CAPÍTULO FINAL
A beleza dos campos floridos, o perfume da terra úmida da beira do córrego, a maciez da relva esmeralda, o tépido entardecer de primavera, nenhum dos encantos de Arda parecia alentá-la ...
Sentados em seu manto enquanto os cavalos pastavam, buscando aproveitar sem pressa a volta a Caras Galadhom, Haldir tocou por sobre o vestido as costas de sua Cabelos Negros, numa nova tentativa de fazer voltar ali aquele olhar perdido em outro tempo ou lugar.
Olhando para dentro de si e para as esmagadoras lembranças que doravante a acompanhariam, Darai demorou a perceber a carícia, mas ao retornar ao momento presente, virou o rosto para Haldir e forçou-se a oferecer-lhe um sorriso, não fosse a tristeza em seu olhar...
Darai não se amofinara em ver-se responsável pelos preparativos da festa, já os adiantara bastante, e ainda lhe serviam de desculpa para desembaraçar-se de Haldir por algumas horas com maior liberdade, divertia-se ao atravessar o Pelennor.
Os mais de quinhentos homens da Segunda Casa que tomavam parte no Retorno dos Cinco Anos haviam montado acampamento do outro lado dos pastos em que agora ruminavam os rebanhos vindos de Rohan. Muitas caras novas misturando-se aos haradhrim nos últimos dias de sua permanência em Gondor, noivados convertendo-se em casamento com brevidade absoluta e um azáfama permanente agitavam o local.
Até mesmo a travessia do acampamento pela irmã de Daror e sua entrada na tenda de Ramur passando pouco notadas naquela agitação corriqueira.
Ao ver sua prometida adentrar, Ramur sorriu e adiantou-se para a entrada, descerrando a abertura e tomando-a em seus braços quase que de um só movimento.
As bocas de homem e mulher uniram-se a se devorar.
As mãos dele percorriam o corpo dela por sobre as vestes, apertando a carne voluptuosa.
Aos quinze anos seu corpo era uma promessa, que agora se cumprira.
E Ramur explorava cada palmo de coxas, nádegas, peitos, ancas, cintura... as mãos do homem e a pele da mulher a reencontrar-se e redescobrir-se após tantos anos.
- Ai Ramur...
- Ai Darai...
- Ai primo..
- Vastidão...
- Homem de Harad ...
- Ai mulher...
- Vamos logo, não temos muito tempo – suspirou ela, revirando os olhos, por entre as carícias dele.
Até que essas cessaram.
Darai olhou para Ramur, os braços dele ainda a envolviam, mas ele lhe devolveu o olhar com seriedade:
- Porque não temos tempo?
- Porque ainda estou a cuidar dos últimos detalhes da festa, parvo – e ela já voltava a beijá-lo, quase a pegar das mãos dele e fazer com que continuassem a recordar-se de cada caminho do seu corpo.
- E depois?
- Não haverá depois, só temos esse momento.
As mãos de Ramur crisparam-se nos ombros de Darai, interrompendo as carícias dela.
- Que me dizes?
- Não haverá depois, amanhã pela manhã parto com meu marido. – ela o fitava sôfrega ainda. - Nosso casamento ficou em outra vida, Ramur, nesta podemos ter apenas esse precioso momento roubado.
O rosto de Ramur, porém, não mais se espelhava a luxúria de Darai, e sim a ira vermelha de Harad.
- Achas que a quero por um momento? – Ramur sacudiu-a pelos ombros – É isso que achas, hein?!
- Será um momento para a eternidade, primo, daqueles que viram lenda – Darai correu os dedos pela face dele. – Nosso amor é impossível, pois que fui dada a outro em Aliança...
Mas o gesto de carinho causou em Ramur um esgar de dor.
- E que belo fiel de Aliança tu és, vindo oferecer-se a um quando pertences a outro.
Darai estacou estupefata por um momento, depois suas faces tornaram-se vermelhas, e por fim ela estendeu suas mãos na intenção de furar os olhos de Ramur, mas este já a segurava.
- Seu asno! Imbecil! Idiota! Quem você pensa que é para me insultar?! – debatia-se ela – Sou Darai da Primeira Casa, seu estrupício...
- E não vale uma gema falsa, peçonhenta leviana, fiel algum de Aliança tu és, mulher adúltera, uma cabra tem mais honradez que tu!
- Seu miserável! Como me podes repudiar agora?! – Darai investiu colérica, extravasando uma frustração alucinada.
- Repudiar-te?! Enlouqueceste?! – foi a vez de Ramur parecer um demente – Achas que deixarei que te afastes de mim de novo? Depois de alimentar-me de lembranças por quinze anos, achas que me contentaria um momento? Uma migalha que tu ou Daror deixassem cair dos banquetes da Primeira Casa?
E com violência Ramur atirou Darai sobre o chão de tapeçarias, onde ela ajoelhou-se a fitá-lo sem compreender.
- Depois de tudo que esperei, acham que me podem entregar nada? Nem! O cumprimento da Aliança original que entre nossos Pais havia, isso é o que exigirei!
- Estás maluco, Ramur?! Já sou casada.
- Rá! Vi o quanto estás casada, entrando nesta tenda qual gata no cio, a procurar por mim.
As faces de Darai tingiram-se de vermelho àquela justa observação, embora não de cólera como supôs Ramur.
- Mas eu a amei desde sempre, exatamente porque és assim.
- Não me podes amar desse jeito, Ramur, meu irmão entregou-me em Aliança a outro, e tais casamentos não se dissolvem senão com guerra.
- Pois que seja! – E Ramur riu um alucinado riso haradrim. – Guerra então! Bater-me-ei em batalha contra tua Casa comandada agora pelo perjuro do teu irmão.
– Enlouqueceste Ramur? Estás a ameaçar a Primeira Casa? – Um senso de urgência estava se instalando em Darai.
- Ou em duelo contra a criatura que te fizeram chamar de marido, como na tradição...
- Não sejas insensato, Ramur, meu marido é que vai matar a ti, se tolo fores de desafiá-lo, pois um grande guerreiro ele é! – e um grande medo ela começou a sentir.
- Amei-te toda uma vida. Achas que se deteria ante embate ou batalha, mesmo ante a morte, um amor assim?!
Só então Darai deu-se conta do cataclismo que semeara.
Ramur a amava, e ela, leviana, lhe dera esperanças.
Agora estava decidido a matar ou morrer por ela.
Maldição!
Então era isso o amor, uma arapuca?
As maiores chances eram de que Haldir matasse a Ramur. Além de matá-la de dor e remorso, tal levaria o velho tio Hamur a morrer de desgosto certamente: e nas mãos de quem então acabaria a Casa Aliada da Sua?
E se a animosidade entre as duas poderosas Casas vicejasse em razão da sua leviandade?
Harad dividido, Deusa-Mãe, não o Permitais!
Mas e se, improvável, Ramur matasse o pai dos filhos de Darai? Que diria a eles?
Que diria a seus filhos em qualquer dos casos?
Como viver com o arrependimento que carregaria o que quer que sucedesse?
Então era isso o amor, estupidez e devastação?
Se Haldir matasse a Ramur, ela morreria de dor.
E se, por um acaso do destino, fosse Ramur a matar Haldir, também.
Darai olhara para dentro de si e ficara perplexa com o que enxergou.
Amava
E amava os dois... só agora atinava, em desespero ... percebendo também o que precisaria fazer...
- Queres-me mesmo? – Darai foi se reclinando lasciva nas tapeçarias de Ramur – Queres-me tanto assim, priminho? – sua boca pronunciava palavras doces, e seus olhos perigosos buscaram-no, e Ramur riu, ela sempre fora impudica.
- Toma-me então, priminho, também quero a ti – os olhos dela o convidavam, licenciosos – Também faz muito tempo para mim, desde que tive um homem de Harad pela última vez.
Ramur franziu o cenho.
- Deixa-me lembrar se foi Tessar ou o primo Ovir.
- O quê?
- Com o tio Dakor eu já me havia deitado antes da caravana, então ele não conta.
- Do que estais falando?
- Estive com Mekim, que conduzia o Mûmak, o membro dele era memorável, sem dúvida, mas...
- Que estais dizendo, Darai? Eras selada.
- E que selo duro eu tinha, que tanto que fiz não rompeu... Mas, depois que tu o removestes, tirastes de mim o peso de mantê-lo, motivo pelo qual sempre te guardei estima.
- Estima?
- Acho que foi Lamer negro, do Extremo Harad, o último dos haradrim a me ter – os nomes de tantos conhecidos mortos a lhe vir à mente.
- É mentira – Ramur a olhava sem se mover.
- Ah, eu sou assim – ela levantou-se e se aproximou lasciva de Ramur – voraz, tu bem o sabes...
- Eras minha...
- E de todos os outros ... eu sou assim... – e agora que ele começava a se afastar ela o buscava – ...com todas as prendas que o Harad deu a mim.
- Não é verdade ...
- Eu sou assim ... leviana
- Eras minha prometida...
- Ah Ramur, meu primo – ela jogou a cabeça para trás e riu depravada – Achas mesmo que não joguei os folguedos com os outros primos? Com os tios? – seus olhos relampejaram em desafio lúbrico – Até com Daror?
- Daror é teu irmão de sangue ...
- E me quis bem longe, não suportava saber..
- Saber o quê?
- Que eu sou assim ...
- Não, não és assim.
- Mas nem ... vês-me aqui, adúltera, e duvidas de que sou assim?
Ramur dera dois passos para trás..
- Ora, ora ... e até um momento atrás matarias por mim ... e matarias porque sou assim!
- Não, não ... tu não és isso.
- Estou viva porque sou assim, reflete e vê – sibilava qual serpente dissoluta.
- Nunca fostes isso.
- Quando foi esse nunca? Quando eras mais fraco, apenas um menino, e Darai te seduzia devassa, somente para te se negar?
- ... não eras assim
- Enxerga Ramur, sempre fui assim.
- Não...
- Entre seres monstruosos continuei assim, e mais e mais eles me tiveram por que sou assim, e sem distingui-los acoitei-me com cada um deles, porque sou assim. – ela revelava sórdida.
- Cala-te!
- Que diferença faria? Sabes que sou assim.
- Para! – Ramur recuava horrorizado, na face de um demônio a face de Darai transmutara-se para ele, qual esfinge concupiscente e desvairada, recitando nomes de homens, de bestas, de animais e de todas as criaturas com as quais copulara, a perfazer uma lista infindável e repugnante, enquanto Ramur cobria os olhos com as mãos, numa tentativa de afugentar a imagem imunda do que ela descrevia.
- E assim é o meu amor, primo, porque eu sou assim – deixou-o por fim Darai, saindo da tenda e da vida primo para sempre, com o caminhar lascivo, mas o coração estilhaçado em mil pedaços.
Como uma outra pessoa dera andamento aos preparativos da noite.
Como uma outra pessoa cingira nos quadris da pequena o cinturão que bordara e cumulara de pedras ao longo daqueles meses em que, conforme deliberação de Daror, preparara a menina como guardiã da Tradição que era preciso manter.
Ainda que não fizesse sentido para si naquela hora...
Representar a mulher e a terra de Harad até incorporar a Deusa.
Como faria isso agora, se acabara de destruir a Deusa em si mesma aos olhos daquele que fora seu mais fiel devoto?
Tal qual esfarelasse um ídolo moldado no barro, tingido de alegres cores, até que só restasse à vista os vermes pútridos em seu interior, aniquilando a fé do mais pio de seus crentes, deixando apenas desespero e horror em seu lugar...
Era o que passava pelo seu coração entorpecido enquanto dirigia-se ao tablado: que se podia valer da técnica e conhecimento que fosse, mas que não estaria dançando com a alma, e ainda que nenhum tivesse como saber, ela o saberia, que aquela dança seria uma mentira, simulacro e representação do que deveria ser.
Pois se a Deusa não estava mais nela, como poderia transmiti-la à garota?
Porém, simulacro ou pantomima que fosse, precisava apresentar-se na festa. Apresentar-se aos estrangeiros do Norte. Que pensassem que haviam testemunhado algo genuíno, um espetáculo folclórico, uma peça pitoresca que se traz como lembrança da viagem a uma terra exótica.
Era Fiel de Aliança sim, e, ao contrário do seu coração, a essa Aliança manteria intacta, sem que qualquer um soubesse que estivera de alguma forma ameaçada pela tragédia que a disputa de sua pessoa poderia desencadear.
Como manteria intacto o Harad da cisão a que Ramur estava disposto a submetê-lo, caso Daror ou mesmo Darai se opusessem ao seu intento.
Os filhos da Segunda Casa que Ramur trouxera consigo para o Pelennor superavam os demais filhos de Harad que lá se encontravam na proporção de dois para um.
E Harad precisava de todos e de cada um para se soerguer.
Unidos.
Mas, e se algum mais versado na tradição o percebesse?
Algum como Terair?
...
Terair estivera ciente da entrada e da saída de Darai da tenda de Ramur.
E depois a vira vagar pelo acampamento como um fantasma de si mesma, como se não estivesse de fato viva, ainda que não estivesse de fato morta.
Terair era o homem mais velho do Harad.
Não que isso necessariamente fizesse dele o mais sábio.
Mas já vivera muito.
Darai poderia ter sido sua filha.
Se não tivesse aberto mão do amor de Ravai pela amizade de Raor e pelo bem de Harad.
- Sangue de Ravai – chamou-a imperioso antes de subir ao tablado.
Darai dirigiu-se ao encontro do Mestre de Tradição de Harad sem dizer nada, talvez com receio de que palavras a traíssem.
Terair lhe estendeu uma caixa de madeira, ordenando em seus gestos que Darai a abrisse.
Darai não acreditava que fosse qual fosse o adorno contido na caixa, não importa quão belo ou rico, pudesse-lhe naquele momento parecer significativo.
Mas estava enganada.
Ao abrir a caixa, um perfume intenso, profundo e feminino tomou conta do ar.
A Rosa de Harad!
A flor das lendas, que só crescia em meio a moitas de espinhos tão densas e traiçoeiras que muitos jovens de Harad morreram na tentativa de colher uma para ofertar à amada.
Uma vez guardada adequadamente, contudo, a rosa de Harad poderia manter sua higidez e odor por gerações.
Mas mesmo assim, se não fosse pelo perfume algo envelhecido, parecendo ter incorporado um quê do odor da madeira, poder-se-ia dizer que aquela fora colhida há poucas horas, o que era impossível, pois nunca existira fora do Harad, e mesmo neste se extinguira antes de Darai nascer.
Dizia-se que a última Rosa de Harad fora a que Raor colhera para ofertar a Ravai. Mas esta perdera-se quando a comitiva de Raor fora atacada na viagem ao Norte, muitos anos atrás.
- Uma outra rosa foi também colhida para Ravai – revelou Terair sem necessidade de que Darai formulasse a pergunta.
- Mas ... parece fresca ... como se apenas hoje de manhã ou o mais tardar ontem ainda estivesse... bebendo da seiva retirada da terra.
Então Darai lembrou-se das lendas, e fitou a Terair.
As lendas falavam que a rosa regada com o sangue de um amor sacrificado ... manteria seu viço enquanto durasse o sofrimento.
Terair tirou-a da caixa e a prendeu nos cabelos de Darai.
- É tua agora – sentenciou ao entregar-lhe a caixa.
Pela Graça dos Valar ela partira com Haldir de volta para Caras Galadhom ao raiar daquele mesmo dia, sem mesmo descansar, serenando o coração que tanto temera, mitigando aquela sensação de desconfiança e incerteza em que o elfo se vira engolfado desde seu reencontro no acampamento.
Contudo, Haldir sentiu-se contrariado demais por aquela tristeza que ela não conseguia ocultar, aquela nostalgia que trazia de volta ao coração do elfo um ciúme irado, frustrado por aquele desencanto que nada que fizesse parecia ser capaz de afastar do olhar de Cabelos Negros.
- Pelos Valar! Menti por você! Ocultei a todos a verdade para protegê-la, não percebe?!
Na medida em que seu espírito distante procurava retornar ao agora e concentrar-se nas palavras que Haldir lhe dissera, um ar de incompreensão foi tomando conta da face de Mornfinniel, e este por sua vez foi pouco a pouco dando vez a um estranho sorriso, incompreensível e inesperado:
- Fez isso por mim?
Um tanto aturdido pela reação da esposa, Haldir acedeu com a cabeça em resposta, alteando a sobrancelha: o que era esse isso ao qual ela se referia? Estariam falando da mesma coisa?
- Fez mesmo isso por mim? – repetia a pergunta Darai. O estranho sorriso lhe suavizara as faces, e já não parecia tão triste seu olhar.
De fato a expressão dela não lhe parecera tão desanuviada desde que haviam partido do Pelennor, como as de quem respira uma lufada de ar fresco após um longo e abafado período de mormaço.
- Sabe do que estou falando?
- Do escorpião oculto no dote de reparação que paguei àquele crápula. – Ela confirmou sem qualquer demonstração de culpa ou embaraço.
Será que ela não se apercebia de que tivera de passar por cima de todos os seus princípios, todos os códigos que lhe eram caros para fazê-lo? Será que ela não tinha noção do delito que cometera, das regras, legais e morais, que transgredira?
Ela talvez lhe tenha adivinhado os questionamentos:
- As cortes pomposas do Norte ir-se-iam deixar manipular de bom grado por aquele homem, então me fiz braço de Harad para alcançá-lo, na justiça de nossa Tradição.
- As cortes às quais você se refere existem exatamente para velar pela justiça.
- As cortes não velam pela justiça, velam por elas mesmas ... e pelos seus.
Por todas as provas que Haldir coligira, Naufelam fora de fato o responsável pela morte da filha.
E ainda que tal pudesse não ter ocorrido de forma plenamente intencional, acusar o genro pelo crime o fora.
Naufelam construíra propositalmente, ato após ato, palavra após palavra, manipulação após manipulação, uma escada que levaria um inocente ao cadafalso.
Infenso, inclusive, ao advento da tão ansiada Paz do Rei, alimentara, com aquela e toda obra de dissenção torpe que pôde, a inimizade e a intriga entre Gondor e Harad, indiferente a quem ou quantos tivesse que prejudicar, contanto que ele, Naufelam, lograsse proveito próprio.
E se fora capaz de tudo isso, que certeza podia haver de que, vivo, não distorceria todas essas verdades, até encontrar uma forma de torcer a Lei à própria conveniência?
Que a ganância que movera suas ações ao fim tivesse sido o carrasco que o punira não deixava de encerrar uma poesia macabra.
- O homem deve colher o que semeia – sentenciou aquela sua exótica esfinge, como a fornecer-lhe a inevitável conclusão.
Contudo, mesmo que de outra forma houvesse logrado ser muito mais complexa, e mesmo improvável, a condenação de um respeitável expoente da sociedade de Minas Tirith tão bem relacionado, influente, ardiloso e, aos olhos de tantos, carismático cidadão, tomar a justiça do Rei nas mãos como Darai o fizera não era o correto.
- Mas foi um gesto muito galante esse seu, servir-me assim, velando pelo segredo – ela surpreendentemente lhe dirigiu um agradecimento genuíno e contentado, a postura mais relaxada e receptiva, desarmada, como se a beligerância que imperara entre eles por tanto tempo pudesse pela partilha daquele segredo transmutar-se em cumplicidade.
Cúmplices?
Haldir se deu conta de que, certo ou errado, ou tão certo e tão errado, era o que haviam se tornado.
Ele o fizera.
Ocultara em seu inquérito a circunstância primordial da morte de Naufelam.
Não poderia ser desfeito.
E, ainda que pudesse sê-lo, ele não o faria.
- Vivo para servi-la, minha senhora – Haldir pegou a mão da esposa e a beijou.
Nunca imaginaria que o que fizera seria recebido pela esposa como um galanteio, mas de alguma forma refletiu que nunca a cortejara.
Entre eles, tudo acontecera.
Não se aproximaram aos poucos, estreitando com palavras carinhosas uma amizade.
Nem a comunicara de seu interesse com sutileza terna ou um afetuoso ramo de flores.
Na verdade, nunca se tinham enamorado, sempre tinham sido quase como náufragos arrastados num turbilhão.
- Deste fim ao bicho? – Perguntou-lhe ela
Haldir esticou a outra mão para uma flor do campo próxima e a ofertou à sua namorada.
- Queimei-o e espalhei suas cinzas.
- É mesmo? – um pouco da traquinas menina de Harad, ainda ressabiada, se permitiu brincar nos olhos negros de Darai, a postura de alguma forma diferente, como se mais receptiva, mesmo a boca mais brilhante e aberta, e até o rosto mais viçoso e volta e meia ruborizado.
A revelação de Haldir a fizera sentir-se lisonjeada, e o elfo percebeu que naquele momento, ela estava ali por inteiro.
Darai reclinava a cabeça e brincava com a flor junto aos lábios, até que Haldir nestes depositou um beijo suave e longo, como pretendia que fossem os caminhos pelos quais seguiriam dali em diante.
Sim, ela poderia ainda reencontra-se com a Deusa, sentia Darai ao subir cuidadosamente o tablado, a aprendiz escondida em suas saias.
Mesmo que aos cacos, mesmo que aos poucos.
Mesmo que sofresse intensamente.
Fora muito amada.
Mas aprendera a amar também.
E o amor é também sacrifício.
Amara a Haldir.
Amara a Ramur.
Amara a seus filhos.
Amara seu irmão.
Mas acima de todos esses amara a Harad e amara ao seu povo.
E por todos eles se sacrificaria, legando naquele dia sua tradição à nova guardiã e a paz ao seu povo.
Sob as bênçãos da Deusa.
