— Danilo? O que é isso? – ouço a voz de minha mãe, ao virar-me a vejo parada no batente da porta.
Observo-a em choque, sem saber o que dizer, ou o que ela havia visto. Sua pele era morena clara, olhos castanhos e arredondados iguais aos meus, lábios pequenos e finos, seu cabelo preto era liso, bastante comprido batia abaixo do quadril. Era um pouco mais alta que eu, seu corpo era levemente rechonchudo, mas possuía curvas muito bonitas. Ainda trajava o uniforme do trabalho como garçonete, calça preta social, camiseta vermelha e sapatos pretos.
Após um suspiro, ergo o saco de lixo e começo a falar.
— Estou tirando o lixo – comento pegando o pequeno balde do banheiro e virando o seu conteúdo dentro do saco plástico preto – O caminhão passa hoje.
— Nossa, eu tinha esquecido! – minha mãe exclama, massageando as têmporas – Tenho trabalhado tanto que vivo atrapalhando tudo.
— Você deveria descansar um pouco – a aconselho, dando um nó no saco de lixo.
— Sim, tem razão – ela começa a se retirar do quarto – Você dá conta de preparar algo para comer.
Assim que fico sozinho encosto-me na porta de madeira branca e suspiro aliviado, relaxando o corpo trêmulo.
Caminho para fora do quarto, a casa estava silenciosa, pois minha mãe e minha irmã já dormiam, meu padrasto estava em uma de suas viagens com seu emprego de caminhoneiro. Desço as escadas, tomando cuidado para não cair por conta do tornozelo que voltava a doer pela falta de repouso. Cruzo a sala de estar e o quintal rapidamente, abrindo o portão de grades feitas de metal, saio para calçada e coloco o lixo na lixeira enferrujada que ficava em frente à casa.
Instintivamente olho para a floresta no fim da rua, estava tão escura e sombria, um calafrio desce por minha espinha, parecia que ela encarava-me de volta. O medo novamente me atingia, era uma sensação que estava presente em mim desde o dia anterior, quando encontrei aquela mulher dentro da floresta. Enquanto observava a escuridão entre as árvores, pude distinguir uma figura esgueirando-se por os troncos sorrateiramente, fazendo-me dar passos para trás instintivamente.
Enquanto voltava para o interior da casa, sentia como se meu coração estivesse envolto em gelo, causando-me até mesmo falta de ar. Eu nunca me sentira tão amendrontado quanto nas últimas horas, o que fazia-me suspeitar que estava paranóico.
Assim que chego em meu quarto, trato de tomar dois dos comprimidos que Dr. Hyun havia me dado, pois precisaria de um grande reforço para dormir após tanto estresse. Me desfaço de minhas roupas, caindo no colchão macio em seguida.
O som de meu celular despertando atinge meus ouvidos de forma agressiva, fazendo sentar-me em um sobressalto. Em meio a praguejos, desligo o despertador e levanto-me da cama desajeitadamente, sentia meu corpo pesado por claramente não ter dormido o suficiente.
Sonolento, sigo para o banheiro esbarrando no criado mudo e no batente da porta, apertado para fazer xixi. Após fazer minhas necessidades, tomo um banho rápido e escovo os dentes, em seguida sigo para o quarto, parando em frente ao guarda roupa, com a toalha ainda enrolada em minha cintura.
Eu sempre fora bastante vaidoso e sempre fizera questão de sempre sair bem vestido, mas minha intuição me dizia que hoje eu deveria realmente me arrumar. Ao terminar de enxurgar-me, visto uma cueca boxer preta, jeans skinny preto com suspensórios da mesma cor, a camiseta preta com o brasão da escola e uma jaqueta jeans verde militar, por fim calço um par de coturnos pretas.
Seco meu cabelo e o penteio com as pontas dos dedos, fazendo os cachos castanhos claros tocarem meus cílios compridos. Por fim coloco meus óculos de grau redondos na cor preta e meu anel de tucum no dedo anelar, ambos estavam em cima de meu criado mudo.
Após jogar minha mochila sobre o ombro, saio de casa para encontrar Ally, e seguir para a escola em seguida.
Ao chegar na sala de aula com Allyson ao meu lado, percebo que as carteiras dos alunos estavam dispostas em duplas. Barbara e Kiara já estavam sentadas juntas, e Vickie já esperava Ally em uma das mesas, sobrando para mim, sentar sozinho.
Quando já estou acomodado em meu lugar, tiro meu celular do bolso e começo a trabalhar no novo capítulo da fanfic que escrevia com Ally, enquanto a professora não chegava e os meus colegas de classe assumiam seus lugares.
Cerca de dez minutos depois, professora Luíza entra na sala calmamente, e eu devolvo o celular ao bolso da jaqueta no mesmo instante.
— Vejo que já se acomodaram nos novos lugares, espero que gostem de suas escolhas – ela comenta enquanto coloca na mesa sua bolsa e uma pilha de livros que carregava – Pois vão passar o resto do ano nessa formação e nos mesmos lugares.
Olho para o espaço vazio ao meu lado e franzo o cenho. Então eu seria obrigado a ficar sozinho pelo resto do ano? Claro que minhas amigas estavam logo atrás de mim, mas todas tinham sentados do seu lado alguém do nosso grupo de amigos, menos eu. Talvez Fabrício pudesse sentar comigo, se não tivesse faltado, provavelmente se juntaria a mim na manhã seguinte.
Enquanto estava perdido em meus devaneios sobre a nova formação de lugares, pela visão periférica percebo que todos os alunos da turma começavam a encarar a porta, e movido pela curiosidade ergo a cabeça em direção a entrada da sala de aula.
Assim que meus olhos encontram a pessoa que estava ali parada, meu coração acelera de forma assustadora, era ele, o garoto da outra noite… Meu salvador.
Trajava uma camiseta branca com detalhes em couro, um cardigã preto e jeans skinny na cor mostarda. Calçava um par de tênis pretos, e um cordão com uma pedra avermelhada estava pendurado em seu pescoço. Seus cabelos loiros balançavam com a brisa causada pelo ventilador da sala, enquanto seus olhos azuis claríssimos percorriam todos na sala, até se fixarem em mim por alguns instantes.
Um calafrio desce por minha espinha enquanto o sangue esquentava sob minha pele, uma confusão de emoções que fazia-me imaginar que meu corpo simplesmente entrava em pane. O garoto caminha até a professora e a entrega uma folha de papel, provavelmente era sobre sua matrícula.
— Bem-vindo Lorenzo – ela diz com um sorriso simpático – Sente-se ali na carteira ao lado de Danilo, assim nenhum de vocês fica sozinho e você já vai se enturmando.
O garoto apenas consente e começa a caminhar em minha direção, eu não conseguia desviar os olhos de sua beleza, estava completamente estático. Eu só podia estar sonhando, ou o destino havia resolvido brincar com minha sanidade mental. Para confirmar minhas teorias, dou um leve belisco em minha perna, mas torço o nariz ao sentir a pontada de dor.
Assim que Lorenzo senta-se ao meu lado, um forte cheiro adocicado misturado a leves toques de hortelã me atinge, o odor era inebriante, o que só me deixara mais trêmulo ainda. Sou surpreendido pelo som de algo caindo em baixo de minha cadeira, mas antes que eu pudesse espiar o que era, o garoto ao meu lado se inclina e pega o objeto do chão, estendendo-o em minha direção. Era o maldito celular que havia caído de meu bolso.
— O-obrigado… – dou um sorriso nervoso enquanto pego o aparelho com as mãos trêmulas e o coloco sobre meu caderno na mesa.
Ele simplesmente ignora meu agradecimento, virando seu olhar para o quadro negro.
Lorenzo era misterioso e irritantemente quieto, não falou comigo nem uma vez sequer, e as únicas vezes que ouvi sua voz foram quando os professores fizeram a chamada. Sua voz era grossa, mas doce, incrivelmente linda, pude distinguir um leve sotaque diferente, o que indicava que ele provavelmente era estrangeiro.
Já estávamos na última aula e eu não aguentava mais o silêncio em minha volta, até minhas amigas haviam começado a falar em sussurros desde que Lorenzo sentara-se ao meu lado.
Pelo canto de olho, espio o que o loiro fazia, suas mãos grandes e bonitas seguravam delicadamente um lápis, traçando rabiscos na folha de seu caderno.
— Como fez aquilo ontem a noite? – pergunto baixo em um ato impulsivo.
O garoto olha para mim com curiosidade, mas quando abre os lábios para responder-me, o sinal toca alto, anunciando que era hora de irmos embora. Em um movimento rápido ele joga seus materiais dentro da mochila, em seguida simplesmente levanta-se e vai embora, deixando-me sozinho ali, olhando suas costas largas se afastarem enquanto eu sentia-me insignificante.
Ele poderia ter me ignorado naquele dia, mas eu não desistiria tão fácil de saber sobre a noite anterior, afinal ele precisaria sentar ao meu lado pelo resto do ano.
Trato de guardar minhas coisas rapidamente enquanto Ally me apressava impacientemente, em seguida deixo a sala com meu grupo de amigos, mas meus pensamentos ainda estavam perdidos em meu salvador.
