CAPÍTULO XLII – Dos Preparativos da Festa

Notícia da chegada dos rebanhos foi levada na manhã seguinte a Daror, e da confusão que se instalara no acampamento com a chegada de dois mil animais, belas e rijas garotas de Rohan, afeitas ao trato de bois e cavalos e prontas para casar, dezenas de comerciantes de Gondor que viam agora os estoques em que haviam investido encalhar, e mais um tantão de mulheres e curiosos atraídos pelo tempo ensolarado a matar sua curiosidade e, quem sabe, encontrar um proveito ou um amor.

- Deixa Mariän e Tunir resolverem – dera Daror de ombros – E manda Darai organizar festa e banquete em dois dias. – Ele é que não iria se apoquentar com aquelas aporrinhações.

Nem sua Mirielzinha, com a qual estava se entendendo tão bem agora.

- Não sei ficar sem ti, bem-querer.

- Ai Daror, nunca pensei ... põe-me tão louca às vezes que chego a pensar que meus gemidos ecoam pela casa inteira.


Uma fila.

Uma funesta e enorme fila, era no fim da maior fila que já vira na vida que se via agora o velho Ellis.

Sulistas malditos, forçando um velho como eu a praticamente doar-lhes minhas mercadorias, vendê-las a preço de custo para não amargar prejuízo maior ...

E se essa fila toda veio lhes oferecer os imensos estoques que os comerciantes de Minas Tirith guardáramos até então, é bem capaz que não queiram o que tenho a lhes oferecer quando chegar a minha vez.

Por Ilúvatar! Todo meu capital está investido em víveres, rebanhos, farinha, cereais, sementes e vinho ... segurei minha mercadoria por meses à espera de que os preços subissem, neguei-me a vender até aos clientes habituais, para que os preços continuassem a se elevar: se não desovar tudo que tenho no armazém agora, vou à bancarrota!

- Sou um homem velho! Será que não se respeita aqui um ancião? – começou a alimentar um tumulto o velho Ellis, tentando furar a fila, no que entretanto seus compatriotas melhor posicionados não lhe cederam a vez.

Estavam tão à mercê de uma quebradeira quanto Ellis, ele que aguardasse a vez como qualquer um.

- Mas que absurdo! Que acinte! – continuava seu comício solitário o velho – Alguém precisa fazer alguma coisa – agora até seu lugar na fila perdera, e Ellis dirigiu-se ao início da linha, para ver se conseguia alguma coisa – Ei, rapariga! Rapariga,venha cá! – chamou pela moça sentada à mesa de negociações sob à tenda aberta para a qual a fila convergia.

Mariän voltou o rosto na direção de seu antigo patrão.

- Do que me chamou, senhor?

- Ora, se não é a bela rameira que trabalhava para mim!

- Como?!

- Ah, vai dizer que esqueceu seu velho patrão, minha balinha de alcaçuz?

- Do que está chamando minha mulher? – perguntou Tunir, surgindo calmo e imenso de trás da tenda, com seu turbante negro, suas botas e calças negras, sua blusa vermelha e suas armas reluzentes.

O velho Ellis tomou um tal susto, foi acometido de um tal medo que, desatinado e balbuciante, começou a andar para trás, murmurando desculpas desencontradas – Não sabia que aquela mulher estava sobre a proteção de um guerreiro tão poderoso ... era apenas uma empregada do meu armazém ... juro que nunca a toquei ... nunca quis nada com ela ... não sabia que se havia casado, senhor.

Mas quanto mais tentava se afastar, mais lhe parecia que aquele homem de Harad se aproximava dele.

Ellis virou-se para correr pela própria vida com disposição inesperada para um ancião, sem nem levar em conta o terreno ainda úmido e escorregadio, no qual praticou os mais acrobáticos passos na tentativa de manter o equilíbrio, antes de cair e patinar de barriga por vários metros.

- Mas que merda! – Berrou Tunir.

- Deixa esse velho que não vale teu esforço, homem – exortou Mariän da tenda.

- Vamos ter de bater o chão de novo – queixou-se o haradrim.

Precisava preparar o terreno com serragem antes de dispor as tapeçarias onde os convidados se iriam sentar, e ainda montar o tablado.

- Que tem para vender? – dirigiu-se Mariän ao próximo comerciante da fila, fazendo sinal para que se sentasse em frente a ela, do outro lado da mesa.

- De fato, senhora, já me desfiz de meus estoques há algum tempo, e aqui porto algum valor, na esperança de que tenha a senhora uma mercadoria pela qual estou interessado.

- E qual seria?

- O unguento do qual as senhoras da Cidade Branca não param de falar.

A alma de negociante de Mariän exultou, não semeara em solo estéril seus esforços então ...

- Trata-se da seiva de uma árvore característica do Harad. Muito rara. Bem trabalhosa de coletar.

- Atribua um valor justo pelo que tiver consigo do produto e vamos negociar.

Mariän pegou de um pequeno baú em uma cesta de palha que estava no chão ao seu lado.

- Trezentas moedas por dez frascos.

- É o unguento mais caro de que já ouvi falar.

- É minha reserva de uso pessoal. Passo nos cabelos todos os dias – e Mariän acariciou seus sedosos cabelos: estava de volta aos negócios, e reconstituiria o dote pago nela por Tunir com seu tino e esforço.

Mariän não gostava de dever, nem mesmo a Daror.

E, de quebra, o enteado ainda poderia contratar casamento com sua sobrinha ... Afinal fora ele que coletara o leite de andir para ela durante a viagem.

Grande ideia.

- Pago cem.

- Duzentos e cinquenta.

- Cento e vinte.

- Duzentos e cheguei no meu limite.

O comércio estava no seu sangue.


- Querias ir, não é mesmo? – Éowyn aproximou-se do marido junto à janela, perscrutando com ele o horizonte na direção do acampamento.

- Não sem você – respondeu Faramir voltando-se para a esposa e envolvendo seus ombros com um dos braços.

Éowyn recostou-se no ombro de seu companheiro. Amava muito a ele, sentia-se confortável em seus braços.

Mais do que gostaria de admitir.

- Não consigo deixar de vê-los como inimigos. – Confessou. – Não sou como você. – Lamentou-se.

- Nem eu esperaria que se modificasse ou pretendesse ser o que não é apenas para me agradar – ele a compreendia.

Era o melhor dos homens.

Aceitava-a como era.

E foi o que a levou a decidir-se.

- Mas também tenho curiosidade – Afinal, ninguém mais ficaria no palácio, ela e Faramir seriam os únicos a não testemunhar os estranhos costumes que teriam vez naquela noite, a depender do relato dos outros.

- Não estavas indisposta?

- Podemos ir devagar ... e ademais ...

- Ademais?

- Você estará comigo.