Cap 37 – POR ELE, POR ELA

Água canalizada, vias para escoamento dos detritos, casas de comércio, pátios com fontes, pavimentos de pedra lisa, janelas de madeira com dobradiças ... Muito havia a ganhar a admiração e o interesse de Daror desde o momento em que pisou na Cidade Branca, por vezes a mais simples das coisas, cuja existência e engenho intrínsecos jamais chamariam a atenção dos habitantes locais, a elas acostumados desde sempre.

Passara horas abrindo e fechando a torneira da pia das cozinhas da senhora Morwen, maravilhado, perguntando por fim como os mestres de Gondor produziam água através daqueles pequenos objetos, e se haveria daquelas maravilhas para vender na cidade, com o brilho nos olhos de quem por um momento se encontra em meio a uma miragem, um sonho de ver sua terra transbordando, livre das secas para sempre.

Daror decepcionou-se um pouco quando Míriel lhe explicou que a água não era produzida pelos homens, que estes apenas haviam-na conduzido de seus reservatórios naturais para as casas, mas logo riu de sua própria ignorância e ingenuidade ... imagina, supor que o homem poderia dar vida à água, rárárá, só ele mesmo ...

Míriel queria estar ao lado de Daror a cada vez que seu interesse se visse despertado, deliciar-se com seu encanto de menino a descobrir o mundo, redescobrir junto com ele esse mundo que para ela sempre fora tão comezinho, enxerga-lo pelos olhos dele ... Corria a entregar Naor a Naneth tão logo este acabasse de mamar – a ama contentada de tudo ao acalantar mais uma geração da família – e parece que o menino não fazia outra coisa, conjeturava frente ao espelho, terminando de arrumar-se.

Míriel admirava-se agora da providência da Deusa-mãe em acumular nela durante a gestação as reservas com que agora supria seu filho. Haviam-se transferido todas para ele em quê? Mês e meio?

Perdera as contas, mas vestidos que deixara na casa da mãe ao partir, anos atrás, eram o que, com os devidos ajustes no busto, vestia agora, ao correr pelos corredores e voar pelas escadas, cantando o nome de Daror nas batidas de seu coração. Haviam-se entendido na viagem do acampamento à Cidade Branca, dormira recostada em seu peito à noite (com algumas interrupções), e seu desejo era estar ao lado dele naquele primeiro dia em Minas Tirith para o qual acordara tão entusiasmado.

- Agora prove esta outra, senhor Daror, é de framboesas – ouviu Míriel a voz da mãe, antes de descortinar a cena de Daror sentado à cabeceira da grande mesa do salão de refeições de sua mãe, esta servindo-o à sua esquerda, Terair sentado à direita.

Era ela que queria estar apresentando ao guloso Daror os sabores de Minas Tirith, mas a senhora sua mãe, como sempre, imiscuíra-se entre os dois, paparicando o genro que, convenientemente, dera-se súbito conta ser tão rico e poderoso.

- Uhn! Bom ... azedo um pouco ... pequenas sementes...

Ao perceber a presença da filha, a senhora Morwen cumprimentou-a informando-lhe:

- O senhor Daror já comeu seis ovos, acompanhados de três pães, agora está provando os bolos e geleias – um misto de horror e admiração no rosto da numenoreana senhora, que não percebeu o bufar de indignação da filha, ocupando-se em passar uma nova geleia em novo pedaço de bolo.

Míriel nada respondeu, postando-se ao lado da mãe, era ELA que deveria estar ali, apresentando-o às novidades, lendo-lhe as impressões e preferências no rosto, encantando-se de seu encantar-se de menino com cada pequena surpresa.

A senhora Morwen lançou um olhar reprovador a Terair. Aquele sujeito deveria ceder o lugar para que a esposa se sentasse à direita do marido. Sequer o convidara para que ocupasse aquela mesa, os demais soldados do senhor Daror estavam comendo na cozinha.

Terair empurrou imperiosamente a própria xícara à senhora Morwen, fazendo um gesto em direção ao bule de chá, o que a dama fez questão de ignorar.

Harad, aqueles dois não se entendiam! Punham-se em atrito a todo momento, como se um pusesse o outro prestes a entrar em combustão!

Míriel acabou por encher a xícara do mestre de Harad. Era o que lhe faltava, que sua mãe afrontasse um tradicionalista como Terair!

Daror correu os dedos pelo braço flexionado no movimento de segurar o bule.

- Teus braços estão descobertos, florzinha, tinha-me esquecido do quanto eram belos, usarás este vestido quando formos aos reis do Norte?

A frase, pronunciada parte na língua comum, parte no idioma de Harad, fez com que Míriel esquecesse por um momento de sua implicância para com a mãe (de fato, esquecesse-se do mundo).

Mas à senhora Morwen, muito perturbou aquele gesto de intimidade, mesmo entre um homem e uma mulher casados ... à corte, iriam a corte, e deveriam se preocupar com isso, e ...

- Minha filha tem muitos vestidos guardados nesta casa que agora é sua, senhor Daror, todos adequados à corte, mas e o senhor, com que trajes se apresentará no Palácio Real?

Daror franziu o cenho tentando entender ... Trajes? O que eram trajes? Ante sua incompreensão, a sogra começou a tentar colocar-lhe a questão em outras palavras, ao mesmo tempo em que Míriel, algo desconcertada, também intervinha. Roupa para Daror ir ao palácio? Portando uma mulher bela e adornada, que diferença fazem os trajes com que um homem se apresenta?

- Vou com essa. – Respondeu Daror, cheirando a própria blusa – Ou não está bom? – questionou voltando-se para Míriel.

Areias do deserto! Sua mãe tinha razão!

Por melhor que Míriel fosse com as agulhas, a roupa de Daror era remendo sobre remendo, tudo puído e manchado.

Que iria fazer?

- Creio que, valendo-me de dois ou três camisões de dormir de meus falecidos filhos, possa fazer uma camisa de linho branco para o senhor, bem como acredito ter em casa tecido preto o suficiente para fazer-lhe uma nova calça, caso as criadas novas que contratei não se mostrem umas incompetentes completas.

Mas quem diria, não é que sua mãe também estava afeta a demonstrar que possuía méritos, prendas e utilidades?

Criadas recentemente contratadas logo foram postas num azáfama, sob a supervisão da senhora Morwen, descosendo com habilidade e delicadeza as camisas, dispondo de um belo tecido para os riscos e o corte, zelosas o suficiente para não descontentar a exigente senhora, e não menos rápidas: dispostas a voltar o mais brevemente possível às cozinhas, onde com disposição haradrim os homens de Daror estavam a valer-se de argumentos sem palavras, mas bem sonantes, para convencê-las a partir com eles para o Harad.


Sentado à escrivaninha de Naufelam, Haldir dava mais uma vez forma àquele processo, sempre um novo testemunho a relatar, uma nova prova a acrescentar ...

Apontar os indícios da culpa ou dolo de um pai morto tornara-se menos importante que provar sem sombra de dúvida a inocência de todo um povo e de um marido vivo.

Um viúvo, corrigiu-se Haldir, a palavra que encerrava seu destino soando-lhe na mente.

"Arwen, Arwen ... entendo agora sua escolha, amiga, mas ela não me foi dada" – refletia, quando de súbito suas orelhas estremeceram, atentas, e ele finalmente escutou, levantando-se silenciosamente, Gimli e Legolas no Palácio a aprontar-se para o banquete, como instaram-no a também fazer.

- Ainda não, ainda não terminei meu serviço – ele lhes respondera, e agora andava com cautela, os ouvidos atentos, até imobilizar-se a um canto.

O som de um movimento imperceptível até mesmo a ouvidos élficos – a não ser que se suspeitasse de sua possibilidade, se aguardasse aflito que não se confirmasse, mas dia após dia um pequeno ruído afastasse-o dessa esperança, afastasse-o de seus anseios, de seus desejos, de suas idealizações, aproximando-o inexoravelmente do confronto consigo mesmo.

"Foi ela, foi ela...", parecia sussurrar em seus ouvidos aquele barulho tão ínfimo.

"Mas se eu a amo tão desesperadamente", tentava responder àquele interlocutor maligno.

"Foi ela, foi ela ...", o outro apenas repetia.

"Se esconder isso dos outros ... jamais poderei escondê-lo de mim mesmo"

"Então ... deixe que descubram"

- Não – Haldir sacudira a cabeça.

- O que foi, Haldir? – perguntara Legolas, e Haldir estremecera.

- Eu ... nada ... estava devaneando ... buscando estabelecer onde termina o bem, onde começa o mal.

- No coração do homem?

- Como? - O coração do elfo da Floresta Dourada descompassado, imaginando até onde poderia ter ido a percepção do filho de Thranduil.

- É uma pergunta, se está tentando definir os limites entre o bem e o mal dentro do coração de nossos irmãos no Único?

- Ah ... Parece realmente ser o campo de muitas batalhas entre forças antagônicas. – analisou Haldir, recuperando-se com frieza.

- Isso não é privilégio dos homens – sorriu-lhe aquele elfo ainda tão jovem, fazendo com que Haldir alteasse uma das sobrancelhas, numa interrogação incomodada.

- Como é, Haldir?

- Como é o quê, Legolas?

- A paixão.

Haldir respirou fundo.

A paixão era um sentimento eminentemente adan, que um elfo jamais deveria experimentar.

- Tormentosa – respondeu por fim, desgostoso.

Mas Legolas continuou a encará-lo, até que o galadhrim sentiu marejarem-se os próprios olhos.

- É mais forte do que eu – respondera por fim, levantando-se, disposto com o príncipe a afastar-se da casa de Naufelam, antes que ouvidos que não os seus escutassem o que não deviam naquele dia tantos dias atrás.

Dias em que entediara aos amigos o suficiente para que o acusassem de obsessivo, mas se desviassem de qualquer suspeita inconveniente.

Dias em que o tormento de sua saudade por ela sobrepujara seu ódio, sua culpa e seu orgulho.

Sua dignidade.

Estivera em erro em toda a cadeia de acontecimentos anteriores.

Que um último erro a encerrasse agora.

Haldir aguardou imóvel durante um longo tempo, atento no corredor escuro, até rapidamente levantar um dos pés e esmagar sob a bota o escorpião que passava.

Haldir recolheu o bicho e jogou-o na lareira, observando até que se convertesse em cinzas, as quais desfez com o atiçador.

Agora seu serviço estava terminado.

Não havia escorpiões em Gondor.