CAP XXXIX - Do banquete no palácio
E afinal chegara o momento, estremeceu Míriel, o momento travestido de ocasião social em que as bases da relação entre dois países seriam estabelecidas.
Ou não.
Míriel lembrava bem como os senhores de Harad negociavam entre si: todos falando ao mesmo tempo, trocando ameaças, arreganhando os dentes e reclamando de punhos fechado voltados para o alto, maldizendo a sorte de ter de ceder seus jovens para patrulhar fronteiras, ter de partilhar um oásis ou um pasto com outra Casa, emprestar seus animais para uma semeadura, dividir uma colheita.
Custara-lhe a compreender o quanto de mera representação havia nesse comportamento.
- Cada um quer que sua contribuição ao bem comum de Harad seja vista como a mais importante – explicava-lhe Tunir – bem como nenhum quer ser tomado como um vassalo da primeira Casa. Todos fazem questão de reafirmar a própria autonomia e valorizar a aliança de Sua Casa.
Realmente, aquilo que lhe pareceram altercações cruentas, Míriel vira terminar entre gargalhadas dos Senhores, regadas a muito vinho e, se mulheres de Harad tivessem trazido consigo, haveria música, dança e louvores à tradição.
Não era de forma alguma o que se poderia esperar nos salões de Minas Tirith, e Míriel correu a mão pelo braço de Daror ao transporem o umbral do sétimo portão da Cidade Branca.
Daror voltou o rosto para a mulher e sorriu um sorriso travesso. Era um menino em meio à aventura de grandes novidades.
- Lembra-te do que conversamos sobre tu não saíres abraçando a ninguém, de apenas te curvares na mesma medida em que o Rei Elessar o fizer a ti e...
- Arre mulher, sossega! Daror não é criança.
Daror era criança sim. Um crianção. Crianção imenso e confiante que ela amava demais e que não suportaria ver menosprezado por uma corte esnobe, pensava Míriel ao elegantemente segurar a barra do vestido para subir as escadarias que levavam ao pátio da Árvore Branca. Afinal, se na canção dos Ainur, aquela em que diz-se que Eru revelou tudo que foi, tudo que é e tudo que será, houve uma nota para Míriel, foi para fincar o amor de Daror em seu peito e a posse de sua alma por ele em seu destino.
A Rainha Arwen e o Rei Elessar aguardavam-nos debaixo dessa – o rei dispensara a formalidade de fazer o convidado percorrer um Hall cheio de nobres até chegar ao trono: aquilo não era uma audiência, era um encontro, talvez o primeiro de uma série de muitos que poderiam vir a ser necessários para desagravar devidamente ao senhor do Sul. Aragorn detestava a injustiça, e sua consciência não clamava menos para que se desculpasse do que suas conveniências políticas.
- Mae Govannem, Grande Daror, Senhor do vasto Harad, creia-me que é com humildade que o recebemos para pedir à Vossa Majestade, à Rainha Míriel e a todo povo haradrim nossas mais sinceras desculpas.
- O rei Elessar está se desculpando por só agora nos receber, Daror. – Esclareceu Míriel.
- Ah! Mas foi Daror que delongou – a voz grossa e profunda de Daror reverberou na pedra e ecoou solenemente na noite – Sou eu quem lamento por haver me demorado em conhecer essa cidade magnífica e essa rainha tão bela.
Linda mesmo essa orelhuda, pensou Daror, distraído pela beleza de Arwen – Ah sim! É do outro povo, como o marido de minha irmã, o qual ainda antes de dirigirem-se ao palácio Daror e Míriel haviam visto passar à galope. Finalmente fora ter com sua irmã, Daror soube imediatamente ao observar aquela urgência. E já não era sem tempo! Que desatino deixar uma mulher como Darai sozinha no acampamento tão longamente.
Daror bem sabia que uma rusga com Darai não deveria ser fácil ... certamente resultaria num contendor profundamente ferido, e não seria ela, mas, ao mesmo tempo, tinha certeza que nenhum que a houvesse possuído dela desistiria ...
Que seu cunhado urgisse, então, pois o tempo estava contra ele, raciocinou Daror, repousando a manopla nas costas de Míriel: ele é que não se mantinha afastado de seu bem-querer.
Míriel havia, aliás, terminado de transmitir o que seriam o perdão de Daror aos recentes fatos pregressos ao Rei Elessar, e este parecia bem contente. A Rainha Arwen chegou a fazer uma pequena reverência a Míriel, e agora se aproximara mais do casal, tomando de uma das mãos de cada um nas suas e dizendo:
- Finalmente as estrelas brilham sobre o encontro de Harad e Gondor.
- Sim, senhora, finalmente as estrelas brilham sobre o encontro de Harad e Gondor – Incrível! Fora como sua cunhada previra: Daror estava tão absorto olhando tudo à volta que nem prestara atenção no que ela dissera em nome dele, e o próprio Rei Elessar tão ansioso com a reação de Míriel e Daror que, vendo-lhes nos olhos que genuinamente não portavam ressentimento, declarara-os magnânimos.
E como os olhos de Míriel poderiam portar ressentimento, se os olhos de Daror só portavam contentamento?
- É Magnífico mesmo esse céu estrelado, e as luzes da cidade lá embaixo também brilham, e que flores bonitas tem essa árvore e, ohhhh, sua rainha também brilha, rei Elessar.
Daror desembestara, misturando a língua comum ao idioma de Harad, como uma criança maravilhada de tudo que via.
-Ela é a minha luz – respondeu o rei Elessar ao que entendera do comentário de Daror.
E que encontro não seria iluminado, se sobre ele resplandecesse a luz da Estrela Vespertina?
Entendidos, os dois casais dirigiram-se ao palácio, em cujos salões os príncipes de Ithylien, de Dol Amroth, o Rei de Rohan, Legolas e Gimli aguardavam.
Cumprimentos ora mais calorosos ora mais frios foram trocados pelos presentes com os recém-chegados, então todos se dirigiram ao salão de refeições: sabia-se que a senhora Míriel aleitava, e que não poderia delongar-se demais no palácio.
Todos tomaram assento ao redor da grande mesa redonda, conforme as orientações da Rainha Arwen, e Míriel ficou branca como cera ao se dar conta da profusão de talheres que cercava cada prato.
Harad! Não instruíra Daror sobre a utilização de talheres!
De fato, esquecera-se por completo de fazê-lo, tão naturais lhe pareciam hoje em dia os modos de Daror com a comida.
E agora não havia mais tempo de fazê-lo, posto que o serviçal já oferecia o conteúdo da bandeja ao convidado de honra.
Daror gemeu intimamente: "passarinhos!". Aquilo não era comida de homem, pensava servindo-se de sete ou oito codornas – Como guerreiros poderiam manter sua força comendo aquilo?
Codornas com pétalas de rosas. Uma iguaria de delicadeza élfica, perfumada com anis, marinada com molho de mel e especiarias, assada com maestria, ofertada com encanto, fora a escolha de Arwen para a ocasião.
Se fora uma boa escolha ou não, contudo, tornara-se irrelevante para a anfitriã. Falhara em atentar para os costumes de seus convidados, era o que parecia agora a Arwen, e precisava corrigir esse equívoco antes que gerasse constrangimento.
Arwen voltou-se para a bandeja que o serviçal agora estendia entre ela e o rei Elessar, haja vista que Daror além de a si já servira também à esposa com outra leva de codornas, e tratou de imitar ao senhor de Harad, servindo a si e ao esposo com as mãos.
- Há codornas em Harad, senhora Míriel?
- Não, senhora – Míriel agradecia de todo coração o gesto magnânimo e elegante da rainha, que logo se viu imitado pelos outros convivas, com muita naturalidade e até um certo alívio por parte dos homens, com alegria pelo anão, com desagrado pela senhora Éowyn, e com curiosidade e boa vontade pelo príncipe Legolas e pela princesa Lothlíriel, esta tendo como estímulo adicional a aprovação tácita do Rei Éomer, um contentamento de agradarem-se um ao outro florescendo entre eles, sem que entendessem o porquê – Há galinhas grandes de penugem preta, algumas espécies de faisões ... Há também pássaros tão grandes que são mais altos do que homens, cujos ovos são capazes de alimentar uma família inteira. Aves de truz, realmente, sua carne é saborosa, mas não se prestam a ser domesticados, e só os caçamos pouco, pois toda espécie vivente tem encontrado grandes dificuldades para sobreviver em Harad, devido à ação traiçoeira dos mercenários de Umbar – e Míriel relatou aos circunstantes as restrições impostas por Daror aos haradrim no intuito de restabelecer as populações da fauna selvagem de Harad, da qual todas as espécies, sem exceção, corriam risco de extinção devido à traição de Sauron.
Enquanto Míriel falava, Daror comia não só a carne das codornas, mas também seus ossinhos delicados: eram apreciados pelo gigante como uma parte crocante, entre grandes goles de vinho. Até que a refeição não estava saindo de todo má.
A narrativa de Míriel, assim que pôde, aproveitou-se para mencionar dos rebanhos que haviam mandado adquirir em Rohan ... Certamente o Rei Éomer havia passado por eles em sua vinda para Minas Tirith.
- Não só rebanhos de gado, senhora, mas também cavalos até quase perder de vista, não é mesmo? – Éomer não só não era bobo, como não saberia ser insincero nem mesmo em função de conveniências políticas.
- Sim, senhor rei Éomer, cavalos também, haja vista que a população dos milenares olifantes também declinou, e as distâncias de Harad tomariam uma vida para ser percorridas a pé. Tenho certeza que um negócio justo foi efetuado junto ao povo de Rohan na compra desses animais, mas, se Vossa Majestade de alguma forma objeta a transação...
- Se objetasse, senhora Rainha de Harad, teria-os feito dar meia-volta e retornar para minhas terras. Verifiquei que foram adquiridos a preço superior do que o usualmente pago pelos comerciantes da Terra Média ou mesmo pelas tropas de Gondor, e Rohan também precisa de dinheiro.
- É lamentável, de fato – interveio o rei Elessar – que os comerciantes da Terra Média, o que quer dizer os comerciantes de Gondor, estejam lidando de forma gananciosa tanto com seus fornecedores de Rohan quanto com o povo de Harad e outros de seus clientes, pagando pouco pelo que adquirem e buscando vender por muito aos que aparecem como compradores.
- De fato – interveio Daror – queriam cobrar muito, mas tenho um capitão casado com uma filha de comerciante, e Mariän é tinhosa como ela só, e tão decidida que até a mim convenceu de que na pátria do Rei Éomer havíamos de encontrar animais muito melhores por muito menos, quer dizer que o Rei Éomer encontrou com ela?
A convivência com Míriel havia dotado a esta de total domínio do idioma de Harad, mas a fluência de Daror na língua comum só fizera decrescer na medida em que não mais precisava se expressar nela. Seu sotaque gutural tornava incompreensível quase todo o pouco que nela conseguia expressar, e foi preciso que a esposa reformulasse a pergunta, para que esta fosse compreendida.
- De fato, a caravana parece ser encabeçada por uma mulher de Gondor, mas há muitas mulheres a acompanhá-la, de qualquer forma. Parece que a esposa do capitão do senhor Daror retorna para o Pelennor com mais do que aquilo que foi comprar.
- Traz mulheres de sua terra? Que bom! Tornar-nos-emos parentes, então.
O comentário de Daror chegou a provocar um esgar na senhora Éowyn, mas o comentário fora tão espontâneo que os demais se puseram a sorrir, olhando-se uns aos outros, especialmente o Rei Éomer e a princesa Lothlíriel.
- Adoro casamentos – complementou Daror – e vejo que bem mais de um pode vir a ocorrer por aqui.
A risadinha tímida da princesa ruborizada encantou Éomer a tal ponto que ele mesmo esqueceu de sentir-se constrangido com o comentário.
- Pois é mesmo, rei Daror, sinto que chega uma hora em que o homem precisa casar ... achava que só às mulheres era dada a necessidade de um lar e uma família, que para um homem bastavam as campanhas e a companhia de um bom cavalo, mas hoje eu mesmo me vejo na situação de desejar algo mais para minha vida.
O que será que fizera um desejo como este nascer no circunspecto senhor Éomer, a ponto de ser posto em palavras pelo usualmente nada loquaz rei de Rohan?
Bem poucos naquela mesa duvidaram que fosse uma princesa com nome de flor.
De lar e casamentos, a conversa evoluiu para filhos e crianças – na medida em que uma tal conversa poderia ter vez entre senhoras em meio aos homens – mas o sonolento príncipe Eldarion, então com 4 anos, foi trazido ao salão para dar boa noite aos pais e cumprimentar os presentes, ao que Daror não resistiu e pegou-o no colo, jogando-o várias vezes para o alto, para deleite da criança e horror dos pais, prometendo-lhe um passeio de mûmak antes que os haradrim se fossem, e estendeu o convite aos demais presentes.
Ao ouvir tal convite, Éomer recusou, pois jamais esquecera os danos causados por aqueles animais monstruosos aos rohirrim.
Faramir, entretanto, sorriu e lamentou também, em alto e bom som, mas foi pela ausência de mestre Samwise Gamgi, que certamente ficaria maravilhado com aquela oportunidade.
Quem é esse, perguntou Daror?
E os velhos companheiros que se reencontravam trocaram as histórias e notícias que tinham dos perianath entre si, contando sobre os hobbits ao Chefe de Harad, que entretanto não se convenceu muito dos grandes feitos que teriam sido realizados pelo povo pequeno.
...
- Ir-se-ão tão já, Senhor de Harad?
- Sim, não delongaremos muito mais que a chegada desses rebanhos ao Pelennor.
- Isso é uma pena, pois de muito deveríamos ainda tratar, antes de sua partida. Esta não é a hora, nem este é o lugar, senhor Daror, mas preparamos uma minuta de tratado de intenções, deliberando sobre assuntos de interesse comum entre nossos povos, e gostaria de ter suas impressões sobre ela – disse o rei Elessar, passando de alguns manuscritos encadernados em couro a Daror.
Daror folheou o papel grosso, observando rapidamente sua caligrafia elegante, antes de sorrir:
- Escritos! Acho-os fascinantes! A palavra transformada em desenhos, podendo ser levada para todo lugar, guardada para cada geração: é realmente maravilhoso. Um dia pretendo entendê-los, e pretendo também que todos os haradrim os entendam – declarou, repassando o material a Míriel – tenho sorte de que minha mulher os conheça. Não sabia dessa prenda quando paguei por ela, viram que bom negócio fiz?
Muitas pessoas que não falam bem uma língua ainda assim são capazes de lê-la satisfatoriamente. Desconhecedores do idioma e do alfabeto de Harad, os escribas do Rei Elessar haviam elaborado o texto na língua comum, o westron. A maioria das populações da Terra Média àquela época era analfabeta, mas não se poderia imaginar que um monarca o fosse.
Mas Daror era, e assim continuou até o fim de seus dias.
Míriel fez uma rápida leitura do documento, logo declarando:
- A intenção de Harad é de paz e amizade para com Gondor, Rohan e todos os seus aliados, e nisso folgamos em ver que o Norte concorda, o estreitamento do comércio e das trocas entre nossos povos também, como, aliás, já demonstraram nossas iniciativas. O detalhamento de tais acordos, contudo, teria de ser melhor estudado e submetido a todos os Clãs de Harad, e creio que deverá ficar para um futuro próximo, quando tivermos mais tempo para defini-lo.
Será que não haveria mesmo nenhum ressentimento para com Gondor de parte da senhora Míriel? - pensou o Rei Elessar, sem, no entanto, outra opção que aceder à peroração dela, após a qual todos se despediram, e os senhores de Harad retornaram à Casa da Senhora Morwen, declarada pelo Rei embaixada de Harad e território protegido pelas leis e costumes da diplomacia quando ocupado pelos haradrim.
...
- Por que não nos comprometemos logo com o tratado proposto por Gondor, bem-querer? Sabes que neste momento posso falar pelos outros Clãs e compromissar Harad. – perguntou Daror, já recolhido à cama de vasto dossel, quando Míriel retornou, após haver dado de mamar a Naor.
- Gondor quer Umbar – respondeu a dama, aconchegando-se ao marido.
- Oh-oh, também queremos Umbar – compreendeu Daror.
- Pois é ...
- Bem-querer?
- O que é?
- O que achou dessa festa?
Míriel voltou-se para Daror:
- Não era bem o que esperava o Daror de Míriel, não é?
- Não houve música nem dança ...
- Nem algazarra, confusão, crianças correndo, bêbados altercando.
- Mulheres se engalfinhando – Daror completou, para ver-se alvo de uma saraivada de tapas e socos de Míriel.
- Acho que devíamos mostrar a essa gente do Norte como se faz uma verdadeira festa. – segurou-a por fim.
- Ah é, e como se faz?
- Com mulheres cheias de fogo.
- Tu me deixaste congelar nos últimos meses, e ainda estou de resguardo.
- Ah, Mirielzinha, há muito que se pode fazer sem romper o teu resguardo ... eu faço em ti e tu fazes em mim, que achas?
- Eu e ti fazemos o quê, Daror?
Daror aproximou-se do ouvido de sua mulher e forneceu-lhe uma sugestão, ao que ela riu.
- Ah Daror, ninguém faz de fato isso.
Mas ele lhe respondeu que sim com a cabeça, e segredou-lhe outra prática ao ouvido, ao que ela soltou um gritinho agudo e novas risadas, chacoalhando por sua vez a própria cabeça em negativa.
Mas ele já começara a lhe subir a camisola, e contou-lhe mais um segredo delicioso, ao que ela fez cara de dúvida
- Será?
- Sim, sim, mulher, e Daror garante que tu irás gostar.
Ela podia gostar ou não, mas certamente não podia mais resistir, e entregou-se a uma das mais famosas tradições de Harad: a das artes do amor ... O longo resguardo de Harad durava até que a criança tivesse dentes.
