Cap 35 - CORDÕES
Daror recebeu Faramir no acampamento com alegria, logo insistindo para que este provasse do vinho com canela, e mandando chamar Míriel para que o servisse e assessorasse.
Míriel adornou-se como pôde, dando de mamar a Naor, para acorrer com brevidade ao chamado de seu homem. Mal via a Daror, atarefada com o filho há quase um mês, enquanto o marido se pusera a dormir na tenda das crianças, pois que o azáfama das mulheres em sua própria tenda seguia os horários irregulares do bebê, e Daror supunha que sua presença só iria aumentar a confusão.
O fato, contudo, é que a distância que acometia os esposos não era apenas física, era emocional. Daror preferia informar-se das necessidades de mãe e do bebê pela sogra, bem como Míriel percebera que só visitava a criança quando ela mesma se recolhia para repousar. Mas não conseguia confrontá-lo como deveria com todo aquele mulherio à volta.
Portanto foi com o coração cheio de esperança que, mal entregou o filho aos cuidados da avó, cumprimentou ao Capitão Faramir, dando de seu melhor para acomodar o visitante ilustre e querido, servir-lhes do vinho aquecido nas ricas taças de ouro adornadas de rubis da Primeira Casa e acomodar-se num dos joelhos de Daror, conforme o costume de Harad, traduzindo-lhe mais que o conteúdo do convite do Rei Elessar, a formalidade e respeito do qual se revestia.
Apenas depois de fazê-lo Míriel deu-se conta da enormidade do erro que cometera.
Todo seu sacrifício, todo seu tormento, tudo que sofrera em consequência dos ardis da cunhada, nada daquilo teria um sentido se Daror tomasse conhecimento do que acontecera em toda sua extensão ...
A morte de Alëna, se convertera para todos do acampamento num acidente infeliz, a prisão de Cassor, um mal-entendido de menos de dois dias, mas sua própria detenção era um segredo que não só revelaria a Daror um acinte a todo o Harad, como também a posição tomada pelo Rei de Gondor imediatamente após os acontecimentos.
Os haradrim eram orgulhosos, cultivavam a violência e a vingança, e nem mesmo a curiosidade e a satisfação vaidosas que faziam os olhos de Daror brilhar naquele instante seriam capazes de apagar as chamas do ódio que a esposa tinha plena consciência que o inflamaria no momento em que descobrisse toda a verdade sobre os acontecimentos em torno dos quais a senhora Darai tecera um manto de névoa.
- Oh, caro Faramir, é certo que se trata de um convite real, pelo qual Daror agradece muito, mas, de fato, com um neném pequeno, não podemos deixar o acampamento por tanto tempo, pois o estou aleitando em meu seio ...
- É fato – concordou Daror com o que compreendeu na fala da mulher. A prioridade de ambos era Naor agora, a teta não se poderia afastar de sua boca, e Daror não se apresentaria em uma Casa de tal realeza sem portar também sua própria Rainha.
Ao perceber que a solenidade com que Daror pronunciava sua sentença não escondia a decepção de menino que percebe que não vai poder comer do doce, contudo, sua sogra, com toda a dignidade possível para uma senhora que sabe que as vestes ostentam bravas golfadas do neto, houve por bem fazer um aparte – sem a menor intenção de intrometer-se – levando em conta que o próprio Senhor Daror sempre lhe dava liberdade para falar, e até lhe buscava as opiniões.
- Desculpem-me, senhores, mas creio que, se eu acompanhá-los, há plena condição de, chegando a Minas Tirith, estabelecermo-nos em minha residência, para que todos se recomponham da jornada, e onde o bebê pode ficar com a maior tranquilidade longe da mãe, ainda que por algumas poucas horas, sob meus cuidados, enquanto minha filha acompanha seu esposo ao palácio.
- Mas é isto mesmo! – exclamou Daror, encantado com o que entendera da solução descortinada na linguagem pomposa da sogra – Esta minha sogra é de truz, não é, Faramir? Sabes que Míriel lhe recuperou a casa, que ia ser vendida, meramente com um dos colares com que a adornei, hein?
Daror verdadeiramente desembestara. Nem Faramir, nem Míriel conseguiam acompanhar a narrativa bilíngue em que ora se gabava de algum feito, ora maldizia o frio do acampamento, ora já traçava os preparativos necessários para o alojarem-se na casa da sogra – ao que esta última esclareceu-lhes que a mesma encontrava-se pronta para receber não só o menino e seus pais, como ainda um contingente de seus homens, se Daror assim o desejasse.
Não havia nada que Míriel pudesse fazer para evitá-lo, a ida de Daror a Minas Tirith e seu encontro com o Rei Elessar já eram praticamente fatos consumados.
...
Míriel andava de um lado a outro da tenda, tentando acalmar o filho, como várias das mulheres, inclusive a senhora Morwen, já haviam feito, inutilmente.
- Daror mandou-me saber que tem o menino, que não pára de berrar – Darai anunciou sua chegada aos aposentos da cunhada.
- Daror mandou-a saber? E por que não veio Daror mesmo perguntar? – retrucou Míriel ante a arrogância petulante daquela mulher que se julgava acima das demais – Não preciso de ninguém, especialmente você, transmitindo recados meus a Daror. Se Daror quer saber o que há de errado com sua mulher ou com o filho, que venha ele mesmo falar comigo!
- Para quê, cunhada? – riu-se Darai – Para ver que seu leite secou? Para certificar-se de que o dote que pagou em você foi trabalho nas Minas mal recompensado?
Se não estivesse com um bebê nos braços, Míriel teria voado em cima da cunhada, cujos decantados dotes de guerreira certamente seriam de pouca valia frente à ira que lhe despertara.
- Sua cascavel! Saia já daqui, vá espalhar sua peçonha em outro lugar!
- Desde quando aconteceu? Há quanto tempo Naor não se alimenta?
- Fora! – berrou Míriel, as mulheres à volta paralisadas de horror ante a confrontação das duas mulheres que exerciam a liderança do acampamento. Amavam Míriel, mas temiam a irmã de Daror, a maior das filhas de Harad.
– Fora! Fora! Fora! – até o bebê se calara.
- Se não fizer ainda três dias, posso fazer seu leite retornar – Darai impassível, se alguma vez tivera medo de cara feia, fora há muito, muito tempo atrás.
Míriel franzira a testa ao ouvir a declaração da cunhada, o ódio e o instinto materno engalfinhando-se dentro de si.
- Por certo não ignora que a vida do filho de Daror está em jogo aqui. Bebês não sobrevivem tomando leite de vaca, por aqui não vi cabra alguma, e não há mulher aleitando no acampamento: que vai fazer minha pálida cunhada, procurar contra o tempo por uma ama de leite em sua Cidade Branca?
Míriel ofegava de raiva, mas, como sempre, o golpe da irmã de Daror era tão certeiro quanto inclemente.
Darai pegou o bebê nos braços e colocou de seu dedo mínimo junto à boquinha que prontamente começou a sugá-lo.
Dirigindo-se a uma das mulheres, ordenou que diluísse uma quantidade ínfima de mel na água do chá, mergulhando o dedo mínimo na mistura amornada e assim, às gotas, o oferecesse ao menino – ao menos para lhe aplacar a sede.
E que assim procedessem em outro local, retirando-se com ele – se o choro do filho não trouxera o seu alimento aos seios da mãe durante todo aquele tempo, só iria pô-la mais nervosa ainda.
Precisava trazer a razão e o leite de volta a Míriel: em toda Terra Média que viera a conhecer, apenas um descendente de Harad tivera uma ama de leite tal qual a senhora Galadriel.
- O que a está afligindo, mulher de meu irmão? – perguntou por fim, fazendo com que Míriel tomasse assento numa cadeira de espaldar baixo, logo fazendo o mesmo.
- O que me está afligindo, sua cobra, além do fato de que Daror mal olha para mim, é a iminência de ver esse sacrifício todo por terra, quando meu marido souber da verdade sobre a morte de Alëna, a prisão de Cassor e, principalmente, sobre a minha detenção em Minas Tirith, ordenada pelo Rei, e pela boca do Próprio.
- Uma sequência de fatos um tanto o quanto complexa para o parco conhecimento da linguagem utilizada na corte que meu irmão possui.
- Daror certamente conhece palavras como prisão, prisioneiro, crime e assassinato.
- Daror aprendeu a língua comum com piratas de Umbar feitos prisioneiros, é bem provável que conheça mais palavras de baixo calão que o próprio rei, mas no tom solene e em meio às frases certamente cheias de cerimônia em que possa vir a ouvi-las da boca do Rei Elessar, terão para ele o significado que você lhes atribuir, cunhada.
- Daror não é tolo, nem tampouco eu o deixaria passar como se fosse frente à Corte de Gondor, que certamente saberá que estarei faltando com a verdade a ele se não reagir com surpresa e ira a tais revelações.
- Daror de fato não é tolo, cunhada. Em verdade, possui uma das características mais inteligentes que um governante pode ter: Daror não se interessa em saber do que não lhe interessa saber.
Sua esposa se foi, e eu disse a ele que declarara que não voltaria, mas você voltou; Daror se interessa em saber por que fez uma coisa ou outra? Não! Daror só se interessa que está aqui, é bastante e suficiente.
Quanto à surpresa irada que deveria aparentar frente às gentes de Gondor, por que deveria surpreender-se com o que já sabe? Ou minha cunhada acha que o Rei de Gondor tem uma noção exata sobre a extensão do conhecimento de Daror no tocante a tais acontecimentos? Da mesma forma como as palavras do Rei de Gondor para Daror serão as palavras que Míriel disser que são, as palavras de meu irmão para aquele serão as que saírem da boca de Míriel.
Do fundo de todo seu rancor para com a cunhada, a antiga dama de Minas Tirith não pôde deixar de prestar-lhe a devida atenção, de admirar sua argúcia.
- Raciocina. Antecipa-te. Imagina o que pode dizer o Rei a Daror, o que pode responder este, o que os demais presentes possam comentar ... Prepara as palavras de um Rei que humildemente lamenta pelo frio do inverno e dos corações da Cidade Branca que aprisionaram a acolhida que Gondor gostaria de ter ofertado aos haradrim desde sua chegada, que se desculpa pelos mal entendidos que levaram um príncipe à prisão como mero arruaceiro, do crime que seria o desentendimento entre o Sul e o Norte devido a tais contratempos.
Constrói então a resposta magnânima de Daror de que, por Harad, tais fatos já são passado a ser esquecido. Faz isso, e garanto-te que o assunto estará encerrado antes que a refeição comece.
Míriel respirou fundo.
- Da última vez em que me deixei guiar por sua ideias, vi-me detida e repudiada.
- Incorreto. Da última vez em que se deixou guiar por mim, deu a luz a um menino que encheu de contentamento a Daror.
- Um contentamento que não se estendeu à minha pessoa.
- Por Harad, cunhada, só tu não vês que Daror ronda ao redor de tua pessoa todos os dias. Tudo que Daror espera, é que parta de sua mulher a iniciativa de reconciliar-se com ele, de seduzi-lo.
- Não tenho como seduzi-lo, estou de resguardo, R-E-S-G-U-A-R-DO!
- Tua boca está de resguardo por acaso? Tuas mãos? Para que não te possas dirigir ao teu homem docemente, fazer-lhe um carinho? Daror é o tipo de homem que uma mulher hábil satisfaz fácil e rapidamente, merda!
Míriel franziu o cenho ainda mais: sua cunhada a lhe dar lições de como prender o marido; onde estava o marido dela?
- E não franze a testa que a mesma fica marcada, pele branca.
Míriel certamente ainda estava com raiva, mas suas preocupações haviam sido de fato bastante amenizadas pela estratégia traçada pela irmã de Daror, bem como pela surpreendente confiança que esta demonstrava na capacidade de Míriel em executá-la.
A esposa de Daror tinha de admitir que, apesar da amoralidade, da falta de ética de seus procedimentos, até mesmo do mal causado por suas ações, sua cunhada obrava por Harad, e obtivera êxito até então.
Cassor condenado ou preso por um longo tempo: guerra.
O conhecimento de que estava ou estivera detida por determinação do Trono de Gondor: guerra.
Pelo fio daquela navalha, entretanto, a senhora Darai conduzira a todos com os pés descalços: desconhecedores do abismo que atravessavam, nenhum se desequilibrara.
A ponte estava praticamente transposta, cabia a ela, Míriel, apenas guiar Daror no último passo daquela jornada.
Se não o conseguisse, não faria juz ao título de Mãe do Harad: não teria a habilidade de proteger o seu povo.
Enquanto Míriel refletia sobre seu papel, Darai derramava numa pequena bacia o conteúdo de uma chaleira que pusera a ferver.
- Não adianta me vir com nenhum chá, já tentei de tudo, e não conseguirei beber mais nada.
- Não é para beber, é para inalar – e Darai colocou o banco em que estivera sentada junto à mesa na qual estava a bacia, chamando Míriel a tomar assento, posicionando-lhe o rosto junto ao líquido fumegante, e cobrindo o espaço entre estes com um pano, para que os vapores mais se concentrassem.
Na penumbra sob o pano, ainda assim Míriel enxergava um elemento à flutuar em meio à água.
Parecia-lhe uma cobra diminuta, sem rabo ou cabeça, e enojar-se-ia, caso não fosse já e de fato uma mulher de Harad, tendo matado ela mesma várias cobras a pauladas.
- Respira fundo, cunhada.
Míriel não gostava do tom em que a senhora Darai se lhe dirigia, mas algo em seu instinto, em sua preocupação de mãe pelo filho, a fazia querer que fosse qual fosse o caiporismo, tradição ou sabedoria de Harad do qual a cunhada estava tentando se valer, funcionasse.
Tudo que estava conseguindo, contudo, era deixá-la com calor.
Seu rosto suava, assim como seu colo.
Filetes de suor, sentia-os escorrerem do couro cabeludo para a nuca e as costas.
Até os seios, pareciam quentes, e de repente começaram a pingar.
- Meu leite voltou – apalpava-se Míriel por dentro da blusa, certificando-se de que intumesciam já, e decerto logo poderiam aplacar a fome de Naor.
- Que infusão é essa? – perguntou após inalar profundamente uma última vez e descobrir a cabeça.
- Olha bem, cunhada, que lhe parece? – perguntou Darai.
- Parece uma ... tripa de algum animal.
- Não deixa de ser, é o cordão umbilical de teu filho, que cortei quando nasceu. Deixei-o secar dependurado em minha tenda, contém os eflúvios do parto e do recém-nascido, e os animais reconhecem seus filhotes pelo olfato. Digamos que teu nariz foi avisado das necessidades de teu filho, já que tua cabeça não conseguia se dar conta disso, presa de outras preocupações.
Míriel volvia os olhos do repugnante aferventado para sua cunhada insuportável.
- Manda trazer meu filho.
