Cap 36 – Encantos e adornos

Daror adentrou a tenda da irmã, para tentar uma última vez convencê-la de acompanhá-los à Cidade Branca. Darai era sagaz e articulada, conhecedora dos costumes do Norte e bem falante de sua língua, poderia ser de grande valia a Harad no desenrolar das tratativas com Gondor.

- E tu tens aquela mulher branca para quê? – questionara com desdém.

Daror ainda não perdoara inteiramente à Míriel – nem sabia direito do quê – mas bem podia escutar o chocalho de cobra da irmã em sua rusga.

- Para que me serve ela sei eu. E tu, peçonhenta, que utilidade me tens se com a aliança em que te entreguei não posso contar, hein?!

Rá! Quem era Darai para falar de sua Míriel? Ou a soberba Darai supunha que não era percebido e comentado pelas gentes que o marido dela não mais comparecera ao acampamento?

- Se não te procura é porque não te quer. Viu além de teus encantos poucos e enxergou toda tua peçonha, mulher infeliz, e teu feitiço não mais o prende: abandonou-te sem nem sequer dar-se ao trabalho de repudiar-te. – Acercou-se Daror, satisfeito de atingir Darai em seu orgulho, pois que a irmã certamente o merecia, experimentar um pouco do veneno que carregava consigo.

Era inegável, Haldir não a procurara.

Já podia tê-lo feito.

Já devia tê-lo feito.

Da chacota de Terair, defendia-se no treino de espadas (e o velho bem gostaria de ver aquela aliança alienígena desfeita, para dar lugar a outra, bem mais de acordo com a tradição), e ninguém mais tivera coragem de comentá-lo em sua cara, mas as palavras humilhantes de Daror confrontavam-na com uma verdade para a qual não tinha resposta ... Talvez porque Daror tivesse aprendido com ela mesma, a desferir golpe fundo e certeiro quando o objetivo era machucar.

Contudo, em meio a tantas semelhanças entre os irmãos, Daror e Darai eram fundamentalmente diferentes, e Daror compadeceu-se do ar atônito que Darai ofereceu aos seus comentários, antes de baixar a cabeça.

Somando tudo, o desespero dela anos antes para voltar àquele marido, a existência de filhos – um dos quais, Daror sabia, afeto de um amor e cuidado especial dos pais – o comportamento atormentado do elfo em seu acampamento naquela ocasião quando a reclamara, a encruzilhada da irmã talvez fosse bem maior do que parecia.

A ponto de calá-la, perdida, quase esmagada ao peso de sua desdita.

- Pode ser um forte guerreiro, mas é um fraco homem, irmã – Abraçou-a Daror, recostando-lhe a cabeça em seu peito – não estava preparado para enfrentar teus espinhos, rosa de meu povo, cobiçou mais do que aquilo com que podia lidar quando cobiçou uma mulher de Harad.

A sempre forte Darai ... era humana, era uma mulher, e não tinha necessidades diferentes de qualquer outra ... precisava ser querida, precisava ser reassegurada.

- Sim, não passa de um fraco, filha de meu pai – acrescentava – um fraco e um tolo.

Como quando eram crianças ele a suspendera do chão em seu colo, acariciando-lhe os cabelos, enquanto ela dependurara-se no pescoço dele, as pernas à volta de seu corpo, a cabeça enterrada no ombro do irmão.

- De verdade? – voltou-se para ele ... voz magoada, olhos marejados ...

Mais que um tolo, pensou Daror, um louco, um homem insano, teria de ser, para cogitar, por um momento que fosse, em não mais tocar aqueles lábios trêmulos, mirar aqueles olhos, sentir o calor e as formas daquele corpo feminino em seus braços, aspirar-lhe a fragrância de flor selvagem ...

Insano... Louco... Tolo... repetia Daror mentalmente, hipnotizado por aquelas lagoas negras, nascidas para afogar os homens.

- Sua serpente maldita! – Daror jogou-a longe – Vou chicoteá-la até acabar com sua pele! Vou castigá-la como jamais foi castigada antes!

Darai rolava de rir sobre as tapeçarias e almofadas.

- E então, finalmente, me fará gemer sob o teu poder, não é maninho? – Respondeu, lhe lançando seu olhar morno.

Daror virou-se e marchou para fora da tenda com a ira transtornada de quem precisa destruir alguma coisa ou matar alguém.

Rá! Achava que podia com ela?

Não podia não!

Darai prestara e prestava muito serviço a Harad.

Que Daror corresse para os braços seguros de sua esposa pálida, estava na vez do serviço dela agora.

Bastava que parasse de choramingar e queixar-se, espreguiçou-se Darai, lânguida, sentindo a energia de seu poder lhe percorrer o corpo, cada vez mais densa, seu prazer de ser mulher, sua dor e sua delícia...

Ah, e a cunhada a lamuriar-se ... estúpida ... que não faria ela, Darai, a Haldir, se fosse um homem tão simples quanto Daror ... ai, ai ...

Bem ... Assim que chutasse alguns traseiros, Daror iria voltar-se para sua mulherzinha, a qual deveria agradecer-lhe pelo favor, levantou-se Darai. Quanto a si mesma, seus encantos poucos pelo visto ainda davam para o gasto.

E Darai voltou-se para mais um dia em que não desejava pensar no assunto.


Míriel mirou-se no espelho uma última vez, avaliando se os brincos estavam suficientemente suntuosos. À volta do pescoço, três colares sobrepostos: pérolas, prata e ouro com rubi.

- Minha filha, que exagero é esse?

Míriel não perderia seu tempo em explicar à mãe os costumes de Harad. Já sabia que o humor de Daror estava irascível – talvez ansioso com a perspectiva de ver-se em meio à corte de Gondor – e não queria correr o risco de desagradar ao seu homem.

Teriam de se fazer novamente próximos em Minas Tirith, era aquilo com que ela contava, acrescentando mais ouro à sua indumentária antes de dirigir-se ao coche.

Após despedir-se das outras crianças, Míriel subiu no veículo, estendendo os braços para a mãe e tomando-lhe o bebê, enquanto a senhora Morwen se acomodava.

Míriel ofereceu o seio a Naor, desejosa de que se alimentasse antes do balanço da viagem adormecê-lo.

Daror e Terair pareciam por fim haver terminado de distribuir safanões e altercar entre si, finalmente satisfeitos com a disposição da guarnição que os acompanharia: trinta homens altos e fortes seriam o suficiente para impressionar o povo nas ruas, e não mais do que aquilo que a residência da senhora Morwen acomodaria com conforto.

Daror marcharia ao lado delas, conduzindo seu garanhão pela rédea, pois de nada adiantaria forçar seus soldados à velocidade de um trote. Seria um deslocamento demorado, todos sabiam disso ao partir.

Naor também parecia sabê-lo, fartando-se com voracidade, agarrado aos colares da mãe.

- Olha, Terair – chamou Daror – vê como mama este bezerro. Diga-me agora, velho falastrão, que minha mulher não vale o dote que nela entreguei!

Míriel maravilhou-se com o elogio, estufando ainda mais os seios, mostrando o quanto possuíam de força e saúde para alimentar os filhos de Daror.

- Mas nem ... – riu-se o velho – não é que essa sua mulher tem alguma serventia mesmo, hehehehhe – acedeu por fim, analisando de perto a cena, enquanto a senhora Morwen desviava o olhar daquela exibição vexatória de uma mulher amamentando em público ... aquele não era o comportamento de uma dama.

- O que tu não podes, Daror – acrescentou Terair – é chegar à cidade do rei do Norte com uma mulher despossuída como essa a acompanhá-lo – disse apontando a mãe de Míriel – Toda coberta de preto feito uma ave agourenta, sem uma peça de ouro às vistas, como se sua Casa fosse fraca e pobre.

Míriel, que encontrara nos comentários de Terair sobre sua serventia o primeiro gesto de capitulação à sua pessoa que o venerável mestre de Harad jamais lhe dirigira, e a quem a atenção contentada de Daror enchera de alegre esperança, horrorizou-se ante a perspectiva, agora levantada, de que a indumentária de viúva da mãe, desprovida de ornamentos, pudesse vir a constituir o marido em desonra.

Como não atentara para isso? – questionou-se, já fazendo menção de passar um de seus colares à mãe.

Não foi preciso, de dentro da camisa de Terair surgiu um imenso medalhão de ouro, o qual ostentava em seu centro o maior rubi que jamais se havia visto.

- Abaixa, mulher – ordenou Terair na língua comum à senhora Morwen, mas foi preciso que Míriel a instasse com seus gestos para que a mãe compreende-se que aquela criatura torpe estava ousando se dirigir a ela, bem como para fazer com que a mãe reclinasse seu corpo para frente no coche, esticando o pescoço para permitir que aquele ... senhor prendesse aquela peça de extremo mau gosto em sua nuca – cuja pele arrepiou-se ao sentir o contato dos dedos grossos, enojada do calor da peça, indicativo de que até então estivera em contato com o corpo daquele sujeito impertinente.

Mas após a senhora Morwen permitir a colocação do colar, impassível e sem uma palavra de agradecimento, Míriel procurou pela aprovação de Daror, encontrando-a na inesperada forma de um sorriso maroto e de uma deliciosa piscadela.

Para que se por em dissonância com sua florzinha afinal? Daror não sabia que toda rosa tem espinhos?

E assim foi que, por fim, as gentes de Minas Tirith viram adentrar sua cidade o Grande e Temível Daror, Rei de Harad, acompanhado de uma impressionante coorte de guerreiros de turbantes negros e enormes espadas de forma curva, detalhes de ouro por vezes rebrilhando nos homens, joias capazes de comprar toda a cidade adornando suas belas mulheres.

Se bem que, note-se, naquele fim de tarde a senhora Míriel ostentava um ornamento mais belo e significativo do que qualquer joia. O sorriso de uma mulher apaixonada por seu marido.