Cap 38 – AS ESTRELAS E A NOITE
Haldir subia apressado os caminhos de Minas Tirith, mal respondendo aos formais cumprimentos que lhe eram dirigidos pela guarda em cada posto.
Que asnice fizemos – Era o que comentavam entre si os sentinelas – Ainda bem que a ira do capitão da aliança não se voltou contra nós. – A figura gélida e austera lhes causava arrepios apesar da beleza dos primogênitos que ostentava. Nunca mais faltariam ao respeito com a senhora dele, nem em pensamento.
Se bem que, em pensamento ...
Quanto a Haldir, entretanto, nem em pensamento lhe ocorria preocupar-se com o que pensava a guarda de Minas Tirith.
Apenas o pensamento de uma ocupava os seus, que a vislumbravam tomar conhecimento e compreensão do tanto que a amava, do tanto que fizera por ela ...
Uma estranha euforia começou a tomar conta dele, ao contrário da culpa e da vergonha que aguardara sentir após o ato que praticara. Haldir não mais se apressava, pôs-se de fato quase a correr, à medida em que via aproximar-se o sétimo nível da cidade, antecipando aquele reencontro tão ansiado quanto adiado.
Como se apresentaria Darai no banquete real? Como a condigna esposa de um capitão? Muito pouco provável, ele a conhecia, e nela amava tantas coisas que não queria admitir – viria no séquito do irmão, viria como a princesa de Harad, coberta de ouro e vermelho.
Mal coberta, corrigiu-se o elfo sem conseguir evitar sorrir ... Mas seria o braço dele que a escoltaria pelos salões do Rei Elessar, e em seu semblante ela e todos veriam que aquela adan era sua.
Apenas os sensos élficos de Haldir e Arwen evitaram o esbarrão iminente numa das curvas dos corredores.
Feliz e contentado o amigo lhe pareceu, como a esposa dele também lhe parecera uma vez no mesmo local, embora Arwen conjeturasse que isso talvez tivesse ocorrido há tempo demais.
- Haldir – sorriu ela – sumiu de minhas vistas durante semanas, exatamente como havia prometido não fazer.
Haldir inesperada e alegremente respondeu a admoestação tomando-lhe as mãos e beijando-a.
- Você é sábia, estrelinha, e uma grande amiga.
- Haldir – corou Arwen – porque está me dizendo isso?
- Por que o tempo de ver-me apartado daquela que amo não é mais nem ainda o agora – sorriu radiante o elfo, antes de oferecer-lhe uma mesura e retomar seu caminho.
Ele parecia tão feliz, como quem reencontra dentro de si mesmo algo que não julgara mais possuir.
Como que pacificado.
E Arwen hesitou antes de chamá-lo:
- Haldir?
- O quê? – voltou-se ele ao longe, tão parecido com o menino que um dia brincara com ela, correndo saltitante pelo Cerim Amroth.
- Sua esposa não estará entre os que vêm ao palácio esta noite.
Botas polidas, calças negras novas, uma bela blusa de linho branco rebordada a ouro com maestria pela senhora Morwen ...
Não que a realeza de Daror pudesse deixar de ser percebida nem mesmo quando este estava sem camisa, as calças sujas de esterco a arar a terra para alimentar seu povo ... Contudo, trajado com pompa para um certame entre reis, e ainda assim tão simples e natural, Daror se revelava aos olhos enlevados de Míriel e altivos da sogra como o monarca de fato que era.
- Mas nem. – resmungou Terair – Está faltando tradição!
- Tu é que és um velho estraga-prazeres! – respondeu Daror bem humorado – Que sabe o Norte de nossa tradição, para julgar se a carrego comigo ou não?
- Terair sabe e Terair julga – respondeu o mestre – Se tu nem a mulher que é tua se vestem de vermelho, ao menos usa o medalhão de teu avô – E com um gesto imperioso Terair ordenou à senhora Morwen que se aproximasse, desfazendo o nó com que atara o medalhão de Halor à sua nuca, e oferecendo-o a Daror.
O medalhão da Primeira Casa.
O medalhão do comandante dos exércitos de Harad, do Mestre de suas tradições.
Era mais antigo que as histórias que apenas davam conta de que, ainda que imensamente cobiçado, nunca logrou ser conquistado à Primeira Casa, ou portado por quem não fosse um mestre de tradições digno de possuí-lo.
O próprio Raor, após a morte do próprio pai, recusara-se a retê-lo, declarando que Terair era o grande portador das tradições de Harad de sua geração.
E atente-se para o fato de que Raor era ele mesmo mestre da espada e do embate.
Terair sorrira então, e declarara-se guardião da joia, mas tão somente enquanto não preparasse um novo e maior mestre de tradições.
Os ventos do deserto haviam levado todas as demais testemunhas desse juramento, menos aquele que o fizera.
Terair cumprira sua promessa, Harad tinha um novo Mestre.
E o Harad um líder mais inconteste, mais entronizado do que nunca.
- Ô Terair, estou com trinta anos, o Harad passou por toda sorte de agrura desde que meu Pai morreu, tu não podias ter me dado o medalhão de Or antes?
- Bah!
Mas os olhos do velho mestre e de seu antigo pupilo esbanjavam orgulho. Usado pela mãe de Míriel durante a estadia em Minas Tirith, a joia não passava de um adorno, portada por um guerreiro, era um símbolo, que agora estava sobre a camisa de Daror, à altura do peito, depois que Míriel passara os grossos fios de ouro dos quais pendia pelas largas golas da camisa.
Até que, no genro, aquela peça não ficara mal – era o que pensava a senhora Morwen, muito orgulhosa do rico trabalho que realizara com os trajes do senhor Daror em tão pouco tempo.
Menos bela e adornada, aliás, não estava sua filha.
Em finos fios de ouro Míriel prendera os engastes com os quais os artesãos de Harad cercavam suas gemas, e os misturara aos cabelos suavemente ondulados, que lhe escapavam em cascata do penteado alto. Gemas de todas as Casas, tantas quantas as estrelas de Harad, aquecendo sua beleza branca, destacada no vestido azul cor da noite que Daror lhe escolhera.
- Mas veja, tenho um vestido vermelho, da cor de nossa Casa. – ela havia lhe mostrado
- Nem, quero que ponhas este – redarguira Daror, sob o olhar de aprovação da senhora Morwen – para resplandecer qual a lua no céu, cercada de estrelas coloridas.
Se Daror sabia ser grosseiro, sabia também ser um poeta, e Míriel chegou a perguntar-se se, mesmo no palácio real, algum seria capaz de, conhecendo-o, não amá-lo?
- Então o rei Elessar instou-o a permitir, meu irmão, o cruzar de nossa fronteira por essa quantidade absurda de rebanhos com destino aos sulistas?
- Se os rohirim os venderam, Éowyn, certamente os compradores demonstraram apreço e cuidado aos nossos cavalos.
- Sem dúvida, terão grande apreço e cuidado em formar uma nova cavalaria: mil cabeças! E outro tanto de gado!
- Dez vezes menos do que dispõe as forças de Rohan e Gondor juntas.
- Cruzando os animais, certamente o sul logo verá sua força crescer.
- Mas nós também não ficaremos parados durante este tempo, minha irmã – buscava contemporizar Éomer – Não devia se preocupar com isso agora, se apoquentar assim.
Éowyn respirou pesadamente. "Não devia se preocupar com isso agora", até e também seu irmão tentava evitar o discutir daqueles assuntos com ela.
Assuntos de homem.
- Tem razão, meu senhor Éomer, de Rohan fui uma serva, e hoje o sou em Gondor, não é meu papel participar das decisões dos grandes.
- Éowyn – tomou-lhe as mãos nas suas seu irmão – está entre os grandes, minha irmã, não é possível que desconheça o que ninguém ignora – e abraçou-a docemente.
A senhora Éowyn recostou-se por um momento naquele abraço, no carinho e cuidado mútuo que os unira desde sempre, mas logo se aprumou: se estava entre os grandes, como o irmão lhe afirmara, se em sua poderosa companhia almejava ter direito a um lugar, se não na memória das gentes, ao menos na consideração por si mesma, não se podia permiti-lo.
Não se podia permitir fraquejar, recostar-se no ombro do irmão, como uma pobre mulher que precisa buscar por conforto na proteção dos homens.
