Nem vou tentar me justificar.

Toda a gratidão de Arda a Sadie Sil, a mais generosa das criaturas do Único.

Com o mais culpado pedido de perdão ao Professor.

CAPÍTULO XLI - PROMESSAS

Quando a boca de Ramur descolou-se da de Darai, soltando-a, o que o haradrim mirou foi um rosto genuinamente surpreso, despido de qualquer máscara, esquecido até de seus condicionamentos mais recônditos.

- Minha espera acabou – sentenciou o senhor que se tornara – Ajusta com aquele que te desposou o necessário, que ouro e pedras meus aqui não faltam para isso.

Ramur então se lembrou de dar alguns passos atrás. Pelos costumes de Harad, formalmente Darai ainda estava casada, pois em meio à vastidão, a distância entre marido e mulher, por mais que se prolongasse, por si só não significava nada.

Nada significava mesmo, sorriu Ramur, assegurado do quão nada havia significado entre ele e Darai, logo não se contendo e voltando a beijá-la de novo, para então afastar-se de novo e sair da tenda, antes que não se contivesse de coisa alguma.

- Providencia. – Despediu-se ele, saindo da tenda, o coração eufórico de um adolescente batendo em seu peito: sua mulher era a princesa de Harad, e seu desposar deveria guiar-se pela tradição e pelos costumes de que eram pilares; nem Daror poderia opor-se a ele então.


Parece haver um ditado que diz que ninguém se banha duas vezes na mesma água de um rio.

Como o rio, a vida corre, e corre o tempo, e o tempo de nossa vida corre, e muda o rio, e muda a vida, e muda o tempo e mudamos nós.

O rio da vida de Darai a carregara por corredeiras e turbilhões, por águas turvas e furiosas, e por pântanos, charcos e correntes subterrâneas, por águas pútridas e águas límpidas, de tal forma que pareceria impossível devolvê-la às águas originais.

Mas o beijo de Ramur despertou na mulher de Harad algo da menina que ela um dia fora.

Algo de genuíno e não calculado.

Algo de vital e voraz e explosivo.

E sem precaução e sem cuidado.

Amoral.

Foi essa criatura perigosa que Haldir encontrou quando confrontou Darai sobre quem era aquele homem que vira saindo de sua tenda, tão adiantada a noite.

Darai virou-se lentamente, a voz do elfo que um dia desposara parecendo vir de um outro tempo, de um outro mundo, de uma outra vida.

Uma outra vida que não a vida que deveria ter sido sua.

Uma outra vida em que ela não era quem era agora.

Uma predadora redespertada no âmago do seu poder impiedoso.

- É Ramur, meu prometido.

O pássaro cruel fincou as garras no coração de Haldir, perfurando, cortando, esmagando...

- Fez-me saber que ainda me quer, após todos esses anos...

- Seu prometido? – aquela informação abrira um abismo sob os pés do elfo, a voz lhe saia falha da garganta apertada. Haldir não conseguia respirar.

Darai sorria apercebendo-se da dor do elfo, embevecida ainda da temperança da adoração de Ramur. Era má, e sua maldade era sua virtude.

- Fui prometida a ele quando nasci. Estava ferido e delirante após a batalha do Pelennor, por isso não me reclamou à época, e o pai, meu tio Hamur, devastado de dor de tantos filhos mortos, não pensou que ele viveria, nem teve ideia de me cobrar a Daror – comentava displicente, sorvendo com os olhos o ciúme evidente nas feições de Haldir.

- Desposamo-nos nos costumes de seu povo tanto quanto nas bênçãos de meus senhores ... são laços que não se pode desfazer – mas certeza não havia nas afirmações que proferia o galadhrim. Impudente, ele a via, lasciva e voraz, leviana ... significariam algo para ela os votos sagrados?

Antes de despencar no abismo, contudo, Haldir encontrou uma corda à qual se agarrar.

- E temos três filhos em Caras Galadhom.

Mas foi tocar a corda e ser queimado por ela.

Fora por isso que insistira tanto em deixá-los lá, para fazer de seus filhos reféns do retorno da mãe?

Aos próprios olhos, Haldir cometera muitos atos que desprezava em razão de sua paixão pela adán.

Entretanto, nenhum lhe parecia mais ignominioso naquele momento do que permitir-se um tal pensamento.

Ademais, que sentido haveria em tê-la de volta sob aquele pretexto?

Àquele argumento porém Darai acedera levemente, não sem contrariedade: por mais mulher que fosse, conhecia em seu ventre que mais ainda era mãe.

Esses eram laços muito além do sagrado.

- Eu ainda te quero – Haldir a alcançou, enlaçando o corpo voluptuoso em seus braços – Sempre e cada vez mais. Ontem, hoje ... e pela eternidade.

- Não o acompanharei na eternidade. – O prazer de machucá-lo era quase maior que o prazer de sentir-se tomada pelo braços do elfo.

Sempre a dor daquela impossibilidade o esmagando, aquela vontade o consumindo.

Ele a odiava, percebeu ... Ele a odiava por amá-la tanto, e Haldir segurou com força os cabelos negros de Cabelos Negros, percorrendo com sua boca a pele do rosto até mergulhar em sua boca. Deixando de dominar-se, cedendo ao desejo de dominá-la, instintivamente marcando seu território para defender sua posse, como se animais fossem. Ela era sua, sua, sua e de ninguém mais – gritava a boca que nunca a beijara tão ferozmente, agarrando-lhe os cachos escuros, esmagando seu corpo contra o dele.

A haradrim transfigurara-se em puro poder feminino, trancas do seu eu arrebentadas pelos beijos selvagens de seus dois amores, portais escancarados à essência feminina que por tanto tempo conjurara, e que agora tomava conta de si, desgovernava-a, alijava-lhe a possibilidade de qualquer contenção, submetendo-a a uma entrega total, enquanto Haldir exercia desesperadamente sua posse, chamando-a:

- Venha para mim, Cabelos Negros, venha para mim.

Deusa encarnada recebendo adoração, abriu seu templo para que o devoto lhe ofertasse a devida oferenda. E Haldir o fez com seu amor desesperado, ardor e um gosto agridoce de quem um pouco morre e um pouco renasce.


Aferrado aos cabelos negros, o corpo trêmulo por cima do de Darai volta e meia ainda era sacudido por um espasmo tardio, lábios, olhos, orelhas e membros ainda percorridos por uma corrente de energia e arrepios: Manwë, ele atingira a Música!

Lentamente Haldir apoiou-se sobre um cotovelo, afastando alguns centímetros seu rosto daquele outro rosto para o qual precisava olhar.

No qual precisava encontrar uma resposta.

Uma única resposta.

Pela qual perscrutou de novo os olhos negros que jamais lhe pareceram mais negros e insondáveis, na medida em que duas lágrimas lhes brotavam.

Com o coração descompassado os dedos do elfo correram a enxugar aquele pranto: estaria sua amada lhe dando adeus?

Darai de fato chegara a recear abrir os olhos, incerta de quem encontraria ao seu lado, se Haldir, se Ramur.

Pois certamente a Deusa não lhe permitira distinguir plenamente com quem estava

Haldir abraçou-a.

Queria tanto entendê-la.

Estabelecer alguma harmonia em sua convivência.

Mas a sensação de permanente desconforto não o abandonava, e só fazia crescer ali, naquele ambiente bárbaro, fora do seu conhecimento e controle.

- Prepare seus pertences para voltar para casa, esposa. Já nos quedamos por demais em Gondor, vamos embora. – Uma urgência desesperada na tentativa de impor-se à adán o quanto antes e o quanto antes levá-la embora daquela possibilidade tenebrosa, daquela revelação cujos desdobramentos Haldir se recusava a imaginar.

- Embora? – ela voltou-se para ele com altivez, quase com desdém, para então erguer-se nua, palavras solenes em sua boca.

- Presta atenção, elfo - sentenciou Darai – se, por qualquer motivo que seja, eu não dançar a tradição de minhas ancestrais na despedida de meu povo, que voltem de uma vez para me levar as criaturas do meu tormento, pois terminar os meus dias entre elas será o meu destino.

- Nay! Não! Que está dizendo?! – desatinou Haldir horrorizado.

Supusera que a tresloucada adán fosse ter a pretensão de rogar uma praga a ele, e a força de um tal sortilégio não impressionaria o eldar.

Mas aquela louca amaldiçoara a si mesma, e que força em Arda seria capaz de quebrar um anátema assim?

Do momento em que testemunhou Darai colocar-se sob o fio daquela navalha, portanto, o galadhrim viu-se obrigado pelo sentimento que lhe devotava a fazer-se ele próprio fiador da dança da esposa, zelando nervosamente para que nem mesmo um acidente infeliz, a torcedura de um tornozelo ou o desmazelo de um espinho significassem o despertar para um pesadelo ainda mais tenebroso que a exposição afrontosa a que aquela criatura bárbara que ele amava denominava tradição.