Me reviro na cama do quarto de Allyson, tentando achar uma posição que trouxesse-me o tão almejado sono, mas parecia algo impossível, pois todas as vezes que fechava os olhos, aquela cena horrível vinha em minha mente. Eu me perguntava quem fizera aquilo e como fizera, perguntava-me se a vítima havia sofrido e onde encontrava-se seus familiares.
Solto um suspiro e sento-me na cama, Ally dormia profundamente no sofá cama do outro lado do quarto, a casa estava em repleto silêncio exceto pelos sons dos cachorros no quintal. Volto a deitar, pego meu celular, abro o bloco de notas e começo a escrever mais um capítulo de uma de minhas histórias.
"Eu corria desesperadamente entre as árvores, abaixo da sola de meus dados sapatos, podia-se ouvir o estalar das folhas secas ao serem esmagadas. Atrás de mim ressoavam passos pesados e rápidos, que acompanhavam meus passos, eu estava sendo seguido, mas não sabia por quem.
A luz da lua que conseguia passar pelas copas das árvores era extremamente pouca, deixando toda a trilha muito mais escura e fazendo-me facilmente sair da mesma.
Paro de correr, fazendo minhas botas derraparem na terra, eu não ouvia mais os passos de meu perseguidor, mas sabia que ele estava ali, sentia-me observado de forma intensa.
Repentinamente uma silhueta masculina passa por mim com uma velocidade assustadoramente rápida, parando em minha frente, era alto e possuía braços largos. Uma espécie de rosnado é vindo do meu perseguidor, fazendo-me recuar alguns passos para trás, escorrego e acabo caindo em uma poça. Olho minhas roupas molhadas, pela luz da lua pude perceber que a poça era preenchida por um líquido escuro carmesim que ensopava minha roupa. Era sangue, eu sabia pelo forte cheiro de ferro.
Solto um grito baixo enquanto a figura avança na minha direção..."
Sou despertado por uma grande movimentação repleta de latidos e batidas contra o telhado da casa, levanto-me em um sobressalto. Pego meus óculos que estavam ao meu lado na cama e os coloco desajeitadamente, em seguida o quarto é banhado pela luz quando alguém entra no recinto, ligando o interruptor.
Era o pai de Allyson segurando um pedaço de madeira, seu rosto ainda parecia sonolento.
- Tem alguém no telhado - ele fala de forma tensa.
- Como assim?! - Ally exclama levantando-se de sua cama. Eu nem sequer sabia que ela estava acordada também.
O pai da garota sai rapidamente do quarto, logo em seguida trato de levantar da cama, calçar meus chinelos e segui-lo o mais rápido que conseguia com meu tornozelo machucado. Minha melhor amiga estava logo atrás de mim, resmungando e coçando os olhos, irritada por alguém destruir sua noite de sono.
Saímos da casa, indo para o quintal, repleto de árvores frutíferas e diversas plantas. A noite estava fresca, nem muito quente, tampouco fria, estava bastante agradável, ao contrário do som dos latidos dos cachorros de Ally.
Olho para o alto, em direção a grande confusão que ocorria ali. O céu noturno estava com poucas estrelas, somente a Lua nova e o planeta Vênus insistiam em observar o que acontecia ali logo abaixo. Uma silhueta estava parada no telhado da casa, usava roupas totalmente pretas, o sobretudo com capuz levantado esvoaçava levemente com a brisa da noite.
- O que você está fazendo aí? - o pai de Allyson esbraveja brandindo a arma de madeira - Saia daí, ou vou chamar a polícia!
A figura mexeu-se alguns centímetros, virando a cabeça diretamente em minha direção, voltando a ficar paralisado. Um frio domina meu corpo, solto um suspiro pesado enquanto dou alguns passos para trás.
O homem de capuz pareceu motivado por meu movimentos e começou a caminhar em minha direção, até chegar na beirada do telhado. Emitiu um som rouco parecido com uma risada e saltou, cruzando o ar acima de nós.
Como se estivesse em câmera lenta, pode discernir suas roupas misturando-se com a escuridão do céu, as únicas coisas claras eram seus cabelos loiros quase brancos e a parte de baixo de seu rosto, que estava enfeitado por um sorriso largo. Ele dá um giro no ar, parando no telhado da casa vizinha e em seguida saindo correndo.
Meu corpo começava a amolecer, eu estava trêmulo, sentia-me prestes a desmaiar, mais uma vez...
- Era uma assombração - o pai de Ally diz por fim, largando a madeira - Tenho certeza, vamos entrar antes que apareça mais alguma coisa.
- Vamos entrar Dan - minha amiga passa o braço por meu ombro e me guia para o interior da casa, enquanto eu estava estático.
Deixo-me ser levado de volta para o quarto, ao chegar me jogo na cama e cruzo as pernas, tentando manter a calma. Allyson estava parada ao lado de sua cama, encarava o nada e parecia tão assustada quanto eu.
- É-é ele... - sussurro gaguejando - Ele sabe que eu estava na floresta, agora ele veio atrás de mim!
- Não, foi só um maluco - Ally tenta me me tranquilizar, mas parecia tão tensa quanto eu - Ou algum bandido atrapalhado.
- Ele olhou diretamente para mim - respondo - Você viu aquele salto?!
- Foi um resultado da adrenalina, Dan - ela me responde, ignorando meu primeiro comentário.
Apenas balanço a cabeça negativamente, eu estava totalmente amedrontado com a ideia de estar sendo perseguido por alguém que fizera uma brutalidade daquelas. Meus punhos estavam cerrados, fazendo minhas unhas compridas afundarem-se na pele ao ponto de me machucarem.
Pelo canto de olho vejo a garota sair do quarto silenciosamente, abraço minhas pernas apertado, apoiando o queixo em meus joelhos. Instantes depois ela retorna, segurando um copo de água e dois comprimidos brancos redondos.
- É o remédio que o médico te passou - ela me entrega - Tome, vai te fazer descansar melhor.
- Só quero apagar - resmungo pegando os comprimidos e jogando-os em minha boca, em seguida bebo a água em grandes goles - Obrigado por cuidar de mim.
- Amigos são para isso - ela pega o copo de mim - Agora deite, vou levar isso para a pia.
Allyson sai do quarto, a observo enquanto deito-me novamente na cama. Meu corpo já começava a ficar mais leve, como se pudesse flutuar, instantes depois, peguei no sono.
Graças aos comprimidos me dados por Hyun, tive uma noite de nosso pesada e muito mais tranquila do que o resto do dia conturbado.
Ao nascer do sol, decidi passar o dia com minha melhor amiga, estava visivelmente afetado pelos acontecimentos do dia anterior e não queria causar mais preocupação para minha mãe, nem queria que ela me perturbasse ainda mais com seus longos sermões.
Allyson tentara distrair-me de diversas formas, com maratonas de séries, filmes e comidas, o que realmente surtiu efeito, tanto que passei da hora de ir embora. Então, tive que fazê-lo ás nove da noite.
Saio da casa, fechando o portão de madeira logo atrás de mim, a noite estava um pouco mais fria que a anterior e a consequência de uma fogueira feita em algum lugar próximo deixava as ruas locais repletas por uma espécie de neblina de aroma forte e sufocante.
Dou uma tosse leve enquanto começo a caminhar com os olhos semicerrados, durante a noite as ruas dali ficavam desertas e depois do ocorrido no dia anterior, possivelmente perigosas.
Meu tornozelo estava bem melhor graças ao repouso e as compressas, havia desinchado e a dor era quase imperceptível. Eu já havia saído da rua da casa de Allyson, estava caminhando em uma rua repleta de árvores e já me aproximava da avenida que levava ao bairro em que morava.
Uma brisa fria atinge minha pele, fazendo eu encolher-me nas roupas nada quentes que eu trajava. Ouço o estalar vindo de um dos carvalhos espalhados pela rua, paro de caminhar instantaneamente e olho em volta por intuição, surpreendendo-me ao notar uma figura masculina saindo de trás de algumas árvores.
Enquanto a figura caminhava entre a neblina criada pela fumaça misturada com a umidade, eu começa a distinguir traços importantes. Trajava camisa, calça skinny, sobretudo e botas, completamente pretos. Estava com o capuz levantado, mas podia-se ver mechas loiras quase brancas balançando-se ao vento.
Era ele, o homem que estava no telhado... Instintivamente começo a dar passos para trás, minha respiração estava pesada, como se o oxigênio não fosse o suficiente para meus pulmões agitados.
Dou meia volta e começo a caminhar rapidamente em direção a avenida, estava ciente do homem seguindo-me com passos furtivos. Aos poucos meus passos vacilantes por conta do tornozelo machucado, transformam-se um uma corrida desajeitada em busca de alguma ajuda.
Saio desnorteado para a avenida onde a terra abaixo de meus pés dava lugar ao asfalto, estava tão apavorado com o meu perseguidor que nem parara para observar se algum carro passava por ali, e só me dei conta disso quando uma luz forte atingiu meus olhos.
Os faróis do carro eram as únicas coisas que eu conseguia ver, ao contrário dos filmes, minha vida não passava diante dos meus olhos, tudo acontecia inexplicavelmente rápido enquanto o veículo vinha em minha direção e meus pés estavam paralisados onde eu estava.
Dou um suspiro profundo e ao soltar o ar de meus pulmões, sinto algo atingir a lateral do meu corpo com extrema força, jogando-me para o lado. Rolo algumas vezes no asfalto até parar deitado de costas perto do meio fio, levanto-me com a visão turva, mas consigo distinguir os faróis traseiros do carro parando a alguns metros de mim.
Enquanto tentava me levantar, percebo uma pessoa parada na calçada em minha frente, minha visão finalmente foca e posso notar que era um garoto. Seus cabelos loiro escuros estavam caindo em frente aos olhos azuis claros de um tom que eu nunca havia visto, seus lábios carnudos estavam sérios. Vestia uma camiseta azul turquesa que destacava a cor de seus olhos e jeans skinny pretos, calçava coturnos grafite. Estava com os braços cruzados e observava-me.
- Q-quem é você? - pergunto já de pé - Como conseguiu fazer isso?
Em resposta ele me observa dos pés a cabeça atentamente, provavelmente certificando-se de que eu estava bem, ou quase isso, pois minha pele carregava arranhões após rolar no asfalto. Por fim, ele dá meia volta e caminha rapidamente para longe de mim, virando a esquina logo em seguida.
Ouço passos rápidos vindos de trás de mim, ao virar-me lentamente, vejo uma senhora correr em minha direção com uma expressão de choque. Logo atrás dela, estava um senhor, aproximando-se mais devagar.
- Santo Deus! - ela exclama diante de mim - Você está bem?!
- Carola, me espera! - o homem fala, alcançando-nos - O menino parece estar em choque.
- Temos que ter certeza de que ele está bem, Jaime - a mulher responde, voltando-se para mim - Você apareceu na nossa frente do nada, está...
- E-eu estou... Bem - a interrompo, finalmente conseguindo encontrar as palavras - Consegui desviar do carro bem a tempo.
- Tem certeza? Podemos te levar ao pronto-socorro ou pelo menos em casa - o senhor fala.
- Não - respondo prontamente - Estou bem, com licença...
Me afasto deles rapidamente, seguindo caminho para minha casa, onde eu poderia descansar e recuperar meu ferimento no tornozelo.
Assim que chego em minha casa, sigo direto para meu quarto, para me desfazer das roupas ensanguentadas do dia anterior. Minha família não estava em casa novamente, mas eu já estava acostumado com isso.
Entro no banheiro, juntando as roupas que estavam atrás da porta do banheiro e rapidamente jogo as peças em um saco de lixo escuro, por fim, dou um nó apertado.
- Danilo? O que é isso? - ouço a voz de minha mãe, ao virar-me a vejo parada no batente da porta.
Observo-a em choque, sem saber o que dizer, ou o que ela havia visto.
