Parte II – Você conhece o seu destino?

"Será que eu sou do mesmo jeito?
Será que eu sou o seu espelho
Te mostrando todas essas coisas que você nunca quis encarar?
Então você me deixou escapar
Você só me viu ir embora
E eu só tenho que perguntar, você conhece o seu destino?
Você conhece o seu destino?"

Warpaint – Majesty

Agora que eu tenho minhas memórias da vida passada, eu me pergunto como um amor tão forte pôde se quebrar tão fácil. Porque mesmo naquele tempo, mas especialmente agora em que eu não conhecia meu verdadeiro propósito e meu mundo girava em torno de você, eu tinha apenas duas certezas:

A) Você nunca faria nada para me machucar;

B) Eu amava você.

Essas duas certezas eram coodependentes uma da outra. Eu te amava porque você nunca faria nada para me machucar, você jamais me machucaria, porque, eu te amando, eu seria capaz de perdoar tudo e te entender até quando você fizesse algo errado.

Mas você me machucou, e eu não consegui de desculpar na vida passada, também não consigo te perdoar agora e com uma premissa inválida a outra também perde o valor. E quem liga para um amor de mentira? Talvez seja por isso que eu tenha dado às costas a você tão facilmente.

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Você ouviu tudo que eu tinha a dizer em silêncio, mas cada palavra era um tijolo no muro entre nós e quando eu terminei você tinha aquele olhar sério e frio de completo distanciamento emocional. Você nunca tinha me olhado assim antes e eu queria que nunca mais voltasse a olhar. Por isso, quando você disse de seu jeito seco:

— Você já inventou mentiras melhores.

Eu não pensei duas vezes e abrindo meu pó compacto gritei:

— Crescent Moon Power! Transform!

Eu senti a sensação maravilhosa de ser totalmente envolta por luz e poder, mas quando terminou, em vez de encarar a expressão embasbacada que eu esperava ver em seu rosto, eu te encontrei com os punhos e olhos fechados.

— Saitou Kun você nunca mais me chame de mentirosa! Hey! Abra os olhos e encare a verdade!

— Já terminou?

Eu vi frustrada e confusa você abrindo um pouco um dos olhos.

— Quê?

Eu me aproximei de você ainda mais confusa, você estava sempre fazendo isso, sempre me frustrando com suas reações inesperadas.

— O que você estava fazendo, já terminou?

— Já... O que- Olha pra mim! – Irritada, eu puxei sua gravata.

Eu vi você hesitar por um instante depois abrir um olho de cada vez. Se eu não tivesse tão confusa e desesperada teria achado até cômico.

— Bem melhor, apesar de estar longe de estar decente.

Eu acompanhei seu olhar descendo pela parte exposta da minha barriga até toda extensão das minhas pernas e senti meu rosto esquentar, quando seus olhos voltaram para o meu rosto, você ainda estava muito sério, mas seus ombros estavam relaxados, um bom sinal.

— Você sempre fica nua quando se transforma?

— N-nua?

Eu larguei sua gravata.

— Você não sabia?

— Não! – Eu pulei para longe de você, encarando minhas pernas e o quão mais peladas que o normal elas estavam, você me conhece, eu sou longe de ser uma pessoa modesta, mas quando eu me transformo, não é como se eu escolhesse aquelas roupas ou ficar nua. – O Artemis nunca falou nada! Eu vou matar aquele gato! Você viu tudo mesmo?

Você assentiu com os lábios pressionados como se tivesse lutando contra um sorriso.

— Oh não...

Eu senti você se aproximar e colocar uma mão no meu ombro e ergui os olhos a você.

— Não precisa ficar tão triste, não foi uma visão ruim.

— Kun!

— Vou sempre guardar na memória – você disse finalmente, mal contendo o riso e aí eu soube que estava tudo bem entre nós e, embora eu estivesse verdadeiramente brava com as suas provocações, meu coração estava tão leve.

— Apaga isso da sua mente agora! Eu estou mandando!

— Ha ha ha ha – você fez me desafiando – mesmo se isso fosse possível, você não manda em mim.

— Você é tão péssimo amigo.

— Não quero ouvir isso da pessoa que passou as últimas duas semanas escondendo que tinha poderes especiais de mim. Logo de mim que te contei no dia em que eu comecei a controlar sombras.

— Desculpa... Eu queria tanto te contar, mas o Artemis...

— Tá, tá, já entendi. Seu gato não deixou. Mas hey, Minako... Se você quiser se transformar outras vezes na minha frente eu não vou ligar.

— Seu pervertido!

E meu grito pareceu chamar a atenção de um dos monitores que começou a bater na porta que eu tinha bloqueado com uma cadeira e quando eu me destransformei – você teve a decência de fechar os olhos – e abrimos a porta, levamos detenção dupla por matar aula e bloquear a porta. Também tivemos que assistir uma aula extra de educação sexual focada em abstinência e com muito terrorismo em cima de gravidez na adolescência. Aparentemente para todos menos os envolvidos eu e você éramos um casal com vida sexual ativa. Uma pena que não éramos nem um nem outro.

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— Eu preciso mesmo usar isso? – Eu apertei com mais força a venda ao redor da sua cabeça e devo ter prendido um fio de cabelo no nó porque você gritou e tentou bater na minha mão. – Minako! Cuidado!

— Como é sensível...

— Queria ver se você iria gostar se eu puxasse seu cabelo.

Oh eu tinha várias imagens mentais de você puxando meu cabelo. Mas nada respondi, apenas agradeci internamente que você estava impossibilitado de ver meu rosto.

— E precisa sim usar a venda. Eu não confio em você.

— Devo te lembrar de quem é a pessoa indigna de confiança que andou mentindo?

— Isso não tem nada a ver e, além do mais, eu já expliquei meus motivos e eles foram muito plausíveis, tudo foi resolvido e eu gostaria que você parasse de ficar esfregando na minha cara. Eu não fico esfregando na sua o quão pervertido você é.

— Minako, você amarrou um pedaço de trapo velho na minha cara mesmo eu prometendo que iria fechar as olhos pra não te ver se transformando. Se isso não é esfregar na cara, não sei o que é.

— Estamos quites então, agora cale a boca que eu tenho que me concentrar pra me transformar.

Mesmo com as vendas sobre seus olhos, eu sabia que você os tinha revirado, mas deixei passar ou ficaríamos naquilo para sempre e a intenção naquela tarde era que treinássemos juntos. A ideia havia sido sua, com toda sua pose de maduro ou não, você ainda era um garoto e garotos adoram brincar de lutinha, assim que eu expliquei mais sobre os meus poderes, seus olhos brilharam e comentou logo o quão diferente dos seus eram e decidiu por nós dois que deveríamos testar como poderes tão opostos reagiriam numa luta.

Para ser sincera, eu até gostei da ideia, Artemis sempre me dava uns treinamentos tão vagos, se é que poderia chamar aquilo de treinamento, ter um alvo vivo poderia ser um avanço. Mas eu estava com muito medo de te machucar, queria ajuda de Artemis para que isso não acontecesse, mas não era algo viável. Artemis estava me ignorando desde que eu contei a ele que você sabia de nosso segredo. E agora só falava comigo para fazer comentários sarcásticos. Eu bem sei como Sabrina, a bruxa, se sentia tendo que conviver com o Salem.

Eu me transformei e disse que você podia tirar a venda.

Eu acho que eu nunca me cansaria do olhar que você me lançou então, como se eu fosse boa o bastante para comer e ao mesmo tempo fosse tão maravilhosa que daria pena de fazê-lo.

Eu engoli em seco e não me surpreendeu em nada quando minha voz saiu rouca quando eu perguntei:

— E agora?

Você apenas me deu um de seus sorrisos enviesados que mandavam sinais elétricos que interferiam com as minhas articulações dos joelhos e num ato que me pareceu muito mais sexy do que deveria, desabotoou os punhos da camisa e subiu as mangas expondo toda a extensão cor de cobre dos seus antebraços.

Então você fechou os olhos fazendo aquela expressão concentrada que eu já tinha te visto fazer tantas vezes quando ia usar seus poderes. Você primeiro então, pensei comigo, o que havia acontecido com "primeiro as damas"?

Mas qualquer pensamento bobo que eu estava tendo foi abruptamente interrompido quando eu senti algo que não era quente nem frio, não era áspero nem liso, duro ou macio subindo pela minha perna direita, se enroscando como uma cobra e quando eu olhei, vi que a sombra da cama atrás de mim havia se alongado num formato que lembrava um braço completo com uma mão e cinco dedos. O braço era maleável e tinha sido que havia se enroscado pela minha perna enquanto a mão espalmava minha cocha um palmo a cima do meu joelho.

Passado o choque inicial, eu sabia exatamente o que fazer.

— Sailor V Kick!

A sombra se desenrolou de mim e desapareceu de volta à sombra natural da cama como se fosse um elástico voltando a sua forma original.

— E depois você tem a cara de pau de negar suas tendências pervertidas – eu te provoquei.

Você fez uma cara tão inocente, mas tão inocente que não convenceria nem uma pessoa nascida ontem.

— Era onde a sombra estava mais perto ou você preferia que eu fosse pelo meio?

Eu não me dignei a te dar o prazer de uma resposta verbal.

— Crescent Boomerang!

Você arregalou os olhos e se abaixou, o bumerangue continuou seu percurso e no caminho atingiu seus livros derrubando todos eles da prateleira.

— Minako!

— Mas não era minha vez de atacar?

— Kun-chan? O que foi isso? – nós ouvimos a voz da sua avó vindo da sala.

— Eita – eu disse baixinho me encolhendo quando você me mandou um olhar feio.

— Está tudo bem Baa-chan – você gritou da porta – a Minako só derrubou uns livros.

— Ela se machucou?

— Não Baa-chan, está tudo bem.

— Tenham cuidado!

Você fechou a porta e se voltou pra mim de braços cruzados, mas fui eu a falar primeiro.

— Eu disse pra você que era uma má ideia fazer isso no seu quarto.

— E onde mais nós poderíamos treinar? Na sua casa?

— Deusa me livre! Você sabe o quanto minha mãe adora xeretar.

— Então!

Eu suspirei, a gente só andava brigando esses dias, estava ficando cansada daquilo.

— Vamos, de novo, o que você quer tentar agora?

Eu vi seus ombros relaxarem e seu olhar se tornar menos duro.

— Minha vez então.

Dessa vez as sombras pareciam água e subiram por ambas minhas pernas, mas antes que você pudesse tomar todo o controle, eu levantei meu compact outra vez.

— Venus Power, Love Crescent Shower!

Chuva de luz caiu sobre mim expulsando a escuridão de suas sombras e sorrindo, eu direcionei a tempestade a você que até tentou se defender conjurando mais sombras, minha tempestade foi avançando em sua direção até que suas panturrilhas encostaram na beira da cama e você caiu sentado. Eu estiei a chuva de luz nesse momento, sorrindo vitoriosa.

— Eu ganhei!

Mas eu deveria ter adivinhado que não tinha acabado de fato quando seu sorriso de volta não era um de alguém que aceitava graciosamente a derrota.

E logo uma exclamação de surpresa escapou de meus lábios ao sentir um golpe me jogar na sua direção, o impulso e meu peso te forçando a se deitar na cama.

— Kun Saitou! Isso é golpe sujo! – minha reclamação saiu abafada pela quantidade de cabelo prateado que eu estava basicamente engolindo.

Mas sua resposta foi se virar, me levando junto e logo eu estava engolindo em seco ao me encontrar sob você, com seu olhar sério me prendendo mais naquela cama do que as suas mãos em meus pulsos e seus lábios a centímetros dos meus.

— Promete que não vai mais esconder nada de mim.

— D-de novo isso? – Eu gaguejei arfando, você estava muito perto. – Quantas vezes vou ter que pedir desculpas?

— Promete, Minako!

Você me olhava de um jeito tão sério que me irritou, não só pela promessa forçada como pelo fato que, ao que parecia, você não estava minimamente afetado pelo fato de que estava completamente deitado sobre mim e com os quadris encaixados nos meus. Como podia? Num momento você me provocava sobre querer me ver nua e no outro me prendia na cama para agir todo frio!

— Prometo, ok!

Você me olhou com aquela cara descrente que me dava tanta raiva e era em momentos como aquele que eu não sabia se chutava ou beijava você. E eu acho que foi a junção da adrenalina e frustração que me deu tanta coragem, mas eu arranquei meus pulsos das suas mãos, agarrei seu rosto e puxei para perto.

— Vamos selar a promessa com um beijo então.

Você ainda arregalou os olhos igual a mocinha de dorama, mas não se afastou quando eu me movi para te beijar.

E a única coisa que eu me arrependo daquele momento era de estar usando luvas, no primeiro beijo que compartilhamos, eu não pude nem ao menos sentir sua pele contra a minha, mas isso foi logo superado quando eu me destransformei embaixo de você e o olhar surpreso que se dissolveu num intenso precedendo o momento mágico em que você mergulhou para outro beijo. Eu lembro de arfar contra a sua boca e você se aproveitar para aprofundar o beijo, eu nunca tinha sido beijada daquela forma artes e eu sempre, sempre havia sonhado com aquele momento, em que seriam seus os braços ao meu redor, a sua pele contra a minha. Meu corpo todo vibrava, eu subi mãos trêmulas do seu rosto para o seu cabelo, fios tão longos, são macios. Seu cheiro estava em todo lugar e eu me sentia inebriada.

Eu estava com a respiração descompassada quando você afastou os lábios dos meus e meu coração já estava se apertando com a perda ao pensar que você me deixaria, mas seu rosto se afundou na curva do meu pescoço, descendo beijos em direção ao meu ombro, minhas mãos escorregaram de seus cabelos acariciando seus ombros largos, suas costas macias, eu não queria que aquilo terminasse nunca, nunca, nunca... Eu nunca tinha me sentido como a Deusa do Amor antes, mesmo quando eu derrotava os inimigos e sentia o poder nas minhas mãos, mesmo quando eu vislumbrava minha imagem transformadas nas vidraças dos prédios, na de verdade, mas agora, ao sentir na pele o quanto você me queria, eu sabia quem eu era de fato, eu sabia que eu era Venus.


N/A: E eu continuo me enganando falando que fic vai ser two shot e não consigo terminar em dois capítulos... Mas inshallah o próximo é o último! O começo dessa capítulo foi ainda mais crepúsculo da vida hahaha

Bem, foi divertido escrever eles dois brincando de lutinha e olha que eu detesto escrever cena de luta, sou muito grata a Titans (o desenho antigo), em especial a minha querida Rae Rae por me ensinar como funciona um poder que tem como elemento a escuridão/sombra.

Eu nunca gostei da interpretação que todo mundo tinha de que era eletricidade o que o Kunzite estava controlando quando ele provocou o apagão em Tóquio, não parecia que era aquilo, eu não lembro dele usando eletricidade como ataque também, e ficava muito figurinha repetida com a Mako, então se não era luz, o que sobrava era escuridão e isso significaria um ótimo contraste com a V.

Bem, é isso. Até o último capítulo.