— Não acredito que vou ter que sentar com alguma dessas pessoas estranhas pelo resto do ano – Fabrício resmunga baixo para mim, olhando em volta da sala – Enquanto você senta com um cara que chegou ontem…
— Não fale como se eu tivesse escolhido sentar com aquele mal educado extremamente gato – respondo revirando os olhos enquanto organizava minhas canetas em cima da carteira – A professora mandou ele sentar aqui e eu não pude fazer nada.
— Certeza que ele é um mauricinho irritante – o garoto vira as costas para mim, fazendo algumas mechas de seu cabelo comprido caírem sobre minha mesa.
— Eu não entendo porque está tão irritado com isso – falo empurrando seus cabelos para fora da mesa com a ponta de uma de minhas canetas, em seguida dou um sorriso endiabrado – Você está com ciúmes… Com medo de perder seu posto de único amigo garoto que tenho.
— Cala a boca – ele responde após uma risada curta.
Estávamos na terceira aula, Lorenzo Marchezoni não havia aparecido na escola hoje e eu não sabia se isso era bom ou ruim, ele havia sido deveras arrogante ao me ignorar, mas ao mesmo tempo ele me causava um certo fascínio que era inexplicável.
Eu estava tendo dificuldades para concentrar-me nas aulas já fazia um tempo, devido a minhas crises constantes de ansiedade, mas agora era quase impossível prestar atenção em meu professor de matemática que escrevia fórmulas complexas no quadro negro enquanto meus pensamentos vagavam naqueles olhos azuis do garoto que salvara minha vida.
— Danilo? Pode me dizer qual é o resultado da questão três? – a voz do Sr. Eustácio interrompe meus devaneios enquanto eu desenhava um par de olhos no canto inferior da folha de meu caderno.
— Eu… – franzo o cenho em direção a confusão de número que estavam escritos no quadro negro – Não sei.
— Tente prestar atenção nas aulas se não quiser reprovar em minha matéria – ele me repreende, volto o olhar para meu caderno ao sentir meu rosto corar de vergonha.
Izabella Teixeira, que estava sentada logo ao lado do meu lugar, dá uma risada baixa, e eu a fuzilo com o olhar. Ela era totalmente detestável, superficial, atirava-se em cima do primeiro garoto que aparecesse em sua frente, além de zombar de qualquer pessoa que ela julgasse ser inferior a ela.
— Vadia… – falo baixo, balançando a cabeça de forma desaprovadora.
No intervalo, sigo para o estacionamento, onde sento-me em um dos bancos de concreto que havia no local. Não iria comer, por conta de meu estômago embrulhado devido ao excesso calmantes que tomara recentemente.
Enquanto estava encostado contra a mureta do estacionamento, confiro o feed de minhas redes sociais, tentando passar o tempo até meus amigos terminarem suas refeições. Ouço um miado baixo e ergo o olhar da tela do celular, olhando em volta para encontrar o felino, notando o mesmo saindo dentre as árvores e caminhando em minha direção. Seu pelo era cor de areia, seus olhos possuiam um tom de azul claro, caminhava lenta e graciosamente.
— Ei fofinho… – agacho-me e estendo a mão em sua direção, pronto para afaga-lo – O que faz aqui?
Antes que eu pudesse alcançar seu pelo, o gato solta um chiado e com um movimento rápido atinge minha mão com suas garras, deixando três finos riscos sangrentos. Recuo automaticamente, praguejando e observando os arranhões de forma irritada.
— Dan, o que está fazendo aqui sozinho? – Allyson pergunta, chegando por trás de mim e sentando-se na mureta.
— Estava esperando vocês comerem – respondo enquanto me viro para ela e mostro a mão machucada – Aproveitando para deixar um gato tirar sangue de mim…
— Que gato? – Ally pergunta arqueando uma sobrancelha, em seguida olhando em volta de nós.
Olho para trás, notando que o felino não estava mais ali. Estávamos sozinhos no estacionamento, exceto pela ave de penas escuras que estava empoleirada nos galhos do carvalho que havia ali, eu a via diariamente naquela árvore, talvez tivesse um ninho.
— Parece que ele só queria me tirar um pouco de sangue – respondo passando a mão onde havia sido arranhado – Tenho que parar com essa mania de fazer carinho em todo animal que vejo…
— Falando em ataques, olha isso… – minha melhor amiga estende seu celular em minha direção, ao pegar noto que o visor exibia uma reportagem do jornal local.
Recentes ataques de animal ainda não identificado têm aterrorizado os moradores de áreas com grande concentração de mata em Guarujá.
Já são três vítimas e um desaparecido, a polícia local tem trabalhado com a guarda florestal da cidade, mas ainda não tem pistas do suposto animal. Apesar de moradores relatarem ter visto uma onça na floresta local, o caso ainda segue em repleto de mistério.
A cena da mulher morta na floresta atinge meus pensamentos como um flash, fazendo-me tremer e sacudir a cabeça para afastar tais lembranças. Então, se ela realmente tivesse sido morta por um animal, o que explicaria a figura que havia me seguido?
— O que está acontecendo com essa cidade? – reclamo enquanto devolvo o celular para minha amiga – Ela nunca teve nada assim.
— Parece que as coisas estão começando a mudar… – ela passa a mão por seus longos cachos vermelhos – Vamos voltar para a sala, o intervalo já está acabando.
Apenas concordo com a cabeça enquanto começo a caminhar, minha mão ainda estava ardendo devido aos arranhões que sofrera daquele gato estranho e uma sensação de preocupação tomava conta de mim após ler aquela reportagem.
Tivemos uma aula de filosofia, que quase me matou de tédio, por não ser a minha matéria preferida, mas no fim da aula, ao soar o sinal para a aula de Língua Portuguesa, não foi nossa professora quem entrou na sala, mas sim nosso diretor. Sua expressão era séria, mas eu podia notar leves traços de preocupação em seu rosto, as mangas de sua camisa azul bebê estavam erguidas até os cotovelos.
— A professora Caroline não veio hoje – ele fala, sua voz grave me dava medo – Infelizmente fomos pegos de surpresa e não podemos chamar um dos professores substitutos, e como ela daria as duas últimas aulas de vocês, serão dispensados mais cedo.
Os alunos em minha volta comemoram, mas eu continuo o observando, afinal era notável que havia algo errado ali, eu só não conseguia saber o que era.
— Vocês devem ter lido sobre os ataques de animais selvagens que têm acontecido – ele passa a mão por sua testa, eliminando algumas gotas de suor que se acumulavam ali – Então, por favor, sigam direto para suas casas… Não queremos mais nenhuma vítima por aqui.
Noto sua voz falhar na última frase, ele sai da sala rápido enquanto todos guardavam seus materiais.
Eu havia acabado de me vestir e estava secando meu cabelo, após tomar um banho quente. A luz do luar entrava pelas portas duplas da varanda, banhando o quarto em um tom branco-prateado.
Estava pronto para acomodar-me em minha cama e maratonar minha série preferida, mas antes que pudesse fazê-lo, meu celular toca estridente.
— Alô? – atendo ao não reconhecer o número no visor.
— Danilo, sou eu, Samanta – ouço a voz da namorada de meu pai do outro lado da linha.
— Aconteceu alguma coisa? – pergunto ao notar a tensão em sua voz.
— Seu pai… Alguém, ou algum animal atacou ele…
