- Me perdoa se acabei te magoando, mas eu realmente não estou pronto para um relacionamento. Não é você, sou eu - ouço a voz do outro lado da linha e reviro os olhos.
Eu estava ficando com Victor Hugo a algumas semanas, não sei ao certo o que me atraira nele, seus cachos escuros, seus olhos sempre brilhantes ou seu jeito galanteador, mas agora lá estava ele, dando um ponto final no que nós tínhamos.
Eu estava sentado no sofá de couro que ficava na varanda de meu quarto, Kieran, meu gato, dormia em meu colo, ronronando alto.
- Me desculpa, de verdade - ele continua - Podemos continuar sendo...
Antes que ele pudesse terminar a frase, encerro a chamada, deixando o celular de lado. Eu já estava cansado de magoar-me toda vez que tentava me envolver com alguém, cansado de como eu me apaixonava irritantemente rápido.
Respiro fundo e passo as mãos pelo meu cabelo, uma mania que eu fazia sempre que estava nervoso. Ergo a cabeça, correndo o olhar pela rua pouco movimentada em que eu morava, seguindo até a floresta que ficava ao lado de minha casa, onde as grandes árvores encontravam-se.
- Será que todos garotos são uns idiotas? - pergunto pra Kieran, afagando seu pescoço - Sim, incluindo eu.
Ele apenas se espreguiça em meu colo, fazendo um sorriso brotar em meus lábios, gatos sendo gatos...
Repentinamente um uivo ecoa, fazendo meus cachorros começarem a latir desesperadamente, Kieran se assusta e pula do meu colo. Subindo no muro e correndo para a floresta, sumindo do meu campo de vista em instantes. Meu gato de estimação não era muito de sair de casa e considerando os cachorros dos vizinhos que ficavam pela rua, o mais sensato era ir atrás dele.
Solto um palavrão baixo enquanto levanto-me do sofá, calço meus chinelos e saio do meu quarto, descendo as escadas, cruzando e saindo da casa vazia em seguida.
O sol estava forte nessa tarde de sábado, o que provavelmente levaria muitos turistas para as praias da cidade. Malditos bagunceiros invasores...
- Kieran? - chamo enquanto caminho pela rua de terra em direção a floresta.
Aos poucos a terra dava lugar a grama e ervas daninhas, cogumelos e pequenos arbustos. Entro na trilha estreita, pisando cuidadosamente na terra úmida e escorregadia que se espalhava entre as raízes das árvores. Apesar de amar estar em contato com a natureza e de gostar de estar ali, lembrar que aranhas moravam ali faziam calafrios descerem por minha espinha. Aracnofobia, era como se chamava...
Pouco da luz do sol amarelada passava por entre as copas das árvores repletas de folhas verde escuras. Os galhos acima de mim estalavam, mas ao olhar para o alto, não vejo exatamente nada.
Ao tentar dar mais um passo acabo prendendo o pé em uma das raízes, fazendo-me cair no chão e rolar entre um desnível na terra. Me choco contra algo duro e molhado, meu corpo doía é minha testa parecia estar machucada, ao erguer a mão para tocar o local dolorido, percebo que meu braço estava completamente sujo por um líquido avermelhado. Solto um arfar pesado, levantando-me rapidamente, ao olhar para o chão, percebo uma garota caída, suas roupas estavam em farrapos e seus cabelos escuros estavam grudados no corpo pela grande quantidade de sangue espalhada pelo chão.
Um grito de horror escapa de meus lábios enquanto eu dou alguns passos para trás, o pescoço exposto da garota estava estraçalhado, e todo o sangue escapava dali. Dou meia volta, mancando entre as árvores por conta dos machucados, tentava sair dali o mais rápido possível. Quando finalmente saio dali, vejo Kieran sentado na calçada de minha casa, passo reto pelo felino, entrando na casa e indo direto para a sala, onde ficava o telefone fixo. Rapidamente disco o número da polícia.
- Departamento de polícia do Guarujá - diz uma voz feminina - O que...
- Me ajuda, eu encontrei uma garota morta - falo com a voz trêmula - Ela está aqui na floresta do Balneário Atlântico, está muito machucada por favor venham rápido... Eu estou na Rua Rubi dos Andrades.
- Senhor fique calmo - ela responde tentando me tranquilizar - Estamos enviando viaturas ao local.
Encerro a ligação e disco o número de Ally, eu estava sozinho em casa e precisava de um apoio.
- Dan, o que aconteceu?! - Allyson segura meu rosto entre as mãos, observando-me de forma preocupada - Esse sangue é seu?
Ela vestia uma camiseta regata azul marinho e uma calça cigarete preta, calçava um par de all star pretos.
Abaixo a cabeça, observando minhas roupas, minha camiseta azul turquesa estava com um lado totalmente molhado e minha bermuda branca quadriculada estava com uma perna vermelha. Apenas nego com a cabeça entorpecido pela cena horrível que não deixava minha mente, encosto-me no muro de minha casa, tentando não desabar na calçada.
- Quem pode ter feito uma coisa tão horrível? - pergunto para Allyson, segurando as lágrimas.
- Como assim?! - ela me observa com o cenho franzido - Feito o que?!
- Tem uma mulher morta na floresta - digo.
Ally fica paralisada por alguns instantes, sua boca entreaberta, sua surpresa era evidente.
Nossa cidade não era tão segura e calma assim, mas nada comparado a isso havia acontecido tão perto de nós.
A cena me abalara demasiadamente, minha sensitividade apenas tornava tudo pior, aquela sensação pesada pairava sobre mim, colocando-me cada vez mais para baixo.
Como alguém capaz de fazer aquilo poderia estar livre na nossa cidade?
Nossa vida repentinamente havia tornado-se um filme de terror, sabe-se lá se o assassino não voltaria em busca de outra vítima. Sou interrompido de meus devaneios pelas luzes de duas viaturas que estacionam diante de mim e minha melhor amiga.
- Foi o senhor quem ligou relatando o corpo? - pergunta um policial que desce de uma das viaturas.
- Sim... - respondo o observando, meu corpo estava levemente trêmulo e eu me esforçava para ficar de pé.
- Pode nos mostrar onde o corpo está? - ele pergunta, olhando-me dos pés a cabeça.
- Eu machuquei o pé quando tropecei em uma das raízes - explico, mostrando o meu tornozelo que estava começando a ficar inchado - Rolei por um desnível e acabei me chocando com o cadáver.
Passo as mãos pelo cabelo e respiro fundo, estava prestes a ruir, mas me forçava a permanecer de pé enquanto o policial parecia pensar nas possibilidades.
- Pode nos dizer o caminho? - ele suspira enquanto os outros policiais descem dos carros.
- Basta seguir a trilha, vão ver um desnível - respondo - Não tem como errar.
- Podem ir - ele diz aos outros policiais e vira-se para mim, seus olhos azuis me examinam, desvio o olhar de seus olhos e observo seu crachá, Maggio. Seus cabelos loiros quase brancos balançavam com a leve brisa - Você conhecia a vítima?
- Não, eu acho - respondo lentamente, meu tornozelo começava a doer - Não consegui ver seu rosto antes de sair correndo dali.
- Tudo bem, nós entraremos em contato se precisarmos fazer outras perguntas - ele responde - Seu pé parece bem machucado, quer que eu chame uma ambulância?
- S-sim, por favor - minha voz falha - Só preciso trocar de roupa... Não aguento mais ver esse sangue.
Caminho com Allyson para o interior da casa, ela apoiava levemente o meu corpo no seu, ajudando-me a me apoiar com o tornozelo machucado, enquanto andamos devagar em direção às escadas. Não fora uma tarefa nem um pouco fácil subir os degraus com o tornozelo machucado e muitas vezes nós quase caímos, até que alguns instantes depois chegamos no segundo andar. Ally me espera no corredor enquanto eu entro no quarto e vou direto para o pequeno banheiro que ficava no mesmo.
Retiro a roupa úmida e com forte cheiro de ferro que me causava repulsa, jogo as peças em um canto qualquer do banheiro e me olho no espelho. Eu estava sujo com o sangue que não era meu, sem cogitar, entro no boxe de vidro e ligo o chuveiro, deixando a água quente cair em meu corpo. A terra e o sangue grudados em minha pele, escorriam com a água e desciam pelo ralo. Lavo-me com bastante sabão e quando me sinto um pouco mais limpo, desligo o chuveiro.
- Te trouxe roupas limpas... - minha melhor amiga abre a porta e entra no banheiro de costas. Pendurada algumas peças de roupas limpas em um gancho prateado que havia na parede e sai rapidamente, fechando a porta logo atrás de si.
Desligo o chuveiro, pegando minha toalha de banho azul que estava pendurada no boxe, enrolo-me e saio do boxe rapidamente. Sento-me na tampa do vaso sanitário e me enxugo rapidamente, começando a me vestir.
Ally trouxera-me uma cueca boxer preta, uma calça justa de moletom cinza e uma camiseta vermelha básica.
Saio do banheiro ainda mancando, encontrando minha melhor amiga sentada na em minha cama, ela rapidamente segue em minha direção, dando-me apoio novamente enquanto saíamos do quarto.
- A ambulância já chegou - Allyson comenta enquanto descemos as escadas.
- Tem certeza de que isso é necessário? - pergunto fazendo uma careta de dor ao pisar no chão.
- Não temos um carro aqui e tenho certeza de que não vai conseguir ir de ônibus - responde com um sorriso - A não ser que a dor esteja suportável e você prefira esperar passar por aqui mesmo.
- Acho que não - dou um sorriso amarelo, chegamos na sala de minha casa e seguimos para o lado de fora.
Assim que coloco os pés na calçada, um vento forte açoita minha pele, trazendo consigo uma energia de morte que me atinge feito um soco no estômago. Ergo a cabeça lentamente, as luzes das viaturas doíam em meus olhos enquanto os médicos legistas caminhavam com uma figura em um saco preto que estava em cima de uma maca, meus olhos se fixam na silhueta enquanto a imagem do corpo vinha em minha mente, fazendo meus pelos arrepiarem-se.
- Dan? Danilo? - Ally sacode levemente meu ombro - Está tudo bem?
- Ele deve estar em choque - uma mulher ruiva com um jaleco fala, enquanto para ao lado da minha amiga.
Mesmo ouvindo o que elas diziam, eu não conseguia me mover, estava paralisado enquanto observava o formato do corpo da mulher. Em minha mente estava cravada sua imagem caída na floresta, tudo estava coberto de sangue, uma paisagem vermelha que enxarcava meus pés.
Sinto meu corpo ser puxado em direção ao chão, como uma marionete que tivera suas linhas cortadas, a última coisa que vi foi a calçada se aproximando de meu rosto com velocidade, em seguida tudo escureceu.
O forte cheiro de álcool me faz torcer o nariz, abro os olhos e a luz clara cega-me por alguns instantes, mas quando minha visão entra em foco, percebo que estava em um quarto de hospital. Minha testa latejava, o sangue sob a pele estava quente, provavelmente resultado de algum machucado recente.
- Que bom que acordou, nós já estávamos ficando preocupados - ouço a voz feminina e viro a cabeça em sua direção.
Duas pessoas observavam-me em meu leito, um casal, ambos trajavam jalecos e crachás. A mulher era a ruiva que eu vira anteriormente, seus cabelos ondulados pendiam na lateral de seu corpo até a altura das costelas, seus olhos eram verdes cor de grama, vestia uma camiseta branca, jeans skinny claros e o jaleco com o logo do hospital, calçava botas bege. Usava um batom vermelho claro, mas não necessitava de maquiagem, ela era surpreendente linda.
O homem tinha os cabelos escuros arrepiados em um topete, seus olhos puxados eram azuis, provavelmente eram lentes de contato, considerando que era asiático. Seus lábios eram carnudos, sua pele branca como porcelana e uma barba fina contornava seu rosto. Trajava uma camisa azul clara, jeans skinny brancos e um jaleco, calçava sapatos sociais pretos.
- O que aconteceu? - pergunto observando-os de forma confusa - Não consigo lembrar de como vim parar aqui.
- Você entrou em choque - responde o médico com um sotaque diferente - Desmaiou e acabou batendo a cabeça.
- Onde está a Allyson? - pergunto olhando em volta, haviam outros leitos com pacientes, mas minha melhor amiga não estava ali.
- Sua amiga? - a enfermeira pergunta, voltando a falar em seguida - Está na lanchonete, precisava comer alguma coisa.
- Hmm... - respondo enquanto abaixo o olhar para meu pé enfaixado.
- Enfermeira Antonella, pode ir pegar aquele medicamento que pedi? - o médico pede.
- Claro Hyun - ela responde enquanto segue para fora do quarto, fechando a porta atrás de si.
Não sei ao certo quais eram as horas, mas todos os pacientes pareciam dormir e a luz no quarto estava fraca, o que indicava já ser tarde. Eu queria ir embora dali, não gostava de hospitais, deixavam-me cansado e pesado, toda aquela energia...
Dr. Hyun aproxima-se de mim, sentando na beirada da cama e fitando-me com seus olhos azuis. Retribuo seu olhar, alguma coisa em sua expressão deixava-me calmo e me transmitia segurança.
- Sei que não deve ter sido fácil ver o que viu - ele fala com sua voz serena - Nunca é fácil ficar cara a cara com tamanha violência...
- Não consigo tirar aquela imagem da minha cabeça - passo a mão pelo cabelo embaraçado e volto a falar - Sempre que fecho os olhos, é como se estivesse tatuado em minhas pálpebras...
- Você vai ficar bem, vai dormir e amanhã estará muito melhor - ele fala com tanta convicção que eu realmente acredito no que ele diz - Mas caso fique muito nervoso, tenho uma coisa que vai ajudar, Antonella foi buscar e já volta.
Relaxo meu corpo no colchão da cama de hospital, Hyun levanta-se e fica ao meu lado, observando-me com os braços cruzados. Neste momento a enfermeira retorna, trazendo em suas mãos uma pequena caixa de medicamento, caminha até nós e entrega a caixa para o doutor. Eles sussurram entre si, mas eu acabo não entendendo nada, por fim o médico concorda e ela sai do quarto.
- Já pode ir para casa - ele me fala, entregando a caixa de remédios - Vai precisar descansar esse fim de semana, esse calmante vai ajudar, e também vai fazer compressas quentes para diminuir o inchaço.
- Ah, finalmente... - falo erguendo as mãos para cima e sentando-me.
- Vem, te dou apoio - ele passa o braço por minha cintura, ajudando-me a descer facilmente da cama.
Em seguida caminhamos diretamente para fora dali, saindo no corredor claro, onde Ally estava sentada, me aguardando. Troco o apoio do médico pelo braço da minha amiga, começando a andar para o elevador do hospital.
- Já chamei um táxi - ela fala apertando o botão do elevador, que se acende ao toque - Avisei sua mãe que vai dormir lá em casa hoje, mas achei melhor não falar nada sobre seu machucado.
- Ah! Muito obrigado - falo aliviado - Tudo que eu não preciso é minha mãe tendo crises de preocupação comigo.
- Ei! Danilo! - as portas metálicas se abrem, olho para trás e vejo Hyun caminhando rapidamente até mim - Se tiver mais problemas com o que viu, visite o consultório de minha amiga.
Ele entrega-me um cartão branco, em letras pretas estava escrito "Clínica Psicológica e Psiquiátrica Rentes". Leio atentamente o endereço e volto a olhar para o médico.
- Obrigado Doutor - digo com um sorriso - Tchau...
- Me chame de Hyun, Danilo - ele retribuía o sorriso - Quem sabe nos veremos novamente...
- Sinceramente - falo dando risada - Espero que não, considerando sua profissão.
Ele dá risada, nos despedimos novamente e seguimos para o interior do elevador.
