CAPÍTULO XLIII – DA FESTA DOS HARADRIM

- Minha dama branca – sussurrava Faramir ao ouvido de Éowyn, acariciando-lhe a face – acorde.

- Hãn ... – mas os braços que a amparavam sobre o cavalo contiveram seu sobressalto até que se aprumasse. Cochilara, mais uma vez!

Já até desistira de irritar-se consigo mesma, a modorra quase permanente era mais um dos contratempos – por vezes embaraçosos – aos quais a gestação a estava sujeitando, refletiu a senhora de Ithilien, sorvendo o ar numa respiração tão lenta e profunda quanto um suspiro, enquanto o marido desmontava, posicionando-se para ajudá-la a fazer o mesmo.

Ela, uma filha de Rohan, precisava agora de ajuda para montar ou desmontar do cavalo.

Na verdade, vira-se forçada a acatar a decisão do marido de trazê-la na própria montaria.

Eram os famigerados cochilos.

E a prudência de Faramir se revelara plenamente fundada, ela dormitara durante praticamente todo percurso!

- É tão embaraçoso!

- Recostar-se em meus braços?

- Não – apressara-se em negar, voltando a face para a dele, a sorrir.

Não era embaraçoso recostar-se nos braços do esposo, era embaraçoso precisar disso.

- É constrangedor, as pessoas às vezes estão falando comigo, e me pego a bocejar – Éowyn cedeu, não tendo outra pessoa com quem trocar tais confidências que não o marido – ontem mesmo, pela manhã, após o desjejum, a Rainha Arwen e a Senhora Lothlíriel estavam sendo extremamente gentis, mostrando-me temas de bordados para o enxoval do bebê, e eu cochilei no assento! Quando dei por mim, elas haviam posto minhas pernas sobre uma banqueta, amparado minha cabeça com almofadas e me coberto, saindo do quarto silenciosamente, deixando-me adormecida como uma criança!

A dama branca de Rohan arrependeu-se da breve narrativa, tão logo ouviu os risos de Faramir. Sentindo-se agora como uma mulher fútil a fazer queixas tolas ... Quão insignificantes deveriam parecer ao Capitão de tantas batalhas aqueles acontecimentos.

- Encontramo-las, eu e Éomer logo após, consternadas por lhe haverem entediado, minha dama branca – apressou-se Faramir a explicar – Lamentando a própria falta de discernimento em trazerem à sua atenção um assunto de mulheres de casa, como elas mesmas disseram – Faramir fora modificando seu tom, de divertido, quase zombeteiro, para cúmplice e até algo solene – Admiram-na muito, minha senhora, assim como eu.

Éowyn enrubesceu. Embora soubesse quão vão é o orgulho, não conseguiu evitar que o reconhecimento de seus feitos a envaidecesse.

- Certamente estavam sendo gentis com o irmão e o pobre esposo de uma gestante indolente.

Porque ela teimava em se diminuir, perguntava-se Faramir.

Éowyn era muito exigente consigo mesma, severa com a própria pessoa até mesmo para acatar a admiração de outrem.

- Não creio. A filha do príncipe Imrahil chegou a comentar o quanto o rei Éomer deveria sentir-se honrado em ser irmão de uma tal heroína – Faramir passou os dedos pela pele tão pálida e delicada da esposa – A referência de devoção e coragem que traz é a sua pessoa, minha dama branca.

- Quando disseram isso? – franziu o cenho Éowyn, não se querendo permitir convencer.

- Quando Éomer lhes perguntou por qual tema de bordado haviam-se decidido afinal.

- Quando Éomer lhes perguntou o quê? – que seu irmão e o assunto bordados de enxoval de bebê pudessem de alguma forma confluir era algo que ela não poderia conceber.

- Quando Éomer lhes perguntou por qual tema de bordado haviam-se decidido afinal para o enxoval do bebê – Faramir riu-se novamente, com doçura, face à incredulidade de Éowyn ao que narrava – E não só, como também foi ele que lhes ofereceu a óbvia solução do dilema.

- Que solução?

- Que bordassem cavalinhos brancos no enxoval, também todo branco, posto que assim seria do seu agrado, e serviria tanto a um menino quanto a uma menina. Que lhe parece?

Éowyn estava boquiaberta, mas embevecida: esquecera-se desse aspecto terno do irmão, contudo muita alegria trazia ao seu coração que tal aflorasse. Nem mesmo um homem precisa viver só de batalhas.


Por mais que se procurasse resignar, a expressão ostentada por Haldir junto ao tablado onde ocorreriam as danças seria mais condizente a de um condenado no patíbulo do que a que ostentavam os demais convidados da festa dos haradrim, apesar de com o bom, farto e agora barato vinho de Gondor que a abastecia ter procurado entorpecer seus sentidos.

- Marretar orcs deve ser mais fácil do que ser casado – achegou-se Gimli – e sem dúvida labutar nas minas mais prazeroso, mas já que escolheu desposar uma mulher, e logo tão voluntariosa, trata de modificar esse semblante, capitão – e Gimli encostou com estrondo sua taça na taça de Haldir – Vamos brindar à sua esposa e à interessante figura que é impossível esquecer que ela tem...

O olhar gélido de Haldir passou de Gimli para Legolas, informando que se este não desse um jeito de calar o anão, ele, Haldir, o faria.

- Veja Gimli, os espetos de assado estão passando de mão em mão daquele lado, e parece que há cerveja também. Quando será que chegarão aqui?

- Não rápido o suficiente – disse o anão levantando-se rumo à comida, enquanto Legolas refletia sobre como – e mesmo se valia à pena – explicar ao anão que seu senso de oportunidade a respeito da forma e ocasião de expressar sua solidariedade masculina revelavam-se profundamente inadequados.


À medida que a noite avançava e os convidados chegavam maior era a aglomeração à volta do grande tablado. Daror e Míriel acomodaram próximos o Rei e a Rainha, bem como Faramir e Éowyn, além do rei Éomer, que conduzira até o acampamento também a princesa Lothlíriel, com quem o príncipe Imrahil consentira que se casasse o rei de Rohan.

Mesmo que os membros da corte fossem bem mais discretos sobre o assunto, também estes traziam expectativas sobre a apresentação de Cabelos Negros, embora o expressassem de forma comedida.

Os comerciantes, o populacho, e os próprios haradrim à volta eram bem menos moderados ao referir-se às virtudes do espetáculo que aguardavam e aos atributos fartos da famosa dançarina.

Haldir sorveu mais um gole de seu cálice: por mais que as prestimosas ajudantes de Míriel se dedicassem a manter cheios os copos dos convidados, parecia ao elfo que naquela noite esse seria um esforço fadado ao fracasso.

...

Após distribuição de comida e bebida a fartar, mais e mais as gentes, saciadas do estômago, foram-se acomodando nas tapeçarias ao redor do grande palco, começando os haradrim a bater na madeira, demonstrando o crescer de outros apetites.

Saudações e palmas receberam os músicos, entre os quais Haldir reconheceu desagradado o infame Terair, aquele cão velho e raivoso de seu cunhado.

Saudações e palmas foram substituídas por gritos e murros no tablado, até que finalmente os primeiros acordes da música surpreenderam Haldir, informando-lhe que aquela melodia não lhe era de todo desconhecida.

As notas inesperadamente mais lentas que o usual pareciam a versão dos instrumentos de Harad para uma música que ele já ouvira, e em Caras Galadhom, mas ... quando?

Aye! Foram essas notas que Mornfinniel reproduzira na grande harpa durante o banquete do dia daquela noite terrível.

- O tema da guardiã ... – ouviu da boca do horrendo cunhado a informação dirigida a uma Arwen vividamente interessada aos pés do tablado, sentada no chão sob os tapetes, entre as pernas de Aragorn, conforme o costume haradrim.

De acordo com a informação e os acordes, a guardiã surgiu com passos lentos e circulares, ondeando a longa saia vermelha que nascia do cinturão de pedras nos quadris.

O som de um instrumento de sopro acompanhou aquele andar cadenciado até o centro do palco, cedendo vagarosamente espaço aos tambores que vieram acompanhar a oscilação dos quadris, enquanto os braços emolduravam o deslocamento do tronco que se reclinava devagar.

Pouco a pouco, porém, Haldir foi testemunhando o inusitado surgimento de um terceiro pezinho, na medida em que as nesgas da saia vermelha se abriam, revelando por fim uma miniatura da dançarina, trajada exatamente da mesma forma e reclinada exatamente na mesma posição.

O alarido de haradrim berrando e batendo no tablado nem por um instante roubou a concentração da aspirante e de sua guia: seu verdadeiro desafio começava agora.

O tema lento e melodioso de entrada deu lugar a outro, em que predominavam os tambores.

Voltando as palmas das mãos para os rostos, as haradrim postadas defronte à plateia permaneceram imóveis, à exceção dos quadris, instados a acompanhar a cadência ora curta ora longa dos instrumentos de percussão, traduzindo-a no seu vibrar.

Era a isso, então, que Daror se referira quando criticara a dança de Aniá, anos atrás – deu-se conta Míriel recostada a Daror, a mão no coração – Oh, querida, se tu estivesses viva para ver quão lindamente sua filhinha honra sua dança ... nossa filhinha, nossa Batiá, tornando-se uma guardiã da tradição.

E à medida que a tradição era provada, as palmas da mão direita afastaram-se dos rostos, executando seu bailado próprio, para depois serem seguidas pelos membros superiores esquerdos, executando meneios assimétricos àquelas, até seu encontro sobre a cabeça, quando uma nova música, mesclando o melodioso tema da guardiã com o ritmo sincopado dos tambores, levou-as a exibir sua perícia em passagens de movimentos cada vez mais complexos.

A compenetrada aprendiz reproduzia agora cada novo passo proposto por Darai, e ao encontrar o sorriso de aprovação desta o sorriso de Batiá abria-se também.

Havia todo um orgulho de ser mulher naquela dança, um louvor e uma celebração da feminilidade.

E a cada passo e gesto que a guardiã propunha, a discípula respondia...


Haldir nunca o supusera ... a graça ... a técnica ... a sutileza e sofisticação daqueles movimentos, bem como por certo a dificuldade envolvida em sua realização, mas, sobretudo a noção do fazer parte de algo maior estampada no semblante orgulhoso da menina.

E como era graciosa, com o corpinho ainda de formas redondas, os bracinhos roliços a serpentear, os olhos agora se ocupando de flertar coquetes com o público.

Ele não entendera antes o quanto daquela postura de sedução era parte integrante da dança.

E mais encantadores que nunca lhe pareceram os cabelos de cachos negros e a tez morena, os olhos qual lagos insondáveis e misteriosos ... E quando a miniatura de sua esposa que dançava à sua frente começou a imitar serpentes com os bracinhos roliços, deu-lhe um bote no coração, inoculando o doce veneno de vir a ter uma filhinha assim, à imagem e semelhança da mãe, mas que a essa ele pudesse proteger antes que ela conhecesse o mal, e o mal se instalasse nela.


Ao ver a mulher de vermelho finalmente assomar frente aos seus olhos, a famosa mortal de Harad que conquistara o coração do nobre capitão Haldir, Éowyn pensara que, na melhor das hipóteses, tratava-se de uma dama com pouca roupa, ancas excessivamente largas e busto demasiado.

Na melhor das hipóteses, pensara.

Mas agora, que a via reassegurar à pequena dançarina que esta era encantadora, que era mulher, e que havia tanta beleza e tanta virtuosidade em permitir-se toda aquela feminilidade...

Éowyn tinha tanto medo de que seu bebê fosse mulher, outro pássaro condenado à gaiola.

Mas se esse pássaro pudesse cantar com sua própria voz ... Livre ou engaiolada, ainda que seus voos fossem curtos, uma sua filha poderia sentir que preenchia o mundo ... E Éowyn voltou seu rosto para Faramir, num sorriso radiante, deixando-se abraçar pelos braços que a puxavam para recostar-se em seu peito, isso ela poderia transmitir a uma filha: sentir-se livre para ser adorada, para ser amada ...

É verdade que primeiro precisaria permitir-se tal coisa a si mesma, pensou sorrindo de novo para o esposo que lhe enlaçou a mão com a sua, pousando-as no ventre proeminente, quando sua dama branca de Rohan e Ithilien finalmente abandonou o medo.


A tradição de Harad certamente era uma canção de louvor à mulher e ao feminino.

O rei Elessar agradecia gentilmente a cada explicação que o Grande Daror lhes prestava através da senhora Míriel sobre a dança da Tradição de Harad, sua importância, seus movimentos característicos e a história que narravam, mostrando educada surpresa à informação de que representavam em seus passos a vida da mulher do Harad: seu nascimento, sua infância, a descoberta da natureza, dos bichos e plantas, da semeadura e da colheita, do pastoreio e também da guerra e das batalha, que as mulheres rijas daquela terra brutal bem conheciam. Falavam também do casamento, da gestação de novas vidas e do amor, contavam até das luas de sangue, e do poder de sedução inato de cada mulher, e por fim falavam do adeus dos amores, da partida dos entes queridos, e do reencontro final com a Deusa-Mãe Terra, que a todas as filhas de volta aguardava.

De fato prestar atenção às informações poderia distrair a ele e à Rainha Estrela Vespertina de prestarem-na demasiado à apresentação que o Rei não julgava exatamente apropriada à sensibilidade eldar da Rainha.

Aragorn lembrava-se bem do constrangimento com que assistira ao desempenho profano da senhora do coração de Haldir alguns anos antes, condoído então da situação do amigo.

Sua mão segurou a mão de Arwen, como um pedido de desculpas à rainha que se sentara nos tapetes, entre as pernas do marido, como todos os casais à volta, e em seu peito se recostara.

Arwen retribuiu-lhe o aperto e voltou o rosto para seu real esposo, surpreendendo-o com um sorriso vivaz e nada desconfortável.

- É uma Tradição arrebatadora, senhor Daror – Elessar ouviu Arwen pronunciar-se – Ao falar da mulher de sua terra, fala das mulheres de toda Arda: é tão única e ao mesmo tempo universal.

Aragorn não enxergava naquela apresentação todas as virtudes mencionadas por sua rainha, mas, com toda a gentileza de sua expressão, Arwen não pronunciaria palavras em que faltasse com a verdade.

Valar, ele não entendia mesmo coisa alguma de arte.


...

Para regozijo dos haradrim e orgulho de seu avô, Terair, ainda que em tenra idade a jovem guardiã demonstrava a cada novo tema já haver adquirido domínio sobre os fundamentos da Tradição.

Na intrincada apresentação, Batiá ora repetia os passos propostos por Darai, ora lançava ela a proposta de um novo passo à mentora, ora ainda solava conforme a desafiavam cada um dos instrumentos de Harad, e antes de encerrar foi dançar em cada canto do tablado, sempre recebida com ovação pelos homens que louvavam na menina todas as mulheres de Harad que amaram, para por fim terminar em frente a Daror, seu pai adotivo e Pai de Sua Casa, fremindo as dezenas de pedrarias do pequeno cinturão ao som dos tambores sem parar de girar, de tal maneira a deixar tontos os convidados à volta, enquanto Daror e os de Harad percutiam o próprio tablado de madeira, num crescendo e alarido cada vez mais rápido e intenso que ainda assim a pequena acompanhava, com rostinho feliz e bracinhos levantados a chacoalhar também as pulseiras, até que Daror estendeu-lhe os braços nos quais se atirou quase a rebentar da infantil alegria absoluta do alvorecer confiante da existência.


...

Batiá, Naraor e mais uma dúzia de crianças já dormiam nos tapetes próximos, por entre convidados e gentes de Harad, enquanto Darai rodopiava pelo tablado nos braços de Daror, sempre surpreendente que um homem de seu tamanho dançasse com tanta graciosidade.

Profana dança, refletia o rei Elessar, mais uma vez envolvendo a mão da Estrela Vespertina na sua, mais agradecido que nunca aos Valar pela graça, bondade e senso diplomático inestimáveis da esposa, que o estavam auxiliando tanto a contornar a crise que tão perto estivera de instalar-se entre Gondor e Harad. Quão encantadoramente ela encarara todas as experiências às quais tiveram que tomar parte àquela noite, em cumprimento às suas obrigações reais ...

Foi quando Daror aproximou-se deles no tablado, Elessar mal notara que o gigante de Harad entregara a irmã a fazer par com o general Terair - forte e abundante fora o vinho servido àquela noite - e ao perceber que Daror estendia a mão para a Arwen, num convite para que a rainha de Gondor subisse ao tablado e dançasse com ele, teve que fazer um esforço para encontrar as palavras adequadas à recusa polida com a qual precisava blindar a esposa daquela situação.

- Com prazer. – aceitou Arwen o convite antes que Aragorn se desse conta, estendendo à mão de Daror a sua própria, para no momento seguinte já estar rodopiando nos braços do homem do Sul.

Vários rostos boquiabriram-se à visão daquela cena, mas nenhum mais do que o do rei.

A elfa jamais seria com qualquer mortal confundida, graça, leveza e brilho refulgente a destacá-la de qualquer uma, além da beleza etérea.

Contudo não se furtava à condução do par, aos passos ousados, ao ritmo peculiar e até à postura coquete característicos da dança de Harad incorporados com a mais completa naturalidade, como se não fosse essa a primeira vez em sua longa existência que com a mesma travava contato.

E Daror, sangue da Mestra de tal Tradição que fora sua mãe nas veias, soube reconhecê-lo, guiando-a com segurança e destreza pela melodia exótica. Rodopiando por toda a extensão do tablado em giros nos quais por vezes a parceira era levantada do chão, ou reclinada a ponto de seus cabelos varrerem o mesmo.

Não apenas dançavam ao som da música, eram um com ela, deixando-se levar em total e vibrante enlevo, a ponto tal que Arwen introjetou boa parte do que era o misterioso Harad ao viver aquela experiência.

- A Rainha Estrela já conhecia da dança de Harad – afirmou Daror quando por fim devolveu-a a Elessar, após uma longa e variada sequência de músicas de Harad na qual usufruíram ambos de fazer par com um parceiro de tal maestria.

- Não – esclareceu Arwen – embora em meu coração sempre tenha havido um espaço que acabo de descobrir que só poderia ser preenchido por ela.

Míriel enchera-lhes as taças e posicionou-se junto a Daror, hora de trazer os pés e a atenção de seu homem de volta à terra e à sua mulher.

Era hora do brinde.

- Harad! – Ergueu a taça Daror

- E Gondor! – Acrescentou Míriel.

- Gondor e Harad! – Brindou o Rei Elessar.

- Gondor e Harad! Harad e Gondor – foram repetindo aqueles dentre os convidados e os anfitriões que ainda não dormiam sobre os tapetes naquela madrugada festiva.


Cinco anos depois daquele Retorno, Daror e sua comitiva voltaram a Minas Tirith, ficando sempre Daror e sua família e os mais altos de sua comitiva instalados na casa da qual Daror deixara a sogra encarregada, sendo os mesmos sempre recebidos pelo rei Elessar e pela Rainha Arwen no palácio (a despeito da guerra entre Gondor e Harad que eclodira nesse meio tempo).

A senhora Morwen tomou para si a missão de cuidar da casa do genro em Minas Tirith, mister que exerceu ao longo de muitos anos, com a dedicação exigente e severa da dama altiva que sempre fora (ainda que alguns serviçais ignorantes e pouco gratos, de excessiva rigidez se queixassem).

À chegada dos netos, porém, a dama de ancestral nobreza parecia modificar-se, chegando a causar a impressão de uma transformação física em suas maneiras, seus trajes, seu humor, e até na forma de dispor os cabelos e parecer encher-se de viço sua pele (embora línguas maldosas, sempre elas, tivessem espalhado a infâmia de que tais mudanças eram mais provavelmente devidas à presença do General Terair, Comandante dos exércitos de Harad, que, contudo, já era um homem velho por ocasião do primeiro retorno, e ademais não se pode levar a sério a insinuação de que uma dama de tal estirpe pudesse desenvolver com um homem do Sul qualquer tipo de convivência menos que adequada.).

As visitas das esposas de Harad foram adquirindo um aspecto de evento popular. Ocasião para grandes negócios, e vieram a ser aguardados com grande excitação e contentamento.

Pois os homens de Harad devotavam paixão a tudo que faziam, e não menos ao festejar e ao alegrar-se.

Assim foi que durante mais de um quarto de século os haradrim voltaram a cada cinco ou seis anos a Gondor, montando grandes acampamentos nos campos do Pelennor para celebrar ou renovar votos de casamento com mulheres do Norte, trocar mercadorias, histórias e conhecimentos, festejar e firmar amizades com os povos dali. Não demorou a que gentes de todas as partes lá também fossem ter nessas ocasiões, com intenções mais ou menos semelhantes, de tal forma que, quando começaram a minguar e espaçar-se mais as visitas dos haradrim, já tal evento convertera-se numa grande feira de reinos e povos, perdurando dessa forma por quase uma Era, a ponto de perderem-se nas lendas as origens daquele evento.