufelam morto, montara base no escritório do de cujus, esperando dar cabo o quanto antes da análise dos documentos por ele deixados, da oitiva de seus conhecidos e dos soldados que haviam já atuado no caso.

Aquilo que deveria ter-lhe tomado não mais que alguns dias contudo, já lhe roubara semanas.

Semanas de tormento, culpa e saudade.

Ela poderia ter vindo ...

Mas não viera, a orgulhosa princesa de Harad que reinava em seu coração.

Sentia-a, um pássaro livre e poderoso, ciente de seu poder e sua força, explorando a vastidão dos céus, experimentando a própria glória.

Descortinava agora um pouco, uma certa noção da inadequação da existência limitada que oferecia à esposa. Pois ele mesmo não era de forma alguma indiferente à sedução dos desafios, à sede de grandes feitos, ao reconhecimento dos seus méritos.

Entre os seus, mais que uma princesa, ela era uma heroína.

Em Lórien, apenas sua esposa ...

E ainda assim, conduzi-la de volta ao seu ninho, era algo que ele precisava fazer. Assegurar-se ...

E o tempo que gastava naquela atividade era tempo de trazê-la de volta para si que perdia ...

Contudo, o que fazia ali, o fazia por ela também ...

A proclamada honra dos haradrim na qual não acreditara ... precisava ele prová-la agora, irrefutavelmente ...

Precisava penitenciar-se, redimir-se. Esfregar na própria cara as verdades que não quisera enxergar. Mirar em cada expressão de preconceito, em cada condução maliciosa de interpretação dos fatos, o seu próprio reflexo, vergonhoso e desprezível, incompreensivo e mesquinho, como deveria ter parecido à sua Cabelos Negros...

Cego à verdade, surdo à razão.

Simplesmente não podia surgir na frente dela como se ainda ignorasse os próprios erros, como se fora um obtuso, não a enganaria, nem à própria consciência, pretendendo que nada acontecera.

Nem poderia chegar-lhe mendigando perdão, como se não tivesse obrigação e capacidade de ofertar-lhe mais...

Ou orgulho que o impedisse de assumir essa posição.

Inclusive porque duvidava que a senhora Darai fosse pródiga em misericórdia.

Não! Dos erros dos quais não podia se eximir, tinha de fazer brotar um acerto que os compensasse.

Tinha de respaldar uma nova postura do Estado de Gondor para com o Estado de Harad. Uma postura de respeito e diplomacia, que certamente encontraria objeção interna.

Se uma parte de tais objeções podia ser creditada ao preconceito e às dissensões fomentadas entre os homens pelo Mal, outra parte, muito objetiva, e não menos nociva, o interesse financeiro de especuladores e comerciantes, estava vindo à tona naquela investigação.

Portanto, levá-la às últimas consequências, embora pudesse ser contrário aos seus desejos imediatos, ia ao encontro de um interesse importante demais para sua amada. O interesse de Harad.

Alcançando a esse objetivo sim, estaria em condições de procurá-la, não como um suplicante, não como um tolo, mas como um marido digno dela, a mostrar-lhe "Olha o que lhe trouxe em desagravo: a paz e o respeito ao seu povo".

Sim, era esse o presente, o dote – como ela diria – que Cabelos Negros merecia.

E que ele, só ele, poderia lhe dar.

A senhora das estrelas que a verdade iluminava houvera por bem agraciar o devoto elfo, inclusive, com a prova testemunhal e definitiva de criadas que confirmaram que a briga da jovem Alëna fora com o próprio pai, que a tentara deter de ir ao encontro do marido que a chamava do lado de fora – e que se haviam omitido frente ao tenente de Minas Tirith em virtude de ameaças do patrão.

Eram duas jovens simplórias e de história semelhante: abandonadas nas províncias por namorados que vieram tentar a sorte na grande cidade, descobriram-se grávidas. Fugiram ou foram expulsas de suas vilas e famílias. Uma senhora as acolhera e agora cuidava das crianças, mas exigia paga, e as encaminhara a Minas Tirith, aos cuidados do senhor Naufelam.

Haviam-se achado tão espertas, tão orgulhosas: iriam trabalhar na Capital!

Apresentaram-se humildes e cheias de disposição na bela casa, diligentes em botar tudo brilhando e meticulosamente arrumado, em bem servir os convidados nas pequenas e requintadas recepções do Patrão.

Mas o dono daquela casa tinha idiossincrasias inesperadas à respeito dos limites até onde ir para mostrar-se atencioso ...

- Que mal fará, minha pequena, deixar que um pobre velho tome de algumas liberdades consigo? Meu amigo pode lhe ajudar tanto ...

Ganharam moedas de ouro das primeiras vezes.

Nunca nenhuma delas havia tido, ou sequer visto, tanto dinheiro em suas mãos de uma só vez.

Contudo, de alguma maneira ... era muito menos do que aquilo que lhes tomavam.

- De qualquer forma, senhor, a generosidade dos frequentadores da casa para conosco foi diminuindo – relatou uma das moças com olhos baixos, aos quais toda a esperança parecia haver abandonado há um tempo que não condizia com sua pouca idade. – Mas, senhor, a verdade é que àquela altura não conseguiríamos paga melhor por aquele tipo de serviço nas outras casas clandestinas da cidade, e, à mulher que já se prestou a esse tipo serviço uma vez, não é oferecido nenhum outro.

- Quando a notícia de que as filhas afinal estavam retornando chegou aos ouvidos do patrão, contudo, uma mudança se operou na casa ... voltamos a vestir nossos uniformes de criadas e, mesmo passando vários meses sem receber paga em espécie, ainda assim nos pareceu muito melhor do que a situação em que estávamos antes ...

- A senhora Lëana e a pobre senhora Alëna eram adoráveis.

- Eram verdadeiras damas, nem sonhavam com o que acontecia aqui, e nunca lhes revelamos.

- Nó máximo, vieram a saber que nossos filhos tinham ficado no campo, e disseram que falariam com o senhor Naufellam, para que nos deixasse trazê-los.

- Rogamos-lhes que não, que as crianças estavam bem na província e que não queríamos apoquentar o patrão com isso ... Para que haveríamos de querer nossos filhos junto a nós, na verdade, para que a pecha que nos recobria recaísse de uma vez sobre eles também?

- Os filhos da senhora Lëana eram dois menininhos alegres e travessos, nos aprouve cuidar deles o quanto pudemos.

- Mas a senhora Lëana fez bem em partir logo com os dois, antes que o senhor Naufelan lograsse convencê-la de vez de que deveria ficar, não importando de qual maneira tivesse de lançar mão para o conseguir ...

- Restou apenas a senhora Alëna e, na verdade, ela parecia tão bem, tão feliz junto ao pai, que tanto ele quanto nós supunhamos sim que fosse ficar.

- Mas quando o patrão lhe perguntou como deveria proceder para receber o dote por sua devolução, a filha lhe disse que ele havia perdido o juízo, houve grande discussão.

- O senhor Naufelam passou mal.

- Ou fingiu que passou mal. Ele sempre acabava por passar mal quando algo não era do seu agrado. Aquele maldito saco de banha velho, seboso e mole!

- Pare! – gritou a outra, antes que as confissões indignadas de sua colega de infortúnio as denegrissem ainda mais aos olhos já atônitos dos representantes do Rei.

Eram criaturas boas, aqueles três seres de outras raças. Não as haviam acusado, não as haviam olhado com desprezo, não haviam tentado insinuar-se ou impor-se a elas e, sobretudo, não as haviam interrompido a partir do momento que seu relato fluíra.

Não esperavam mais ser tratadas com um tal respeito por ninguém. Não acreditavam merecê-lo ... Não havia como alegar terem sido forçadas, terem sido de alguma forma iludidas ...

- Perdoem-me, senhores, perdoem-me – buscava recobrar a compostura, o rosto agora coberto com as mãos, a moça que começara subitamente a extravasar o seu asco – Não sabem o que passamos aqui ... Não podem saber ... Vê-se ao olhar para os senhores que não são como ... como aqueles que cá vinham.

Seria fácil supor que a comparação favorável da jovem fosse motivada sobretudo pelo príncipe verde, cuja figura emanava compaixão e empatia, mas mesmo o frio capitão dos galadhrim trazia nesse instante uma expressão piedosa no rosto, enquanto o rude anão estava quase a perfurar os próprios olhos, tal a quantidade de ciscos que neles se alojara.

- Acho que as filhas do seu falecido patrão estavam certas – Acudiu por fim o jovem príncipe, ante o silencio de constrangimento que tomara conta do recinto. – Acho que deveriam buscar seus filhos ... e procurar os homens de Harad.

- Chegaram a sugerir-nos isso, moço, mas é que...

- Não queremos mais homens...

- Um homem ... é sempre igual a outro ... e ... desiludimo-nos deles.

- Tolices! – recuperara-se Gimli – São muito jovens ainda para desilusões tão duradouras, afora que seus filhos precisam de pais.

As jovens entreolharam-se, incapazes de oferecer óbice a um raciocínio tão direto.

Haldir sorriu intimamente, lembrando-se do próprio filho, e admitindo para si mesmo que gostava daquele anão grosseiro, mas com quem sempre se podia contar.


NOTA POP DA AUTORA: A música tema de Naufellam e deste capítulo é THE TURN OF A FRIENDLY CARD, do ALLAN PARSONS PROJECT.